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domingo, 27 de abril de 2014

Domingos

uma camisinha usada pode ser encontrada presa nos espinhos das rosas do muro nas sombras de uma manhã de domingo morto,]
quando se tenta se recuperar das dores e peso, consequências das infrutíferas buscas pelo coração das madrugadas de sábado,]
a caçada por uma companhia embriagada, emocionalmente deslocada e que se vai com a lua
e o sol é apenas dor na manhã de domingo morto e os caixas de supermercado te odeiam nas manhãs de domingo morto,]
as passeatas de roupas de banho voltam esquecendo o sorriso enterrado na areia
as famílias bem vestidas cheirando a banho recém-tomado lotam restaurantes e hospitais em horário de visita,]

nunca se tem o que comer nas tardes de domingo morto e todas as portas estão fechadas e os telefones não funcionam,]
ninguém fala, ninguém se olha, são pesadas as tardes de domingo morto,
quando as calçadas estão sujas de guardanapos de lanchonetes ao ar livre e embalagens de fast-food levadas pelo vento,]
molhadas pela chuva de verão no outono das três da manhã, não existem sorrisos nas tardes de domingo morto]
só restos dos churrascos feitos na fumaça sem graça e a música já não é alta e as conversas estão mudas,]
aquele silêncio incômodo de família que pede por despedidas e um volte sempre-aparece-até a próxima mentiroso,]

e as memórias voltam nas noites de domingo morto. as memórias são pessoas são solidão são medo e o telefone não funciona nos domingos mortos]
nem as conversas simuladas são desejadas, mas invadem a mente mesmo assim e o que não-sei-quem diria se eu a procurasse?,]
o que ela faz agora, o que ela andou fazendo nesse ano em que não a vi, as pessoas-memória são dor nas noites de domingo morto]
e a vida não tem gosto e nem cor nas noites de domingo morto, e o sono se recusa a vir nas noites de domingo morto,]

a semana precisa de um desfibrilador após a morte semanal durante os domingos, até que morra de novo, semana que vem.]

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