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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Alguns Poemas Traduzidos - Raymond Carver


Dando sequência as minhas traduções de poemas, gostaria de mostrar aos leitores desse blog, que possam desconhecer, o trabalho de Raymond Carver. Diferentemente de Michael Ondaatje, Carver já fora bastante traduzido para o português, contudo eu nunca tive contato com nenhuma de suas coletâneas de poesias traduzidas, nem acho que elas ainda estão em circulação. Além da poesia, Raymond Carver dedicou sua carreira aos contos, formando um estilo descrito como minimalista e realista, mais focada no realismo sujo do proletariado americano, os rejeitados do American Dream. Ao longo de sua vida, escreveu as coletâneas "Cathedral", "What We Talk About When We Talk About Love" (que é uma versão totalmente cortada da coletânea mais tarde relançada em versão integral, "Beginners"), "Will You Please Be Quiet, Please?", entre outros, sendo, no Brasil, as únicas coletâneas em circulação "Iniciantes" ("Beginners") e "68 Contos de Raymond Carver", ambas editadas pela Companhia das Letras. Vamos aos poemas:

Your Dog Dies

it gets run over by a van.
you find it at the side of the road
and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter
because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you're almost glad the little dog
was run over, or else you'd never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you're writing you
hear a woman scream
your name, your first name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

Seu Cão Morre

é atropelado por uma vã.
você o encontra à beira da estrada
e o enterra.
você se sente mal quanto a isso.
você se sente mal pessoalmente,
mas se sente mal por sua filha,
porque era o animal de estimação dela
e ela o amava tanto.
ela costuma cantarolar para ele
e o deixava dormir na cama dela.
você escreve um poema sobre ele.
você o chama de um poema para sua filha,
sobre o cão sendo atropelado pela vã
e como você cuidou dele,
o levou para a mata
e o enterrou fundo, fundo,
e o poema acabou tão bom
que você está quase feliz que o cachorrinho
foi atropelado, do contrário você nunca teria
escrito esse bom poema.
então você se senta para escrever
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte daquele cachorro,
mas enquanto  você escreve você
escuta uma mulher gritar
seu nome, seu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e seu coração para.
depois de um minuto, você continua escrevendo.
ela grita de novo.
você se pergunta por quanto tempo isso pode continuar.
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Fear

Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.

I've said that.

Medo

Medo de ver um carro de polícia na sua calçada.
Medo de pegar no sono à noite.
Medo de não pegar no sono.
Medo do passado vindo à tona.
Medo do presente decolando.
Medo do telefone que toca na calada da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta na bochecha!
Medo dos cães que, me foi dito, não vão morder.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo do dinheiro acabar.
Medo de ter muito, apesar de que as pessoas não acreditarão nisso.
Medo dos perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de chegar antes de todo mundo.
Medo da letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles vão morrer antes de mim, e eu vou me sentir culpado.
Medo de ter que viver com a minha mãe em sua velhice, e a minha.
Medo da confusão.
Medo que esse dia termine em um tom infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não ter amado o suficiente.
Medo de que o que eu amo vai ser fatal para aqueles que eu amo.
Medo da morte.
Medo de viver por muito tempo.
Medo da morte.

Eu disse isso.
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What The Doctor Said

He said it doesn't look good
he said it looks bad in fact real bad
he said I counted thirty-two of them on one lung before
I quit counting them
I said I'm glad I wouldn't want to know
about any more being there than that
he said are you a religious man do you kneel down
in forest groves and let yourself ask for help
when you come to a waterfall
mist blowing against your face and arms
do you stop and ask for understanding 
at those moments
I said not yet but I intend to start today
he said I'm real sorry he said
I wish I had some other kind of news to give you
I said Amen and he said something else
I didn't catch and not knowing what else to do
and not wanting him to have to repeat it
and me to have to fully digest it
I just looked at him
for a minute and he looked back it was then
I jumped up and shook hands with this man who'd just given me
something no one else on earth had ever given me
I may have even thanked him habit being so strong

O Que O Médico Falou

Ele disse que as coisas não vão bem
ele disse que na verdade vão muito mal
ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão uma vez
eu desisti de contá-los
eu disse que fico feliz eu não queria saber
sobre nada mais estando ali que isso
ele disse você é um homem religioso você se ajoelha
em arvoredos florestais e se deixa pedir por ajuda
quando você vai a uma cachoeira
a névoa soprando contra seu rosto e braços
você para e pede por entendimento
nesses momentos
eu disse ainda não mas pretendo começar hoje
ele disse sinto muito ele disse
eu queria que eu tivesse outro tipo de novidade para te contar
eu disse amém e ele disse alguma outra coisa
que eu não entendi e não sabendo mais o que fazer
e não querendo que ele tivesse que repetir
e eu tendo que digerir tudo aquilo
eu só olhei para ele
por um minuto e ele me olhou de volta foi então que
eu saltei e apertei as mãos desse homem que tinha acabado de me dar
algo que ninguém no mundo nunca havia me dado
eu posso até ter agradecido a ele por força do hábito
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The Best Time Of The Day

Cool summer nights.
Windows open.
Lamps burning.
Fruit in the bowl.
And your head on my shoulder.
These the happiest moments in the day.

Next to the early morning hours,
of course. And the time
just before lunch.
And the afternoon, and
early evening hours.
But I do love

these summer nights.
Even more, I think,
than those other times.
The work finished for the day.
And no one who can reach us now.
Or ever.

A Melhor Hora Do Dia

Noites frescas de verão.
Janelas abertas.
Lâmpadas queimando
Frutas na tigela.
E sua cabeça no meu ombro.
Esses são os momentos mais felizes do dia.

Próximo das primeiras horas da manhã,
é claro. E da hora
um pouco antes do almoço.
E da tarde, e
até das primeiras horas do anoitecer.
Mas eu amo de verdade
essas noites de verão.
Mais até, eu acho,
que essas outras horas.
O trabalho do dia terminado.
E ninguém que possa nos alcançar agora.
Ou nunca. 
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Todos os poemas são de autoria de Raymond Carver.
Todas as traduções são de minha autoria, Raphael Dias.

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E como todo poeta tem sua musa, deixarei como bônus um poema da musa de Carver, Tess Gallagher.

Agora Que Eu Nunca Estou Sozinha

Na banheira eu olho para cima e vejo a mariposa marrom
espremida como um par de lábios imprevisíveis
contra a parede branca. Eu aqueço
a água, correndo tão quente quanto eu possa suportar.
Aquelas mãos sobre meu ombro - como uma vez
ele puxou minha cabeça contra sua coxa e banhou
um riacho pelo meu pescoço da mais fria água da fonte
da qual nós bebíamos. Bela travessura
que paralisa um momento para que eu nunca olhe
para trás. Apenas o agora, mais brilhante agora, e a água
nunca quente o bastante para dar fim a esse arrepio.

Mas eu me lembro da solidão - nenhuma outra
presença e cada coisa era o que era. Não esse bruto
tremular no qual te faço como você fez de mim
sua fogueira, sua luz mortal.

Now That I am Never Alone

In the bath I look up and see the brown moth
pressed like a pair of unpredictable lips
against the white wall. I heat up
the water, running as much hot in as I can stand.
These handfuls over my shoulder—how once
he pulled my head against his thigh and dipped
a rivulet down my neck of coldest water from the spring
we were drinking from. Beautiful mischief
that stills a moment so I can never look
back. Only now, brightest now, and the water
never hot enough to drive that shiver out.

But I remember solitude—no other
presence and each thing what it was. Not this raw
fluttering I make of you as you have made of me
your watch-fire, your killing light.

Autoria de Tess Gallagher, traduzido por Raphael Dias.  



Obs.: Ah. É halloween. Veja o quanto eu me importo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Missa [Conto]



Dedicado ao meu avô, Claudio, cujo nome completo
eu nunca aprendi e me envergonho de perguntar.

Era a missa de sétimo dia do seu tio-avô, aquele que faleceu, disseram ao menino, mas ele não entendia bem qualquer uma dessas palavras. Sabia que pessoas morriam quando chegava a hora deles irem embora, mas não fazia ideia do por que, nem fazia ideia do que fosse uma missa ou do que era igreja ou do que faziam todas aquelas pessoas reunidas. Tudo que ele sabia era que a noite estava bem escura e seu pai também não queria ir a tal da missa, por isso ambos ficaram no carro, em frente à igreja, vendo o vulto da multidão em fluxo se cumprimentando e entrando no grande feixe de luz que eram seus portões, até que todas as pessoas já estavam dentro e só restavam os outros carros, alguns também com as luzes acesas e uma ou duas pessoas dentro.
            Não era como se ele quisesse entrar para assistir mesmo. Lembrava-se de uma outra vez em que fora forçado a ir à igreja, não fazia muito tempo, por outro motivo cujo significado ele desconhecia. Horas intermináveis de um homem vestido de maneira esquisita e com uma forma de falar tão esquisita quanto, falando palavras que ele não compreendia, fosse pelo significado adulto ou pelo eco acompanhado do sotaque, às vezes seguidas em coro pelas pessoas que assistiam. Tinha vontade de se juntar ao coro, mas não sabia o que tinha que dizer nem quando, nem como todo mundo parecia saber o que vinha justamente na hora certa. Pior que isso era o número de vezes que todos decidiam se levantar, depois sentar de novo, depois se ajoelhar e se levantar só para sentar mais uma vez, provavelmente por ordens da figura lá na frente. Por sorte ele não precisava fazer isso sempre; não somos católicos, sua mãe dizia, nossa família é espírita.
            O rádio estava ligado e seu pai estava com o banco da frente do carro virado para trás, tentando dormir. O menino olhava em volta, sem ter o que fazer. Não dava para ver mais nada, exceto algumas luzes dos carros e outras áreas do estacionamento, em que a iluminação ainda estava funcionando, na qual os carros eram bastante nítidos, não só silhuetas. Não sabia há quanto tempo estava lá, nem quanto tempo a mais iria ficar, só sabia que a palavra missa indicava demora, espera e tédio, por isso tirou os sapatos e se deitou esticado no banco de trás. O tempo voava quando ele dormia. Fechava os olhos toda a noite e, no que pareciam ser apenas cinco minutos, era manhã novamente, exceto quando ele não conseguia dormir, aí demorava a sequer os primeiros cinco minutos passarem.
            Pode ser que ele tenha dormido por uns minutos, quem sabe nem isso, mas, quando levantou, tudo estava igual, exceto por um aperto que ele sentia em seu coração e uma profunda dificuldade para respirar e vontade de chorar. Pensou em seu avô por algum motivo, que também não quis saber da missa. Sua mãe insistiu para que ele fosse, tinha medo quando ele ficava sozinho, por não saber se ele conseguia fazer as coisas direito sem ninguém por perto. Disse que não queria ir, que ela não se preocupasse, pois ele não sairia da cadeira da mesa da cozinha.
            - Quer que eu deixe a televisão ligada? – sua filha perguntou.
            - Não, vou ficar aqui ouvindo o jogo do Corinthians no rádio.
            - Por que no rádio, pai? Televisão é mais confortável.
            - E pra mim faz diferença? Prefiro o rádio, eles explicam melhor o que acontece.
            O menino sabia que algo tinha se passado com seu avô. Não sabia o que, nem porque sabia, mas era certo que era por isso que ele estava se sentindo tão mal. Chamou por seu pai, que roncava. Ele deu um salto de seu banco, gemendo coisas sem sentido até conseguir entender o que estava acontecendo ao seu redor.
            - Que foi filho? – ele disse bem calmo em comparação ao menino agitado e desesperado que chorava.
            O menino tentava expressar o problema, mas não conseguia elaborar direito, as lágrimas lhe sufocavam e o pulmão parecia acorrentado -... Meu vô... Meu vô – não passava disso.
            - Deve ter sido um sonho, filho, não aconteceu nada.
            Mas não adiantava, o garoto insistia. Estava certo de que aquilo não era sonho. Tivera pesadelos antes, sabia que eles eram formados de imagens. Nunca os entendia depois de acordar, mas via as coisas. Se de fato ele dormir naquele período deitado no carro, não teve sonho algum.
            Sem ver outra saída, o pai pediu para que seu filho se acalmasse e aguardasse enquanto ele ia tentar tirar sua esposa e sogra da igreja. Conseguiu entrar, tímido, fazendo um sinal da cruz antes de cruzar a porta – pois ele, sim, era católico pré-natal – e, com algum esforço, localizou sua família. Caminhou curvado até a fileira em que elas estavam, como se seu pescoço e cabeça abaixados lhe tornasse invisível. Discretamente, sinalizou para elas, mas não foi visto. Então cutucou a senhora na ponta e pediu, aos sussurros, que ela tentasse chamar atenção de sua esposa. A senhora, cutucou seu marido ao seu lado, que cutucou uma jovem desconhecida ao lado dele, que cutucou a mãe dela, que estava ao lado da mulher procurada. Então ela percebeu que estava sendo chamada e tentou rastejar até o corredor sem causar incômodos, o que não foi possível. Ela e sua mãe, uma atrás da outra, totalmente curvadas, sussurrando pedidos de licença e perdão. Quando estavam todos no corredor, envergonhados correram para fora da igreja, ainda com alguma esperança de que ninguém os havia percebido, nem os estava olhando com reprovação naquele exato momento.
            Do lado de fora, ele começou a se explicar para esposa irritada:
            - É o Nelson que não para de chorar.
            - Mas por quê?
            - Eu não sei, ele não explica direito, só fala que é alguma coisa com o avô.
            - Deve ter sido sonho.
            - Foi o que eu pensei, mas não é. Ele diz que não é.
            - Cadê ele agora?
            - No carro, óbvio, não ia poder entrar na igreja com ele daquele jeito.
            - Vai acalmar ele agora, não vai dá pra sair assim, sem se despedir de ninguém.
            - Já tentei, não deu. Vê se você consegue agora.
            Ela foi resmungando entre a irritação e a preocupação. Seu filho só tinha cinco anos, mas sempre foi tão quieto, até se esquecia dele de vez em quando; fosse o que fosse, não devia ser só brincadeira.
            Chegando ao carro, ele estava quieto, apenas as lágrimas ainda correndo pelo rosto e a respiração seguindo agitada. Tentaram - todos juntos - perguntar de novo o que aconteceu, mas ele continuava sem sucesso em sua explicação. Nem ele sabia direito o que ele estava sentindo, só tinha impressão de que algo acontecera ao seu avô naquele exato momento, e que eles tinham que ir para casa socorrê-lo. A mãe pedia que ele dissesse um motivo, qualquer coisa que separasse aquilo de um susto causado por pesadelo. Ele só dizia que não era pesadelo, não era pesadelo. Cansados, desistiram e entraram no carro. Além do mais, a insistência do menino era tanta que bem podia ser verdade. Voltaram para casa em silêncio, até mesmo o rádio quieto. Chateados por terem praticamente fugido da missa, logo de alguém que havia sido tão importante para família – fato desconhecido à criança, que continuava mal, mas pelo menos aliviada de que estavam a caminho de casa.
            Foi um longo retorno, mas chegaram. Acomodaram o carro na garagem e abriram a porta de casa. Foi aí que o menino saiu correndo. A mãe tentou segurá-lo, mas foi tudo muito rápido. Pediu para que ele parasse, preocupada que algo realmente tivesse acontecido e pudesse apresentar um risco para ele, mas ele não ouvia, já tinha feito todas as voltas pela casa como se soubesse exatamente o quê estava procurando e onde estava. Entrou na cozinha, ofegante da correria, o jogo em seus momentos finais, mas ninguém escutando. A porta da cozinha que levava ao corredor em direção ao banheiro estava aberta, as luzes do banheiro, acesas. Feliz, o garoto correu em direção a porta do banheiro, esquecendo toda a discrição, e a abrindo sem nenhuma cerimônia.
            Lá estava ele, como sempre, com a camisa de manga curta com os botões abertos, deixando a barriga inchada amostra e os pelos ralos no seu peito, a bermuda arriada e seu corpo parte sentado no vaso, parte atirado na pia logo ao lado, o rosto paralisado com a boca aberta totalmente entortada, os olhos de íris enevoadas cercadas pelos globos sempre avermelhados, fixos, como sempre, em um ponto central, sempre sem vida, mas agora ainda mais mortos. Ele não falava, ele não tentava corrigir sua posição; mantinha os braços soltos, largados. Ele parecia denso.
            Sua mãe veio correndo para agarrar o menino e tirá-lo de lá, plenamente consciente do que se passou. Para o menino, tudo girava em confusão, aquelas três pessoas, tão poucas, pareciam um enxame de abelhas enlouquecidas. A avó gritava em semi-histeria por seu marido, alguém chama uma ambulância, alguém chama uma ambulância. Menos, mãe, gritava a filha, pedindo contenção. O pai discava o telefone, acho que é derrame, dizia baixinho para si mesmo, só pode ser. E o rádio indiferente mantinha sua propaganda do Conhaque Presidente, entre cada lanço do jogo cujo seu espectador não pôde ficar sabendo do final.
            Agora luzes vermelhas vibravam pelo céu ao som de uma sirene barulhenta. Entravam homens de branco carregando uma maca. A mãe finalmente conseguiu remover o garoto daquele lugar. Mas ele ainda vira seu avô deitado, sendo levado embora, talvez ainda vivo já que todos corriam tanto, mas ele ainda não tinha tanta noção.  Então a mãe lhe deu um beijo na testa e disse que voltava logo, o pai já estava dentro do carro novamente e a avó gemia e chorava sentada no sofá.
            A noite continuou a passar, mas ele não foi dormir. Queria ver todos voltando. Tentava se distrair com uns brinquedos, mas não conseguia. A avó também não prestava atenção na televisão ligada. Alguém telefonou e ela falou de seu marido, que ele foi levado ao hospital por causa de um derrame, por isso foi embora da missa daquele jeito, mas que não podia falar mais nada, não precisava vir em casa não, estava tudo bem, mesmo que não estivesse, com fé daria tudo certo.
            Era madrugada, mas ninguém aparecia; ninguém voltava. Não queria ir deitar, mas achava que devia. Será que era isso a morte? Será que seu avô não voltava mais e também teria uma missa? Então isso acontecia com todo mundo mesmo. Pensou sobre o que acontecia depois da morte. Já ouvira por aí de céu e inferno, mas não entendia direito o que acontecia por lá. Se você fosse bom, iria para o céu, mau, para o inferno. No céu, ficaria feliz para sempre, no inferno, triste. Mas não importava, sua mãe dizia que não era nisso que nós acreditávamos. Céu e inferno não existem, existem planos espirituais, outros mundos para onde os mortos são encaminhados. Os bons, para lugares bons. Os maus, para lugares maus também. Céu e inferno, mas com nomes diferentes e, aparentemente, eram mais que dois lugares. Não queria morrer; achava que ninguém perto dele morreria, só os outros, mas estava errado, ele também ia ser levado daquele jeito um dia.
            O telefone tocou mais uma vez. Agora sua avó não falava nada, só ouvia. A televisão ainda ligada, mas sem som. Então ela voltou a chorar como antes. O menino, ele também.

sábado, 26 de outubro de 2013

Três Poemas Traduzidos - Michael Ondaatje



Recentemente, vendo uma entrevista com o David Foster Wallace, o ouviu elogiando a poesia de Michael Ondaatje. De início, não reconheci o autor, mas o mesmo sanaria minhas dúvidas mencionando Paciente Inglês, tanto um filme quanto um livro com o qual não tive qualquer contato, mas fiquei curioso de qualquer jeito. Na entrevista ele diz que, sem querer insultar o autor, "Paciente Inglês não é seu melhor livro, mesmo tendo sido um romance fantástico. No entanto, ele fez uma coletânea de poesias chamada 'Uns Poucos Truques Que Eu Sei Fazer Com Uma Faca' [nome que ele dá, mas está errado, pesquisei e o título da coletânea é "Tem Um Truque De Faca Que Eu Estou Aprendendo A Fazer"] que é excelente". Pesquisei e vi que nada da obra poética do autor foi traduzida. Como tradução é um meio no qual eu gostaria de me meter, decidi praticar com uns poemas dele que eu encontrei na internet e achei interessantes. Lá vai:

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Bearhug

Griffin calls to come and kiss him goodnight
I yell ok. Finish something I'm doing,
then something else, walk slowly round
the corner to my son's room.
He is standing arms outstretched
waiting for a bearhug. Grinning.

Why do I give my emotion an animal's name,
give it that dark squeeze of death?
This is the hug which collects
all his small bones and his warm neck against me.
The thin tough body under the pyjamas
locks to me like a magnet of blood.

How long was he standing there
like that, before I came?

Abraço de Urso

Griffin me chama para ir lhe dar um beijo de boa noite
Eu grito ok. Termino o que estou fazendo,
então algo mais, ando devagar virando
o canto para o quarto do meu filho.
Ele está de pé com os braços esticados
Esperando o abraço de urso. Sorridente.

Por que eu dou a minha emoção o nome de um animal,
dou-lhe esse sombrio aperto da morte?
Esse é o abraço que recolhe
todos seus pequenos ossos e seu pescoço quente contra mim.
O corpo magro e firme sob o pijama
prende a mim como um imã de sangue.

Por quanto tempo ele ficou de pé lá
daquele jeito, até eu chegar?

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Application For A Driving License

Two birds loved
in a flurry of red feathers like a burst cottonball,
continuing while I drove over them.
I am a good driver, nothing shocks me.

Exame Para Carta de Motorista

Dois pássaros se amavam
em uma agitação de penas vermelhas
como uma bola de algodão estourada,
continuando enquanto eu dirigia sobre eles.
Eu sou um bom motorista, nada me choca.

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Notes For The Legend Of Salad Woman

Since my wife was born
she must have eaten
the equivalent of two-thirds
of the original garden of Eden.
Not the dripping lush fruit
or the meat in the ribs of animals
but the green salad gardens of that place.
The whole arena of green
would have been eradicated
as if the right filter had been removed
leaving only the skeleton of coarse brightness.

All green ends up eventually
churning in her left cheek.
Her mouth is a laundromat of spinning drowning herbs.
She is never in fields
but is sucking the pith out of grass.
I have noticed the very leaves from flower decorations
grow sparse in their week long performance in our house.
The garden is a dust bowl.

On our last day in Eden as we walked out
she nibbled the leaves at her breasts and crotch.
But there's none to touch
none to equal
the Chlorophyll Kiss

Notas Para a Lenda da Mulher Salada

Desde que minha esposa nasceu
ela deve ter comido
o equivalente a dois terços
do jardim do Eden original.
Não a gotejante fruta suculenta
ou a carne das costelas dos animais
mas a salada verde dos jardins daquele lugar.
A área verde inteira
Teria sido erradicada
como se o filtro certo fosse removido
deixando apenas o esqueleto do brilho bruto.

Todo o verde acaba eventualmente
mastigado em sua bochecha esquerda.
Sua boca é uma lavanderia de ervas girando afogadas.
Ela nunca está no campo
mas está sugando o âmago da grama.
Eu percebi que as próprias folhas das decorações floridas
tornam-se esparsas durante suas performances de uma semana em nossa casa.
O jardim é uma vasilha de poeira.

Em nosso último dia no Eden, enquanto íamos embora
ela mordiscou as folhas em seus seios e virilha.
Mas não há nada que toque
nada que se iguale
ao Beijo Clorofila

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Todos os poemas são de autoria de Michael Ondaatje.
Todas as traduções são de minha autoria (Raphael Dias).

No Brasil, os livros lançados de Michael Ondaatje foram:
Bandeiras Pálidas (2000, Companhia das Letras)
Buddy Bolden's Blues (2001, Companhia das Letras)
O Paciente Inglês (2007, Companhia das Letras)
Divisadero (2008, Companhia das Letras)