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quinta-feira, 6 de março de 2014

Documentário sobre os rituais de reafirmação monogâmica do animal humano - parte 1 [conto]


Quando chegamos à estrada de terra, em frente ao mar, na qual ficava o bar em que se realizaria o casamento, o sol se punha e alaranjava o céu, encerrando o período claro das noites do horário de verão. No carro estava o gerente da empresa para qual eu trabalhava e sua namorada; eu estava lá de carona.

- Vish, um já caiu – ele disse, olhando para um rapaz que vomitava do outro lado da rua.
- Mas a noite nem começou – comentei.
- É essa rapaziada despreparada que acha que vodca é água.
- Sabe alguma coisa da banda que vai tocar na festa?- a namorada dele perguntou.
- Conheço os caras. São gente boa, exceto o guitarrista que é um puto, mas a música é uma merda. Banda de baile, né?, os caras têm que tocar de tudo. O show varia com o que o cliente manda. Vocês conhecem o Zé, então vai ser de sertanejo universitário pra baixo. Mas não dá nada, umas muitas doses de uísque e vai todo mundo descer até o chão.
- Fale por você.
- Mas tu não conta. Se bebesse era outra história.
- É por isso mesmo que eu não bebo nada, só champanhe e muito pouco.

Me sentia deslocado na conversa. Não achava boa ideia me meter, mas mesmo que não pensasse dessa maneira, não tinha nada a acrescentar. O caminho todo, foquei minha atenção no rádio, que tocava uma variedade de músicas de um pen-drive do dono do carro. No momento tocava Deep Purple.

Deixou o carro no estacionamento e voltamos todo o trajeto até o bar, os saltos de Lúcia se enfiavam na areia, fazendo que ela se agarrasse no braço de Rômulo. Na minha cidade natal, só os padrinhos iam de terno e gravata ao casamento, aqui era diferente. Dezenas de pessoas nos acompanhavam na caminhada, todas de terno e gravata, Rômulo também se vestia da mesma maneira. Eu estava com uma camisa cinza, calças jeans surradas e sapatos pretos, pronto para uma reunião com o partido comunista. 

A noite, em contraste com a fervura que fez o dia, trazia uma brisa refrescante vinda do mar. A lua dava seus primeiros passos, pequena no horizonte. Ao longe era possível ouvir surfistas conversando, música alta das outras baladas que não aquela na qual se realizaria o casamento; tudo pulsava naquela paisagem de natureza violada.

- E aí, Rômulo? – gritou uma mulher que passava correndo com os sapatos em uma mão e levantando um pouco o vestido com a outra.

Ele respondeu a saudação, mas não soube se foi percebido.

- Bicha encarnada essa daí. Sabiam que ela comprou uma Harley Davidson semana passada? Pensa na figura chegando aqui com o vestido longo de festa, salto alto, montada numa Harley. E é a madrinha do casamento a doida.

Todos rimos da visão formada. Então olhamos para trás, tentando descobrir para onde ela corria e o que pretendia fazer, já que o casamento estava prestes a começar.

No bar, ao longo dos decks de madeira iluminados, abaixo dos arcos de entrada ornados com folhas e flores estava uma fila de homens e mulheres, todos vestidos da melhor forma possível. Fomos, eu e Rômulo, cumprimentar nosso chefe, que era um dos padrinhos e estava perto do fim da fila. Rômulo ainda cumprimentou mais uns conhecidos, enquanto eu procurava entrar na cerimônia e me afastar um pouco deles todos. 

- Não vai nem dizer oi? – disse uma voz que me cutucava pelas costas.

Era de uma mulher com quem trabalhei por um tempo, mas que tinha saído da empresa há quase um ano. Não a via desde então e não tinha tantas memórias dela, se não me cumprimentasse, passaria reto e nem seria proposital. 

- Desculpa, é tanta gente que eu até me perco. Como vão as coisas, Giovanna? – disse depois de a cumprimentar e reconhecer a presença de seu namorado que ficava como um segurança ao seu lado, mas um segurança que podia sorrir.
- Tudo bem, apanhando um pouco na empresa nova. E vocês?
- A mesma coisa de sempre.
- A Marta não vem?
- Não, se não me engano é casamento de uma amiga dela.
- E o Zé não é amigo?
- Ele perguntou a mesma coisa quando ouviu ela dizendo isso.
- Mas não é? Porra, ela trabalha com o cara há, o quê?, cinco anos? Nem pra aparecer no casamento?
- Ela disse que era uma amiga de infância, que não se viam faz muito tempo. O Zé deu a benção pra ausência, não precisa se preocupar com isso. Tá a fim de juntar um grupo pra atacar o outro casamento?
- Fala Barraqueira - Rômulo reapareceu com Lúcia dois passos atrás dele. – Como tão as coisas no trampo novo?
- Tá foda, cara. É muita gente, cada um fazendo um pedacinho do trabalho – olhou para cima, suspirou revisando as próprias ideias. – É normal isso em empresa grande, cada um precisa ter sua função, se não a coisa se perde. Mas é um saco. Rotina mesmo.

Nos tempos em que Giovanna costumava trabalhar na mesma ilha de escritório que eu, reclamava dos pedidos variados que nosso chefe lhe passava. Uma hora era porque tinha que embalar amostras de latas de atum para clientes, outra porque tinha que monitorar os custos de frete. Dizia que era do financeiro e sua função era pagar contas, administrar as finanças, salário, entradas e saídas; não tinha nada que quebrar galhos aleatórios porque nossa mão-de-obra era insuficiente e precisava de gente cobrindo buracos toda hora. Dizia que seu sonho mesmo era ser personal trainer, estudar educação física, ao invés de seguir com aquela pós-graduação em contabilidade.

- E como vai a pós? – perguntei.
- Bem, termino esse ano, acho. Se eu conseguir descobrir um assunto pro meu artigo, essa é a outra merda. A gente termina o TCC, já tem que se preocupar com porra de artigo.
- É, rapadura é doce mas não é mole – encerrou Rômulo feito um sábio da montanha.

E todos se puseram em silêncio com a ameaça da entrada da noiva. Os convidados se aglomeravam ao redor do salão. A minha frente havia uma piscina retangular e, sobre ela, uma espécie de ponte. Cruzando a ponte estava o noivo, mexendo os dedos e com um sorriso fixo, nem aberto nem fechado, e o pescoço era uma pedra, aquele mesmo que virava para qualquer saia mais curta que cruzasse seu caminho. E como tinham saias curtas naquele lugar.

Uma pequena orquestra de cordas se sentava ao lado direito das águas, todos com postura impecável, violinos repousados na clavícula, arcos sobre o colo segurados pela mão direita relaxada; violoncelos segurados pelo pescoço por seus donos, com os dedos sobre as cordas. Eles posicionam seus arcos e uma das violinistas treme a mão duas vezes sobre as cordas, deixando sair um gemido engasgado do instrumento, logo calado pelos dedos que impediam a vibração das cordas. Estava afobada e envergonhada, a iris dos olhos quase sumindo pelos cantos de tanto se esforçar para ver se a noiva entrava ou não.

Percebi que nunca tinha visto a noiva antes, nem meio porcento dos outros convidados. Era um penetra com convite, como se isso fizesse sentido. Tanto pela minha vestimenta quanto pela minha ligação com o casal. Já era possível perceber algumas lágrimas aqui e ali e eu nem conseguia fingir interesse.

Primeiro entraram os padrinhos e madrinhas em fila. A mulher da Harley tinha conseguido chegar a tempo e caminhava secando a testa de suor e ajeitando o vestido nas pernas. Depois, quando estavam todos posicionados, veio a noiva. Quando soaram as primeiras notas da marcha nupcial, a violinista mais tensa entrou um pouco atrasada. Seus olhos devem ter levado um tempo para se recolocarem na posição correta. O noivo esqueceu que já estava com a coluna reta quando viu sua futura esposa cruzando a ponte ao som da infame melodia e tentou se ajeitar de novo apressado, saindo de uma posição só para voltar a ela, exatamente a mesma, logo em seguida.

Um momento de silêncio. Como numa orquestra quando a música para entre os atos, alguém tossiu e outro limpou a garganta. A voz do padre, ao dar início ao seu papel, era praticamente inaudível para qualquer um que não o noivo e a noiva e os padrinhos e familiares do outro lado da ponte. Não entendia o quê ele falava, mas podia ouvir aquele seu sotaque hispânico de padre. Na infância, nas poucas vezes que fui à igreja, acreditava que todos os padres vinham da Argentina. Não tinha um, fosse na missa de sétimo dia do meu avô, na primeira comunhão da minha prima, no batizado do meu primo, que não tivesse aquele mesmo sotaque do padre daquele casamento. Minha mente de criança formava uma Argentina lotada de padres, como uma sucursal do Vaticano com permissão para administrar time de futebol – não é à toa que chamam Maradona de santo.

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Continua, mas não sei quando. Esse conto ainda não está terminado.

Um comentário:

  1. Será que o casal vai separar - se? Será que o narrador vai ficar com a mulher do Haley? Será que Giovanna vai virar personal? Será que alguém vai se afogar na praia? Ou até uns dos noivos? Rs. Me deixou com muita curiosidade. Sim depois de muito tempo no domingo de manhã tive tempo de ler. E gostei muito. E você já sabe, nem todos os padres veem da Argentina. :D
    Gostei muito daquelas banda Grateful Dead que você me mandou, tanto que estou ouvindo o albúm inteiro American Beauty. Olhe que isso é uma raridade.

    caminhandoemmarte.blogspot.com.br

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