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terça-feira, 25 de março de 2014

Solidão - Capítulo 1 - parte 2


Não sabia exatamente o caminho até os outros dois destinos, qual vinha antes ou depois, só tinha os endereços. Decidiu ir até a loja no shopping primeiro. Por se tratar de um lugar maior, deveria ter um processo de seleção de funcionários mais formalizado, possivelmente nem aceitariam seu currículo, mas precisava de um emprego e tentaria de qualquer forma. Chegando, viu que estava certo. Recebeu alguma atenção de uma vendedora enquanto ela ainda achava que ele poderia ser um cliente, mas quando soube que ele só estava atrás de trabalho, disse que não sabia como ele deveria proceder. Foi passado para um outro vendedor, que também não tinha certeza, até que o último, que tampouco parecia disposto a ajudar, disse que deixaria seu currículo com o gerente e, caso surgisse o interesse, ele seria chamado. Sabia que isso era uma forma educada de se livrarem dele, mas não estava com vontade de confrontar nem insistir. Sentou no banco do shopping por uns minutos antes de voltar para a rua, aproveitando o ar condicionado. Olhou ao redor, lojas vazias, incluindo a que ele acabara de sair. Era o fim de uma manhã de segunda, era óbvio que estaria vazio, com exceção de alguns estudantes perdendo tempo em praça de alimentação ou vagando pelos corredores. Quando sentiu que descansara o suficiente, seguiu para a livraria, sua última opção nesse ramo.
            Não sabia dizer por que estava procurando uma vaga de vendedor nesse tipo de loja. Achava que eram as únicas coisas das quais ele entendia e achava-se capaz de ser persuasivo sobre – livros e música. Se tudo desse errado, ainda via esperança em tentar a sorte com as duas locadoras que ele ouviu dizer que existiam naquela terra. Todos negócios condenados, quando ele parava para pensar. Se queria poder começar a pagar o aluguel e se livrar do auxílio de seus pais, tinha que desenvolver outras opções. Para a faculdade, era bolsista, mas o curso não lhe ajudava com possibilidades de emprego. Pela primeira vez, cogitara que seu poderia estar certo. Era melhor que ele tivesse se rendido, ido estudar Administração e começado a cuidar do negócio dele. Não havia por que desistir ainda. Tinha mais uma opção, pelo menos naquele dia. Deixaria os planejamentos para depois que tivesse as respostas.
            Dessa vez o lugar não estava vazio. Um dos vendedores, verificando o acervo no computador, ajudava dois estudantes, e uma senhora vasculhava as estantes do fundo da loja. Foi atendido rapidamente pela outra vendedora e ele disse que tinha um currículo para entregar, caso fosse possível. Ela pensou um momento, olhou em direção a uma porta próxima àquela senhora, e apontou para lá, dizendo que seria melhor que ele falasse direto com o gerente; era só bater a porta que ele o atenderia. Obedeceu e logo foi convidado a entrar na salinha da gerência, que mal tinha espaço para uma mesa e duas cadeiras. Foi convidado para se sentar enquanto o gerente pegava o currículo das mãos de Tomas. Os dois se apresentaram, o nome do gerente era Francisco.
            - Você, então, está interessado em trabalhar aqui? – Tomas afirmou. – Tem algum cargo específico em mente?
            - Acho que poderia servir como vendedor. Leio bastante e conheço autores pelo nome. Mas isso não é tão importante, dependendo de qual vaga você tenha...
            - É justamente essa que temos em aberto – o gerente interrompeu. – Um dos funcionários, você deve ter visto ele atendendo os estudantes, está em aviso e eu estava prestes a começar a procurar por um substituto, ainda não cheguei a procurar. Aqui diz que você estuda filosofia – ele lia do currículo. – Em qual ano você está?
            - Ainda não começou, a primeira aula é só semana que vem. Então, primeiro ano.
            - Entendi, o currículo tem vista para o futuro, então – deu uma risadinha. – Isso não importa muito, só estou curioso para entender por que um aluno de filosofia iria querer vender livros.
            - Bom, pra começar eu gosto de livros, acho que entendo do assunto. E filosofia não é um curso que oferece um grande leque de oportunidades profissionais.
            - Tem isso. Você quer se tornar professor, é?
            - Parece que sim, mas não sei bem ainda.
            - Não sabe? O que você quer fazer da vida, já pensou nisso?
            Ele não sabia. Tinha pensado na pergunta, mas nunca conseguira chegar à resposta. Por algum motivo, escrever lhe veio a mente. Não escrevia. Pensara nisso antes, mas, de fato, nunca pusera o plano em prática. Respondeu isso de qualquer forma.
            - Você quer ser escritor, então? De quê?  Romances?
            - Possivelmente, se tudo der certo.
            - Quem você lê?
            - Gosto de alguns americanos, Hemingway – o gerente parecia gostar do que ouvia -, russos também. Mais ligados à filosofia, gosto muito de Dostoiévski e Camus. Digamos que, se eu fosse capaz de tanto, gostaria de fazer o que eles fizeram. É claro que não conseguiria fazer o mesmo, nem uma parte, é só a vontade.
            - São boas leituras de qualquer maneira. Eu fiz uns poemas no passado. Até publiquei alguns em revistas por aí. Acho que meu ápice foi ganhar um concurso faz uns cinco anos. Um livro três anos atrás.  Só que é difícil vender poesia, hoje eu sei disso melhor que nunca. Talvez, com romances, você tenha melhor sorte que eu. Quando você pode começar?
            Foi surpreendido, um pouco, pela mudança brusca de assunto. Levou mais tempo do que precisaria para responder e até gaguejou quando a resposta finalmente saiu.
            - Quando vocês quiserem.
            - Amanhã, que tal? Aí você já vai aprendendo com o Carlos o que ele faz. Você vai ver que é bem tranquilo. De início, o pagamento não é uma maravilha, mas vai melhorando. Depende mais de você, honestamente. Tu é estudante, mora sozinho aqui, é isso? – Tomas concordou com um balançar de cabeça. – Então vai ser o suficiente pra te sustentar.
            Levantaram-se e se cumprimentaram.
            - Até amanhã – disse Tomas.
            Foi embora aliviado. O seu primeiro objetivo em P estava cumprido. Com aquele salário, não precisaria mais de seus pais a partir do mês seguinte.

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Parte 1: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/solidao-capitulo-1-parte-1-romance.html
Tem mais uma parte ainda. Depois postarei o capítulo 5 em partes. O resto não vai pro blog, só em livro, caso eu publique. Pois é.

4 comentários:

  1. Como você é mau!
    Quer dizer que eu leio toda empolgada, para chegar aqui e descobri que você não vai publicar a história toda aqui no blog? Como assim?

    Esta parte ficou muito boa. No geral, gostei da história e é claro que fiquei curiosa para saber como ele irá prosseguir.
    Na primeira parte, fiquei me perguntando se toda aquela história que o vendedor do sebo estava contando é verdadeira ou apenas fictícia.

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    1. Ah, mas se eu posto tudo ninguém compra o livro (caso ele venha a existir, estou tentando pensar positivo).

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  2. Legal!
    Quando era mais nova, sonhava em trabalhar numa livraria.
    Ainda não dá pra saber muita coisa da história, mas eu gostei!

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    1. Fico feliz que tenha gostado.
      Infelizmente, livrarias estão morrendo. Aqui onde eu moro elas nem existem mais.

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