Páginas

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Confissão no quarto 219 [conto] - parte 2


Se sua percepção é tão mínima, essa é foto descrita no conto.
Que foi?
Leia o subtítulo do blog: "entre o erudito e o pornográfico." - tá achando que é piada?
A exata meia hora do mais profundo sono, escuto um zumbido próximo demais do meu ouvido e, me estapeando, pulo da cama. Agora é meu braço esquerdo que coça e queima, ainda mais que meu dedo. Acendo as luzes, mas nem sinal do canalha, que eu acreditava ter me seguido desde o bar, assim como os garçons estavam rindo de mim naquela hora; uma crença meio irracional, sou forçado a admitir. Sabia que não ia conseguir dormir de novo, exceto que eu visse o cadáver daquele inseto, Nêmesis.
Busco o controle remoto e ligo a televisão - falando em quebra de rotinas, essa sim fazia anos, anos que eu não assistia a uma televisão. Passo os canais como um maníaco, pensando que, independente do que estivesse passando, algo melhor existia logo ao lado e eu estava perdendo. Olho para a mão que segura o controle e ela treme. Bem de leve, mas é perceptível. Lembro-me de uma coisa que meu chefe me falara mais cedo naquela semana. Ele comentou sobre minha mão, que tremia um pouco enquanto eu tentava juntar uns papéis, eu disse que era uma questão de habilidade – falta dela, mais exatamente -, mas ele não acreditou e pediu que eu as esticasse no ar, as duas, e as duas tremiam igual. Pediu para que eu procurasse um médico, isso era coisa de sistema nervoso, muito perigoso, ele completou. Isso fez com que quaisquer chances de minhas mãos atingirem uma estabilidade fossem descartadas.
Pelo menos tinha achado um canal. Nunca tinha ouvido falar dele antes, mas aparentemente era brasileiro e dedicado à arte, por completo, em todas as suas formas. Estava passando um breve documentário sobre o estilo de Cartier-Bresson. Não entendia nada de fotografia – nem aprendi nada até os dias de hoje -, mas estava bastante interessado. Era uma pena que, após algumas frases ditas em francês e legendadas em português, que não faziam qualquer sentido fora de contexto, mas soavam filosóficas pra cacete – mais pelo idioma que pelas palavras -, e algumas fotos de Paris, começaram a rodar os créditos.
Uma escritora jovem brasileira começou a falar alguma coisa que me interessava sobre seu novo livro, mas minha baleia branca apareceu, pousando na parede. Dei-lhe um tapa, mas ele esquivou – ela, na verdade, li em algum lugar que os únicos mosquitos que sugam sangue são fêmeas -, decidindo flutuar sobre mim um pouco, a uma altura fora do meu alcance, como se soubesse que eu não a alcançaria, então me cegou voando em direção a luz, finalmente sumindo sob as sombras.
Agarrei de novo o controle remoto. Passava um outro documentário sobre um fotógrafo, era o alemão Helmut Newton, mas a narração estava em francês também. Falavam sobre o intenso erotismo de suas fotos relativamente simples. A foto se chamava Arielle Depois de Cortar o Cabelo. Uma mulher sardenta, de braços cruzados, cabelos curtos formando um quadrado, de seios como que salpicados de canela e expostos. Percebi quão pouco valor eu dei às sardas durante a minha vida.
O que seria da arte sem a nudez e o sexo? Tem coisa mais inspiradora que o corpo feminino despido, com todas as suas formas e delicadezas? Não, por isso nenhum movimento artístico puritano poderia ser levado a sério.
Fui aumentar o volume, mas pensei na tremedeira; pensamento que me causou um espasmo no cotovelo forte o suficiente para que me desse um terremoto no antebraço forte o suficiente para me fazer soltar o controle cama a baixo. Desisti e desliguei a televisão pelo interruptor ao lado da cama, antes ligando o ar condicionado por confusão.
Olhava para os lados e para o teto e para as paredes, paranoico, como se cada sombra fosse aquilo que, não era um predador feroz, era apenas um mosquito. Um mosquito que, por esquecimento quem sabe, pousou novamente na parede. Devagar, abri a gaveta do criado-mudo ao meu lado. Uma bíblia - somente o novo testamento - e uma lista telefônica. Certamente a lista seria eficaz, mas lenta. A bíblia seria o suficiente, leve, capa dura, perfeita. Puxei-a e, ainda em movimentos suaves, me posicionei para o bote. Com a fúria acumulada de todas as minhas frustrações, golpeei o canalha e o transformei em uma massa preta na parede; também perdi o controle e acertei com meu dedão, que dava apoio à arma, diretamente na parede, me fazendo soltar o livro no chão. Ele se abriu, não em uma passagem que poderia dar muito mais profundidade a essa história. Somente a capa abriu, expondo a guarda e a folha de guarda tentando se virar. Ambas estavam escritas do começo ao fim com caneta azul.

Só mais uma. Estou fascinado pelo trabalho de Helmut Newton.

Tá, e uma do Henri Cartier-Bresson, pra que eu não pareça muito pervertido.
***
Continua.
Não leu a parte 1? Toma aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/confissao-no-quarto-219-conto-parte-1.html

Um comentário:

  1. Desculpa, eu vi o post dias antes ( ontem ), mas não pude entrar deu erro, sei lá, estou muito cansada da minha nova rotina, mas não podia perder de ler um bom conto. Não é? hihi. Bem Rafa, já te falei que gosto muito das suas descrições descreves muito bem, e gosto das comparações também como: ''mudando de canal, como um maníaco''. Sobre o nudismo e sexo, acho lindo, quando é por amor. Quando é puro e na hora certa. :) Não sou daquelas antigas, mas acho que tudo tem que ser por amor. E é o que acredito, acho lindo isso expressado em papéis. :D
    Um beijo, e até.

    caminhandoemmarte.blogspot.com.br

    ResponderExcluir

caixa do afeto e da hostilidade