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domingo, 31 de março de 2013

Kroll Show - 1ª Temporada


É, aqui estou eu, de novo, falando de uma série, dá pra acreditar? E não vai ser a última vez, só estou esperando as temporadas das que eu acompanho acabarem. A primeira delas foi Kroll Show, que acaba de chegar ao fim de sua primeira temporada e já está confirmada para uma segunda. Pra quem não sabe, é bem comum para um comediante, em um determinado momento de sua carreira, receber uma oferta para liderar uma série de televisão. Aconteceu com Seinfeld, Dave Chappelle, Chris Rock, Larry David, quase todos os comediantes stand-up da história. Esse é o caso de Nick Kroll, comediante mais conhecido pelo seu trabalho em "The League", uma série razoável, que vai chegar a sua 5ª temporada esse ano. Kroll Show é a série dele, e somente dele.

Vamos a premissa. Pra falar a verdade, Kroll Show não tem um enredo linear e coerente, é um programa de esquetes rápidas. Cada episódio leva em torno de 5 esquetes, com começo meio e fim, mas que ficam variando entre si - talvez isso fique mais claro se vocês assistirem um episódio. Os temas dessas esquetes são sátira, só isso, sátiras dos reality-shows, comerciais e da televisão americana atual. Sabe esses programas que acompanham a vida de cirurgiões plásticos, músicos, donos de empresa de publicidade, gente rica, e por aí vai? Essas são as sátiras. Algumas acompanham toda a temporada, outras são apenas para o episódio. Algumas são hilárias, outras irritantes, mas a maior parte é extremamente real. Pode ser difícil pra quem nunca teve TV a cabo e não sabe como é a televisão americana, mas pode ser traduzido, se você imaginar um programa satirizando Zorra Total, Big Brother, as novelas, enfim, todos os programas de qualidade duvidosa da televisão brasileira.

Não consegui formar uma opinião completa sobre esse programa. Como eu disse, algumas das esquetes são engraçadas, mas outras são extremamente chatas e irritantes, a ponto de você ter que baixar o volume da televisão (computador, no meu caso), porque era tudo muito barulhento e pulsante. Os quadros, como eu disse, são interligados, então em um momento nos vemos um sobre um cirurgião-plástico canino, mas sem nenhuma explicação, o quadro corta para outro sobre dois amigos milionários e babacas. Todos os episódios são assim, provavelmente com o objetivo de satirizar o déficit de atenção do publico norte-americano, fazendo, então, um show hiperativo - isso é potencializado até nos créditos de abertura (o título do show, inserido em diversas marcas e referências a cultura pop, ao som de música eletrônica). Eu não tenho déficit de atenção, então quase fiquei louco assistindo os episódios. 

A série é razoável. Gostei dos primeiros capítulos, mas quase desisti de acompanhar no meio do caminho. Se não fossem só 8 capítulos, com certeza teria abandonado. Não decidi se assistirei a 2ª temporada, talvez se os roteiristas tomarem um calmante. Se você gosta de sátiras e não se incomoda de tê-las atiradas em sua cara a cada dez segundos, sem nenhum intervalo ou pausa para respirar, essa série é pra você.

Nota: 3/5





Agora imagina esses vídeos saltando da sua tela e tentando te estrangular.



sábado, 30 de março de 2013

Oito e Meio - Federico Fellini


Existem filmes que eu assisto uma vez, me divirto e deixo pra lá, não retornando nunca mais a eles. Outros são tão divertidos que eu sinto a necessidade de voltar algumas vezes mais, só pra reviver o momento. E outros, esses mais raros, te intrigam a ponto de exigir que eu o revisite inúmeras vezes, e sempre que eu volto, o filme muda por completo. É a primeira vez que assisto Oito e Meio (8 1/2) de Federico Fellini, mas com certeza não será a última.

Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é um diretor que, recentemente, atingiu grande sucesso na indústria do cinema. Ele decide tirar umas férias, mas ninguém o permite descansar. Atores, atrizes, produtores, todos querem ouvir qual será a próxima grande obra do diretor. A pressão é tanta, que ele decide inventar um rascunho, para tranquilizar os que o cercam. O problema é que, a curiosidade geral vai aumentando, mas ele continua incapaz de criar uma história, a ponto de duvidar se o que ele tem é apenas um bloqueio, ou se a sua sorte - que ele pensava ser talento - acabou. Nesse período, somos apresentados a vida pessoal de Guido, sua esposa, seus amigos, suas amantes, em uma mistura de história e imaginação. Os devaneios e memórias do diretor vão invadindo o enredo central, de modo que não é mais possível saber o que é real ou não.


Essa é a minha primeira experiência com uma obra de Fellini. Encarei o filme zerado, sem nenhuma ideia do que se tratava a premissa, ou qual era o estilo do diretor. Admito que, depois do filme, precisei pesquisar mais sobre para confirmar se eu tinha realmente entendido corretamente a base do trabalho. É um filme fortemente autobiográfico e fascinante. Toca diversos conceitos, sem nunca se aprofundar em um a ponto de se transformar em propaganda, mas com desenvolvimento o suficiente para gerar questionamento. Trata sobre sexualidade, fidelidade, catolicismo, arte, tópicos extremamente italianos, agora que parei pra pensar.


De início, o filme é bem realista, embora com alguns toques de simbolismo. Contudo, ao passar a história, somos apresentados às primeiras memórias de Guido, sua infância, sua vida na escola católica e seu despertar sexual. Então as memórias se transformam em fantasia e realmente entramos na mente de Guido - ou talvez na de Fellini, mesmo.


As atuações, a direção, tudo é perfeito no filme. As imagens são realmente incríveis, embora bastante primitivas, considerando que é um filme de 1963 e em preto-e-branco. Como eu disse, essa resenha não é uma análise profundada, e sim uma apresentação a essa pequena obra de arte, não muito comentada nos dias de hoje. O diretor, Martin Scorcese, disse já ter visto esse filme inúmeras vezes, mas ainda não conseguiu compreendê-lo por completo. Eu, obviamente, também não consegui, mas já digo que este conseguiu entrar para minha lista de filmes favoritos e devo revisitá-lo muito mais vezes nos próximos anos. Uma obra realmente incrível.

Nota: 5/5

quarta-feira, 27 de março de 2013

El Angel Exterminador (port.: O Anjo Exterminador) - Luis Buñuel


Eu sempre digo que toda a arte está, de uma forma ou de outra, conectada. Fiquei sabendo da existência desse filme, por causa de uma piada de "Meia Noite em Paris", do Woody Allen - já resenhado por aqui. Nele, o protagonista (Owen Wilson), tendo a chance de "visitar" a Paris da década de 20, conhece Luis Buñuel, em uma festa, e lhe sugere o enredo de "O Anjo Exterminador", que acaba intrigando e confundindo ao próprio Buñuel - que na década de 20 ainda estava para fazer sua estréia no cinema surrealista, em parceria com Salvador Dalí. Não tinha entendido a piada, pois não conhecia o filme, portanto fui atrás e, se não me engano, prometi resenhá-lo. Isso faz quase um ano. Assisti ao filme, faz um bom tempo, mas me esqueci de fazer a resenha. Embora a história não esteja tão fresca na minha mente, ainda lembro bem do filme e darei minha opinião sobre essa pequena obra de arte do cinema.
 
 
 
Uma família da alta sociedade dá uma grande festa. Convidam todos os seus valiosos amigos - ênfase no valiosos -, servem um banquete, champagne, música, tudo uma beleza. As horas passam, mas ninguém vai embora, todos dormem na mansão, se acomodando, literalmente, em qualquer canto. No dia seguinte, a festa prossegue e, enquanto os anfitriões se perguntam o porquê de ninguém ir embora, todos passam mais uma noite por lá. O tempo passa, mas ninguém consegue ir embora. Por quê? Essa é a questão que tanto intrigou Buñuel em "Meia Noite em Paris". Parecia tão simples, simplesmente se dirigir até a porta, mas não é possível. O primeiro motivo apresentado para justificar a relutância dos convidados em sair é que ninguém quer ser o primeiro a partir, pois isso parece ser rude. No entanto, está tudo resolvido, todos estão conscientes da complicação e ainda assim ninguém sai. Agora, não por falta de vontade ou educação, mas incapacidade. Como se uma força, sobrenatural ou não, os prendesse na sala principal. Acaba a comida, acaba a água e as pessoas começam a se desesperar e a remover as máscaras da falsa amizade burguesa.
 

 
É um filme complexo, cheio de símbolos, surreal e de interpretação livre. Muitas coisas são deixadas sem explicação, como, por exemplo, o motivo que os prendem a sala, os carneiros andando pela mansão, o urso, a igreja. Existe uma crítica bem óbvia a hipocrisia burguesa e como toda a nobreza se destrói em momentos extremos, além de uma forte referência à peça "Entre Quatro Paredes", de Jean-Paul Sartre. A diferença é que, a sala da qual as personagens de Sartre não podem sair é o inferno, enquanto nada indica que a sala de Buñuel seja sobrenatural ou metafísica. Tudo que acontece lá dentro, segue a lógica natural do universo, a única lógica quebrada é o fato de ninguém poder entrar ou sair.
 
 

 
 
As atuações são fantásticas e a direção é perfeitamente sufocante. É impossível não se sentir trancado naquela sala, de modo que o filme, que tem duração de uma hora e meia, parece durar semanas ou sei lá quanto tempo os convidados ficaram presos na casa. Muitas questões surgem na mente do espectador e, chegando ao fim, se torna muito angustiante ver que quase nenhuma será respondida. Muito pelo contrário, muitas outras perguntas surgem no fim do filme.
 
 
 
Para quem gosta desse tipo de cinema, artístico e surreal, nem será necessário sugerir, pois já está na sua lista ou você já assistiu. Se você não conhece esse tipo de cinema, sugiro que dê uma chance. Garanto que é diferente de tudo que você já viu, sem se tornar "chato" - como o cinema "arthouse" muitas vezes é visto -, sendo, na verdade, uma experiência surpreendente e fascinante.
 
Nota: 5/5
 
 


sexta-feira, 22 de março de 2013

A Credibilidade do Crítico - Em referência ao vídeo "Afinal quem tem cacife para falar de literatura"

Não costumo assistir muitos vídeos no youtube - pelo menos, não acompanho muitos canais regularmente -, mas vi um da Tatiana Feltrin, que mantém um canal literário - talvez o mais conhecido entre eles -, tratando de um tema bastante interessante, "quem tem cacife para falar de literatura". É o segundo vídeo que eu assisto dela, o primeiro sendo sobre as traduções de Ulisses, e concordo com ambas as opiniões expostas. Mas isso não vem ao caso, já que esse texto não é necessariamente uma resposta a esse vídeo. Quem não viu e quer ver o vídeo em questão, para ter uma noção de contexto, clique aqui.

O que deu início a essa discussão, de acordo com o vídeo, foi uma observação de outro canal literário, cujo nome não é citado e eu não me interessei o suficiente para procurar descobrir, sobre o David Foster Wallace e "como algumas pessoas que falam sobre ele não têm cacife para tal". Nunca li nada do cidadão, só o conheço de nome, e pelo filme "Breves Entrevistas com Homens Hediondos", que eu vi faz 3 anos e não achei lá essas coisas - o livro deve ser melhor. Resenharia o filme, mas me falta coragem para vê-lo de novo, lembro que ele ficava bem chato depois de um tempo. Mas esse não é o tema, de novo. Acontece que o Wallace se enforcou e, portanto, virou gênio inquestionável (lembram da minha teoria da Hipérbole de Caráter Post-Mortem). Aconteceu com o Michael Jackson, com a Amy Winehouse e até, mais recentemente, com o medíocre do Chorão. Se ele é, ou não é, tudo isso, não sei; mas o que é o tal cacife, que muita gente não tem, necessário para criticar uma obra dele?

Muitas coisas podem vir a ser o tal do cacife. Conhecimento teórico, número de livros lidos, conhecimento sobre o autor etc. Mas isso seria necessário para um trabalho acadêmico, não para uma resenha de blog. Enquanto um artigo sério, ou monografia, tem por objetivo analisar profundamente uma obra, a resenha, ou crítica, não passa de uma opinião. Às vezes o crítico é diplomado e tem um vasto conhecimento sobre o assunto e a obra, outras é só um babaca metido a engraçado, que acha que leu o suficiente para  publicar suas opiniões e tentar alertar o público sobre os prós e contras do alvo. Mas isso realmente importa? afinal, que porra é o crítico e pra quê ele serve?

Não faço ideia de quando surgiram os primeiros críticos, mas não posso deixar de imaginar que o primeiro foi algum coitado que queria muito se tornar um artista, mas não conseguiu desenvolver nenhum talento, portanto, decidiu impôr regras e detalhes, só para dificultar a vida dos outros. Sim, o crítico é um grande filho-da-puta. Em uma coisa o crítico acerta, existem diferenças de estilo e estética entre obras e isso pode ajudar a definir sua qualidade, no entanto essas questões estéticas são variáveis e dependem muito de época. O que hoje é uma merda, amanhã pode ser genial; assim como obras antigas, ditas como vulgares e até banidas da sociedade, hoje são alvo de estudo em grandes universidades - vide o poema Uivo, de Allen Ginsberg, que nunca foi banido realmente, mas tentaram.

Existem cursos e universidades que tentam ensinar teoria, seja ela literária, musical ou cinematográfica, mas de que vale um diploma? O crítico deve ser visto como uma autoridade, ou como uma opinião a mais? Decidi trazer como exemplo, um dos mais renomados críticos de cinema ainda vivos, Roger Ebert. Já citei esse cara aqui antes, de maneira positiva, agora vou fazer o contrário. Talvez vocês já tenham ouvido falar do filme "I Spit on Your Grave"(foto 1), de 1977? Não é uma grande obra de arte do cinema, tem algumas atuações competentes, uma direção razoável e cumpre o que se propõe a fazer. No entanto o "ó tão grande Ebert", deu 0 estrelas ao filme, dizendo que era um lixo sádico e doentio. É verdade que o filme tem seus momentos de sadismo, como uma cena de estupro detalhada, que dura 25 minutos, mas é o que se espera de um explotation sobre estupro e vingança. Sim, a estuprada se vinga de seus estupradores no final, de forma bem cruel e satisfatória. Não é meu filme favorito nem de perto, mas merecia pelo menos 2 estrelas (sendo 4 o número máximo no padrão do Ebert).

Foto 1 - Camille Keaton vendo sua carreira ser destruída diante dos seus olhos. Fico imaginando qual seria a reação do avô dela, Buster Keaton. Nenhuma, provavelmente... 
Tá bom, então porque eu discordo de uma opinião, o valor do crítico desaparece? Não. Esse não é o problema, se o Roger Ebert quer dar 0 e depois tentar banir um filme dos cinemas, por causa de uma cena de estupro muito longa, bom pra ele. Acontece que, anos antes, em 1972, foi lançado "Last House on the Left" (aqui conhecido como "Aniversário Macabro" - foto 2). Outro filme de terror, explotation, que tem uma cena gráfica de estupro, seguida de uma série de vinganças ainda mais sádicas. Obviamente Roger Ebert deu 0 para esse filme também, não? Não, ele deu 3,5 e disse ter sido "tão bom quanto o esperado". Acho que ele prefere quando duas mulheres são torturadas, sendo uma eviscerada. É muito mais humano e sadio, não é Ebert? Ah, mas Last House on the Left faz referência a Jungfrukällan (no Brasil, A Fonte da Donzela), de Ingmar Bergman e, portanto, deve ser bom.

Foto 2 - Porque é muito mais humano quando um estuprador crava seu nome na vítima. (Eu sei, essa cena não é tão forte, mas eu estou tentando manter um blog de família aqui)
Outro exemplo, também do Roger Ebert e, também, com referência a I Spit on Your Grave, é o caso de Irrevérsible (foto 3) - que me recuso a traduzir e ainda exijo que todos usem a pronuncia correta do francês, quando lerem esse texto mentalmente -, outro filme com uma cena de estupro e agressão de, aproximadamente, 10 minutos de duração e, mais tarde, temos a chance de ver o rosto do estuprador ser destruído - vocês nem imaginam a quantidade de detalhes - por um extintor de incêndio. Lindo, espetacular, 4 estrelas, sabem por quê? É francês e isso basta! Sabem qual o nome desse tipo de atitude? Pretensão. E pretensiosa é a pessoa que sai por aí dizendo que é necessário um certo cacife para julgar David Foster Wallace, e é pretensiosa a pessoa que esquece seus aparentes ideais por causa de uma influência ou nacionalidade. É pretensiosa a pessoa que diz que é necessário um diploma de cinema para entender algo sobre essa forma de arte, mas que chupa o Quentin Tarantino - um dos favoritos entre os estudantes de cinema -, mesmo este não tendo nem o ensino médio. Convenhamos, educação formal não serve de muita coisa - talvez discorra sobre isso outra hora.

Foto 3 - Viram, isso sim é arte, bem mais francês que os outros dois filmes.
Mas não é só a moça do vídeo que eu não vi, nem só Roger Ebert que podem ser culpados de pretensão. Eu também posso. Eu dei uma nota baixíssima para "Aventuras de Pi" por não ter achado o "argumento ontológico" que ele apresenta, convincente o bastante - com essas palavras. E não sou só eu, todo o crítico (amador ou profissional) tem um gnomo pretensioso morando dentro de si. Às vezes o crítico o alimenta, às vezes o silencia. O meu, eu sei que teve orgasmos durante a minha resenha de Putney Swope. O problema é quando o crítico deixa de julgar uma obra e começa a flertar com a autoridade; aí sim, a coisa fica feia. Quando o crítico decide que, não só um filme é ruim, mas ele deve ser banido de um país para que ninguém possa experimentá-lo, por exemplo.

Cacife é uma coisa que deixou de existir com o surgimento da internet, simples assim. Qualquer ser humano é capaz de gerar opinião, e, para expressá-la hoje, basta uma conexão na internet. Uns serão mais vistos, outros serão completamente ignorados, uns têm um alto conhecimento técnico, outros não têm nenhum, e é essa a beleza do negócio, essa total liberdade de expressão e de troca de ideias. Alimente seu gnomo de vez em quando, mas não pense que você é uma autoridade, porque nenhum crítico é, ou um dia foi.


Obs.: O crítico Roger Ebert morreu nesta quinta (4/4/13). Isso não significa que eu vá mudar qualquer coisa nesse texto, mas eu gostaria de deixar claro meu respeito por esse grande crítico e escritor. Nesse texto eu aponto alguns erros em seu raciocínio, mas isso não muda o fato de que ele revolucionou a forma de se fazer uma crítica, merecendo todos os prêmios e fama que ele adquiriu. (Editado em 5/4, 11:45)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Revolutionary Road (Foi Apenas um Sonho) - Livro x Filme

Eu poria a capa do livro ao lado do cartaz do filme, para indicar comparação, mas a Alfaguara decidiu imprimir a capa exatamente igual a do DVD...

 
Já faz muito tempo que eu tenho vontade de fazer esse post e falar sobre esse livro, mas, como o filme foi tão bem falado, achei que eu devia fazer uma espécie de comparação entre os dois, ao invés de falar sobre cada um individualmente. Lembro desse filme, na época em que foi lançado. Minha reação foi - "casal do Titanic? 'Foi Apenas um Sonho'? Nem fodendo que eu assisto essa merda". Muitos anos antes, em uma conversa em um sebo, descubro que esse filme era uma adaptação de um livro perdido da literatura americana, escrito por Richard Yates, que levava o nome de Revolutionary Road (Rua da Revolução). Eu li o livro, eu vi o filme, e agora eu vou falar sobre cada uma dessas experiências.
 
Não existem grandes diferenças de roteiro, então vou matar dois coelhos numa cajadada. A história é sobre o jovem casal, Frank e April Wheeler, vivendo uma crise geral; de casamento, profissional, de vida - eles tão na merda, essa é a melhor forma de resumir. Conforme o enredo avança, são exploradas formas que o casal inventa para sair da merda e como seus vizinhos e amigos reagiam às invenções. É uma tragédia em meio ao "American Dream" da década de 50, começo de 60.
 
Nunca vi um filme tão fiel a sua adaptação. Não só fiel, já que Norwegian Wood também é fiel, mas não atingiu o objetivo da adaptação, mas que conseguiu resumir tudo de essencial do livro em apenas duas horas, assim como captar toda a emoção da obra original a partir das atuações. As obras são tão similares, que é difícil falar algo sobre uma, que não sirva para a outra, por isso vou deixar uma coisa bem clara antes de seguir em frente: o livro é impecável. Pronto, é só isso. Agora vou falar sobre o filme, já que esse pode levantar algumas suspeitas quanto a sua qualidade.
 
Não gostei de Titanic. Nem um pouco. Não por causa daquela velha história de que "ah, é um filme de romance e blá blá e eu sou macho pra caralho e só assisto Rambo e blá", nada disso. É que o filme é ruim mesmo e eu até explicaria, se esse fosse meu objetivo com esse texto, como não é, foda-se, só queria que todos soubessem que Titanic é uma merda de filme. Também só fui confiar na credibilidade do DiCaprio como ator, agora com Django Livre. Por isso, um filme com o casal de Titanic como protagonistas não entraria na minha lista de prioridades cinematográficas. Ora, meus instintos me enganaram, os dois estão perfeitos nesse filme. Eles conseguiram carregar com perfeição, toda a emotividade que o livro exige. E, considerando como o enredo é trágico, ver o casal de Titanic sofrer desse jeito só deixou tudo mais engraçado pra mim. Então, as atuações são perfeitas.
 
A verdade é que, por mais que eu queira achar algum defeito, não tenho. O livro é perfeito, o filme é tão bom quanto, só acho uma pena que o título nacional seja tão ruim a ponto de afastar o público em geral, quer dizer, não lembro desse filme ter sido um sucesso na época. Sei que ele foi muito bem falado nos EUA, e foi responsável pelo retorno dos livros do Richard Yates, mas no Brasil, não acho que tenha dado muito certo - a culpa é do estagiário filho-da-puta que sugeriu esse título como o nacional. A única coisa que o filme tem de inferior é a falta do senso de humor. Richard Yates faz uso de um humor sádico durante sua narração, que simplesmente se perdeu no filme. Mas é difícil dizer que isso seja ruim, já que seria realmente difícil passar esse humor tão sutil para o cinema; talvez até, se isso fosse feito, o filme não saísse tão bom e desse a impressão de ser uma sátira de si mesmo. Além do mais, uma adaptação exatamente igual a sua fonte é desnecessária.
 
Sugiro, a todos os interessados, que leiam o livro e vejam o filme, em qualquer ordem. Realmente não importa.
 
Nota: 5/5 - para as duas obras.
 
 
 


sábado, 16 de março de 2013

Putney Swope - Robert Downey Sr.

Eu não fazia ideia que o pai do ator que hoje rouba a cena em todos os grandes blockbusters de Hollywood, fez sua fama dirigindo comédias alternativas. Pois é, Robert Downey (Sr.) é conhecido por ter feito uns filmes muito estranhos em sua carreira, e Putney Swope, também conhecido como The Truth and Soul Movie (O Filme da Verdade e da Alma), é um deles.

Agora eu devia falar do enredo, né? ...Difícil, nem sei por onde começar. A verdade é que eu não sei exatamente o que foi esse filme. Foi uma experiência e tanto, e isso porque eu já estou acostumando com o cinema "arthouse". Mas eu vou fazer o possível para explicar. Putney Swope (Arnold Johnson), era o funcionário negro, contratado por cota, de uma empresa de publicidade. Quando o presidente morre - o que acontece do nada, no meio de um discurso -, os membros da diretoria votam para escolher o novo presidente da empresa. Como não é permitido votar em si mesmo, todos votam naquele com menos chance de ganhar - Putney. O novo presidente, então, contrário ao sistema corrupto implantado na publicidade americana, decide que sua política não irá "balançar o barco, mas sim afundá-lo", ou seja, não é possível mudar um sistema sem antes destruí-lo por completo. Ele muda por completo a diretoria e os funcionários (contratando apenas negros e somente um funcionário branco, como cota), e muda todas as estratégias de propaganda da empresa para algo incomum e até bizarro. No entanto, com o sucesso, Putney acaba se tornando autoritário, não aceitando que seus funcionários se manifestem ou pensem, demitindo qualquer um que tenha ideias e, ao mesmo tempo, roubando essas ideias. Acho que devia parar por aqui, pois já disse muito sobre o enredo, acontece que dessa vez não estou com medo de lançar spoilers. Eu poderia dizer linha-por-linha do roteiro e ainda assim o leitor ficaria surpreso, e até assustado em algumas cenas, quando realmente visse o filme.

Putney Swope é uma experiência cinematográfica. É engraçado, carrega fortes críticas sociais, tem alguns toques muito leves de blaxploitation e não se preocupa em momento algum com coerência. As cenas são divididas entre o filme propriamente dito - sempre em preto-e-branco - e os comerciais que a empresa prepara - a cores. Nem sempre a transição faz sentido e os comerciais são o ponto alto do filme, isso se você, assim como eu, tiver um senso de humor aberto ao experimentalismo e não se importar muito com razões - vou postar alguns vídeos com os comerciais, para que isso fique mais compreensível. 

O filme tem fortes raízes dadaístas, sendo essa a intensão ou não. Usando cortes (os comerciais) e jogando a razão pela janela, para passar a crítica social ao seu público. Também tem lados psicodélicos aparentes, vide a trilha sonora - que eu gostei muito. Em resumo, Putney Swope é como um poema beat: forte, crítico, engraçado, cheio de ritmo e alma, altamente simbólico e desligado da coerência.

Não sei se eu deveria indicar esse filme, mesmo eu tendo gostado. Só posso dizer que eu achei engraçado, interessante, mas, ao mesmo tempo, extremamente confuso, me causando até momentos de pânico, quando eu imaginava estar perdendo algum símbolo muito importante, sendo que, muito provavelmente, eu não estava e era só a cena que não fazia sentido. Se você gosta desse tipo de cinema ou está atrás de algo muito diferente do normal, sugiro esse filme.

Nota: 4/5
Obs.: Robert Downey se viu obrigado a dublar a voz de Arnold Johnson, na hora de editar o filme, pois o ator tinha dificuldades para decorar suas falas e muitas vezes ia murmurar coisas sem sentido.

É verdade, não dá pra comer um ar-condicionado (isso é um comercial de ventilador - caso não tenha dado para entender)




terça-feira, 12 de março de 2013

Léon (O Profissional) - 1994


 
Ontem vi um filme que há muito tempo as pessoas me sugeriam, mas eu vivia ignorando - Busca Implacável (o primeiro, não a continuação). Assisti e, sinceramente, é um clichê de filmes de ação, até que divertido, mas nada além disso.
 
Nota: 3,5/5 
 
Fim da resenha? Não. Acontece que nos créditos de Busca Implacável, vi que o roteirista do filme é o Luc Besson e isso me deu vontade de assistir O Profissional de novo. Foi o que eu fiz - deve ser a terceira vez que eu vejo esse filme; mais que isso, só Poderoso Chefão que eu devo ter assistido 5 vezes o primeiro e 3 o segundo, e Pulp Fiction, que eu assisto religiosamente pelo menos uma vez ao ano, há mais ou menos 4 anos - sendo que, só no ano inicial dessa tradição, eu vi o filme 3 vezes.
 
A história já é bem conhecida. Mathilda (Natalie Portman), é uma garotinha de 12 anos, nascida em uma família perturbada e com um pai traficante de drogas. Um belo dia, o pai tenta enganar o Gary Oldman, que nesse filme atende por Stansfield (vilão mais porra-louca do cinema), e o cara vai até a casa dele, com toda uma equipe, pra passar o rodo em todo mundo. Mathilda, não estava em casa e consegue escapar, conseguindo abrigo com Léon (Jean Reno), um assassino muito foda. Os dois ficam amiguinhos e a Natalie Portman meio que vira uma aprendiz dele. E é tudo que você precisa saber sobre o filme, quer mais? Vá assisti-lo!
 
Não se trata de um filme de ação comum. É exagerado na violência (embora nem um pouco gráfico, na minha concepção) e muito fora da realidade, mas isso não é um problema. Ninguém assiste filmes de ação esperando que todas as leis da física sejam obedecidas. O que dá qualidade a um filme de ação é o que ele faz para impedir que os absurdos o tornem ridículos. Exemplos: qualidade na atuação, qualidade nos diálogos, enredo interessante e desenvolvimento de personagens. O Profissional tem todas essas qualidades.
 
Os atores principais - Jean Reno, Natalie Portman e Gary Oldman - são excelentes e executam seus papéis com perfeição. Léon é um assassino de juventude difícil, que não conhece nada além da morte e, portanto, não sabe se relacionar com ninguém. Mathilda reune a tristeza da infância perdida, com a inocência de uma criança e a violência da vingança de modo fascinante - talvez ela seja a melhor personagem. E Stansfield é um louco, drogado, psicopata, assassino de criancinhas. Todos têm um tempo de cena equilibrado e o devido desenvolvimento. As cenas entre o Léon e a Mathilda, que combinam a relação de pai e filho, irmão e irmã e até, para desespero de muitos, "amantes" - considerando que a Mathilda "se apaixona" por ele, feito uma criança encantada com um herói, e ele a rejeita, obviamente. Ainda assim, o público dos EUA exigiu que certas cenas entre os dois fossem cortadas. Eu entendo os motivos, só não acho que seja nada demais. O peso das cenas, que poderiam ser mais constrangedoras para determinados espectadores, são muito amenizados com humor e a inocência dos dois. Sim, dos dois. Em muitos momentos, Léon parece mais infantil que Mathilda e eles meio que trocam de lugar - são coisas assim que fazem o filme interessante.
 
É um ótimo filme, com ótimos personagens, ótimas linhas de diálogo e ótimas cenas de ação. Não é o melhor filme da história, mas, como já dizia o crítico Roger Ebert, "quando você pergunta a um amigo se Hellboy é um bom filme, você não está perguntando se é bom em comparação a Mystic River, você está perguntando se é bom em comparação a Punisher". Por isso eu digo, O Profissional é perfeito em comparação a outros filmes de ação e, portanto, recebe a nota máxima.
 
Nota: 5/5
 
 
 
 
 


segunda-feira, 11 de março de 2013

Capote x Infamous (Confidencial) - Comparando os Filmes




 
Um dos melhores livros que eu já li foi Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's), que já resenhei por aqui e até tracei um comparativo entre o livro e o filme - esse é o meu post mais visto, por causa da foto da Audrey Hepburn. Recentemente, decidi ler Música para Camaleões, também escrito por Truman Capote e devo dizer que o livro é uma aula de literatura, tanto que agora quero conhecer a obra completa do autor. Enquanto o dinheiro não permite comprar todos esses livros, decidi ver esses dois filmes sobre ele, para tentar conhecer melhor a figura por tras da obra.
 
Pra quem não sabe, Capote, lançado em 2005, concorreu a vários Oscar e rendeu um de melhor ator a Philip Seymour-Hoffman. Enquanto Infamous não ficou muito conhecido. O motivo: ambos tratam do mesmo assunto, o período da vida do autor, enquanto ele escrevia "A Sangue Frio" - seu livro mais conhecido e, dito por muitos, ter sido sua obra prima. Além de serem sobre a mesma coisa, a diferença de tempo de lançamento entre eles é de um ano, Infamous (aqui conhecido como Confidencial) estreou em 2006. Existe uma longa discussão quanto a qual é melhor e até que ponto é certo lançar um filme sobre o mesmo tema em um espaço tão curto de tempo, por isso, vou falar sobre o que achei de ambos os filmes e, então, compará-los.
 
Vi Capote primeiro, então começarei por ele. É um filme técnicamente impecável. O enredo, as atuações, a imagem, a direção; é justamente o tipo de filme que costuma concorrer a prêmios e levar muitos deles. Trata sobre o tema com muita sensibilidade, analisando o lado psicológico entre todos os personagens envolvidos - o escritor, sua relação com os prisioneiros, suas relações pessoais e como cada um desses reagiu a obra. Tem um clima sério e escuro - e isso já é visível no cartaz -, e, honestamente, chega a ficar cansativo em algumas cenas, mas é o que a proposta parece exigir.
 
Confidencial, por outro lado, consegue conciliar a seriedade e o humor. Inicialmente, parece meio preguiçoso em sua exposição de contexto, usando o estilo de documentário - com as "talking heads" - para que as celebridades do meio de Truman falassem o que pensavam sobre ele, sobre a alta sociedade americana e sobre o livro. Só que essa impressão vai sumindo conforme o filme avança, e ele vai ficando cada vez mais brutal e "corajoso". Toby Jones é uma cópia de Truman Capote, então nem tenho o que dizer quanto a sua interpretação, e o resto do enredo também faz um escelente trabalho, com destaque ao atual 007 (Daniel Craig, como o assassino, Perry Smith) e Sandra Bullock, como a escritora e amiga de infância do Truman, Harper Lee - que, em comparação ao seu amigo, é macho pra caralho!
 
Vamos a comparação. Enquanto Capote é muito mais técnico e "academicamente" agradável, Confidencial me pareceu mais sincero e atento a detalhes, além de ser muito mais corajoso e gráfico. Eu tenho que fazer uma pesquisa mais aprofundada para saber qual é mais correto, históricamente falando, mas, considerando que ambos buscaram chegar o mais próximo possível dos fatos, sinceramente, não sei de qual gostei mais. Como eu disse, o começo é mais preguiçoso; enquanto em Capote, todas as impressões são expostas por meio de ações e expressões dos atores, Confidencial usa as talking heads, como um documentário. Não gostei desse fator e, se fosse apenas isso, Capote teria levado a melhor, contudo, existem diversos outros fatores que mudam tudo. Outro problema de Confidencial, são as cartas de Perry, as quais ele narra para a câmera em um tom incrivelmente monótono - o que chega até a ser engraçado.
 
Primeiramente, em Confidencial, Truman é realmente gay e espalhafantoso - tanto quanto o Truman da realidade. Em Capote, ele é claramente gay, mas muito contido. E isso me leva as atuações; é inegável que Philip Seymour-Hoffman é um dos melhores atores atuais, todos os papéis dele são ótimos, incluindo esse; o problema é que  ele não se deixou levar pelo personagem e acabou mais parecendo ele fazendo uma imitação de Capote, do que ele se tornando o próprio. Toby Jones não teve esse problema. Pra começo de conversa, a criatura já é a cara do personagem; tem a mesma voz, a mesma altura, só precisou imitar os maneirismos, e isso ele fez com perfeição. Por isso, com todo o respeito ao Seymour-Hoffman, Toby Jones foi o melhor Capote - assumindo, é claro, que ele teve suas vantagens.
 
Então tem a questão dos coadjuvantes. Nesse quesito, Capote leva a melhor. Confidencial, em muitos momentos, exagera na atuação. Os atores que fazem Perry Smith são ambos muito bons, mas o de Confidencial é muito "tadinho". Jack Dunphy (parceiro de Truman), não recebeu muita atenção em Confidencial, enquanto Harper Lee, de Capote, estava meio ofuscada. Gostei da forma que eles abordaram o ciúme que Truman sentia pelo sucesso de "O Sol é para Todos". Também gostei dos detalhes aplicados em Confidencial e que foram deixados de lado em Capote. Truman escrevia a caneta e deitado na cama - dizia pensar melhor na horizontal -, e seu uísque preferido era J&B; tudo isso é retratado em Confidencial e esquecido em Capote. Mais pontos de vantagem a Confidencial.
 
Por último, a brutalidade. Capote é um filme de classe, os palavrões podem ser contados nos dedos, a violência é mínima, tudo parece perfeito. Já em Confidencial, os assassinatos são mostrados com detalhes, o que quase chegou a me emocionar - principalmente no que se refere aos gritos das mulheres amarradas, quando elas já sabiam que iam morrer; retrata a homofobia do sul dos EUA, que na época era profunda. Só que, tudo isso, deixa Confidencial um pouco forçado e, considerando que algumas atuações já são exageradas, parece até que o filme precisa se empurrar garganta abaixo do espectador.
 
Resumindo: Capote é melhor na técnica; é muito bem dirigido, sutil e deixa a atmosfera falar mais alto que as cenas. Por outro lado, esse artifício deixa o filme contido e, em alguns momentos chato e pretencioso - como se pedisse para ganhar um Oscar a todo o momento. Confidencial não é nem um pouco sutil, tem uma direção mediocre e algumas atuações exageradas. Ainda assim, é extremamente detalhado e profundo em algumas cenas. Toby Jones é perfeito como Truman Capote e Sandra Bullock é uma boa Harper Lee, mas as performances de Capote não são tão inferiores. Sou obrigado a dar uma nota igual a ambos os filmes e dizer que a preferência vai depender do gosto de quem assiste.
 
Nota de ambos: 4/5 - queria dar 3,8, mas essas notas muito quebradas são uma merda, então arredondei.
 






sexta-feira, 8 de março de 2013

Melancholia (Melancolia) - Lars Von Trier


Geralmente, quando eu termino de ver um filme, já sei como vou abordá-lo em uma resenha. Se eu vou focar no lado artístico do filme; em como ele me tocou pessoalmente; se falo da história e de seus erros e acertos; se eu tento usar um pouco de humor; ou simplesmente o ridicularizo e a todos que fizeram parte de sua produção. Não é muito fácil definir qual método. Às vezes eu acerto na mosca, outras eu exagero e, embora raramente, admito que erro e me arrependo de vez em quando. Para Melancolia - segundo filme resenhado do Lars von Trier, nesse blog -, lançado em 2011, eu não faço ideia.

É um filme de muitas camadas e símbolos para ser analisado sem spoilers. Por outro lado, esse não é um filme que deixa spoilers - a primeira cena deixa bem claro o que está acontecendo -, ainda assim, esse não foi um filme muito falado no Brasil, durante seu lançamento, então é possível que muitos de vocês não o tenham visto ainda e queiram assisti-lo sem nenhuma informação prévia relevante - eu respeito isso. Vou tentar analisar o filme da forma mais profunda e, ao mesmo tempo, vaga possível. Pode ficar incompreensível, já que a minha proposta é, por definição, contraditória, mas vale a tentativa.

A história é dividida em duas partes. Uma foca em Justine (Kirsten Dunst, a outra em sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg). Justine acabou de se casar e ganhou uma grande festa de seu cunhado, John (Kiefer Sutherland - isso mesmo, o cara de 24 Horas). Tudo foi moldado por ele e por Claire, para que fosse perfeito. Contudo, velhas brigas familiares acontecem, insatisfações, reclamações e Justine, que sofre de uma grave depressão, não consegue segurar seu disfarce e perde tudo. Na segunda parte, o tema real do filme mostra a cara novamente - o fim do mundo - e vemos John, Claire, Leo (Cameron Spurr) - filho do casal - e Justine, reagindo quanto a tragédia inevitável.

Por onde começar? A primeira coisa que todos vão reparar logo de cara, é na beleza assombrosa do filme. As imagens, as cenas, os ângulos, é tudo perfeito e tão lindo, que não existem palavras para descrever - é necessário assistir, ou pelo menos ver as fotos, para começar a compreender. Em segundo vem as atuações; já imaginava que a Charlotte fosse excelente, mas tinha minhas dúvidas quanto a Kirsten e, principalmente, o Jack Bauer. Felizmente, os dois lançam, talvez, as melhores performances de suas vidas. Na verdade, a segunda melhor de Kirsten Dunst - a melhor foi a sua reação perante o diretor, Lars von Trier, anunciando, na conferência de imprensa do filme, que era nazista (ver vídeo para entender). Mas falando sério, não imaginava algo tão bom dos dois e me enganei.


Agora vem a parte complicada, que eu não sei se devia tocar ou não. Olha aqui, se você não quer saber nada do filme, vai embora. Nada pessoal, mas o que eu vou dizer a seguir, pode atrapalhar a sua experiência vendo o filme e isso eu não quero fazer, ok? Continuando. Astronomicamente falando, o filme é um absurdo. O objeto que atinge a Terra, nessa versão do apocalipse, não é um meteoro, é um planeta que saiu de órbita, escapando de seu sistema solar. Isso é possível de acontecer, o que é impossível é a trajetória que ele faz para atingir seu alvo. O filme simplesmente ignora que a gravidade desse planeta - que é 7 vezes maior que a Terra - seria tão forte que, ou faria que nosso planeta girasse ao redor dele, ou nos puxaria em sua direção, fazendo que a Terra colidisse em Melancolia (sim, esse é nome do planeta) e não o contrário. Mas isso não importa, justamente porque o nome do planeta é "Melancolia", entende? Não se trata de um planeta causando uma tragédia mundial, mas de uma grande metáfora. Melancolia faz com a Terra, o que melancolia, ou depressão, faz com um ser humano.

Existem tantas camadas de interpretação aqui, que eu poderia escrever páginas. Mas esse não é meu objetivo. Queria falar sobre como o filme trata daquela impressão que algumas pessoas que sofrem dessa doença têm, a impressão de que sabem mais que o resto - o que as vezes é verdade -, a impressão de que eles enxergam além e é por isso que eles sofrem, pois não existe nada de bom "além" para se enxergar. Queria falar sobre como o filme trata sobre o mais forte. Sim, aquele cara que parece estar sempre sob controle, para manter a tranquilidade geral, mesmo quando, no fundo, ele sofre tanto quanto o resto - se não mais - e, assim que o fim se torna inevitável, ele é o primeiro a fugir. Sobre a inocência infantil. Sobre como, nessas horas de desastre, o louco se torna o mais são de todos. É muito para se falar. Muito. Só assistindo.

Ainda assim, estaria mentindo se dissesse que o filme é perfeito. Não é. Alguns dizem que ele é fabricado, mas disso eu discordo. Von Trier e Kirsten Dunst, sofreram por muitos anos de depressão. Sabem muito bem como é, para simplesmente criar um filme falso sobre esse sentimento. Na verdade, o filme é real demais, mas se esquece de uma coisa. Não importa o quanto se tente transformar a depressão em beleza, em poesia - o que o filme faz com perfeição -, esse não é o estado geral do mundo, embora seja isso que o filme tenta demonstrar. A vida não é um monte de merda para todos. Existem momentos ruins. Existem momentos bons. E é verdade, pode ser que não haja nenhum sentido para existência; que sejamos apenas grãos de areia flutuando em direção ao esquecimento, mas e daí? Que venha o esquecimento! Isso não quer dizer que os momentos posteriores a essa tragédia humana inevitável, tenham que ser tristes. Tive um professor de química, que dizia: - Se o estupro é inevitável, aproveita. - Pode parecer absurdo, mas esse é o melhor resumo que eu já ouvi sobre a nossa vida na Terra. É um estupro, mas fazer o quê? Acontece, e o jeito é continuar vivendo. Ao dizer o contrário, o filme parece forçado. E como Lars von Trier já é conhecido por forçar a barra; por se esforçar para que a platéia sinta vontade de cometer um suicídio em massa; não darei a nota máximo. O filme é lindo, com atuações perfeitas - e a trilha sonora! Me esqueci da trilha sonora. Tristão e Isolda, tocando no fundo a todos os momentos, simplesmente magnífico! -, no entanto, admita Lars, você forçou a coisa toda.

Nota: 4/5

Inocência - Capítulo 5

Pois é, eu tinha decidido não postar mais nenhum capítulo, pra não expôr demais a história, eu sei. Acontece que eu vi um vídeo no youtube, era uma entrevista com o ganhador do Nobel de literatura, Orhan Pamuk. Em um momento, ele falou da importância da organização para quem escreve um romance e como ele costuma dividir a história toda em capítulos, resumindo o que ele quer que aconteça em cada um deles, antes de realmente começar a escrever. Achei isso genial e decidi pôr em prática; só que, ao invés de resumir, deu títulos aos capítulos - que mais tarde serão retirados -, que servem de guia para o que eu devo escrever sobre. Ajudou bastante; agora eu sei que a história deve render, no mínimo, 26 capítulos e, por isso, 5 não são nada.
Espero que gostem e comentem. Como sempre, o capítulo está na página do blog específica para o romance, que você pode encontrar logo acima, entre Início e Contato. Repito que o título do livro mudou; antes era Ilusões de Um Homem Justo, agora é Inocência - que eu achei muito melhor; agradeço ao Rafael, do Skoob, por me apontar que o título não estava bom. Outra mudança foi o nome do narrador. Já tinha dito que queria mudar, já que Emílio e Ernesto parece dupla sertaneja de segunda linha, mas ainda não tinha pensado em um nome. Agora foi, o nome passou a ser Tomas. Motivo? Ora, se antes era uma homenagem ao Hermann Hesse, nada mais justo que homenagear Thomas Mann, embora o personagem não tenha nenhuma característica dos personagens do Mann que eu li até o momento. Tomas era pra ser o nome do protagonista e narrador do segundo romance que estava escrevendo, mas interrompi quando decidi focar no Inocência. Agora o nome daquele personagem vai ser Raphael mesmo, é meu nome, mas que se foda; a história é quase real, então, nada mais justo.

Ainda hoje deve sair uma resenha, ou de Melancolia ou de Argo, depende de qual eu assistir primeiro. Mais provável que seja Melancolia, porque eu gosto mais do Lars Von Trier que do Ben Afleck.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Me indicaram pra responder uma "tag"...

Olha só, geralmente eu me limito a um post por dia nesse blog - nos dias que eu posto alguma coisa -, mas hoje, pela primeira vez na história desse blog, fui indicado pelo pessoal do Curicultura para responder uma tag. Já tinha visto essas coisas por aí, mas nunca tinha sido indicado, nem pensava que responderia caso indicassem. Como eu gostei das perguntas, vou responder. Obrigado, povo do Curicultura. (Alguém se lembrou desse blog? O que está acontecendo com o mundo?)

Vamos a coisa:

Regras da TAG:
Os blogs tagueados devem responder às 10 perguntas
E deverão indicar 10 blogs para responder
Os blogs escolhidos devem ter poucos membros, menos de 200.

1) Como escolheu o nome do blog?
Essa é uma boa pergunta, não me lembro bem da situação. A ideia era chamar o blog de "Em Busca do Blog Perdido", em referência a obra de Proust, Em Busca do Tempo Perdido. Acontece que eu nunca li Proust e não queria ser hipócrita, então ficou como está. Basicamente, é porque eu escrevo, mas nem tudo que eu escrevo faz muito sentido. Pronto, foi essa a ideia do nome.

2) Quanto tempo se dedicam ao blog?
Pouquíssimo. Diria que uma hora, no máximo, por post. Quando eu postava mais crônicas, contos e poemas, levava mais tempo, mas eu não diria que era tempo dedicado ao blog, já que esses não eram exclusivos daqui. Então eu diria que era mais tempo dedicado a futuros livros, que dedicado ao blog mesmo. Quanto à frequência, os post não têm data, acontecem quando eu tenho vontade.

3) Já tiveram algum problema com comentários anônimos no blog?
Não. Quase não tem comentários por aqui. Posso até dizer que anônimos chatos seriam bem-vindos por aqui, pelo menos teria discussão.

4) Vocês se inspiram em outro blog?
Não. Isso não quer dizer que o que eu faço aqui seja totalmente original, não é. Mas é extremamente pessoal. Nem mesmo as resenhas são baseadas no que o público parece querer.

5) Há quanto tempo vocês estão na blogsfera?
Desde Abril de 2012, então logo logo teremos um post de aniversário por aqui. Viva.

6) Qual blog vocês visitam todo dia?
Quase nenhum. Baseio minhas visitas pelos títulos dos posts que recebo na minha lista de blogs seguidos. Se é interessante, eu clico; se não, é a vida. Eu diria que os que eu mais gosto são: Contagem Progressiva e Ninho de Fogo - ambos feitos por escritoras de muito talento. Sugiro que visitem. (E olha a propaganda de graça de novo!)
Obs.: Vê só, respondi na pressa e me esqueci de um. Não é brasileiro e não sei se é blog, mas costumo assistir as resenhas do That Guy With The Glasses quase todo o dia.

7) Quantos blogs visitam por dia?
Mesma resposta de cima.

8) Quantos livros leem por mês?
Depende do livro. Tem meses que eu leio mais de 5, tem meses que não consigo terminar nenhum. Sou um leitor lento e ultimamente tem me faltado tempo - estou escrevendo mais que qualquer coisa (e pior que também sou um escritor lento...)

9) Já ficou sem inspiração para postar? Como superou?
Não. Já me faltou inspiração para escrever ficção (contos e romances), diria que a minha inspiração para poesia acabou por completo, mas sempre tiro um livro ou filme ou CD da manga para resenhar. Isso aqui nunca fica 100% parado.

10) Pretende mudar algo no blog em 2013?
Vontade não falta, o que me falta é capacidade. Não entendo porra nenhuma de informática, então, por mais que eu queira deixar esse hospício apresentável, me faltam os meios. Por isso, nada vai mudar por aqui. Sinto muito.

Não indicarei isso pra ninguém, pois nem tenho contato com tantos blogs assim. Se você leu, seu blog se encaixa nas especificações e te deu vontade de responder, por mim você pode se sentir indicado.

É isso, chega por hoje.

Life of Pi (As Aventuras de Pi) - Ang Lee



Porque toda a baleia sonha com seu momento Free Willy
 
 
Tinha um mau pressentimento quanto a esse filme. Lembro que em 2009 - foi em 2009 que estreou Avatar? Porra tô ficando velho... -, assisti o famigerado Avatar, em 3-D, depois de muito esforço. Não gostei - Smurfs (se os Smurfs tivessem mais que uma fêmea em suas terras) no roteiro de Dança com Lobos, na minha opinião - e prometi a mim mesmo nunca mais assistir um filme 3-D na vida. Então estreou Life of Pi (traduzido nas terras tupiniquins como "As Aventuras de Pi" - puta que o pariu, estagiário que traduz os filmes...), achei que seria a mesma coisa, muita imagem para um roteiro meia boca. Acertei, o filme é uma merda. Pronto, eu disse. Acabou, pode fechar o site. Não? Quer que eu continue? Tá bom, eu me explico.

Primeiramente, aviso que não li o livro, por isso não sei até que ponto a culpa dos defeitos é devido à obra original. Por isso, peço perdão por qualquer erro nesse sentido. Independentemente, todas as minhas críticas não deixam de ser válidas. Segundo, essas opiniões são, em sua maioria, pessoais; se você discorda, ou gosta das coisas que eu digo não gostar, quero mais que se foda. Você é livre para gostar do que quiser.

Antes de qualquer coisa, a história. Um escritor sem ideias é convidado a visitar um indiano que, supostamente, tem uma história tão boa que, não só vai se tornar um livro para o autor, como também o fará acreditar em deus. Pi é o indiano, filho de donos de um zoológico. Quando criança ele fica curioso quanto a deus, deuses e religiões e decide seguir tudo ao mesmo tempo. Todos acham que é coisa de criança, mas isso continua ao longo do filme. Já adolescente, ele encontra uma garota e se apaixona, mas, justamente nessa época, seus pais decidem fechar o zoológico e ir para o Canadá, de navio, com todos os animais - para vendê-los por lá. Eles vão, o navio afunda e Pi consegue fugir num barco salva-vidas, junto com um tigre, uma hiena, um macaco (pouco me importa se banana flutua ou não, alguém me explica como um macaco consegue fugir de um navio afundando e ir nadando até o bote, sem que nenhum ser humano consiga fazer o mesmo...) e uma zebra voadora. No fim, fica só ele e o tigre flutuando na CG.

Tenho uma implicância forte com filmes feitos só com computação gráfica. Gosto de cinema mais bruto e antiquado, filmado no local e usando somente os meios disponíveis como cenário. Excesso de CG facilita muito a coisa. Outro problema, os animais acabaram muito caricatos, na minha opinião; o tempo todo fiquei imaginando que os animais iam começar a falar, como se fosse um filme de animação - principalmente o macaco e os peixes-voadores (agora imagine a cena dos peixes, com todos eles falando ao mesmo tempo: "bom dia", "com licença", "sai da frente" etc.) -, isso tira muito o drama do negócio, deixa o clima artificial. Só isso já um ponto muito negativo para mim.

Outro problema grave, esse talvez seja culpa do escritor e não do filme, é que todo o filme que promete algo grandioso, como provar a existência de deus (esse sendo ou não o objetivo, a promessa é lançada no enredo e, portanto, espera-se que o filme seja forte o bastante para, pelo menos, chegar perto de cumprir a promessa), acaba sendo superficial e pouco convincente. Simples assim, discussões teológicas - que dirá argumentos ontológicos - são muito complexas para serem transformadas em fábula bonitinha, entende? O roteiro não é nem de perto bom o suficiente para provar a existência de qualquer coisa, e, como se não bastasse, no final - não vou lançar spoiler, então o leitor terá que assistir para entender, ou confiar em mim -, com toda a história de "escolher a versão da história", ele acaba abrindo a possibilidade de provar o contrário. Esse texto não trata sobre esse assunto, até porque já fiz vários textos nos primórdios do blog sobre a existência de deus. Isso varia de acordo com a visão de cada um, só achei isso muito "Paulo Coelho" pro meu gosto. Sendo sincero, não acho que filme/livro que diga carregar em seu conteúdo grandes respostas e verdades, deva ser levado a sério. Prefiro os que carregam questionamentos, porque a única verdade é que, no fundo de todo o nosso conhecimento, não sabemos de nada.

Aí vem toda a história do plágio, que eu não acho grave o bastante para afetar a qualidade do filme. Pelo contrário, ando vendo muita hipocrisia da parte de algumas pessoas que comentaram o caso, metendo o pau no Martel, mas que nunca tocaram num livro do Moacyr Scliar. Difícil defender a cultura brasileira desse jeito, não? Como o autor fez questão de se retratar, sinceramente ou não, isso não importa mais.

Em suma, achei o filme fraco em todos os sentidos. As atuações humanas são bem sólidas, mas a artificialidade do cenário e de, literalmente, tudo, compromete muito a qualidade da obra. É possível fazer um trabalho muito bonito, sem ter que confiar tanto assim na tela verde. É fraco filosoficamente, fazendo propostas grandiosas, mas sem coragem para ir além e gerar questionamentos sérios. Por trás de todas as alegorias e da premissa supostamente criativa, existe uma montanha de clichês perceptíveis e mensagens de pensamento positivo dolorosamente repetidas. O maior ponto positivo, além da beleza do filme - com toda a minha implicância, isso eu tenho que admitir -, é o realismo em se tratando de sobrevivência. Vi que houve uma preocupação nesse sentido, e achei interessante a abordagem. Ainda assim, não é o suficiente para tornar a obra memorável. Quero ler o livro um dia, quem sabe minha opinião muda. Até lá...

Nota: 2,5/5



 
 


terça-feira, 5 de março de 2013

Frank Sinatra - Songs For Swingin' Lovers


Estava analisando meu gosto musical há cinco anos atrás, e meu gosto hoje. Fiquei impressionado quando vi quantas coisas que eu gostava e hoje odeio, e quantas coisas eu detestava e hoje eu amo. Pensei nisso enquanto ouvi um CD do The Mamas & The Papas - Monday Monday; California Dreamin', sabe? -, lembrava que não gostava nenhum pouco deles até não faz muito tempo; naquele dia achei bem bacana.

A história é a mesma com Big Band. Sempre simpatizei com jazz, mas gostava mesmo dos gêneros mais experimentais e dos discos intrumentais - Miles Davis, John Coltrane, Eric Dolphy... -, por algum motivo, quando um crooner entrava na jogada, eu achava extremamente chato. Hoje eu consigo ver a qualidade e o valor cultural de caras como Nat King Cole, Chet Baker (que também fez parte do cool, por um tempo, e era um trompetista fenomenal), Sammy Davis Jr., Dean Martin e, o mais conhecido, Frank Sinatra.

É dele o álbum sobre o qual escreverei hoje. A discografia do Sinatra é muito extensa, mas, como ele não compunha as músicas, os discos são normalmente divididos por gênero, ou compositor, ou até músicas de natal. No caso desse álbum, são músicas pop standarts americanas, com um tom mais puxado para o jazz e para o swing, com uma batida mais rápida, mesmo as músicas se tratando de baladas românticas.

É difícil falar das faixas, pois são todas grandes clássicos, que você pode não reconhecer de nome, mas logo nos primeiros momentos da melodia já se tornam extremamente familiares. Por exemplo, I've Got You Under My Skin e You Make Me Feel So Young, são difíceis de não se reconhecer - exceto para aqueles que não se importam muito com música.

Uns podem dizer que esses crooners, como o Sinatra, são artistas incompletos por não comporem as próprias músicas, nem mesmos prepararem seus arranjos, mas eu discordo. Outro dia, há muito tempo atrás - quando eu ainda tinha e assistia televisão -, vi um talk show com o Elvis Costello como entrevistador. O convidado era o grande Elton John, que disse, não necessariamente com essas palavras, que compositores tinham se tornado algo cada vez mais raro; a maior parte dos músicos modernos compõem as próprias músicas, até aqueles que não deveriam nunca fazer algo assim. Isso resume bem minha ideia. É fácil ser músico/cantor/compositor, tudo de uma vez, quando se é medíocre em todos esses fatores - claro que existem aqueles que conseguem executar todas essas tarefas de forma competente, mas são gênios e uma grande minoria na música atual. As composições desse disco são ótimas, beiram a perfeição. Os autores dessas obras são gente como os Ira e George Gershwin e Cole Porter, para citar uns exemplos. As letras e melodias alcançam um grau de poesia raro, ou quase inexistente, hoje em dia. As músicas conseguem tratar de temas mundanos, como o amor e o cotidiano, mas encaixando a letra na métrica perfeita que a melodia exige, sem tornar a obra pobre ou fácil.

Além disso, Frank Sinatra não é só um cantor qualquer. O timbre dele tinha uma beleza natural, sem firulas vocais e invenções desnecessárias. Era o que era e acabou, fim de história. Outra coisa rara de se ver hoje em dia, infelizmente... Talvez seja isso que resuma o álbum todo - "coisa rara de se ver hoje em dia, infelizmente..." Fico feliz por ter pego o gosto por esse gênero de música e espero que o leitor sinta o mesmo.

Nota: 5/5
 







sexta-feira, 1 de março de 2013

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook) - Resenha do Filme

Que foi? Eu sei que esse não é o cartaz, nem mesmo uma cena do filme. Mas eu quis focar no Lado Bom da obra, entende?


Entre todos os filmes que estrearam esse ano, O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, no original) foi o que mais me intrigou. Não pelo gênero, nem pelo elenco, nem diretores, nem pelo livro, muito pelo contrário. Fiquei interessado porque eu não achava que esse filme (nem o livro), mereciam a atenção que estavam recebendo. Era uma comédia-romântica. Quem não viu uma dessas antes? São todas iguais, com raras exceções, e nem mesmo as exceções conseguem ser muito boas - a não ser as dirigidas pelo Woody Allen, ou com a Audrey Hepburn no papel principal...

Assisti justamente por isso. Não só pelas indicações ao Oscar, mas também pelas indicações ao Globo de Ouro e até no Independent Spirit Award. Esse filme tinha que ter algo a mais, para receber tanto destaque assim. Não foi o caso. Não é um filme ruim, mas continuem lendo que eu explico, primeiro vamos falar sobre a história.

Pat é bipolar e toda a sua loucura vem à tona quando ele pega a esposa (Nikki, interpretada pela Brea Bee, seja ela quem for...) dando para outro cara. Ele quebra o sacana na porrada e vai parar num sanatório. Lá ele conhece Danny, outro paciente, interpretado por Chris Tucker. Chris Tucker que por sinal eu não via desde Jackie Brown; já estava achando que o Samuel L. Jackson o tinha matado de verdade - assim como o Robert De Niro matou a Bridget Fonda - ou que ele realmente estava internado naquele sanatório esse tempo todo e sua contratação tinha sido uma coincidência. Danny é o estereótipo do amigo negro; falador, dançarino, animado, o de sempre - pelo menos não fizeram ele cantar rap. Quando Pat recebe alta, ele tenta ajudar Danny a fugir, mas não dá certo e leva algum tempo até ele conseguir sair realmente. Pat passa a viver com os pais e dedica seu tempo livre para se melhorar, com o objetivo de voltar com a Nikki - porque ele não é corno manso de atitude, mas é de alma. Como sempre nesses filmes, os pais do protagonista são mais loucos que o Pat em si. Robert De Niro principalmente, considerando os papéis que ele anda aceitando. História vai, história vem e ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), irmã da esposa de um amigo de Pat, também meio louca - se você não pegou a mensagem que o autor quis passar, eu explico, "todo mundo é meio doido", viu que original? -, viúva, semi-ninfomaníaca relutante. A relação deles começa mal, vai melhorando, fica mal de novo, Pat é um idiota, melhora mais uma vez, e fica nesse vai-e-vem típico de comédia romântica. Tem um concurso de dança e umas apostas em futebol americano também, para "dar mais emoção ao enredo". Como eu pensava, nada de novo. Então por que porra esse filme ficou tão bem falado?

Bom, mesmo não sendo o melhor dos filmes, assim como 500 Dias com Ela, O Lado Bom da Vida é muito superior as comédias românticas normais. Não é nada espetacular ou inovador, mas tenta, embora sem muito sucesso, fugir dos padrões do gênero. Outra coisa, as atuações são ótimas. Jennifer Lawrence é realmente muito boa, não foi a melhor do ano na minha opinião, mas fez um excelente trabalho. Na verdade, estava ansioso para ver outro filme dela, desde Inverno da Alma - não gostei de Jogos Vorazes, ela atua bem, mas o filme não ajuda...-, e ela não decepciona, mesmo sendo uma mulher completamente diferente da Jennifer Lawrence de Inverno da Alma. Sério, o que fizeram com ela? Ela ficou um espetáculo nesse filme.

Mas voltando ao tópico. Não é um filme ruim, só não é tão bom quanto os comentários que fizeram sobre ele. Vale a pena dar uma chance, mas não espere nada muito acima da marca do mediano.

Nota: 3/5