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segunda-feira, 17 de março de 2014

Solidão - Capítulo 1, parte 1 [Romance]


Lembram que eu estava escrevendo um livro cujo título provisório seria Inocência, sobre dois amigos, Tomas e Ernesto, contando a história do crescimento dos dois? Eu terminei aquele livro, mas, ao dar início à temida revisão (uns 3 meses depois de terminar o rascunho), vi que era ilegível para os meus padrões. Recomecei do zero, avancei por 4 capítulos e não consegui continuar. O motivo foi que as histórias de Ernesto e Tomas já não me pareciam conectadas o suficiente para serem um mesmo livro, por isso separei os dois. Decidi começar a escrever a história de Tomas como livro individual, tendo como título provisório Solidão. O enredo, se me permitem falar um pouco sobre ele antes de postar parte do primeiro capítulo, é bastante simples. Um estudante de filosofia que, cedo na vida, perde toda a sua ambição até encontrar Naima, estudante de letras e artista, que lhe apresenta um outro mundo. Chega, o resto vocês vão ter que ler. Aqui está um trecho do primeiro capítulo (o resto dele será postado num futuro próximo, só dividi porque o capítulo tem 9 páginas e ninguém lê um post desse tamanho). Qualquer comentário é bem-vindo, só aviso que o trecho não foi revisado. Reli para evitar erros muito absurdos, mas ainda existe a possibilidade de eu mudar palavras, mexer em algumas coisas, pra melhor sonoridade e ritmo, coisas do gênero. Não sei bem até que parte vou postar no blog. Talvez não faça algo linear como da última vez, ao invés disso eu poste o capítulo um e o capítulo cinco, pra vocês terem uma ideia do progresso da história sem ficarem sabendo de muitos detalhes. Depois decido isso, por enquanto leiam.

***
1

            Passaram quase ao mesmo tempo pela porta do sebo. Ele entrando, ela saindo e virando para o lado oposto do qual ele vinha. Tomas parou e se deixou observá-la indo embora. Pequena de longos cabelos que fluíam como cortinas negras ao vento daquela manhã ensolarada cobrindo a maior parte das costas; sandálias rasas brancas com jeans azul acompanhando uma camisa branca com detalhes azuis e amarelos, possivelmente, era o uniforme de uma das escolas de P, cidade para a qual ele tinha acabado de se mudar – nem uma semana atrás -, mas sabia reconhecer um uniforme escolar quando o via. Pensou que talvez ela fosse muito nova, até que deixou de ser importante, ela sumiu virando a esquina.
            Entrou e ouviu a campainha alertando de sua presença. Passando a porta de entrada havia um corredor com uma porta paralela a cada uma das paredes que o formava. As portas levavam a duas salas quase idênticas, forradas de estantes. Reto a frente de Tomas, seguindo pelo corredor, havia outro espaço amplo no qual estava o caixa, outra porta, que levava ao setor dos discos, e uma escada de passagem impedida que levava ao segundo andar. O piso era todo de madeira e rangia, o que fazia que Tomas tentasse andar com mais leveza, evitando fazer muito barulho, como se o chão corresse o risco de arrebentar. O funcionário no caixa encarou Tomas por um tempo.
            - Bom dia senhor – ele chamou. – Posso ajudá-lo com alguma coisa?
            - Na verdade, acho que pode – estava nervoso. – É que, talvez vocês nem estejam precisando, mas eu queria deixar aqui meu currículo. Estou procurando emprego, caso vocês precisem de mais algum funcionário.
            - Claro, sem problema. Eu não tenho autoridade nenhuma pra contratações, mas vou guardar teu currículo aqui. A dona, senhora Mônica, não se encontra. Ela saiu cedo de manhã e não sei quando volta, por isso não posso fazer nada por você agora. Mas, assim que ela chegar, entrego isso pra ela e falo de você – estendeu a vogal enquanto olhava no papel o nome -, Tomas. Aqui tem seu contato, né? Sim, achei.
            Ele agradeceu e pensou em ir embora, mas o funcionário perguntou se ele já tinha passado por ali alguma vez antes.
            - Não, sou novo na cidade.
            - Quer dar uma olhada nas estantes, conhecer o lugar? Pode ser que você se interesse por algum livro.
            Ele aceitou a proposta e os dois foram até o corredor, no ponto entre as duas portas.
            - Aqui à direita ficam os livros de auto-ajuda, religiosos, história, didáticos, essas coisas. À esquerda ficam os de literatura, nacional e internacional, teatro e filosofia. É isso que você estuda, não é? Vi no currículo, de relance.
            - É, isso mesmo.
            Começaram pela sala da esquerda, então. O funcionário foi apontando para cada estante, explicando como cada volume era organizado e falando das coleções que eram postas separadamente. Foi ele quem organizou tudo aquilo, fez questão de inserir no discurso discretamente. Falava como um guia turístico liderando, não só um cliente, mas todo um grupo de estrangeiros em um país exótico.
            - Aqui é a parte de literatura nacional – parou e retirou um livro, como que a esmo, mas sabia bem qual estava pegando. – Conhece esse autor? – entregou a obra a Tomas.
            Tomas deu uma analisada no volume, no nome do autor e na sinopse da contracapa. Dizia se tratar de um roman à clef baseado no período de autoexílio do escritor na Paris da geração perdida.
            - Não, acho que nunca ouvi falar nesse autor.
            - Ele é muito desconhecido por aqui. Mas foi ele, Jean Allard, quem fundou essa livraria. Por isso o nome, Livraria e Sebo Allard.
            Tomas percebeu que não havia reparado no nome do lugar antes de ir entrando. Foi bom ter sido alertado, caso o telefonassem de fato.
            - Esse nome é um pseudônimo – continuou o guia. – O nome de batismo do autor era João Guilhermino de Almeida, mas só um livro, que, se não me engano, foi uma...foi? sim, foi uma coletânea de contos. Nunca chegou a publicar um romance com esse nome. Esses contos se perderam no tempo, em edição original, ninguém falou sobre eles nem queriam mais publicar nada dele por aqui. Então ele foi para Paris, isso na década de trinta. Reza a lenda, e isso se acredita pelas coisas que ele escrevia e dicas que ele deixava nos livros, que foi amigo de gente como Ernest Hemingway, Ezra Pound, James Joyce. Conhece alguma coisa deles?
            - Sim, sim. Não sabia que tinham brasileiros escrevendo por lá nessa época.
            - Que eu conheça, tem ele. E lá na Europa ele foi muito bem-sucedido. Até hoje dá pra encontrar coisas dele pelas livrarias de lá, e vendendo. Mas, depois de passar um período na Suíça durante a Segunda Guerra, ele voltou ao Brasil. Ficou um tempo em São Paulo, aproveitando um pouco do novo reconhecimento, até que voltou pra cá quando recebeu notícias da morte da sua família. Essa é a casa em que ele nasceu e passou seus últimos dias. A senhora Mônica foi enfermeira dele, quando ele já estava no fim da vida, lá em meados de setenta.
            No início da apresentação, Tomas estava preocupado que aquilo pudesse levar muito tempo, mas agora estava muito interessado graças a todos os nomes mencionados.
            - Se você quiser, pode levar esse livro – o funcionário, encerrando seu tour, disse.
            - Não vai dar, estou sem um centavo. Por isso vim entregar o currículo – disse checando os bolsos com alguma esperança não realizada de achar um trocado.
            - Fica tranquilo. Têm três cópias desse livro aqui, só cinco reais cada. Cá entre nós, ninguém compra. Pode levar.
            Tomas agradeceu uma última vez e disse que estaria à disposição caso houvesse uma vaga, só para reforçar. Despediram-se e Tomas ainda tinha outros dois lugares para visitar. Um era uma loja de CDs no shopping e outro uma livraria.

continua.

5 comentários:

  1. Fui lendo, lendo, lendo... e quando eu percebi já tinha acabado. rs Vou ficar de olho nos próximos post, esperando a continuação.

    P.S.: Finalmente se rendeu ao Facebook! haha

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    Respostas
    1. Não me esqueci de você, Taci, só não terminei o livro ainda - perdi meu próprio prazo. Seu cargo de conselheira editorial ainda está de pé. Espero que isso signifique que por enquanto você gostou.

      Rendi o blog ao facebook, pois é...

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  2. Já tinha lido esse trecho... E ainda continuo gostando :) Preciso terminar de ler os outros capítulos, que vergonha da minha parte. Achei bem interessante ele conhecer a garota de letras, assim as coisas se interligam, pois como vi Tomas não sabia muito o que queria, apenas agia. :)

    Um beijo.

    Caminhandoemmarte.blogspot.com.br

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  3. Como tu disseste no meu trecho, não da pra ter toda uma noção da estória mas, por esse comecinho me parece ser uma trama mais obscura, mais interior dos personagens e etc.
    Gostei da sua escrita, tem um desenvolvimento interessante e leve. Poste mais, eu leio com certeza.

    Até Mais Raphael.

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  4. Já tinha lido um pouco do livro que vc decidiu que não serve. Eu gostava muito dele, não acho que estava ruim, nem um pouco, mas vc é quem tem que gostar em primeiro lugar. Também gostei desse, vc escreve bem, já falei isso, vc já sabe, mas não dá pra saber muito da história.
    Gosto do fato do moço ter visto a mocinha logo de cara, nas primeiras linhas do livro, é romântico. kkk

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