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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Tony Takitani (2004) - Jun Ichikawa


É impressionante como, não importando o meio, sempre acabo falando do Murakami por aqui. Mas o que eu posso fazer? O cara é genial e eu não me canso dos trabalhos dele. Depois da decepção que foi o filme de Norwegian Wood, quando eu descobri que havia outra adaptação de uma obra dele, corri para assistir.


Diferentemente de Norwegian Wood, Tony Takitani não é um romance de 360 páginas, e sim um conto, o que torna mais de se roteirizar e passar para o cinema. Este conto trata da história de Tony Takitani (Issei Ogata), filho do trombonista de jazz prisioneiro de guerra sobrevivente, Shozaburo Takitaki (Issei Ogata, e viva ao baixo orçamento!), que perdeu a esposa pouco depois do nascimento do filho. Acontece que o Japão não reagiu bem ao nome americano de Tony, que, sim, não é apelido, é o nome de batismo do moleque. Por causa disso, como todos os personagens de Murakami, ele cresceu solitário, mas nem um pouco incomodado com isso. Tony é artista, mas sempre foi visto como frio e extremamente técnico por seus professores e colegas, desistindo da arte e se tornando arquiteto. Vivia sozinho, até encontrar Eiko  (Rye Myazawa). Os dois se casam, mas surgem complicações quando o vício em compras de Eiko se torna excessivo - e acreditem, não é piada machista, é excessivo mesmo.



Não li esse conto, embora eu queira comprar a coletânea que o contém, Blind Willow, Sleeping Woman; mesmo assim, eu sei que esse conto foi gravado com a mais perfeita precisão, linha por linha, cuidando dos mínimos detalhes, como se o cineasta fosse seu escritor. O filme segue até o estilo de narração - o que eu não contei como ponto positivo por motivos que eu vou mencionar logo -, e, no final, quando eu apontar o resultado do Murakami Bingo, é visível que até as esquisitices, ou melhor dizendo, peculiaridades do Muraka foram obedecidas na filmagem.



Esse filme é excelente, é quase impossível de se reclamar de qualquer coisa. Ele é fiel ao material de origem, tem uma trilha sonora perfeita, direção impecável, atuação surpreendente e uma beleza visual típica do cinema asiático. O elenco foi tão bom, que eu tive que fazer uma pesquisa sobre cada um deles (em outras palavras, fui no IMDB). Jun Ichikawa foi um diretor muito conhecido no Japão, embora não necessariamente apreciado, tendo esta como a sua maior obra. Morreu recentemente, e eu tenho intenção de ver outros filmes dele. Issei Ogata também já fez muitos filmes, inclusive em filmes do Ichikawa e do russo, Sukurov, então isso explica a qualidade. Rye Myazawa, que conseguiu transpor a aflição de um vício incontrolável com uma sutileza raríssima, já é mais conhecida por uns papéis inocentes em séries de televisão, no fim da década de 80 e começo de 90. Tudo isso acabou quando ela estrelou em um filme erótico e tirou umas fotos nua. Depois disso, fez alguns filmes bem curiosos, estando Samurai do Entardecer (Tasogare Seibei) na minha lista de futuras resenhas.


Agora o grande problema do filme, aquilo que fez com que ele perdesse, não só a nota máxima, mas um ponto inteiro. O filme, como eu já disse, usa narração, tal qual o conto do qual ele se origina. Isso indica fidelidade, uns de vocês vão me dizer, mas não. Narração só existe na literatura, em se tratando de exposição de enredo e descrição visual, pela falta de imagens, ou seja, não podendo mostrar, eles contam. Nesse caso, a imagem está na sua frente, acontecendo, mesmo assim tem um cara narrando ela pra você. Não é sempre. Se você, o filme seria insuportável. Mas acontece vezes demais e em cenas desnecessárias demais para ser ignorado. Esse é o único problema da obra inteira, exagerar na fidelidade, usando artíficios literários que não se traduzem bem no cinema, quando não usados com cuidado. Godard usava narração o tempo todo, mas ela não descrevia a cena e sim o momento, os pensamentos, o clima da situação. Esse filme só te diz o que está acontecendo, mesmo você já sabendo ou podendo captar. Irrita um pouco, mas não prejudica tanto a obra a ponto de deixá-la ruim, às vezes - quando a narração e a fala se misturam e se complementam - até funciona. Para aqueles que são fãs de Murakami, viram Norwegian Wood e se decepcionaram, vejam Tony Takitani. Não é fã do Murakami, mas quer um bom filme, então leia Murakami e veja o filme.


Nota: 4/5

Resultado do Bingo Murakami:
Não foi dessa vez...

domingo, 26 de maio de 2013

Prisão (conto)


Ela deu uma última passada de olhos pelo escritório em que trabalhava, cuidando para ter certeza de que não deixava nenhuma janela aberta ou impressora ligada ou lâmpada acesa. Já estava acostumada com esse processo, mas não conseguia deixar de se sentir apreensiva quando fechava o escritório. Tinha medo de deixar a porta destrancada e um ladrão aparecer e levar os computadores, o dinheiro, os documentos - mesmo que ninguém pudesse fazer nada com eles -, tudo que havia de valor por lá. Não só pela perda, mas por medo que os itens levados pudessem vir a prejudicar seu trabalho.
            Desligou a luz, abriu a porta para sair, mas, antes disso, deu uma última olhada, mesmo sem poder enxergar nada, esta não de apreensão, mas de saudade, mesmo sabendo que voltaria pela manhã do dia seguinte. Finalmente passou a chave - sempre duas voltas -, na porta e foi até o corredor do andar em que o escritório ficava, a esperar o elevador. Em horários de alta movimentação, é quase impossível pegar um elevador vazio, considerando os dezesseis andares do prédio e seu número enorme de salas, mas às sete e meia da noite é bem rápido. As únicas pessoas no prédio eram a recepcionista - que também já se preparava para voltar para casa -, algumas faxineiras e o segurança. Além de meia dúzia de funcionários como ela.
            Em casa, no entanto, ela não conseguia deixar de pensar nos e-mails que ela deixava de responder estando ali. Despiu-se, ligou o chuveiro e tomou uma ducha bem quente, achando que assim suas preocupações se evaporariam junto com o cansaço e o suor acumulados de um longo dia de trabalho. Realmente funcionou. Ela saiu da água mais relaxada e pensando em nada. Passou a toalha pelo corpo molhado, pelos cabelos longos, pensando no que iria comer naquela noite. Foi até o quarto, enrolada em sua toalha, e abriu o armário, pensando no que vestiria para passar aquelas poucas horas que tinha em casa. Um pijama, uma camisola, uma camiseta velha, grande e confortável. Mas e os documentos que eu tenho que preparar para amanhã? Posso fazer pela manhã, mas aí eu já terei uma série de novos e-mails para responder, mas ligações para atender. E se surgir alguma emergência e nem isso eu tiver tempo de fazer. Seu coração foi acelerando, sua mão tremeu e ela fechou rapidamente a porta do armário. Abriu outra, logo ao lado, na qual ficavam suas roupas casuais. Queria evitar, se possível, mas, se continuasse muito preocupada, teria que ir até o escritório mais uma vez, só para dar fim àqueles tais documentos. Não eram roupas tão confortáveis, mas não eram pesadas, e pelo menos não teria que se trocar de novo, caso realmente viesse a sair.
            Foi preparar um sanduíche e um pouco de café, mas antes, passando pela sala no caminho até a cozinha, ligou sua televisão. Era o jornal que passava, mas ela não estava interessada em nada do que ele tinha dizer, só queria encher seu apartamento vazio de barulho, mesmo que insignificante; qualquer som que não fosse sua própria voz, ecoando mentalmente em sua cabeça. Silêncio é uma coisa que não existe. Quando não são os aparelhos eletrônicos, o abrir e fechar de portas dos vizinhos de passos pesados e bocas que não se calam, dos cães de rua, das crianças que brincam, dos carros, das motos, do vento; quando não é o mundo que faz barulho, é a sua própria mente que insiste em falar com você. Fazer com que você pense em todas essas coisas desagradáveis e desnecessárias, não a fim de te ajudar a encontrar soluções e raciocinar melhor, mas para te tirar da paz que seriam os momentos de absolutamente som nenhum.
            Agora era a cafeteira que ajudava com os ruídos e os talheres batendo, os pratos e os copos. Sua cabeça estava começando a doer, principalmente por causa dos malditos documentos que, enquanto ela estava lá se divertindo e comendo, estavam se acumulando em sua mesa. É isso, vou terminar de comer e voltar correndo até lá para terminar essas coisas. Até porque não é como se eu fosse conseguir dormir com isso em mente, assim faço algo de útil ao invés de me entregar ao ócio.
            E isso ela fez. Oito e meia da noite, pegou novamente seu carro e foi até o prédio do qual acabara de sair. Agora as luzes da recepção já estavam apagadas e a porta automática frente já não abria mais. Teria que ir até os fundos, na garagem, falar com o segurança e pedir que ele lhe abrisse a porta. Por sorte, ele já era um velho conhecido dela, justamente por esse tipo de situação, que não era coisa rara.
            Quando chegou na parte em que ficavam os elevadores, um deles abria suas portas e deixava um homem sair. Um homem de aparência cansada e que deveria estar saindo daquilo que ela planejava entrar.
            Acendeu as luzes do escritório, ligou a impressora e seu computador, respirou fundo e sentiu o alívio entrar por suas veias e seu coração voltar ao ritmo normal. Agora poderei fazer tudo e evitar atrasos amanhã. Finalizou documentos, assinou contratos, deixou algumas coisas na mesa de seu chefe, preparou alguns envelopes para o envio no dia seguinte, respondeu uns três e-mails e, ao olhar para a tela do computador, espantou-se ao ver que já era quase meia noite.
            Repetiu o processo de despedida, desativando, apagando e desligando, fechando e trancando; agora não mais apreensiva, pois sentia ter cumprido seu trabalho. Era exagero, algumas pessoas lhe diziam. Tinha que cuidar de sua vida pessoal, mas de que ela lhe servia. Não é como se coisas boas costumassem acontecer quando ela focava em sua vida pessoal. Entrou no elevador e apertou o botão para o térreo. As portas fecharam e ela sentiu que ele se moveu um pouco, mas não parecia continuar. Talvez eu nem consiga sentir o movimento de tão cansada. Só que os segundos foram passando, mas nada parecia acontecer.
            Ela apertou o botão do térreo mais uma vez, mesmo ele já estando aceso, indicando que fora apertado antes. Apertou várias vezes, como se isso fosse surtir algum efeito, mas nada aconteceu. Então foi para o botão que abria a porta, mas este também não funcionava. Talvez tenham desligado a energia, mas as luzes ainda estão acesas. Além disso, o segurança me viu entrar e me conhece o suficiente para perceber que eu não saí, não teria desligado tudo assim desse jeito, sem nem confirmar que o prédio estava vazio. Realmente a energia não fora desligada, nem o prédio tinha esse costume, mas tampouco o elevador se movia.
            Tentou forçar a porta a abrir, pois é bem comum que as portas de elevadores não sejam tão pesadas. Não tão leves a ponto de qualquer criança curiosa conseguir abrir no meio de um percurso, mas nem tão firmes a ponto de trancar uma pessoa para sempre. Ela não se moveu um centímetro. Nem tremer, indicando algum abalo, ela tremeu. Talvez eu não seja forte o suficiente. Foi ficando mais nervosa e sua respiração foi acelerando. Apertou o botão de emergência, então, tentando chamar a atenção do segurança. Nada, nem um som. Apertou para os outros andares, mas eles não acendiam. Logo, o botão do térreo, que antes parecia reconhecer as ordens que lhe foram passadas, embora incapaz de executá-las, apagou-se também, como se todo o elevador estivesse dando seu último suspiro, contudo mantivesse seus olhos abertos - luzes ligadas.
            A trabalhadora trancafiada desferiu golpes na porta de alumínio, como um animal selvagem recém-capturado tentando fugir de sua jaula. Primeiro devagar, para testar a resistência de seu alvo, então aos poucos ganhando força, até atingir o desespero completo. A força bruta não surtiu qualquer resultado. Gritou, mas ninguém a ouviu. Foi até a sua bolsa procurar seu celular, e, embora tenha encontrado algumas barras de cereais, uma garrafa d'água, um frasco pequeno de perfume, um pacote de lenços de papel e mais uma série de outros itens que até para ela eram desconhecidos, seu celular se mantinha invisível. Cansada, sentou-se no chão e espalhou por ele todo o conteúdo de sua bolsa. Por último, caiu seu celular. Passou seus dedos pelo aparelho, mas este não reagia. Mas eu acabei de carregar essa coisa! E realmente o carregara pela manhã, mesmo assim ele não funcionava. Insistiu mais algumas vezes, apertou uns botões dos quais ela não sabia a utilidade, mas estava em um coma profundo.
            Devagar, foi recolhendo de volta todas as coisas que jogara pelo chão, tentando controlar o ritmo de sua respiração e racionalizar o que poderia lhe estar ocorrendo, e o que poderia fazer quanto a isso. Era o que ela sempre fazia quando o trabalho se tornava mais do que ela podia suportar. Sentava, respirava, pensava e punha ordem em tudo. Estando com sua bolsa organizada novamente - deixando o celular em uma posição de destaque -, olhou seu relógio, antes de passar para a etapa de organização mental. Onze e cinquenta e oito da noite. Mas essa foi a hora em que eu saí. Aproximou os olhos para prestar atenção no ponteiro dos segundos. Como ela imaginava, ele não se movia também. O elevador era como uma área livre de eletrônicos, eliminando tudo, até ele mesmo. Mais informação para ela organizar.
            Vamos recapitular o que aconteceu. Eu saí de casa, voltei ao escritório, fiz meu trabalho, saí do escritório e entrei no elevador. Nesse momento, tudo parou e agora eu estou aqui. Não conseguia chegar a conclusão alguma. Não ajudava o fato de estar exausta e, sempre que parecia encontrar uma linha de raciocínio, seu sono fazia com que ela tomasse um rumo completamente incoerente. Encostou a cabeça na parede fria de alumínio e continuou a pensar, até suas linhas serem tomadas pela completa escuridão, deixando a coerência da vigília de vez.
            Teve alguns momentos de consciência em seu sono, mas só lhe serviram para posicionar seu corpo de maneira mais confortável, em posição totalmente horizontal e usando a bolsa de travesseiro.
            Descansada, mas dolorida, ela foi voltando ao mundo real, piscando rapidamente, para sair da escuridão. Mas não conseguia, a escuridão era interminável, estava cega? Não, foram as luzes que se apagaram. Seu rosto estava meio colado no material de sua bolsa quando ela acordou e, mesmo de pé, ela ainda podia senti-lo esquentando sua bochecha. Não sabia dizer as horas, não podia avisar ninguém de sua condição, só lhe restava esperar que, pela manhã, quando as pessoas estivessem chegando, alguém reparasse o mal-funcionamento de um dos elevadores e chamasse o conserto. Se não fosse seu medo do atraso que este imprevisto traria ao seu trabalho, riria só de prever a reação dos funcionários que abrissem essas portas e a vissem lá dentro. Ainda não podia ouvir nada, então tentou fechar os olhos novamente e dormir, para assim acelerar o tempo.
            Acordou mais uma vez, agora devido a sons vindos do mundo exterior. Sons de golpes, alguém tentando abrir sua prisão, mas sem muito sucesso. Mas como pode um elevador tão duro? Pelo menos agora eu sei que estão tentando me tirar daqui e é só uma questão de tempo. Os golpes continuaram, e, quanto mais tempo se passava, mais barulhento ficavam. Quando já parecia haver passado mais de hora desde que ela acordara, o som passou de golpes, para serras automáticas. Elas raspavam contra a porta, mas não conseguiam penetrar o material. Decidiu ela, então, bater na porta. Não com a intenção de ajudar a abrir, mas para mostrar que ali tinha vida e que eles não podia desistir. Gritou também, chamando aqueles que vinham em seu resgate:
            - Olá! Eu estou presa aqui desde ontem! O que está acontecendo?
            Ninguém respondia. Tentou de novo, quando as serras pararam, mas era como se não a ouvissem. Encostou o ouvido na porta, podia ouvir vozes das pessoas do lado de fora, mas elas não reagiam como se estivessem tentando resgatar alguém. Pareciam só um grupo de pessoas, tentando consertar um elevador que agia estranhamente.
            Fizeram uma pausa, talvez fosse hora do almoço. Ela, pelo menos, estava com fome. Tateou sua bolsa, primeiro testando o celular mais uma vez - nem uma luz acendia na tela -, depois foi atrás da barra de cereais e da garrafa d'água, as encontrando facilmente. Comeu bem devagar, pois não sabia quanto tempo iria ficar presa ainda, e bebeu com a mesma ideia de preservação em mente. Tinha vontade de urinar, mas não tinha banheiro naquele elevador; coisa que ela nem sabia se existia, mas que, naquele momento, a surpreendia o fato de ninguém nunca ter pensado nisso. Por que não? Tantas pessoas ficam presas, um pequeno vazo sanitário, fechado em uma pequena salinha, não é nenhum absurdo. Era bobagem ficar pensando nessas coisas, tinha que ir e não adiantava ter vergonha naquele momento. Arranjou um canto, baixou suas calças e fez o que tinha que fazer, cuidando para não encharcar o piso todo e ficar sem ter onde dormir mais tarde. Fez bem próxima da porta, rezando para que o líquido escorresse pelo pequeno vão entre ela e o piso. Podia tentar, mas nunca saberia, até a hora de seu resgate, se de fato lhe serviu de alguma coisa todo o esforço.
            Passou mais um tempo, que poderiam ser minutos ou horas, voltaram com as pancadas e tentativas de cortes. Nada parecia funcionar, nem mesmo arranhar aquela porta de alumínio. Os funcionários encarregados pelo conserto já estavam com medo daquilo, assim como os funcionários do prédio. Afim de não denegrir a imagem da construção e perder locatários, desistiram. Puseram uma placa de "em manutenção" na porta e deixaram o tempo apagar o acontecido. A prisioneira também, sabendo que não podia ser ouvida pelo mundo exterior, desistiu de seu resgate, calou seus gritos e dormiu. Às vezes ela sonhava com os documentos que não pode entregar, mas logo também isso passou. Tudo que restavam eram alguns poucos funcionário que, vez ou outra, se perguntavam:
            - Mas quando é que eles vão consertar essa coisa?
            Ninguém nunca respondia.

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Faz quanto tempo desde o meu último conto? Bom, terminei meu romance, agora só falta revisar o canalha e mandar para as editoras. Isso ainda vai levar um tempo, então decidi, enquanto isso, postar um conto que eu escrevi um dia desses. É meio que uma releitura de um conto antigo meu, que pode ser encontrado nos porões do blog, mas o refiz mesmo assim, de forma completamente diferente, pois, após analisar meus primeiros trabalhos, concluí que muito do que eu escrevi nos meus primeiros meses é ilegível, embora recuperável. Essa recuperação é o que eu pretendo postar aqui nos próximos dias.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Avengers (Vingadores) - 2012

 
 
Quem diria, um filme mais normal por aqui, não é? Estou tão surpreso quanto vocês. A verdade é que esse ano eu decidi me dedicar mais ao cinema artístico, deixando Hollywood de lado. Além disso, estava com os dois pés atrás quanto a essa adaptação de Vingadores, por motivos que eu logo vou explicar, e que não estavam completamente errados. Essa resenha vai ser um pouco diferente, pois, como esse filme trata de uma reunião de diversas adaptações de quadrinhos, terei que falar sobre cada personagem individualmente. Antes disso, vamos ao enredo.
 
O roteiro é bem simples, típico filme de quadrinhos. Cada herói vive sua própria vida tranquilamente, até que uma merda acontece, esta de proporções tão grandes que eles não podem resolver sozinhos. Samuel "Motherfucker" Jackson aparece e reúne todo mundo. De início eles não querem, mas depois se rendem, sem nunca deixar de fazer graça um do outro - uns mais que outros. No final tudo dá certo, e, sinceramente, não importa. Sério, esses filmes de quadrinhos são quase sempre os mesmos, só mudam os personagens, nesse caso, como se trata de uma reunião, nem isso muda.
 
Por mais que insistam em dizer o contrário, o filme é um Tony Stark e Amigos, ou melhor, um Robert Downey Jr. e Amigos. Convenhamos, nenhum dos atores envolvidos têm tanto carisma quanto o filho do diretor de Putney Swope, os que têm (Scarlet Johansson e Samuel L. Jackson) são colocados em papéis tão secundários que eles poderiam escalar qualquer ator/atriz no lugar. Ouvi por aí que o elenco está puto com o fato do Homem de Ferro ganhar bem mais que o resto, mas ele é o único que merece. Ou vai me dizer que o o cara que fez o Capitão América - que por acaso também fez o Homem Tocha naquela abominação chamada Quarteto Fantástico - faria falta? Vai me dizer que o Thor, que é o ator mais "nada" de toda a produção, não poderia ser qualquer um? Foda-se o Gavião Arqueiro, ninguém sabe quem ele é. E o Hulk... eles tinham o Edward Norton, mas pelo jeito o ator era bom demais pro papel, então eles contrataram esse outro cara no lugar... seja lá quem ele for, mas que também não faz falta. Pra mim foi isso que marcou o filme. Uma tremenda falta de carisma de todos os personagens, exceto o Tony Stark, que també, na minha opinião, já não é tão interessante quanto no primeiro Homem de Ferro - isso mesmo, vi o primeiro e o segundo, mas não faço ideia do que aconteceu no segundo, exceto pelo Mickey Rourke com um chicote elétrico...
 
Estou esquecendo de alguém...? Ah, o vilão, Loki. Meh...tanto faz. No início ele parecia uma grande ameaça, mas como ele sempre apanhava em todos os momentos em que ele estava prestes a fazer algo grandioso, acabou como um alívio cômico pra mim. Principalmente com aquele final (CUIDADO COM O SPOILER), em que o Hulk simplesmente o atira de um lado para o outro. Só, acabou. Toda essa história termina com o Hulk quebrando o vilão, não em uma grande luta, mas em uma cena de 5 segundos.
 
O que me leva a outro problema nesse filme. Veja bem, eu não sou um especialista em quadrinhos, mas, durante a minha adolescência e infância, tive contato com alguns títulos, incluindo Vingadores, Homem de Ferro, entre outros; com isso eu percebi que, não só esse filme, mas todas as outras adaptações, são extremamente seguras. Elas nunca ameaçam o espectador ou o fazem pensar, é sempre a mesma estrutura: exposição de enredo - alívio cômico - ação em CGI - exposição de enredo - alívio cômico - ação em CGI - ... Nunca muda. Não é assim que funcionam os quadrinhos, pelo menos não os bons. Eles trazem alguma tensão e conflito psicológico à história, sem medo de assustar os leitores desavisados. Eles arriscam e saem da zona de segurança, e isso ótimo. Acho uma pena os filmes não seguirem esse modo, pois acho que o público ia gostar desse risco, quando fosse exposto a ele. Minha opinião, posso estar superestimando o gosto do público geral, não sei.
 
Fora esses detalhes, o filme é muito bem feito. Tem seus defeitos, alguns ângulos de câmera meio estranhos e outras falhas de direção, mas nada mais que isso. Por outro lado, não chega a ser nada impressionante tampouco. Uma coisa que me marcou foi o quanto eu me senti estranho vendo esse filme, depois de passar tantos meses só com cinema arte. Foi como beber uma dose de Natu, depois de se acostumar com Blue Label. O tempo todo eu reparava na trilha sonora e como quase todas as cenas tinham música; como não foi dito um palavrão durante o filme inteiro, mesmo com o Samuel Jackson no elenco;  como não houve uma cena de nudez ou violência extrema; me senti estranho vendo uma obra assim, tão leve - só depois me toquei que esse é o normal e que eu estou mal-acostumado. A ideia era boa, teve as falhas de execução que eu já mencionei. Poderia investir um pouco mais na qualidade dos outros personagens, porque é impossível focar o interesse só em um. Mas, mesmo com todos esses detalhes, não deixa de entreter. É necessário desligar o cérebro, no entanto, do contrário, textos assim podem surgir na sua cabeça.
 
Não é ruim, mas está longe de ser bom. Espero estar errado, mas, da mesma forma que Batman Begins simbolizou a reforma dos filmes de HQ, Vingadores pode simbolizar a queda. As boas produções vão acabar gananciosas e contar mais com o próprio nome do que com a qualidade da obra - o que sempre acontece. Tony Stark não vai conseguir segurar essa franquia para sempre - pelo que eu ouvi de Homem de Ferro 3, já está começando a ceder -, e ninguém vai ter costas para segurar todo esse peso. É como se, com os fracassos das adaptações, os estúdios tivessem aprendido uma lição, mas, agora que eles já arrecadaram o suficiente, querem voltar ao estilo porco de antes. Não vai dar certo e eu não criaria espectativa para as inúmeras continuações que este filme prometeu gerar. Saibam que esse comentário é válido para todo o cinema de entretenimento e pretendo expor isso em minha futura resenha de Hobbit - me aguardem.
 
Nota: 3/5 - olha que foi muito...

sábado, 18 de maio de 2013

Vintage Trouble - The Bomb Shelter Sessions (2011)


Olha o que eu achei nas minhas peregrinações musicais pelo Youtube! Sabe, pode não parecer, mas o Youtube, mesmo tendo como foco os vídeos, é um ótimo lugar para encontrar música nova - não só desconhecida, mas realmente nova, no sentido de lançada recentemente. É bem simples o processo, você pega um vídeo de um show ao vivo de uma banda que você goste e vai passeando pelos vídeos relacionados. Eu já garimpei pedras muito preciosas nessas minhas viagens, assim como encontrei coisas muito bizarras. Vintage Trouble é uma das boas, tanto que eu tive que compartilhar com vocês.

Até hoje eles só gravaram um disco, The Bomb Shelter Sessions, e é sobre ele que eu vou falar. Primeiro de tudo sobre o gênero. Vintage Trouble pode ser resumida como uma banda de rock a moda antiga, mas não é só isso. As influências são um pouco mais profundas, indo do blues, ao soul, ao funk; sendo que muitas vezes a influência toma conta do gênero base e deixa o rock em 2º ou 3º plano. Os ritmos também são variados, de modo que é impossível ficar entediado durante a audição, tendo faixas mais rápidas e explosivas (como a inicial, Blues Hand Me Down) e lentas, mais românticas, que me lembraram Otis Redding, sempre caminhando pelos estilos. Isso é necessário, considerando que são 15 faixas no total, variando entre os 2 e 8 minutos de duração.

O que mais me chamou a atenção foi o vocalista. A voz dele é típica dos cantores de soul da década de 50, mas ao mesmo tempo ele consegue ser extremamente carismático. Carisma é uma coisa que anda faltando nos músicos atuais, só me resta imaginar que tudo foi pra ele. Sem exagero, ele é o mais próximo que a nossa geração vai chegar de um novo James Brown, Otis Redding ou Wilson Pickett. O cara é um show a parte e vale a pena assistir as performances ao vivo. Mas não é só ele, já que um vocalista não faz uma banda, todos os músicos mantém o mesmo padrão altíssimo de qualidade, ao mesmo tempo que contendo suas exibições. Em outras palavras, essa banda prova que menos é mais. Um quarteto simples - voz, guitarra, baixo e bateria -, que faz muito mais que várias bandas de oito ou mais peças. Sem falar que eles conseguem tirar um som moderno, sem cair nos modernismos irritantes da atualidade. Não espere ouvir aqui baterias eletrônicas, sintetizadores artificiais, efeitos robóticos na voz, auto-tune, e todas essas abominações musicais pós-modernas. É a banda e somente a banda, dando o melhor de si para fazer música boa.

Eu poderia muito bem destacar todas as faixas, já que não percebi falhas em nenhuma delas. Ao menos não na primeira audição, talvez a impressão não se mantenha no futuro, mas, hoje, não consigo ouvir defeito algum nesse disco. Ele é simples, forte, original e é novo ao fazer coisas velhas. Mas não contem só com a minha palavra, escutem os vídeos abaixo e me digam se concordam ou não. Meu julgamento é que são bandas assim que me fazem acreditar que a música tem futuro, além do passado.

Nota: 5/5





quarta-feira, 15 de maio de 2013

Regina Spektor - What We Saw From The Cheap Seats (2012)


Antes de começar a resenha, um breve anúncio. Agora eu faço parte da rede social Wattpad. Que porra é essa? - você pergunta. Um lugar onde as pessoas vão compartilhando contos e postando histórias. Interessante, não? Também achei quando ouvi sobre isso nesse blog. Então mate sua curiosidade e me visite aqui

(E agora para algo completamente diferente...)

Sabe aqueles músicos que, quando você conhece, você se pergunta: "como é que essa pessoa está gravando desde 2001 e eu só fui conhecer agora?" - Esse é o caso da resenha de hoje. Primeiro de tudo eu tenho que fazer um breve agradecimento à minha baiana favorita, Vanessa Cardoso - que escreve este blog, o qual todos deveriam acompanhar, porque ela é um talento e tanto - por ter me sugerido as músicas dela. Então, obrigado Vanessa!

Quanto ao álbum, é bom que fique claro que tudo que será dito se refere somente à esse disco especificamente, já que, pelo que eu pude ouvir, o estilo dela é muito variável. Este tem um toque mais pop que, no início, me deixou um pouco desconfortado, mas com o tempo eu fui me acostumando e a voz e o piano da Regina me levaram a novas formas de relaxamento que eu nunca antes havia conhecido. A maior parte das faixas tem um ritmo mais lento e romântico, com algumas exceções, mas não muitas. Prestando atenção é possível sentir as influências de jazz, soul e blues que ela carrega em sua música, principalmente "Oh Marcello", que tem interpolações de "Don't Let Me Be Misunderstood", do Bennie Benjamin. 

As músicas são bem curtas, a mais longa tem 4:55, e todas seguem o mesmo padrão de qualidade, tornando-se difícil de apontar destaques ou falhas. O único problema que eu pude perceber, e ele é muito pessoal, foi "All the Rowboats", que extrapola nos modernismos e efeitos de gravação e baterias eletrônicas - interessante que essa é a faixa mais rápida. "Ballad of a Politician", também tem esse problema, embora não seja tão notável. Mas o único problema está nos efeitos, já que a letra e a melodia são bem interessantes e o piano continua genial. 

É meio óbvio isso, mas o destaque realmente está na Regina. A voz dela, combinada com o seu conhecimento de piano clássico, é simplesmente fantástico. Essa foi provavelmente uma das melhores musicistas que eu conheci recentemente, atrás somente de Esperanza Spalding, eu acho. Sugiro àqueles que gostam de boa música.

(um dia depois do post)*Tão bom que até esqueci de dar nota: 4,5/5





quinta-feira, 9 de maio de 2013

Indicação para uma Tag

Fui marcado novamente para uma tag. Dessa vez pelo blog da, muito talentosa, Lyzza, chamado Talvez Inutilidades. Todos os dias, ou quase, ela posta um texto novo, com opiniões e pensamentos, que mais parecem uma chuva improvisada de sentimentos. Se você gosta desse tipo de coisa - eu gosto e a visito sempre que vejo post novo -, siga o blog e comente os textos, porque ela faz um trabalho ótimo e original, e merecesse o máximo possível de visibilidade.

Quanto à tag, na verdade não foi só uma, mas duas. Acontece que uma delas exige fotos de capas de livros e eu não tenho câmera, por isso, assim como a Lyzza, deixarei essa passar. A outra pede que eu responda uma série de perguntas e é essa que eu vou fazer, embora eu ache que foi exatamente essa a outra tag que eu respondi. Como eu não me lembro, respondo de novo. Ah! também teria que indicar outros blogs, mas como eu quero mais é que se foda, se você leu esse post, achou a ideia bacana e quer levá-la ao seu blog, esse mundo é livre - e se não for livre, o meu mundo é, então liberte-se.

Perguntas:

1. Como escolheu o nome do blog?
Foi bem automático, na verdade. Queria uma coisa informal e que fizesse jus às coisas incoerentes que eu pretendia escrever, acabou como Delirando e Escrevendo. Originalmente, a ideia era Em Busca do Blog Perdido, em referência à Proust, mas como eu nunca li Proust, pensei que seria hipócrita da minha parte dar-lhe esse nome.

2. Quanto tempo se dedica ao blog?
Menos do que se imaginaria, visto a quantidade de posts em relação ao tempo de vida do blog. Quase nunca reviso meus posts e minhas resenhas são as mais espontâneas e livres o possível. Respondendo a pergunta, coisa de uma hora por post, dependendo do tema.

3. Já teve algum problema com comentários anônimos no blog? Qual?
Não. Um ou dois spams que o google não detectou, mas acho que a pergunta se referia à críticas e insultos indesejados, certo? Então é não.

4. Você se inspira em outro blog? Qual?
Não. O que não significava que meu blog seja completamente original. Acontece que a minha intenção era postar as coisas que eu estava escrevendo, sem me ligar em quem lê ou quantos - ainda faço isso. Diria que meu blog é egocêntrico, eu falo do que eu quero falar. Agora que tenho uma colunista, embora ela não tenha postado nada ainda, o blog é menos egocêntrico, mas ela também tem essa liberdade de escrever o que lhe vier à cabeça.

5. Quanto tempo está na blogosfera?
1 ano e pouco.

6. Quantos blogs visita por dia?
Poucos.

7. Quantos livros lê por mês?
Menos do que eu gostaria. Sou um leitor lento e, ultimamente, ando mais interessado em escrever que ler. Portanto, um ou dois, em um mês produtivo três.

8. Livros curtos ou grandes?
Repetindo a resposta da Lyzza, "é uma pergunta idiota!" Tanto faz, honestamente, já vi contos com mais conteúdo que muitos épicos atuais - que mais parecem querer imitar filmes do Michael Bay. Deu pra perceber que o que me importa é o conteúdo nas páginas e não seu número, certo?

9. Já ficou sem inspiração para postar? Como superou?
Sem vontade, já. Sem inspiração não, já que muito do conteúdo aqui são resenhas. Perdi minha inspiração para poesias por completo e não acho que vou superar um dia, mas esse é o único caso que me vem em mente de bloqueio, propriamente dito.

10. Pretende mudar algo no blog em 2013?
Não, principalmente porque eu não sei como. Talvez o conteúdo mude, mas isso não será intencional ou previsível.

Espero que tenham gostado dessas respostas. Agora sim eu tenho certeza que já respondi isso antes, mas, como as respostas foram diferentes, não tem problema.

sábado, 4 de maio de 2013

Belle de Jour (Bela da Tarde) - Luis Buñuel

Sempre que eu faço uma resenha, antes de pular sobre o enredo, gosto de inventar uma breve introdução, contando uma história pessoal ou iniciando um assunto relacionado, mas não diretamente ligado à obra resenhada. Bom, nesse caso eu gostaria de iniciar uma discussão que eu possivelmente tratarei em um post individual no futuro, que é sobre as adaptações de livros para o cinema. Por algum motivo, isso é tido como moda atual de Hollywood, mas isso não é um fato e a maior parte das pessoas que gostam das duas formas de arte sabem muito bem disso. Esse tipo de adaptação são, na verdade, mais comuns do que se pensa e não se restringem a Hollywood, passando muitas vezes por escolas artísticas de cinema, como a Nouvelle Vague e, no caso de hoje, a surrealista. Acontece que os livros adaptados por esses diretores nem sempre são sucessos de venda e, por causa de todo o clamor da crítica, acabam mais conhecidos que o original. Belle de Jour é um caso, Bande à Part é outro, Laranja Mecânica (tá, o livro é bem conhecido, mas o filme se tornou muito maior), 2001: Uma Odisseia no Espaço, O Desprezo, Poderoso Chefão (mesmo caso de Laranja Mecânica), O Conformista, entre outros. E daí? Pois é, acho que eu preciso mesmo fazer um texto só sobre isso, porque esse parágrafo se estendeu demais e eu não cheguei a conclusão nenhuma. Mas acho que deu pra entender o ponto geral, certo? Adaptações não são coisa nova e podem muito bem se tornar maiores (note que em nenhum momento eu disse "melhores") que suas origens.


Séverine Serizy (interpretada pela bela Catherine Deneuve) é uma jovem mulher casada da burguesia francesa (burguesia é um tema recorrente na obra do Buñuel). Por ter sido abusada quando criança, ela não consegue ter qualquer intimidade física com seu marido, o sempre respeitoso e paciente, Pierre (Jean Sorrel). Um dia, sua amiga e esposa do melhor amigo de Pierre, menciona sobre uma amiga em comum das duas que trabalha como prostituta. Isso incita a curiosidade de Séverine, e Henri Husson (Michel Picolli), marido da amiga fofoqueira, diz o endereço do puteiro a Séverine. Ela conversa com a cafetina, Madame Anais (Geneviève Page), adota o nome de Belle de Jour e passa a trabalhar meio período como puta. Antes esse roteiro fosse tão simples assim...


Como eu falei em minha resenha de Anjo Exterminador, Buñuel é um cineasta do surrealismo, portanto esse não é um filme para ser visto uma vez e dado por entendido. Posso até dizer que esse filme nem foi feito para ser completamente entendido, isso nem deve ser possível, pois não é intenção do diretor. Acontece o seguinte, durante todo o filme, pequenas interrupções aparecem durante o filme, geralmente - mas nem sempre - apontadas pelo uso de sinos, sendo estas sonhos ou apenas parte da imaginação de Séverine. Aí é que fica complicado. Se você buscar na internet, existem milhares de teorias tentando explicar o que é sonho e o que é real no roteiro, buscando dar um sentido linear a história, só que parte da mágica está nessa ausência de sentido e ampla possibilidade de interpretação - por isso Buñuel é um gênio!

A direção é muito interessante, embora a fotografia seja dita como ruim por alguns. Eu discordo, acho que o tom meio escuro é intencional, considerando a personalidade da protagonista, mas vai saber! Não é tão importante. A total ausência de música também é um belo toque, principalmente porque eu nem percebi esse detalhe até a metade do filme. A história em si é fascinante e deixa o espectador intrigado, tentando reunir as pequenas peças do quebra-cabeça e juntar tudo de forma coerente, eu gosto de filmes assim, que permitem uma abertura para a interpretação de quem assiste. Agora eu fiquei curioso para ler o livro do Joseph Kessel, que gerou tudo isso. Não acho que a adaptação tenha sido fiel e sim que Buñuel tenha pego a premissa e feito algo diferente sobre ela, com o toque pessoal dele. Eu aprovo e indico para todos que leram a resenha e ficaram curiosos, pois também é uma boa obra de introdução a esse diretor.

Nota: 5/5

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Deep Purple - Now What?! (2013)

Ok, eu estava aproveitando a véspera de feriado e trabalhando em meu romance, então, três da manhã, decidi fazer uma breve pausa. Botei um álbum do Led Zeppelin pra tocar, fiquei pensando em como continuar a história de Inocência e, depois dele, o que mais eu iria escrever. Nisso, olhei o calendário e vi que era 1º de maio e ontem lançou o novo álbum do Deep Purple. Eu estou antecipando esse momento desde que eu fiquei sabendo dessa porra desse lançamento e, quando finalmente acontece, eu me esqueço. Não, eu não vou dormir ainda. Vou terminar de baixar esse disco - sim, ele está baixando enquanto eu preparo o post - e, como fã que sou dessa banda, farei uma resenha digna antes do sol nascer, nem que pra isso eu tenha que escrever enquanto escuto. 95%...98%...Verificando...Foi! Foda-se vocês do Led Zeppelin, abram espaço pros profissionais de verdade.

Primeiras impressões: gostei da introdução da faixa de abertura. Um riff lento, com uma atmosfera legal e um fundo orquestrado bacana. Não é o que eu queria, mas é o que eu esperava da formação atual. A voz do Ian Gillan ainda existe e é a mesma desde a década de 90. Por algum motivo, estou esperando uma explosão a qualquer instante...BOOM! Aconteceu, esse é o Deep Purple que eu queria, órgão e guitarra se ajudando, uma bateria pesada, ainda com o mesmo tom dos discos novos, mas, pelo menos a primeira faixa, dá esperança que o resultado final seja melhor. E a faixa já acabou e foi pra segunda...ritmo legal, mas porque porra o Gillan pôs esses efeitos modernosos na voz dele? Ele quer virar robô, é isso? O título da faixa é Weirdistan e, até o momento, faz jus ao nome, mas não é tão bacana quanto a inicial. Tanto que estou prestes a pular ou avançar um pouco, pra ver se muda...tem um solinho de guitarra, mas o vocal é de foder a alma, na minha opinião. Vamos a terceira faixa. Sinos, explosões, uns sons esquisitos, eu estou bocejando, entrou uma orquestra, agora o resto da banda. Interessante, mas a voz do Gillan ainda tá meio fodida. Tira esses efeitos daí Lady Gaga geriátrica! Já estou ficando frustrado. É impressão ou todas as faixas têm o mesmo andamento e refrões estranhamente parecidos. Chega, para a próxima faixa. 

Hell to Pay, agora sim, a vocal voltou ao normal e não tem nenhuma enrolação antes da música. Deve ser interessante ao vivo, com o povo cantando junto o refrão. Bacana, essa parece mesmo Deep Purple e, até agora é minha favorita. O solo de guitarra é legal e, acompanhado do órgão, que também tem direito a um solo, quase me sinto de volta aos tempos em que essa banda dominava o mundo. Bateria e baixo bem sólidos. Um toque de The Nice no meio da música, é? Gostei. Espero que o resto do álbum siga esse padrão.

Bateira interessante na 5ª faixa. Espero que o vocal não destrua tudo, porque a banda está fazendo um ótimo trabalho nesses primeiros momentos. Não, o vocal não estraga tudo! Muito bem Flipper, é assim que eu gosto! Tá certo que a faixa é quase toda instrumental, mas isso é ótimo, me faz lembrar dos improvisos de 20 minutos que eles costumavam fazer em 70. Próxima, Above and Beyond, introdução longa demais? Não, ela está construindo bem a música, mas ainda fico com medo, principalmente quando o Gillan demora pra entrar. Ótimo, outra faixa com vocal limpo, acho que eles já imaginavam que eu ia reclamar. A estrutura geral da música também mudou bastante, contudo de modo positivo. É mais leve, de certo modo e tem uma melodia legal. Blood From a Stone, outra mais cadenciada, mas o vocal também é limpo e, só isso já faz que eu goste. Vai ficando mais pesada e distorcida com o passar do tempo. Talvez seja impressão minha, mas o timbre da guitarra do Morse tem menos personalidade que o do Blackmore - não é comparação, já é tarde demais pra isso, só estou observando. Bom, gostei dessa faixa também. Olha, desde a 4ª música, todas estão excelentes, e a 1ª também é satisfatória. Nada a acrescentar sobre Uncommon Man, só que ela segue o padrão das faixas boas do disco, está resenha está caminhando em direção de uma nota boa, senhoras e senhores.

Tá bom, Apres Vous foi tirada de uma música de Emerson, Lake & Palmer, com essa introdução, só pode. Isso não é uma reclamação, essa faixa também é trés bien. All the Time in the World e o disco vai chegando às últimas faixas, sem perder o ritmo. A faixa também é um pouco mais lenta, mas isso combina com a letra e o ritmo é legal. Vamos à última e à faixa bônus, antes de julgamento final. Vincent Price começa com órgãos à Bach e tem um coral interessante. Um clima clichê terror, à Alice Cooper, com a merda do efeito nos vocais - vá pra puta que te pariu Gillan, logo na última faixa, quando tudo estava indo tão bem, caralho! Aí você tá querendo foder comigo. Salve-me, faixa bônus! Obrigado! Graças a faixa bônus, It'll Be Me, o álbum termina bem. Muito bem, gostei do clima antiquado da composição. 

Bom, a primeira faixa já dá sinais de que coisa boa está por vir. Salvo os tropeços, por culpa dos vocais moderninhos, o álbum é bem sólido e muito melhor do que eu esperava. Não é In Rock, mas quantas bandas conseguem chegar nesse patamar duas vezes? Nenhuma! Pelo menos eles tiveram a dignidade de fazer um trabalho muito. Além disso, como não dá pra usar esses efeitos de merda ao vivo, essas músicas devem ficar muito boas nos shows. Então, como sempre em se tratando de Deep Purple, mal posso esperar para ouvir essas músicas ao vivo, quando eles brilham de verdade.

Nota: 4/5 - Cacete, essa resenha deve ter ficado muito esquisita...Bom, pelo menos é original. Quantos sites você conhece que fazem uma resenha apresentando as reações em tempo real? Nenhum, só eu faço essas merdas.