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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

-25

não vá sóbrio adentro à noite solitária, ele dizia a si mesmo,
cruzando o caminho dos pombos que passeavam indiferentes, sem, por ele, sequer bater as asas.
foi pego por um jato de ar frio ao cruzar a porta.
por todos os lados, passam pessoas,
elas são de pedra,
frias arrastam suas carcaças, crias e carrinhos,
elas falam, elas brigam, elas compram e alguém chora.
se ninguém calar essa criança do diabo calo eu
ele começa a se sentir cercado, a respiração requer esforço,
cadê a porra do vinho
tem promoção pra Jack Daniels mas não dá
o bolso não carrega o suficiente de qualquer forma
porto a de servir
tudo é labirinto naquele inferno de ar condicionado no qual ninguém te ouve aos gritos.
garrafa em mãos, hora de fugir, mas tem fila.
alguém analisa as opções, mesmo sendo tudo igual;
outro reclama da demora, mesmo ela sendo geral;
é só falar e o cartão do cara da frente não passa
e o idiota decide devolver uns itens e ninguém sabe mexer na máquina
que trava e desiste;
a histeria só aumenta e ele precisa sair de lá antes que tudo pegue fogo,
mas não sem a garrafa.
boa noite, diz a garota dos sonhos esmagados.
ele a olha nos olhos opacos e a vida que lhes falta faz com que ele acredite que sua noite, por não ser a dela, possa de fato ser boa,]
e ele tira as notas amassadas do bolso e sai em correria, 
as vozes se foram.


mas ainda falta para chegar em casa, se trancar a salvo dos outros,
o caminho parece alongar a cada passo.
tem um homem em frente ao ponto de ônibus,
ele o olha estranho.
assalto mas tem muita gente por perto
esse povo não se importa
ele troca a sacola de mãos, larga as alças e pega a garrafa pelo pescoço.
reajo 
e se for mesmo 
se tiver arma
e se não for 
é só coisa da cabeça
essa garrafa é capaz de quebrar 
se fosse Jack Daniels matava numa pancada
está chegando perto
um movimento e
três
dois
nada acontece, engano, paranoia.
só consegue relaxar de novo
quando ouve o som da chave em sua porta e do vinho enchendo o copo,
respira fundo.

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