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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Confissão no quarto 219 [conto] - parte 4 (final)


Precisava de outra bebida, ainda eram nove da noite e o bar do hotel estava aberto, embora sem ninguém que o frequentasse. Pedi outro uísque ao garçom, que me olhava já com suspeita, mas não fazia perguntas. Questionei-o eu sobre o texto na bíblia, que levei comigo com essa dúvida em mente.
- Não sei, nunca vi disso antes – ele respondeu.
- Ninguém te mostrou isso?
- Não, acho que não. Você quer que eu troque a bíblia do seu quarto, acho que posso fazer isso e me livrar dessa daí.
- Não – eu pedi. – Não tem problema, pelo contrário, só queria saber se vocês sabiam de algum escritor que se hospedou aqui e que pudesse ter escrito isso.
- Não, não que eu saiba. Talvez algum escritor tenha passado aqui, mas que tenha rabiscado nas coisas, isso eu nem imagino quem possa ter feito.
Terminei minha dose e ele perguntou se eu queria outra. Na verdade eu queria, mas achei melhor dizer não, pois ainda tinha que acordar de madrugada. Voltei para o quarto, agora certo de que todos os mosquitos estavam mortos – levantei a procura de um, mas cheguei a matar dois. Estava errado, mal deitei a cabeça, já ouvia os sumbidos me atormentando e, enquanto acendia a luz, via seus pequenos corpos de ponto preto em fuga. Peguei de novo minha arma e olhei ao meu redor – nada. Andei um pouco pelo quarto, então vi a mancha na cortina branca. Observei de perto e identifiquei o canalha; acertei-o para matar, já eram três manchas de sangue na contracapa. Agora poderia dormir em paz, pensei, mas ainda encontrei outro me esperando em cima do colchão, este nem tendo tempo de fugir, nem me dando o trabalho de caçá-lo. Quatro manchas na contracapa e uma no colchão, sobre a qual eu dormi após dar uma segunda lida no texto. Pensei até em guardá-lo comigo, arrancando-lhe de seu livro, mas teria que remover a capa para isso. Seria melhor deixá-lo de qualquer jeito. Eu precisava daquela leitura, que não me confortou, mas me fez perceber que outros sofriam que nem eu, que outros também se odiavam apesar de serem completos egomaníacos. Se odiavam justamente por isso, por terem que viver consigo mesmos sem descanso e só terem a si, a si, a si, o tempo todo.
Três horas de sono apenas, mas não podia fazer nada. Tinha o voo de volta para pegar. Tinha que voltar para casa para almoçar, depois ir ao trabalho – com o diferencial que agora teria os resultados bem-sucedidos da viagem para exibir, como se fosse adiantar de qualquer coisa -, então voltar para casa no fim do dia só para perceber que o dia acabou e tinha que dormir para poder acordar e ir trabalhar no dia seguinte, então sair para o almoço e voltar para o trabalho, voltando para casa só para poder dormir e seguir infinitamente com ciclo, agora sem a ilusão de algo melhor e sem a ilusão de que a destruição do ciclo que parecia me escravizar me traria qualquer liberdade.


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Se você não leu as outras partes, divirta-se (jurava que a parte 4 seria maior, calculei errado):
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/confissao-no-quarto-219-conto-parte-1.html
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/confissao-no-quarto-219-conto-parte-2.html
http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/confissao-no-quarto-219-parte-3-conto.html
Ou releia por inteiro, a sensação é outra.

Um comentário:

  1. Terminou os contos, como um conto terminaria, eu gostei do final. Sei lá me lembrou um conto do livro : Dublinenses do James Joyce. Não lembro o título. Mas lembrei - me dele.

    Parabéns, e agora qual vai ser os próximos contos, estou esperando.

    um beijo e até.

    caminhandoemmarte.blogspot.com.br

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