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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pierrot, Le Fou [O Demônio das Onze Horas] - Jean-Luc Godard (1965)



Mais um filme do Godard por essas terras e, principalmente, mais um filme do Godard com a Anna Karina no papel principal. Não existe outra atriz tão bonita quanto ela. Talvez até algumas se aproximem (Brigitte Bardot, Sophia Loren, Marylin Monroe, Audrey Hepburn, a lista só cresce), mas superar, isso eu não creio que seja possível. Mas é melhor que eu pule logo para o enredo antes que eu me perca de vez nessa resenha.

Como o Godard espera que eu preste atenção em qualquer outro aspecto do filme...?
A história de Pierrot, Le Fou (Pierrot, o Louco, só que os hábeis tradutores tupiniquins opinaram por "O Demônio das Onze Horas", muito embora não tenha nenhum demônio no filme, nem nada aconteça às onze horas, talvez assim eles pensem que deixa mais misterioso, não sei, mas é melhor que "Demônios da Garoa"), envolve a relação de Ferdinand (Jean-Paul Belmondo, que pode até ser uma lenda do cinema francês, mas quando ele divide a tela com Anna Karina, eu não estou nem aí) e Marianne Renoir (Anna Karina, naquela época, um sinal de que algo divino pode comandar nosso universo). Marianne insiste em chamar Ferdinand de Pierrot, mesmo que ele reprove o apelido; isso pode ser em referência ao palhaço trágico e traído do mesmo nome ou do primeiro grande criminoso procurado da França, Pierre - apelidado de Pierrot - talvez os dois.

Hmm...
Esses dois estão cansados da vida burguesa comum, e isso fica bem exposto na cena da festa, cercada de gente superficial e frases literalmente retiradas de comerciais de televisão. Então eles decidem fugir, deixando um rastro de roubos e assassinatos no caminho; gerando inimizades e problemas. Além de terem que viver uma vida de crimes, a relação entre Ferdinand e Marianne também vai esfriando, ele envolvido em um mundo de intelectualidade, em busca de escrever um romance perfeito que nunca realmente sai do lugar, e ela querendo vivenciar o mundo e se divertir em liberdade.

Aaaah, minha pele está queimando com esse olhar, mas é bom.
Se tem uma coisa que Godard sabe filmar, além de cenas desconexas e filosóficas que deixam o espectador perturbado, é um casal em declínio. Esse foi o primeiro (e se eu não me engano último) longa metragem que ele fez com a ex-esposa depois do divórcio, e a pessoalidade das situações e dos diálogos escorre pelas cenas. É como se ele filmasse afim de descobrir suas próprias emoções, desde o início aventureiro e fascinante, até o tédio da repetição, enfim o adultério e a tragédia.

Sim, quase todas as fotos que eu tirei foram dela, mas eu lá tenho culpa? Estranho seria se não fosse.
Mas não é só do casal que vive Pierrot, le Fou, pelo contrário, são tantas pequenas coisas que seria possível desenvolver um texto imenso analisando cada aspecto, se eu tivesse a competência para tal. A verdade é que é impossível captar todos os detalhes assistindo só uma vez, é um filme que pede por novas visitas, desafiando o espectador a encontrar coisas novas.

O mais interessante talvez seja a forma que Godard brinca com os estilos e gêneros do cinema. Fazendo o que seria um simples filme "casal de criminosos em fuga", ele faz observações sobre a arte (literatura, cinema, música, pintura, cada uma dessas recebe sua citação), filosofa, faz poesia, faz musical, faz sátira, faz crítica a política americana e a guerra do Vietnã, faz humor, faz romance e faz tragédia, até o uso da cor é genial. Tudo ao mesmo tempo e no ritmo de um atropelamento - reza a lenda que esse filme não tinha script, foi acontecendo conforme Godard inventava, porém Anna Karina reafirmou que, mesmo sem script, ele foi extremamente perfeccionista e organizado, eu digo que faz todo o sentido.

Ok, uma pausa. Mas ela ainda está lá no fundo.
Isso me leva a outro fator, a direção. Os dois atores fazem um trabalho espetacular, mas alguma coisa na Anna Karina (e eu juro que isso não é só minha tara falando mais alto) que rouba toda a cena. Outra lenda reza que a tensão entre Godard e Karina era tão forte que os dois se agrediam verbalmente no set - não só nesse filme, mas em outros também -, ainda assim ele conseguia arrancar uma performance perfeita dela e ela mesma era consciente disso - seus melhores anos como atriz foram sob a direção de Godard. Aqui ela atua com os olhos (com os belos olhos azuis que ela tem), cada movimento tem um significado emocional, cada expressão é perfeitamente precisa com o tom da cena. Ela conseguiu, em Pierrot, le Fou, realizar a performance perfeita.

Agora que eu parei pra pensar, ninguém vai ler essa resenha.
Pierrot, le Fou é bem conhecido como o mais apreciado dos trabalhos de Godard, assim como marca uma espécie de transição de fases em sua obra. Aproximando-se do final do filme, a impressão que você, meu leitor, terá depende apenas da sua tolerância para insanidade - eu achei perfeito. Talvez não seja o ideal para uma pessoa que não conhece o diretor sair experimentando, mas para os que já sabem com quem estão lidando, é obrigatório.

Nota: 5/5




sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Filosofando: Escuridão, Luz, Escuridão (Eu em outro blog)

Conhecem a Luana? Não? Pois eu já fiz um monte de propaganda do blog dela e agora vou fazer mais uma. Essa não é tanto uma propaganda, como um aviso de um post sobre um post que ela fez baseado em uma conversa que tivemos sobre um filme. Qual filme? O do título, Escuridão, Luz, Escuridão, curta dirigido pelo checo, Jan Svankmajer, mesmo cara que fez Alice, resenhado agora pouco. Decidi não resenhar o curta aqui, mas conversei com ela sobre ele, essa conversa gerou isso: Link para o Post de Verdade.

Veja o filme aqui e diga o que pensou da conversa:


No fim, acabei concordando com ela, em partes, e, como boa advogada que ela quer ser, ela não perdeu tempo em divulgar a vitória argumentativa...parabéns pra ela.

Alice - Jan Svankmajer (1988)


Certas histórias têm aquele tom atemporal, não é? Têm décadas de vida, acompanharam gerações, mas sempre mantém seu valor cultural. Outras, ainda melhores, são ambíguas o suficiente para sempre carregarem um sentido diferente sempre que são recontadas ou adaptadas. Isso explica o número de adaptações em cima da clássica história de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Isso ou é porque está em domínio público.

Eu não tenho nada a dizer quanto a isso.
Vou começar deixando bem claro que não li o original, embora esteja em meus planos, acho que vi o desenho, mas isso já deve fazer uns 15 anos, não lembro de nada, ainda assim, como todo ser humano que não passou a vida embaixo de uma pedra, eu conheço a história. Só que, dentre todas as adaptações, essa é a primeira que realmente me chamou a atenção.
Ainda nada.
Essa versão não muda muito na história. Alice é uma menina que um dia vai parar em um mundo mágico, sem regras, cheio de criaturas bizarras. Como ela vai parar lá? Isso depende da sua interpretação e da versão que você está assistindo. A diferença entre esta versão checa e as outras está na execução. 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHH!!!!
Enquanto as versões mais conhecidas focam no lado infantil, este foca no bizarro e surreal, deixando clara a atmosfera logo no começo, quando Alice (Kristýna Kohoutová, uma criança competente, mas que nunca mais trabalhou como atriz, aparentemente), ao seguir o coelho pela gaveta que serve de "portal" para o País das Maravilhas, se corta com um compasso, significando que, nessa versão, Alice pode se machucar. 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH!!!!!!!
Outra diferença é a estética das "criaturas". Ao invés de desenho animado ou computação gráfica ou seres humanos fantasiados, essa versão faz uso de stop-motion com bonecos e uma forma tradicionalmente checa de teatro de marionetes. Isso torna o filme, se não mais realista, mais aterrorizante. Sim, por mais que o filme diga logo na primeira fala que se trata de um filme para crianças...não é um filme para crianças. Tem seu lado infantil, mais ou menos, mas as criaturas podem servir de combustível para pesadelos até dos adultos. Sem falar da forma surreal como tudo se move e o clima sombrio, sem música e com apenas uma voz dublando as personagens, da filmagem. Essa Alice é bem diferente das outras, apesar de existir versões que foquem no lado sombrio da história, essa consegue equilibrar os dois lados, deixando tudo ainda mais estranho, o que era o objetivo do diretor, que disse estar desapontado com as outras versões do filme, que o interpretam como conto de fadas, enquanto ele queria filmar um sonho amoral - isso ele conseguiu.

PUTA QUE O PARIU!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!!!!!!!!!!!!
MEUS OLHOS!!!!!!!!!!!!
Uma coisa que pode distrair o espectador são as falas, sempre seguidas de um close na boca de Alice dizendo: "disse o Chapeleiro" ou "disse Alice" ou "Alice pensou consigo mesma". Fica chato depois da 6 vez, pior na versão que eu baixei, dublada em inglês pela Camilla Power, que tinha uma voz bem irritante na época, não sei dizer hoje. Creio que o objetivo fosse separar a história da realidade e realmente incomodar quem assiste, o que é comum no surrealismo, sendo assim, cumpriu seu papel. Existe uma versão legendada e com o áudio original, mas eu só fui descobrir isso depois. Se você está pensando em ver esse filme depois da resenha, procure a versão com o áudio original, deve ser melhor.

Tá, agora o filme acabou de ficar falicamente obsceno...
Se você é admirador da obra original, busque ver esse filme, ou mesmo se você não conhece o original, mas quer uma visão diferente da história (que é o objetivo de toda a adaptação), essa talvez seja a melhor, mas eu não tenho conhecimento o suficiente para afirmar. É estranha, surreal e até assustadora em alguns pontos, mas é brilhante, justamente por causa disso.

E o filme termina da única forma que poderia terminar, considerando as coisas que essa criança teve que presenciar...Alice é uma psicopata.
Nota: 5/5


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Tentativa de Haicai - 7, 8 e 9

Lembram dos haicais? Pois é, deu vontade de fazer de novo. 3 pelo preço de 1, apreciem minha generosidade.

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Nº 7

Nuvens escuras
consomem os verde morros,
somem sob as águas.

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Nº 8

Gotas no asfalto
formam poças, respingam
e são pisadas.

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Nº 9

Das trevas surge
luz inesperada que
a tudo seca.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Pola X - Leos Carax (1999)

Não é pornô!
Apesar do nome, Pola X não é um pornô. Existe a possibilidade de eu resenhar um terceiro filme pornográfico nesse blog (depois de Tudo Sobre Anna e Caligula), mas não será tão cedo - principalmente porque esse processo envolve assistir ao pornô do começo ao fim, com visão crítica, o que é mais difícil do que parece. Pola X é um filme do diretor francês tido como o filho da Nouvelle Vague, Leos Carax, o mesmo cara que fez um dos melhores filmes de 2012, Holy Motors, já resenhado por essas bandas.

Pola X é uma adaptação do romance de Herman Melville, Pierre; ou As Ambiguidades (em francês: Pierre; Ou Les Ambiguïtés - "POLA", viram? Sendo o X o numeral romano representando quantos rascunhos foram feitos para o script, ou seja, 10), que eu ainda não li, mas pretendo - assim como os outros livros do Melville.


É a história de Pierre (Guillaume Depardieu, filho do francês de todos os filmes, Gérard Depardieu), escritor jovem, de sucesso razoável, que mora com a mãe, Marie (Catherine Deneuve - Belle de Jour), em uma mansão herdada do pai. Ele é noivo de Lucie (Delphine Chuillot, que apesar de ser boa atriz, não teve nenhum outro papel expressivo, que eu saiba) e tudo vai bem em sua vida, até que Isabelle (Yekaterina Golubeva, conhecida por filmes estranhos e nudez), filha ilegítima de seu pai, na Europa Oriental, se revela e tudo vira um inferno.

Um prelúdio aos acordeões.
Apesar de o filme ter um tom modernizado, a história não é tão diferente da sinopse do livro fonte, então já dá pra perceber que esse não foi um livro bem visto em sua época, assim como o filme não foi muito aclamado nos dias de hoje. Mesmo assim o filme é ótimo. Leos Carax realmente sabe manejar a câmera, com um ótimo controle do cenário e da luz, conseguindo criar o tom sombrio que, conforme a história avança, vai se aproximando do bizarro, culminando com o sonho em que Pierre e Isabelle são levados por um mar de sangue.

Não censurarei esta foto.
Não é um pornô, como eu disse no começo da resenha, mas tem uma cena de sexo não-simulado entre os protagonistas, o que pode ter contribuído para as críticas negativas. No entanto a cena não me pareceu gratuita. O objetivo da obra original, afinal de contas, era abordar tabu, mesmo que pra isso fosse necessário chocar algumas pessoas. Uma relação incestuosa, nos dias de hoje, não choca em filme, mas o sexo real ainda choca, por algum motivo, então está mais que justificado. Além do mais, a cena é filmada com tanta angustia, que é possível, só por ela, sentir todo o clima do filme.


Assim como em Holy Motors, é possível perceber a crítica social, sempre com muita leveza, sem que o filme se torne político ou engajado. A crítica social servindo como um retrato da sociedade. E Pola X também tem uma cena musical, mais estranha, industrial, porém condizente com a atmosfera do cenário. 

Futebol não é uma exclusividade de The Room.
Tendo visto Pola X e Holy Motors, pude ver o crescimento do diretor. Bem filmado que seja Pola X, a edição, talvez por causa do baixo orçamento, tem alguns defeitos, cortes meio estranhos, nada comparado aos filmes de ação de hoje que fazem um corte a cada dois segundos, as cenas desse filme são longas, mas algumas vezes os cortes parecem deslocados. Distrai um pouco, mas não é nada grave.

"Onde eu tô? Ninguém me disse que iam fazer um filme aqui!"
É um filme que lembra um pouco os primeiros trabalhos do Godard, indicado para as pessoas que gostam do estilo. Sugiro que vejam Holy Motor primeiro, pra testar. Sobrevivendo e gostando da experiência, pode passar pra Pola X tranquilamente.

Nota: 4/5





quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Até o Dia em que o Cão Morreu - Daniel Galera (2003)


Eu acho que essa é primeira obra nacional que esse blog fala sobre. Demorou quase dois anos, mas finalmente aconteceu. E não é nem como se eu evitasse livros nacionais ou coisa assim, verdade que minha estante tem bem mais internacionais - que é uma comparação meio esdrúxula, considerando que envolve um país contra o resto do mundo, ainda assim é bem comum; comparando-se por nações, diria que minha estante é bem equilibrada -, mas li alguns títulos brasileiros, não tão contemporâneos, só nunca me veio a vontade de falar sobre eles, esse caso foi diferente.

Até o Dia em que o Cão Morreu é a história de um cara sem nome, que imaginava que não teria dificuldades com a transição da adolescência para a idade adulta, mas, saindo da casa dos pais, percebeu que a coisa não seria tão fácil. Sem emprego, sem dinheiro, vivendo apenas com seus livros e tragos, ele encontra um cachorro. Cachorro que é meio parecido com ele, sem nome - até certo ponto da história, depois é batizado de Churras -, sem ter pra onde ir nem vontade de ir pra lugar nenhum. Além do cachorro, o protagonista vive uma relação com uma modelo chamada Marcela, que seria um oposto dele, mas nem tanto.

É uma história bem simples, não muito além do que foi descrito acima, tanto que só tem 104 páginas, mas cumpre perfeitamente o seu papel. A narração varia entre o minimalista e o poético, dependendo da necessidade, sempre oral e com tom de memória. Ocasionalmente surgem uns regionalismos, que me fizeram ler mentalmente a história toda com um sotaque gaúcho estereotipado.

Apesar da simplicidade, o enredo conta muito mais que só uma história, coisa que eu sentia falta entre os autores nacionais contemporâneos - internacionais também, já que estamos falando nesses termos. 

O cara sem nome reflete bem a visão jovem atual, pelo menos da classe média, com a ideia errada de que é fácil simplesmente pegar uma carreira e seguir com ela pro resto da vida. E se você não souber o que fazer? E se não quiser fazer nada convencional? E pra quê fazer qualquer coisa se tudo acaba na morte e todo o esforço é esquecido? Não só pelo lado do protagonista, que seria a visão indiferente, mas mesmo a de Marcela, que tem planos e quer conquistar o mundo, os questionamentos permanecem ou até se potencializam, já que pra isso é necessário esforço, enquanto, pra deixar tudo de lado, basta deixar tudo de lado. Esses são alguns dos temas trabalhados pelo livro, muito bem por sinal, e que fazem o leitor pensar um pouco.

O livro foi lançado em 2003 pela Livros do Mal (do próprio Daniel Galera), e relançado em 2007 pela Companhia das Letras. A edição da Companhia das Letras é excelente como sempre, simples, mas com papel de qualidade e muito boa revisão - outra coisa que as editoras precisam começar a levar a sério. No livro todo, acho que percebi um erro e eu não estou tão certo disso.

Se é necessário achar um defeito no livro, eu diria que o final - e isso não é um spoiler -, a carta de Marcela, teria dado uma história muito boa por si só, não precisando ser resumida de forma tão "apressada". Entretanto, pelo contexto do enredo, fez todo o sentido que aquela parte da história fosse contada por carta, considerando a natureza egoísta da narração. Uma mudança de ponto de vista seria uma distração na narrativa, por isso, creio eu, que foi daquele jeito. Ainda assim, aquela carta daria pelo menos um conto, se não uma novela, boa o suficiente. Então o defeito não é bem um defeito.

Uns podem ver o livro e pensar que ele é curto demais, só que não, todas as páginas foram muito bem preenchidas. Terminei de ler em quatro horas - o que é um record pessoal -, sem ficar com a impressão de "algo faltando", muito pelo contrário, a construção é impecável. Um livro que mereceu toda a atenção recebida pela crítica e que eu indicaria pra qualquer um que queira conhecer a literatura brasileira contemporânea.

Nota: 5/5

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Falando de Solidão - Parte 2 [Conto]

Na manhã seguinte, ela já não estava lá, e se não fosse por um bilhete com seu nome, número de telefone e um “desculpe, tive que correr”, teria achado que mais da metade da noite passada não fora mais que um sonho estranhamente realista. “Tive que correr”, quem tem que correr em um sábado de manhã afinal? Não importava, ela parecia exatamente esse tipo de garota excêntrica, das que somem por semanas e depois voltam, como um gato, fingindo que nada aconteceu. Gosto dessas relações, me entendo bem com gente que preza por individualidade. Entretanto, por um misto de respeito e curiosidade - ela deixou o número, afinal de contas -, a telefonei naquela mesma tarde e marcamos um encontro em meu apartamento no dia seguinte.
    Conversamos enquanto ouvíamos discos dos mortos que nós tanto amávamos – Count Basie, Thelonious Monk, Stan Getz -, bebendo duas garrafas de vinho do porto e outra de tinto seco; até que nossas palavras foram inutilizadas e só nos restava o desejo um pelo outro, não só entre nossos corpos, mas entre nossos seres mais profundos; a vontade que eu tinha de fazer parte dela e vice e versa. Um prazer angustiante, pois nunca parecia ser plenamente realizado - sempre chegava ao fim, quando podia durar eternamente. Então falávamos mais um pouco até decidirmos voltar a nos invadir pouco-a-pouco – provando errado o porteiro em Macbeth e sua teoria do vinho que alimenta o desejo, mas mata a performance -, até a exaustão impedir qualquer novo movimento e só nos restar o sono.
    Já nessa nova manhã, fui eu quem tive que correr, porém não tive coragem de despertá-la. Após minha rotina matinal, separei meus papéis para a aula e parei ao lado de Fabi, com seus cabelos espalhados pelo travesseiro e olhos azuis que, mesmo fechados, pareciam cintilar. Levemente, passei a mão pelo seu rosto, afastando alguns fios que o cobriam, tentando não acordá-la, mas ao mesmo tempo esperando que ela acordasse e saísse comigo, já que não sabia exatamente como não deixá-la presa no apartamento, pois só tinha uma chave. Decidi que arriscaria deixar a porta aberta, os casos de invasão de apartamento naquela cidade eram mínimos. Deixei um bilhete ao lado dela, avisando que tinha ido trabalhar, mas, se ela tivesse que ir, a porta estava aberta e ela poderia trancar ao sair, deixando as chaves com o porteiro.
    Mesmo decidido, somente meu corpo realmente deixou o apartamento, minha mente a cada cinco minutos retornava ao quarto para checar o sono de Fabi. E se ela se ofendesse por tê-la deixado lá sozinha. Fabi não parecia do tipo que se deixava ofender por qualquer coisa, mas o que são esses tipos? Naquele momento, no entanto, eu tinha que deixá-la de vez, mesmo mentalmente. Era o professor Tomas que tinha que tomar conta de mim, tinha que entrar na personagem.


Começo do quarto trimestre, hora de passar as últimas partes da matéria e os trabalhos finais, para mim isso equivalia à algumas semanas sobre a Alegoria da Caverna, depois outras assustando aos alunos com questionamentos existenciais que logo eles descartariam como "viagem do professor", e finalmente as provas, exatamente iguais as do ano passado, que são iguais as do retrasado. Então é que me atingiu, não precisa ser assim. Eu tenho liberdade para fazer algo diferente esse ano, mesmo que seja rejeitado pelo gosto dos alunos ou que a maioria não se importe, nada disso importava. Minha vida não precisava ser um tédio planejado, desde que eu me esforçasse um pouquinho. Passaria um trabalho diferente, que exigiria interpretação ao invés das típicas horas lendo e relendo livros e anotações. Ainda envolveria Platão e sua alegoria, um passo de cada vez, não havia motivos para revolucionar completamente. Mas não precisava passar aquela prova, que todos os alunos dariam um jeito de arranjar com um colega ou parente do ano superior, para memorizar as respostas. Algo que todo o adolescente de classe média alta de escola particular poderia arranjar. Eles se juntariam em grupos - cinco, seis, quantos fossem -, arranjariam uma câmera e fariam um curta metragem baseado na Alegoria da Caverna. Sem forma definida, apenas seguindo os conceitos que lhes seriam passados em aula, obedecendo um limite de vinte minutos de duração, na estrutura que mais os agradassem. Tinha certeza que um ou dois viriam com materiais surpreendentes, enquanto os outros ao menos me fariam rir do ridículo ao qual eles se submeteriam.
    Trinta alunos, trinta cópias do texto. Eles passavam as folhas entre si e eu lhes dava um tempo para leitura antes de começar a discussão. Quinze minutos, quinze minutos para eu pensar no sono de Fabi. Será que me esperaria? Eu estaria de volta pouco depois do meio-dia, só dava aula pela manhã nas segundas, mas ela não sabia disso. Merda, poderia ter deixado no bilhete. Mas ela não se ofendeu, pelo contrário, deve estar feliz com a minha consideração por ter deixado tudo tão bem explicado para ela, deve ter reparado no cuidado. Nós estávamos nos vendo há apenas três dias, por que tanta preocupação? Ela é uma adulta independente, ela mesma me avisou. Isso nem é uma relação propriamente dita, só uma garota que eu encontrei no bar e que parece ser bem bacana, bem liberal, não tinha que pensar naquilo, muito menos me preocupar.
    - Silêncio, vocês dois aí! É pra ler o texto, não pra ficar de conversa - avisei para uma dupla.
    - Deu quinze minutos já, terminaram a leitura? Alguém tem alguma pergunta ou comentário? - nem uma alma se manifestava. - Você, Luis, o que você que acha que o texto significa?
    - É...han...é sobre homens acorrentados em uma caverna.
    - Sim, mas o que isso significa? Tem um significado por trás desses homens acorrentados, não tem?
    Ele não respondia, só desviava os olhos por diferentes pontos da sala, como se evitar contato visual me impedisse de vê-lo.
    - Alguém sabe? - desisti daquele.
    - É sobre as coisas que o ser humano não sabe? - perguntou Alana.
    - Isso, isso mesmo. Sobre os mistérios da humanidade. Sabe me dizer um exemplo, Alana?
    - Pra onde nós vamos depois da morte? - mania que ela tinha de responder em interrogações.
    - Sim, é um exemplo muito bom. Mais alguém tem outro?
    - De onde nós viemos - disse Marcos.
    - De onde viemos, para onde vamos, duas das grandes questões que afligem a humanidade, isso mesmo. E o que vocês veem como as sombras projetadas nas paredes? O que elas representam?
    - A resposta para as perguntas? - voltava Alana.
    - Pode ser, pode ser que sejam as respostas. Alguma outra suposição? - todos estáticos. - E se não forem respostas propriamente ditas, mas apenas sinais das possibilidades? O que vocês diriam para isso?
    Alguns ficaram pensativos, outros apenas pediam para que eu não os chamasse - tampouco eu tinha qualquer interesse em os ouvir. Do silêncio, Alberto, que parecia querer se manifestar desde o início, finalmente deixou sua voz ser ouvida, embora que trêmula no começo:
    - E se as sombras forem a realidade e as correntes ilusões que nos distraem dessa realidade.
    - Perfeito, faz todo o sentido, pode dar exemplos?
    - As correntes podem ser as religiões - ele disse.
    - Eu discordo, professor - disse Alana. - E se for o contrário, as sombras forem evidências de algo maior, enquanto as correntes são o materialismo.
    - Mas não faz sentido. A razão não prende as pessoas, não bloqueia a visão, apenas aponta para evidências que dizem que não existe algo maior, um Deus nem nada disso, enquanto as religiões insistem em pregar mentiras, acorrentar os fiéis. Quando aqueles que fogem trazem a verdade, eles são calados - disse Alberto, e eu já não queria interferir.
    - E como você explica o universo, então? Veio de algum lugar, começou, então quem fez? A resposta está nas sombras, mas você está acorrentado ao mundo físico - Alana replicou, dessa vez sem dúvida em sua afirmação, usando tom até desafiador. - O que você acha, professor?
    - Eu não tenho como responder essa. Ninguém tem.
    - Mas o que você acha? - insistiu Alberto.
    - O que eu acho? Eu acho que as evidências apontam contra um motivo ou um deus. Eu não sei dizer de onde veio o universo, mas também não sei dizer de onde veio Deus.
    - Eu acredito - apontou Alana - que Deus, sendo o criador, é eterno e não precisa de criação.
    - Sim, mas isso indica que nem tudo precisa de criação para existir, talvez nem o universo.
    - Mas e aí qual o sentido de existir? - ela continuava.
    - Essa é a questão, talvez não tenha sentido. Talvez seja só isso, e seja bom que nós aproveitemos bem, porque é a nossa única chance. Pode ser que tudo tenha sido criado por um deus benevolente e cuidadoso, e que após a morte nós voltemos para ele. Porém ninguém pode defender com segurança nem um nem outro. Só digo que é perfeitamente possível que não haja motivo para o universo e a vida que se cria nele, assim como pode não haver um criador.
    Alberto sorria vitorioso. Alana parecia abalada, embora não derrotada. Já tivera uma conversa com essa garota antes. Era de criação espírita e tomava grande interesse pelos debates existenciais, muitas vezes tentando me encurralar em conversar casuais depois da aula, só para me ouvir dizer que não sabia a verdade e que ela podia estar certa. E realmente era possível, partindo da suposição de que espíritos são reais, assim como os livros que lançam essas suposições - afirmações, para ser mais exato -, coisa que eu não tinha motivo nem conhecimento para concordar ou discordar. Ela podia acreditar no que quisesse, não mudaria minha vida. Até achava interessante que os únicos momentos em que ela abandonava  a insegurança era quando falava do espiritismo e de suas crenças e ideais.
    Nenhum outro aluno pensava em dizer mais nada e eu estava satisfeito com a discussão que a aula tinha gerado, esperando apenas que minhas outras classes oferecessem argumentação de igual qualidade.
    - Bom, alguém mais tem algo a colocar? Não? Está bem, então eu tenho um trabalho pra vocês, mas não se preocupem, é coisa para vocês prepararem até o fim do trimestre, porque eu não pretendo dar mais nenhuma prova além desse trabalho e da prova final. Mas não se enganem, vocês vão precisar de todo esse tempo. O que eu quero é que vocês se reúnam em grupos de quantos vocês acharem que será necessário, para gravarem um curta-metragem baseado na Alegoria da Caverna. A interpretação pode ser a do grupo, ou seja, não tem resposta errado. O que eu vou avaliar é a criatividade e a compreensão que o grupo demonstrou ter do material. Alguma dúvida?
    - Precisa atuar no vídeo?
    - Não necessariamente, desde que você consiga descobrir algum outro jeito. É necessário que seja um filme, de até vinte minutos, não mais que isso. Pode ser entregue até a primeira semana de novembro, no formato que vocês acharem mais fácil, DVD, CD, fita, não importa, desde que seja reproduzível. Mas alguma coisa?
    Ninguém disse mais nada e o sinal tocou logo depois. Peguei minhas coisas e repeti palavra por palavra toda a aula na outra classe do dia. Incitei a mesma discussão, porém sem o mesmo sucesso, o que me forçou a repetir os argumentos que a outra sala debateu, esperando que alguém concordasse ou discordasse de alguma coisa. Funcionou, porém de forma bem menos expressiva. Depois outra classe e mais outra, a mesma coisa até que tocasse o último sinal da manhã e eu pudesse ir para casa.
    Ao meio-dia Fabi não estava lá, nem nenhum bilhete em seu lugar, somente minha chave com o porteiro, que disse não tê-la visto sair, apenas viu a chave aparecer sobre sua mesa. No fim da tarde daquele dia, telefonei. Quinze toques, ela não atendeu. Tentei novamente no dia seguinte, mesmo resultado. Assim a semana inteira. Talvez ela tivesse se ofendido.

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Obs.: e as resenhas de álbuns? Fodam-se elas, cansei.
Obs2.: esse conto continua.
Obs3.: não sei quando sai a parte 3.
Obs4: Parte 1

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ainda Defendendo a Literatura Como Arte (Best Seller x Alta Literatura)

Não faz muito tempo, escrevi um texto relativamente longo, em comparação com minhas outras tentativas de crônicas/artigos/ensaios, falando sobre o manifesto Silvestre em defesa do best seller comercial, criticando as posições dos autores que o representam, ao mesmo tempo em que defendendo, não a literatura pedante e pretensiosa, mas a literatura como arte, provinda puramente da vontade, do desejo profundo e incontrolável de escrever, de seu criador. Bom, talvez eu não tenha feito uma pesquisa extensa o suficiente para meu texto anterior, talvez coisas novas tenham vindo à tona, acontece que eu estou sendo consumido pela necessidade de falar mais sobre o tema, tentando de todas as maneiras não me repetir e adicionar as tais novas informações. Já aviso, no entanto, que minha opinião se mantém firme, na verdade, só fiquei ainda mais contrário às colocações de determinados autores.

E esse adendo começa com um vídeo. Nada muito longo, apenas uma entrevista que o programa "Entrelinhas" fez com os autores representantes do Manifesto Silvestre, em 2010 ("novas" informações que vieram à tona... - não reclamem, eu não sou jornalista, só sou metido).


E daí, Raphael? O que eu deveria entender com este vídeo? Esses autores me pareceram perfeitamente razoáveis em suas colocações, você diz. E o são, perfeitamente razoáveis. O meu problema surge no final. O entrevistador, talvez inocentemente, talvez consciente da sacanagem, aponta os escritores atuais mais respeitados e premiados no Brasil: Cristovão Tezza, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho (autores dos quais os livros eu já comprei e logo estarei resenhando e relacionando com as coisas que eu escrevi nesses dois textos sobre a briga "comercial versus erudito"). Então ele pergunta se estes autores não se encaixariam nos pré-requisitos do Manifesto Silvestre, e Felipe Pena responde que sim, se encaixariam perfeitamente, pois o foco da escrita destes autores é o enredo, a história, o "entretenimento".

O leitor mais perspicaz já sacou a complicação, mas para você que ainda está cheio de perguntas, eu os respondo com outra pergunta: se os escritores mais premiados do Brasil escrevem para o entretenimento, então por que o manifesto diz que os críticos brasileiros excluem os escritores preocupados em entreter? Só essa resposta do Felipe Pena, de pouquíssimas palavras, já dá fim ao argumento que define a existência do manifesto. Se os escritores mais respeitados do Brasil são escritores de entretenimento, logo escrever um manifesto pedindo mais respeito aos escritores de entretenimento é absurdo. Vou ignorar o que o mesmo autor disse sobre Luiz Ruffato e João Gilberto Noll. Quanto ao primeiro, porque provavelmente foi incompreendido pelo Felipe Pena, já que a intenção de Ruffato com livros como "Eles Eram Muitos Cavalos" não era a de escrever um romance (no sentido de história longa, com personagens, enredo começo-meio-fim), mas de escrever fragmentos, pequenos pedaços de prosa que definissem um dia na grande São Paulo, que juntos se cruzariam, formando algo próximo de uma história, mas não exatamente isso. Quanto ao João Gilberto Noll, infelizmente não conheço sua obra para opinar, mas arrisco dizer que, considerando a credibilidade das colocações dos Silvestres, não deve ser nada tão complicado assim. Estranho, desde que comecei a me interessar por esse assunto, ando ouvindo sobre livros extremamente complexos, que obrigam o leitor a ter um pós-doutorado em teoria literária somente para entender a primeira página, sendo escritos em massa nos dias de hoje, mas ainda não cruzei sequer com um. Nem poderiam argumentar que eu já passei por vários, mas fui capaz de compreendê-los por entender de teoria literária, pois sou bacharel em Comércio Exterior, todo meu conhecimento literário vem da leitura e da prática da escrita, ou seja, se eu entendo um livro, qualquer um que não seja preguiçoso também tem meios de entendê-lo. Tampouco tocarei na questão de que os próprios motivos de ser do Manifesto Silvestre mais parece rebeldia sem causa. Querem que os críticos os elogiem, mas compreendem que o papel do crítico já não é relevante em nossa sociedade. Pedem espaço, mas são best sellers. Concluo que querem aparecer e vender um pouquinho mais, pelo menos mais uma tiragem completa.

Tendo dito isso, uma coisa é fato no discurso dos Silvestres. André Vianco, Luis Eduardo Matta, entre outros, embora sejam os mais vendidos, nunca estiveram entre os finalistas para um prêmio como o "São Paulo de Literatura", ou o "Machado de Assis", ou o "Jabuti". Mas por que isso? O que separa um Felipe Pena de um Bernardo Carvalho? Antes de responder essa pergunta, cuja resposta apenas remete ao meu texto anterior, que foca sobre o valor artístico de um livro, quero tocar em outro assunto que me surgiu recentemente - este sendo realmente recente. 

Talvez vocês tenham ouvido falar das colocações do Raphael Draccon sobre Rubem Fonseca, certo? Se não, aqui vai um resumo (e vocês podem procurar no google sobre essa notícia, muito fácil de achar, pra verificar se o que eu vou escrever procede): Raphael Draccon disse que autores reclusos, como Rubem Fonseca, não teriam chances de publicar no mercado atual, que exige participação ativa do autor em seu próprio marketing. Essa colocação foi reprovada, de início, mas ele já se retratou, demonstrando admiração pelo Rubem Fonseca, mas mantendo a opinião contrária a reclusão do escritor, pelo menos quando este faz fantasia. Além disso, ele também disse fazer uma pesquisa sobre a vida pessoal (ou pelo menos a vida "da internet") dos escritores que o enviam originais - ele é editor do selo Fantasy, da Casa da Palavra, que pertence à Leya. Ele disse que, se vê críticas a outros autores nessa vida eletrônica do candidato, já o descarta, prezando pelo companheirismo no meio literário. Disse, também, que um autor atual precisa de carisma, uma história de vida tão interessante quanto a sua ficção, precisa estar nos lugares e dar atenção aos fãs - aparecer, na falta de uma palavra melhor. 

E eu não sei por onde começar minha análise dessa colocação. Acho que seria bom iniciar dizendo que eu não tenho qualquer intenção em ser publicado pela Fantasy - nada contra a editora, só não escrevo fantasia -, sendo assim, não estou sacrificando nenhuma chance no mercado editorial, afinal, aparentemente, não é aconselhável que um autor tenha opiniões, muito menos as expresse em veículo público. Quer dizer, não defendo essa gente que fica falando mal de autores só porque é divertido falar mal, estou falando das críticas reais e merecidas, seja quanto à obra de um autor ou suas colocações pessoais - caso desse texto.

O que o Raphael Draccon exige de seus autores é uma propensão à vida de celebridade - até o ponto em que é permitido para um escritor atingir status de celebridade, pelo menos -, aparecendo em eventos, dando autógrafos e entrevistas, coisa que nem todo mundo gosta. E eu pergunto, será que esse estilo de vida é necessário mesmo para sobreviver no mercado editorial hoje em dia? E se for, será que isso é algo bom e que deveria ser defendido (como está sendo, em determinados meios)?  Lembro-me dos tempos em que um artista importava pela sua arte, não pelo brilho do seu sorriso, mas hoje entendo que seja utópico. Ler é um passatempo rústico, apesar de tudo; demanda esforço de seu usuário, até mesmo os livros mais simples, afinal não existem imagens, nem cenários, nem sons em um livro, somente palavras e o resto é imaginação. Logo, surgindo outras formas de passatempo que já ofereçam todos esses atalhos, por que se manter com o antiquado, não? Não, isso está errado, mas a maior parte das pessoas pensa assim, então é compreensível que se exija, nos dias de hoje, todo esse esforço de um autor. Mas, e sempre existe um mas, não quer dizer que isso seja certo. É possível culpar um artista por querer apenas que sua arte atinja às pessoas e não sua imagem? Veja Thomas Pynchon, um dos mais aclamados escritores vivos dos EUA, nunca fez uma aparição pública. Tão recluso, mas tão recluso, que existem dúvidas sobre sua real existência. Ainda assim, vende. Poder-se-ia argumentar que a reclusão foi a maior ferramenta de marketing do Pynchon, já que parte de seus admiradores surgiram por curiosidade de saber quem era o tal cara que ninguém nunca vira. Inúmeros autores bons não gostam de aparecer. Ser escritor, por si só, já é uma profissão solitária, sempre foi. Ainda assim, eu entendo que estes escritores são de outras gerações, e que, hoje, não é assim que a banda toca. Eu entendo, não gosto, mas entendo. Com esse parágrafo, só quis expressar minha reprovação quanto a essa nova ideia.

Isso, apesar de tudo, não é importante, assim como a colocação sobre a "publificabilidade" do Rubem Fonseca também não é importante - afinal, se ele fosse autor novo e não fosse publicado, a perda seria toda nossa.  O problema eu vi mesmo foi na repercussão. Posts de blogs explicando o motivo da afirmação do Draccon estar certa, dizendo que o público não procura mais o artista e sim o contrário. Uma geração que tem Google, não se dispõe a procurar um artista. E isso é defendido pela nossa cultura, como se fosse uma consequência da velocidade da geração y. Se existe uma geração que não tem desculpas para sua vasta ignorância, esta é a nossa. Nós temos tudo a uma palavra-chave de distância, tanto as informações certas quanto as erradas, ainda assim, não procuramos os artistas. Melhor eu cortar a primeira pessoa do plural dessa frase, pois eu ainda os procuro, já que não me contento com os que vivem se esfregando na minha cara e me entregando numa bandeja suas informações já mastigadas. Mas, repito, eu entendo essa atitude dos meus contemporâneos. É burrice, mas eu entendo, juro.

Mas isso não é tudo, pelo contrário, é só o começo. Digamos que o comentário sobre a reclusão, por mais triste que seja, é a realidade inescapável; um sinal de ignorância, independentemente, contudo vivemos uma época de glorificação do ignorante como nenhuma outra, então faz sentido. A segunda parte do que o Sr. Draccon disse, e esta não foi retificada, é a que mais me incomoda - e aqui eu insisto em falar apenas por mim, mas já vi outras pessoas com opinião similar, só não gosto de falar por grupos, isso é sinal de autoritarismo. A parte em que ele diz que policia a vida pessoal dos autores que lhe enviam originais para avaliação. E se esse autor disse algo de negativo quanto a ele ou qualquer outro autor nacional? Ele não poderia estar certo? Um escritor brasileiro não pode ser ruim ou fazer uma obra ruim? Aparentemente não, já que o Manifesto Silvestre quer que os críticos saiam aplaudindo qualquer coisa, desde que venda bem. 

Vender, esse é o combustível desses autores, aparentemente. Se vende, é porque é bom, não é? Paulo Coelho vende até não poder mais, Madonna também vende, Michael Bay também explode bilheterias, é isso que vale, não é? Estou exausto só de pensar nisso tudo, no quanto de errado tem nessas afirmações e o quanto tudo isso que eu estou escrevendo é óbvio. Óbvio que seja, parece difícil de compreender. Algumas pessoas não entendem de forma alguma. O mais estranho é que isso só é levado a sério na literatura. Se fosse um Michel Teló pedindo respeito ao sertanejo universitário, dizendo que ele é um artista como qualquer outro e merece o apoio da crítica, todos estariam rindo agora. Se fosse o Uwe Boll...bem, este já convidou seus críticos para lutas de boxe, então não conta. Só digo que, no cinema e na música, existe uma noção do que é bom e o que é ruim. Adam Sandler continua enchendo o rabo de dinheiro, mas as pessoas parecem entender que filmes como "Gente Grande" não são grande arte. Michael Bay, Uwe Boll, Adam Sandler e as pessoas responsáveis por "Todo Mundo Em Pânico" nunca escreveram um manifesto em defesa do filme como entretenimento, criticando os experimentalismos vazios de gente como Jim Jarmusch, Leos Carax e Wong Kar-Wai, elitistas herméticos, desprezados pelo grande público, mas amados pela crítica pedante. Nunca o fizeram, mas eu admito que seria engraçado. 

Mesmo sendo a mesma coisa, ninguém enxerga isso na literatura. Existe essa falácia de que, se é livro, é cultura, então é bom. Ideia bem ridícula se for parar para pensar. Ler não deixa ninguém mais inteligente, se a obra sendo lida é, essencialmente, burra. É como passar a vida assistindo filmes de Hollywood, ninguém vira cinéfilo desse jeito. É masturbação, nada mais que isso. Gente querendo ser entretida por tudo e por todos, sempre. Se para por um segundo, não tem graça. É isso que esses comentários alimentam em nossa cultura. Que é certo só ver a arte como entretenimento e qualquer um que diga o contrário é elitista pretensioso. Mas isso não é nada saudável, acaba com a variedade, torna a arte uma indústria. Isso não é uma crítica contra a escrita comercial e acessível, que fique claro. Esse texto não é, o texto anterior a esse não o foi. É uma crítica contra a atitude "padronizadora" e cheia de regras dos escritores comerciais, que agora querem até controlar opiniões. Não muito tempo atrás eu acreditava que, entre as indústrias da arte, a única que ainda se mantinha aberta e não tão controladora era a literária, mantendo o lançamento de obras provocativas e até estranhas para os padrões comerciais, com determinado sucesso. Só que agora, esses caras decidiram o que vende e o que não vende, decidiram qual deve ser a postura pública de um autor, enfim, o escritor finalmente se tornou um cantor pop, que vale mais pela imagem do que pelo trabalho.

Vejam bem - até porque essa reclamação já está longa e é bom que eu dê um sinal de que estou terminando -, não tenho nada contra o Raphael Draccon, o Luis Eduardo Matta, nem qualquer um dos outros "comerciais", "Silvestres", sejam eles quem forem; nunca os li, para ser bem honesto, talvez tenham qualidade e sejam malvistos pela crítica por causas injustas, não sei, embora tenha vontade de lê-los para resolver logo essa questão para comigo mesmo. Meu problema não é nem pessoal, pois não os conheço. Meu problema é com as coisas que eles dizem que mais parecem aquelas velhas citações do Paulo Coelho que aparecem de vez em quando ("Hermann Hesse é ilegível", "Disseca Ulisses e não dá um twitte"...), vontade de vender por meio da polêmica. Técnica baixa, mas que funciona e, como o objetivo dos caras é vender - e nada além disso -, não dá pra criticar. Agora não acreditem nas tais injustiças e no pedantismo dos críticos. Eu até acreditava, mas hoje vejo que faltam os números comprovando as acusações. Acontece que nem todo o livro é cultura e nem tudo que vende é bom. Livros comerciais podem divertir, podem servir de porta de entrada para obras mais profundas, mas não obrigatoriamente. Essa é a graça da coisa, da arte num geral, não existem padrões, nem limites, e sempre que alguém tenta impor pequenas regras e métodos, esse alguém costuma estar errado.

Obs.: Sim, eu interrompi as resenhas de álbuns por isso, mas não se desesperem, amanhã retorno com a programação normal.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Kansas - Point Of Know Return (1977)


É comum ouvir dizer que, hoje em dia, a boa música está morta. Não deixa de ser verdade, embora eu não aprecie a generalização. Mas, se é pra generalizar, vou mais longe do que todos os outros. Não direi que foi a música de hoje que fodeu com tudo, não direi que foi a década de 90 ou 80 (embora está última tenha dado novos sentidos à palavra decadência). Digo que foi a década de 70. Mais precisamente, 1975.

Nessa época, a indústria estava começando a descobrir como é fácil manipular os jovens. Fato que música pop manipuladora e medíocre existe desde que o mundo é mundo, mas antes não fazia sucesso. Quer exemplo? Quantas de vocês crianças já ouviram o nome Jimi Hendrix? Ah! Todas, muito bem. E quantas já ouviram falar de...eu não consigo pensar em nada esquecível daquela época, isso acaba com a minha analogia. Vamos à década de 70, então, que é o assunto. Quantos já ouviram falar de Deep Purple? Todos de novo, excelente. E Minnie Riperton? Ninguém. E Foreigner? Ninguém também! Logo mais eu explico os motivos pra esse fenômeno, mas agora vamos ao álbum da vez.

Sinta a mediocridade correndo pelos seus canais auditivos.

Serei justo e direi que, reza a lenda, Kansas não estava nos seus melhores dias durante a gravação desse álbum - isso eu digo no sentido emocional -, mas foda-se isso. Point Of Know Return até tem potencial para ser uma música boa, a banda, a parte instrumental da música, é bastante competente, no entanto, quando começa a cantoria a música muda um pouco. Nada crucial, só fica mais leve e deixa de combinar com a levada que a banda estava carregando anteriormente. Por que isso? Não sei, acho que Soft Rock estava entrando na moda, mas antes disso a moda era Rock Progressivo, então eles tentaram misturar. Resultado? Esse desastre.

E essa não é a única faixa culpada de fazer isso, quase todas as músicas cometem o mesmo erro. Em todas elas a impressão que fica é que a banda queria fazer uma coisa, uma coisa mais complexa e pesada, enquanto o vocalista queria outra completamente diferente, Soft Rock à Peter Frampton em seus piores anos (este cara, a propósito, o culpado por tudo de ruim que aconteceu com o rock após a década de 70, na minha opinião).

E todas as outras faixas são iguais também. Umas mais longas, outras mais curtas, mas a estrutura básica é a mesma.

Estou com sérias dificuldades para escolher uma próxima música, porque, mesmo tendo acabado de ouvir essa porra desse disco do começo ao fim e pela primeira vez na vida, já me esqueci de todas as músicas, com exceção de uma que logo cobrirei. Elas se mesclaram na minha cabeça. Só me lembro que elas começavam bem rápidas e complexas, como um improviso à Emerson, Lake & Palmer, e terminam...chatas. Essa é a palavra que define esse disco, ele é chato. E repetitivo.

E o que isso tem a ver com todo meu discurso da música morrendo na década de 70? Bom, é exatamente isso. Eu disse que o rock progressivo estava deixando de existir para dar espaço ao soft rock, essa banda se moldou para seguir a moda. Ela e mais dezenas (Genesis, Yes, até ELP - todas bandas excelente até o fim de 70 começo de 80). Portanto, a repetição de estilo e técnicas da moda, tornaram o disco datado. Em qualquer época eu poderia ouvir esse disco e dizer, isso é de 70, não é? Com a minha experiência musical, talvez até pudesse ser mais específico e dizer que foi feito entre 76 e 78 (assim como I'm In You, do Peter Frampton, e outras abominações).


E aí está a música que, não redime, mas deu uma nota um pouco mais alta ao disco. Dust In The Wind, o grande clássico da banda, única música deles que não foi esquecida, e existe um motivo pra ela. Verdade que as "baladas violão e voz" nunca foram nada novo. Mas esse caso específico tem uma letra suficientemente profunda e uma melodia bonita. O violino também dá um toque interessante e diferente à música. Não é criativa, mas funciona, o que é mais do que pode se dizer sobre o resto das faixas desse álbum.

Claro, isso tudo pode ser uma questão de gosto. Comparando com outras coisas do mercado, as músicas não são ruins, mas isso não quer dizer de forma alguma que elas são boas. Meu padrão de qualidade não é definido pelas coisas ruins que me cercam e eu odeio, mas pelas coisas boas que já me estão a disposição. Gosto é subjetivo, mas as justificativas para a formação do gosto são bastante objetivas. Sendo assim, minha conclusão é que Point Of Know Return é um trabalho datado e esquecível, que, se você nunca ouviu e não se interessa pela época em que ele foi feito, nem perca seu tempo.

Nota: 2,5/5 (bem na metade, pra combinar com a mediocridade) 2 desses pontos são pra Dust In The Wind.

Resenha dedicada à Luana Kraemer, que me indicou essa banda, quando lhe disse que ia fazer uma série de resenhas especiais sobre álbuns.