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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Sol Se Põe Em São Paulo - Bernardo Carvalho (2007)



Desde que eu ouvi um determinado grupo de escritores falarem sobre uma panelinha de autores herméticos e experimentais, amados pela crítica, mas desconhecidos pelo público, estou buscando por esses tais chatos da vanguarda. Não os encontro de jeito nenhum, mas, nessa caçada, pude achar um dos escritores mais respeitados no Brasil atualmente, e, não para minha surpresa, ele não é nem de perto hermético ou experimental. Talvez um dia eu consiga descobrir do que aqueles caras (e agora o Paulo Coelho também, com toda a sua reclamação sobre a feira de Frankfurt) estavam falando, mas não foi dessa vez.

"O Sol se Põe em São Paulo" é sobre a busca do narrador pela sua própria identidade. Ele, que não tem nome, ao perder seu emprego, se vê relembrando a juventude, os tempos que ele sonhava em ser escritor e passava horas conversando com amigos em um restaurante japonês. Ele volta ao restaurante, tantos anos depois, e Setsuko, dona do lugar, lhe pede para escrever a sua história. Ele aceita, tomando isso como a última prova para decidir se ele é ou não escritor afinal de contas. O mistério por trás dessa história, no entanto, faz com que ele se veja forçado a trabalhar quase como um detetive em Tóquio, buscando completar o enredo de Setsuko.

"Não vejo nenhuma metáfora no que eu digo. É como se tudo estivesse na sombra. Houve um tempo em que eu freqüentava um restaurante obscuro, que não existe mais, chamado Seiyoken, numa rua mal-afamada da Liberdade. A comida era boa, o preço honesto e o serviço simpático, para dizer o mínimo, já que nunca nos expulsaram. Quase sempre havia lugar, e não passava pela minha cabeça, nem pela dos meus colegas de faculdade, que a algazarra que costumávamos fazer depois de uns copos de sakê e de cerveja pudesse incomodar os outros clientes."

Ao mesmo tempo que esse livro consegue ser inacreditável, ele tem seus momentos frios. É impressionante ver a habilidade de Bernardo Carvalho ao descrever cenários tão separados como o Japão da Segunda Guerra, São Paulo e, depois, de volta ao Japão, só que moderno. A forma como a história de Setsuko foi desenvolvida não deixa transparecer que se trata de um ocidental inventando casos japoneses, é culturalmente respeitável e real, as personagens envolvidas nessa história são humanas, no entanto, é nesse mesmo ponto que a narrativa me parece perder a força.

"Uma vez, lá pelas tantas, quando já não restava ninguém no restaurante, a velha que eu nunca tinha percebido saiu de trás da caixa registradora onde passava as noites - deve ter se levantado e se aproximado furtivamente, porque só a notei quando já estava ao meu lado - e foi direto ao assunto: "O senhor é escritor?". Fiquei mudo. Devo ter arregalado os olhos de um jeito que costumava afligir a minha mulher, tanto que ela logo se explicou, como se pedisse desculpas, referindo-se a um garçom: "O rapaz me disse que o senhor é escritor". Era uma velha de cabelos grisalhos e escorridos, presos num rabo-de-cavalo que lhe dava uma aparência escolar, um vestígio anacrônico da juventude distante, como se uma jovem atriz tivesse se maquiado para interpretar uma anciã no teatro."

A metaficção contida em "O Sol se Põe em São Paulo" (a história de Setsuko contada dentro da história do narrador) distrai. É difícil gerar qualquer vínculo emocional com o narrador e a sua vida, porque tanto dela é tomada pela história de Setsuko, pela qual tampouco é possível se envolver, já que o narrador não parece tão envolvido ao contá-la, o que pode ser explicado, visto que o narrador não é escritor, é só um cara normal recontando uma história que foi contada para ele. Confuso, né? Deixa eu desembaralhar. 

Como o narrador não é escritor profissional, apenas aspirante, é compreensível que, quando ele reconta uma história, ele não seja tão hábil - ponto para o autor por perceber isso. No entanto, essa falta de habilidade e interesse na história recontada a torna emocionalmente vazia, o que é um problema já que ela é a maior parte do livro. Pior ainda, considerando o tamanho do drama que foi a "vida" - uso aspas porque ela não é exatamente confiável, mas isso fica pra você descobrir depois de ler - de Setsuko, com um triângulo amoroso, traições, desilusões.

Essa sensação de indiferença muda quando a narração passa para a investigação do protagonista sem nome. O tom é o mesmo, a procura pelo eu é a mesma, mas existe interesse. É difícil, contudo, criticar o livro por causa dessa indiferença parcial. O narrador é, afinal, um desiludido. Ele não está ouvindo a história da senhora japonesa por amor, mas quase como que por um desafio para si mesmo - ver se ele pode escrever mesmo. O enredo é lento propositalmente, por isso os parágrafos intensos e a quase ausência de eventos no presente, e isso combina com o que deve ser o objetivo do autor. Tendo dito isso, é possível dizer que não funcione direito. Um livro sobre a vida de uma japonesa escrito por uma pessoa que não dá a mínima pela japonesa seria, por consequência, ruim, não? E as partes do livro que contam a história dessa japonesa me pareceram extremamente cansativas. Por isso digo que, nas mãos de um autor ruim, esse livro seria ilegível, mas Bernardo Carvalho está longe de ser ruim, por isso esses defeitos são perdoáveis.

"Na Liberdade, nem mesmo um bêbado, ao sair trôpego de um restaurante, acreditando que é escritor, pode achar que está numa viela tranqüila dos subúrbios de Tóquio e não numa megalópole violenta do Terceiro Mundo. E, no entanto, é disso que as ruas de São Paulo tentam convencer quem passa por elas: que está em outro lugar, num esforço inútil de aliviar a tensão e o incômodo de estar aqui, o mal-estar de viver no presente e de ser o que é."

Agora quero ler outra coisa desse escritor. Um livro com um enredo melhor, sem tanta metaficção. Um livro com a história de suas personagens e não a história de uma terceira pessoal, que pode ou não ser real, cheia de mistério, mas um mistério cuja conclusão é completamente indiferente, tanto para o narrador - que só está atrás da resposta para dizer a si mesmo que ele não perdeu tempo - quanto para o leitor. O que salva e dá uma nota positiva ao livro são as observações muito interessantes do narrador sobre a autoidentificação e o ato de escrever, essa parte da obra vale muito a pena.

Nota: 3,5/5

Você pode ler o primeiro capítulo aqui: http://www.companhiadasletras.com.br/trecho.php?codigo=12363

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