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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sheik Yerbouti - Frank Zappa (1979) - Resenha


Seguindo o que eu comecei ontem, nesse negócio de fazer críticas sobre álbuns que eu adoro e meus músicos favoritos, percebi que eu tenho esse blog a uns 10 meses e até agora eu não mencionei em nenhum post o grande Frank Zappa. Não quero sair por aí me adiantando no texto, como eu faço sempre, mas esse cara é um gênio. Definitivamente está no Top 5 dos meus músicos favoritos (independente de gênero e época).

Mas você, menininho juvenil, que nunca teve o prazer de deixar os sons do Zappa atravessarem seu canal auricular, deve estar se perguntando o que é que faz desse tal Frank Zappa um cara tão foda, para que eu - eu, tão exigente que sou - estar falando tão bem dele? Ora, "explicar-lo-ei" seu moleque insolente. São inúmeras as razões que tornam Frank Zappa um cara foda. Primeiro de tudo, ele é um músico foda pra caralho, compositor de alta qualidade, capaz até que compor umas sinfonias e reger orquestras - quantos músicos hoje são tão bons? -; fez com que eu conhecesse Stravinski, Bartok e Shostakovich, seus músicos favoritos e grandes influências - então eu estou devendo uma para ele por causa desse conselho -; não tinha medo de meter o pau em todo o mundo, todo o mundo mesmo; foi um dos principais defensores da liberdade de expressão da música, quando a Liga das Donas de Casa Puritanas (que incluía a Tipper Gore, esposa do Al Gore) decidiram que certos temas e palavras não deveriam nunca ser usados na música; compôs e gravou, aproximadamente, 60 álbuns - em vida e póstumos -; trabalhou em quase todos os gêneros musicais disponíveis, do rock ao blues ao jazz ao erudito ao doo-wop, além de satirizar, e muito, a música pop de sua época e, principalmente, a música disco; se não bastasse, olha essa porra desse bigode que ele cultivava! O cara tem que ser foda para manter um troço desses e não parecer um completo idiota. E isso é só um resumo.

Queria falar sobre ele já faz tempo, mas não sabia por qual álbum começar. Se pelo primeiro, se pelos mais experimentais, se pelos mais comuns, se pelos mais populares. Então decidi pelo Sheik Yerbouti, que é um dos favoritos do povo, além de ser uma boa introdução a obra desse gênio. 

O disco foi gravado em 1979 e, por isso, apresenta uma série de mudanças no som da banda do Zappa. Foram adicionados os teclados e sintetizadores, típicos da década de 80, só que não tanto a ponto de estragar as músicas. Seus alvos são, como sempre, políticos da época, encanadores filhos da puta, a fase pop do Peter Frampton, música disco, mulheres judias (música pela qual ele foi processado, embora ele mesmo fosse judeu e só estivesse falando a verdade nas letras), adolescentes revoltados. Como eu já disse, ele critica tudo, tudo que há de ruim nesse mundo.

Começando por uma discreta sátira da música "I'm in You", do Peter Frampton. Uma baladinha romântica, falsa pra cacete, da qual o Zappa faz uma versão sincera chamada "I Have Been In You" (fica pra sua imaginação a letra). A letra, bem lembrado Raphael, tenho que falar das letras. É muito importante prestar atenção no que é dito durante as músicas, mesmo que você não fale inglês, pegue uma tradução na internet e leia. As letras são metade do disco. Sem elas, a música mais famosa da bolacha, "Bobby Brown" (sobre um jovem bem sucedido que, com o passar da vida, descobre seus verdadeiros desejos sexuais e passa a aguentar turnos na "tower of power" e toma "golden showers". Chupa essa E.L. James), é simplesmente incompreensível e desnecessária.

Mas nem tudo é sacanagem em Sheik Yerbouti, a faixa título do álbum é um tango instrumental, que remete a fase mais experimental da banda e é extremamente interessante. "Dancing Fool", é uma sátira forte ao movimento disco, que assolava o mundo naquela época, com seus filmes, suas danças e discotecas. Flakes, é a música já mencionada, sobre mecânicos canalhas, que aparecem na sua casa, não fazem porra nenhuma e ainda são pagos pra isso - com direito a imitação do Bob Dylan no meio da música.

Nada é ruim nesse CD, quase nada é ruim na extensa discografia do Frank Zappa. Se você conhece, já sabe tudo isso que eu falei. Se não conhece, ajoelhe no milho, peça perdão a alma de Zappa e de seus ancestrais, volte aqui e corrija esse erro.

Nota: 5/5



Wanna buy some mandies, Bob?



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Nighthawks at the Dinner - Tom Waits (1975)


Não falo tanto sobre música aqui, pelo menos não tanto quanto eu gostaria. O único motivo é que não vejo tanta graça em falar sobre discos que eu já escuto faz anos e já ouvi milhares de vezes, até de trás pra frente. Prefiro criticar/resenhar coisas novas, só que essas eu posso contar nos dedos as que eu escuto. Então decidi que vou falar sobre coisas velhas mesmo e que se foda o resultado. Vou escrever criticas sobre os meus álbuns favoritos, os álbuns que eu mais odeio, e por aí vai. Só que nada vai ser lançamento.
 
Decidi começar por Tom Waits, por vários motivos. O primeiro é que ele é foda, o segundo é que esse é um dos meus discos favoritos entre todos (independente do gênero e da época), terceiro é que ele nunca recebeu a devida atenção do público - o que, considerando o publico, não é uma coisa ruim, de qualquer forma, ele merecia mais reconhecimento -, todos os outros motivos eu pretendo deixar claros no meio do texto.
 
Nighthawks - Edward Hopper
Nighthawks at the Dinner foi o primeiro álbum ao vivo do Tom Waits. Só que não foi gravado ao vivo, foi gravado em um estúdio em Los Angeles, moldado para imitar uma cafeteria, ao estilo da pintura de Edward Hopper que inspira o título e as músicas do disco, em frente a uma platéia ao vivo. As faixas se dividem entre músicas normais e breves apresentações e monólogos com o público. Os convidados a assistir a gravação, tinham direito a comida e bebido, além de terem visto um show de strip-tease, antes das gravações começarem, para aquecer o público e ajudar todos a entrarem no clima proposto pelo álbum.
 
As músicas são todas inéditas, coisa que não se vê mais hoje em dia - um músico apresentando um show inteiro de músicas novas para uma platéia. Começando com uma introdução, do Tom Waits, ao "local" no qual a banda está se apresentando, o fictício "Raphael's Silver Cloud Lounge", seguindo para a música, que é mais um poema recitado com uma banda de jazz tocando ao fundo, "Emotional Weather Report" - que é justamente o que o título indica, uma previsão do tempo que mistura clima com estado emocional do ser humano.
 
A banda é formada por músicos de estúdio, extremamente experientes no cenário do jazz americano. Alguns tendo gravado com Frank Sinatra e Count Basie, para citar uns nomes mais importantes. Embora o disco não seja puramente jazz, os improvisos constantes e o clima geral forjado pelos produtores do álbum, transformam a música em jazz. O que me lembra um outro disco, não relacionado a esse, do Eric Dolphy, ao vivo. Não lembro o nome do CD, mas a música que a banda tocava era The Way You Look Tonight. No meio do música, eu parei de prestar atenção na banda e me foquei no fundo. Nos sons de gelo batendo no copo, pratos quebrando, gente conversando e rindo, isso só serviu para melhorar ainda mais o clima de bar que os discos de jazz geralmente oferecem. Isso acontece em Nighthawks também - em um momento dá até pra sentir o cheiro dos cigarros e do uísque -, só que de propósito, embora de modo espontâneo.
 
Todas as músicas são ótimas, nem dá pra perceber que foram escritas e ensaiadas em apenas quatro dias. Mais inacreditável ainda é saber que as gravações levaram somente dois dias para serem termindas. O resultado é um excelente disco, um dos melhores do Tom Waits. Cheio de jazz, blues e bom humor. Quem ainda não ouviu, deveria dar uma chance.
 
Nota: 5/5
 
 
 
 
 
 


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Beasts of the Southern Wild (Indomável Sonhadora) - Resenha


Sim, eu vi o Oscar esse domingo. Só serviu pra que eu perdesse umas boas horas de sono. Sério, não vi Argo, não vi Os Miseráveis, não vi Vida de Pi, nem O Lado Bom da Vida. Li umas críticas desses filmes, já os baixei e devo assistí-los nas próximas semanas. Mas uma coisa eu já sei, não são tão bons assim. Aqui vai minha previsão: Argo é propaganda americana, Vida de Pi é só CG e mais nada, Lado Bom da Vida é comédia-romântica superestimada e Miseráveis não deveria ser um musical. Essa é minha opinião atual, vejamos se muda. Por enquanto, vamos ao que interessa - os bons filmes, que mereciam prêmios, mas, como sempre, foram ignorados.

O cenário de Beasts of the Southern Wild é um tanto surreal e fantástico. Não define se acontece no futuro ou qual as circunstâncias que deram origem a situação apresentada. Mas isso não importa. O que interessa é que, é impossível dizer que, caso o seja lá o que for que aconteceu com eles acontece conosco, o resultado não seria o mesmo. Voltando, o filme acontece em uma pequena ilha fictícia conhecida como "bathtub" (banheira). Um pedaço de terra separado da parte do país que consegue se manter seca com o derretimento das calotas polares, por uma grande barreira. No bathtub vivem, por falta de um termo melhor, os pobres. Enquanto os privilegiados mantém sua posição, seca e separada. Aqueles que decidem fugir do bathtub, são bem-vindos ao pais, desde que fiquem nos abrigos - como se fossem hospitais ou casas de repouso. Hushpuppy (Qvedrbmsd...nome esquisito pra caralho o da menina), vive com seu pai doente e agressivo, Wink, no bathtub e não deseja nunca sair de lá. Hushpuppy também perdeu a mãe e gostaria de poder reencontrá-la. No bathtub, ela e as outras crianças aprendem a sobreviver, e todos parecem viver em paz, festejam e bebendo; exceto durante as tempestades e furacões, quando todos se trancam em casa e buscam proteção. Se não bastasse tudo isso, o derretimento das calotas polares estão trazendo de volta umas criaturas pré-históricas, muito perigosas, que estão a caminho do bathtub. Partindo dessa premissa bem original, segue a história, sobre a qual eu já falei o suficiente.

O filme é lindo, se me é permitido ser bem direto. Poético, de certa forma inocente, mas ao mesmo tempo bruto, devido aos perigos daquela ilha. A história é contada pelo ponto de vista de Hushpuppy - que, por sinal, merecia muito mais o Oscar que a Jennifer Lawrence, ela que me perdoe -, o que dá um toque infantil ao filme, mas ao mesmo tempo muito puro e honesto. É um filme que é necessário assistir para ser compreendido. Eu posso passar horas elogiando, mas não vai ser o suficiente. Com certeza foi a experiência mais original que eu já tive com um filme moderno. Ficou melhor ainda, por ter sido filmado com uma câmera 16mm, e não um monte de computação gráfica desnecessária. Mesmo com todo o surrealismo do enredo e fantasia da narração, o filme é perfeito em todos os sentidos e, acima de tudo, real.

Nota: 5/5

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Amour (Amor) - Michael Haneke - Resenha


Lembram quando eu disse, na resenha de Intocáveis, que o filme era bom, mas extremamente americanizado. Esse é seu exato oposto - extremamente francês, embora austríaco. Já aviso que minha opinião aqui não será imparcial, como sempre, pois este filme me tocou de forma extremamente pessoal e seria impossível para mim analisá-lo friamente. Tenho uma avó de 89 anos, também passando por uma série de problemas de saúde e, consequentemente, alguns dos dilemas apresentados no filme, eu vi acontecendo comigo e com a minha família, mas isso não vem ao caso.

Li algum crítico dizer, em alguma resenha na internet que Michael Haneke é um misantropo, o filme, Amor -apesar de seu título -, apresenta tudo em sua história, exceto amor. Concordo em partes com essa afirmação. Acho que, depois de Funny Games (Violência Gratuita), tornou-se mais que óbvia a misantropia do Haneke - não que isso seja algo ruim. Agora dizer que não existe amor nesse é extremamente errado.

O filme começa pelo fim, com um grupo de policiais e bombeiros invadindo uma casa e encontrando o corpo de uma velha senhora, esticado na cama. Começar pelo fim é comum em muitos filmes do gênero. Mas nesse existe um motivo diferente pra essa estratégia. É o diretor dizendo: "está vendo essa personagem? Nas próximas duas horas eu vou te contar uma história e, durante o desenvolvimento você vai desejar todos os possíveis desfechos, exceto esse que eu acabei de lhe apresentar. Sabe o que você pode fazer quanto a isso? Nada! E adivinha, esse vai ser o desfecho da sua vida também, então acostume-se com essa impotência." Repito, misantropo.

Após a apresentação da conclusão, somos apresentados ao enredo. A senhora que morreu era uma ex-professora de piano, casada com um senhor, cuja profissão ou não foi apresentada ou eu não peguei (filme em francês - idioma que eu domino muito pouco - com legendas em inglês - sou fluente nesse, mas posso ter me perdido alguma vez). Descobre-se que a senhora não está bem de saúde e precisa de operação. A operação não dá muito certo e ela perde o movimento de um lado do corpo. O tempo passa e a coisa piora. Fico por aqui, para não estragar a experiência de ninguém.

Não é um filme de superação, não é um filme feliz, não é um filme leve. Assista com isso em mente, você não vai sair da sessão com um sorriso nos lábios. O amor entre os idosos é extremamente tocante e faz você pensar no seu próprio fim e, principalmente, o fim daqueles que você ama. Abre espaço para muita reflexão e interpretação, até porque o final não é mastigado. Um dos melhores filmes que vi esse ano.

Nota: 5/5

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Campanha para diminuir os impostos sobre livros

Então, meu povo, hoje eu venho com uma coisa um pouco diferente do normal por aqui. Recebi no skoob um pedido para divulgar uma dessas companhas que sempre rolam por aí, pedindo apoio para sugerir uma lei ao governo. Pois é, detesto essas coisas. Quer dizer, não que um certo ativismo não seja importante, mas o abaixo-assinado online é, definitivamente, a mais preguiçosa e inocente das iniciativas. Mas, antes isso do que nada, não é? Achei a proposta interessante, principalmente porque os livros deveriam, por lei, ser isentos de tributação, mas sabe como é o Brasil, né? Isenção não existe, tiram de um lado pra pegar do outro, são tudo uns filhos dumas putas. Se, pelo menos, um centavo dessa grana toda voltasse pro povo, talvez até valesse a pena pagar imposto, mas como só serve pra sustentar essa cambada de vagabundo, nada melhor que tirar alguma coisa deles. Não acho que isso vá levar a lugar nenhum, mas vai que cola? Seria bom ver uns livros mais baratos por aí.
 
Honestamente, minha campanha seria a de todos os brasileiros simplesmente não pagarem seus impostos por um ano. Um cara faz isso sozinho, vira mocinha na cadeia. Agora, todo mundo ao mesmo tempo, aí sim a coisa pega. Como ninguém concorda comigo, vamos ao velho abaixo-assinado, porque em Brasília tá faltando papel higiênico.
 
O processo é à prova de retardado, basta clicar no link abaixo, preencher os campos "nome" e "e-mail" - com informações verdadeiras, já que pra assinatura ser validada é necessário clicar no link de confirmação que é enviado para o seu e-mail ao final do processo - e clicar em "eu apoio".
 
 
Deem uma olhada nas outras propostas por lá, quem sabe vocês achem algo de interessante. Só gostaria de apontar que, até o momento, nenhuma das propostas recebem apoio o suficiente para ser levada para frente. São necessárias 20.000 pessoas apoiando e, até o momento, só temos 400 e poucas.
 
Assinem e divulguem essa porra por aí.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Zelig (Woody Allen) - Resenha


Woody Allen deve ter gravado um ou dois filmes por ano desde a década de 60. Meu objetivo de vida é assistir todos eles antes de morrer, mas não sei se vai ser possível. Esse é um dos clássicos dele, de 1983, que eu ainda não tinha assistido. Acabei de ver agora e decidi fazer uma resenha, já que eu fiz uma para os dois últimos filmes que ele lançou.

Quanto ao enredo, esse é um pouco diferente do normal, ele usa o formato de documentário para contar a história. O documentário é sobre Leonard Zelig (Woody Allen), que passou a ser conhecido como Homem-Camaleão, capaz de assimilar a aparência e as opiniões daqueles que o cercam. Essa pessoa começa a gerar interesse da mídia e da população e assim a história avança. Cheio de referências a era do jazz e intelectuais e escritores dessa época (Scott Fitzgerald, por exemplo) e a participação real de algumas celebridades do mundo literário (Susan Sontag, Saul Bellow), Zelig passa por diferentes momentos históricos como se fosse uma pessoa real - que, de certa forma, ele não deixa de ser.

O humor de Woody Allen é raro de se ver hoje em dia, sutil, inteligente, irônico, absurdo e extremamente sofisticado. Ele realmente não parece se importar que algumas pessoas podem não acompanhar as piadas. As piadas são como um corte de papel, difíceis de perceber, mas sempre te pegam uma forma ou de outra. 

O caso de Zelig pode também ser tomado como uma metáfora para a sociedade moderna, não só pode como deve, na verdade chega a ser bem óbvio; o triste é que, mesmo tendo sido lançado em 83 e tendo seu roteiro baseado na sociedade da era da depressão nos EUA, até hoje o caso é atual. Um homem que joga fora seu eu para ser aceito na sociedade.

Excelente filme. Engraçadíssimo, real e surreal, mas relativamente curto - só 1h15min. Um dos grandes filmes do Woody.

Nota: 5/5

Obs.: tenho que começar a ler Moby Dick antes de morrer.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Top 5 - Cervejas

Se existe alguém que acompanha meus textos (não só as resenhas e as bobagens casuais que eu jogo aqui, mas os contos, os poemas e o livro que estou escrevendo), já deve ter percebido que o consumo de álcool é um assunto recorrente neles. O consumo, os efeitos, até as bebidas em si, geralmente são relatos reais ou inspirados em experiências com a substância; geralmente minhas personagens bebem o que eu estou bebendo, seja na época em que o projeto está sendo desenvolvido, seja no exato momento em que escrevo.

Já fazia um tempo que queria escrever sobre isso, falar sobre minhas preferências, mas algumas coisas me seguravam. Primeiramente, não é um assunto tão relacionável; embora não costume me preocupar com isso, minhas resenhas são legíveis para qualquer tipo de visitante, mesmo aqueles que nunca ouviram falar do que está sendo resenhado - este pode aproveitar para conhecer algo novo; os textos de ficção em geral, podem ser agradáveis para qualquer um que goste de ler e até quem não gosta, mas tem a mente aberta para mudar de atitude; já o álcool não é tão relacionável assim; muita gente não bebe, não gosta de beber nem de pessoas que bebem e, ainda por cima, acho que existem menores que seguem o blog - não que menores não bebam, mas eu não quero ser esse tipo de influência. Segundo, minhas preferências nesse setor são os vinhos e uísques, contudo, devido ao preço elevado dessas bebidas, nunca bebi nenhuma marca de qualidade para realmente criar um ranking. Terceiro, sinto que um texto como esse possa parecer propaganda gratuita de marcas que nunca nem podem imaginar que seus nomes foram mencionados por aqui. Mesmo assim, comecei a pensar melhor no caso e vi que nada disso realmente importava. Não gosta de álcool (nesse caso, cerveja), não o culpo, pelo contrário, sei que você tem bons motivos, por isso, sugiro que leia outro post. Se for menor de idade, você não é minha responsabilidade, mas de seus pais, faça o que quiser, só não me culpe quando inevitavelmente acontecer alguma merda na tua vida. Quanto à propaganda, ora, pelo menos é propaganda de produtos cujo consumo eu apoio.

Alguns avisos rápidos antes de dar início a lista. Nunca fui um grande fã de cerveja, sempre preferi vinhos e uísques (como mencionado logo acima), no entanto, um belo dia, comecei a trabalhar com importação de cervejas. Nunca importei nada efetivamente, só fiz uma ampla pesquisa de mercado, por isso descobri várias marcas, conheci os diferentes estilos, aromas e toda essa história que eu não fazia a menor ideia que existia (quer dizer, conhecia cerveja clara e escura, mas ficava por aí). Isso me deixou mais interessado. Então comecei a provar uns produtos importados - não com frequência ou em grandes quantidades, por causa do preço, mas uma ou duas por mês, para experimentar e conhecer melhor -, hoje, embora não seja nenhum especialista, tenho um conhecimento razoável e sou grande admirador da bebida. Por isso venho fazer uma lista das melhores cervejas que eu bebi até hoje.

5 - Bäcker 3 Lobos Imperial Porter

Começando com uma nacional. Bäcker é uma cervejaria artesanal de Minas Gerais. Eles trabalham com diversos estilos de cerveja, mas a única que eu provei foi a Imperial Porter. Uma cerveja escura, mais forte do que as cervejas normais do mercado. Não sou muito chegado em Heineken, Skol, Budweiser, pra mim isso é água, não tem gosto de nada. 3 Lobos não é esse tipo de cerveja. Além disso, ela é 9% álcool, o que também é um teor mais alto que o normal. Maturada em barris de amburana, para dar mais sabor. Um pouco mais cara que a média nacional, até porque os impostos brasileiros sobre esse tipo de negócio (principalmente o IPI) são altíssimos, fazendo com que o produto não seja competitivo contra os importados - bom trabalho Brasil. Se virem num mercado por aí, o que vai ser difícil, experimentem.

4 - La Trappe Quadrupel

Cerveja holandesa, trapista, ao estilo belga. Tem um gosto mais forte de cevada, com toques frutados e adocicados. A quadrupel é a mais forte das trapistas, mais usada em ocasiões especiais entre os belgas. Teor alcoólico de 9%.









3 - Delirium Tremens

A famosa cerveja do elefante rosa. Talvez a mais conhecida entre as cervejas importadas e "sofisticadas". Um pouco mais suave e adocicada que as outras descritas até o momento, mas não quer dizer que não seja uma cerveja forte, pelo contrário, tem um gosto bem agressivo. Sempre que falam de cervejas europeias, tem alguém que reclama e diz que a cerveja é quente e, portanto ruim. Dois erros nessa afirmação. Primeiro que lá a cerveja, às vezes, é servida em temperatura ambiente; ambiente, na Europa faz um frio do caralho. Dois essa cerveja não é feita de merda, como a consumida por aqui, por isso pode muito bem ser consumida a uma temperatura mais alta. Nota: diferentes tipos de cerveja devem ser servidos a diferentes temperaturas, para evitar alterações no sabor. O teor alcoólico dessa criança é 8,5%.

2 - Rochefort Trappistes 10

Outra trapista quadrupel, essa é belga mesmo. Não quero ficar me repetindo, mas essa é forte, acho que já deu pra perceber um padrão aqui. Escura (amarronzada), com um toque adocicado, devido ao açúcar mascavo, gosto frutado. Teor de 11,3%. 









1 - Brewdogs Paradox Jura

Definitivamente a melhor cerveja que eu já bebi. Infelizmente só tive a chance de prová-la uma vez, por causa do preço absurdo para uma long neck, mas valeu cada centavo e cada gole. Fiquei triste ao ver a garrafa vazia, como às vezes eu fico ao ver a última página de um bom livro. É uma Imperial Stout, Escocesa , forte pra caralho - e eu nunca usei essa expressão gratuitamente. Com um sabor extremamente complexo, com toques de café, chocolate e uísque (a cerveja é envelhecida por 9 meses em barris de carvalho usados para maturação de scotch Jura). Muito escura, densa e amarga, com um gosto final de álcool, intenso, mas não desagradável. A cerveja em si é uma experiência intensa. Nunca fiquei bêbado só com cerveja, mas essa me deixou alegre só em uma garrafa com seu teor alcoólico de 15%. Minha favorita.

Repito, não sou especialista. Essa não é uma lista oficial de um mestre que provou todas as marcas e estilos conhecidos, é só uma lista pessoal, para falar desse meu gosto pela cerveja. Pode mudar conforme eu for experimentando coisas novas. São as minhas favoritas considerando meu limitado conhecimento atual. Se você quiser a opinião de um mestre, existem milhares de sites especializados em classificação de cerveja. Se você já provou outras marcas e gostaria de sugerir, use os comentários, sou todo ouvidos.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Top 10 - Bandas de Rock Atuais



Fazia tempo que eu não escrevia um post sobre música, é um dos meus assuntos favoritos, mas ultimamente não andei descobrindo nada nesse meio para trazer ao blog. A única notícia que acho que vale a pena mencionar é o novo álbum do Deep Purple, mas este não foi lançado ainda; tenham certeza de que, quando lançar, vou resenhá-lo.

Enquanto isso, considerando minha atual falta de tempo e conteúdo, decidi improvisar um texto rápido e formar uma lista das minhas 10 bandas de rock atuais favoritas. Afinal, como já expus em um posts anteriores, sou um grande fã do rock. Não desses que saem por aí vestidos de preto e deixam o cabelo crescer, mas desses que, se pudessem viajar no tempo, iriam ao Woodstock e morreriam por lá. O que isso tem a ver com o rock atual? Bom, é que muitos dizem que o rock morreu e não existem mais bandas boas por aí. Admito que o rock é um dos gêneros mais mal tratados da música, sofrendo com muitos representantes de qualidade, no mínimo, duvidosa. Mas não vou tão longe a dizer que o rock morreu. Está em coma, sobrevivendo com o auxílio de máquinas, é verdade, mas ainda não morreu.

Como vivo escutando essa reclamação por aí, decidi fazer esse post, não para definir qual banda é melhor que a outra, mas passar 10 boas sugestões de música para os meus fiéis leitores.

Só alguns avisos. Muitas dessas bandas já foram citadas aqui e só estou considerando bandas ainda na ativa - ou que eu não tomei conhecimento do fim -, por isso Black Crowes ficará de fora. Ah, e atuais, pra mim, são as que foram formadas no fim da década de 90 e começo de 2000. Assim eu não me sinto tão velho e consigo ser bem abrangente.

10 - Robert Randolph & The Family Band


Comecei com uma banda que não é só rock, mas tem muito de blues, soul e funk, mas que é boa demais para ser deixada de fora.


9 - Baby Woodrose


Tá aí uma banda legal. Simples, com toques de surf rock e muita psicodelia. Às vezes eles exageram nos efeitos sobre os vocais - muito eco e outras firulas -, o que me desagrada e por isso eles estão em nono. Mas ainda assim, uma das melhores bandas de rock por aí.

8 - Weird Owl


Essa eu encontrei durante uma peregrinação musical no Youtube. Encontrei muita coisa bizarra - incluindo uma banda que eu juro que usava um porco como vocalista -, mas valeu a pena por causa dessa pérola.

7 - Fuzz Manta


Tá, essa é mais pesada que as outras, mas é legal pra caralho. A moça nos vocais também é um belo diferencial. Difícil de achar na internet, mas vale o esforça.

6 - Black Mountain


Acho que de todas listadas até o momento, essa foi a que se tornou mais conhecida, por causa desse vídeo acima. De qualquer forma, é uma excelente banda.

5 - Graveyard


Essa já foi citada aqui milhares de vezes. Nem tenho mais o que falar.

4 - Three Seasons



Essa banda é de um ex-membro da Siena Root (próxima da lista). Só por isso fiquei sabendo da sua existência, foi um belo achado.

3 - Siena Root


Já mencionei essa várias vezes também. Uma das melhores bandas atuais.

2 - Electric Moon


Essa banda está aqui mais pela originalidade do que por qualquer outra coisa. As músicas são longas e... diferentes - acho que essa é a expressão que eu estou procurando. Como eles mesmos dizem no site da banda, eles são a real experiência psicodélica. Pra quem gosta desse gênero - eu -, é um prato cheio.

1 - Chris Robinson Brotherhood


Como eu não posso citar a Black Crowes, então vai a banda do vocalista deles. Essa é provavelmente uma das minhas favoritas, entre as atuais, e eles lançaram o melhor CD de 2012 na minha opinião. As músicas são originais, longas e psicodélicas. É uma experiência e tanto ouvir um disco deles.

Essa é a minha lista. Que fique claro que eu não segui ordem de qualidade e sim ordem de memória - fui lembrando e escrevendo. Senti falta de uns nomes nacionais aqui, mas a verdade é que quase não existe nada assim por aqui, infelizmente. Por falta de gravadoras que apoiem o gênero e falta de auxílio aos artistas independentes por parte dos bares e casas de show, que aparentemente só têm interesse em bandas cover. Se eu tivesse dinheiro, abriria um bar só para bandas brasileiras originais dos mais diferentes gêneros musicais, como não tenho, lanço essa ideia para quem tenha. Se vocês discordam ou tem sugestões de bandas que poderiam ter entrado nessa lista, ou mesmo bandas atuais de outros gêneros, comentem, incitem uma discussão sobre esse assunto. Gostaria muito de ouvir opiniões e sugestões musicais dos meus muitos leitores.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Intocáveis (Intouchables) - Resenha


Viver em uma cidade com apenas um cinema muito pequeno está causando danos a minha saúde mental. Já toquei nesse assunto antes e não adianta de nada ficar repetindo, até porque já vivo aqui faz mais de quatro anos, mas é muito chato passar um ano achando que nada de muito relevante estreou no cinema e, no ano seguinte ao chegar a época das premiações, descobrir que muitos filmes bons foram lançados, só não estrearam aqui e, por isso, não fiquei sabendo. Por isso nesse período de carnaval estou em uma cruzada cinematográfica por 2012, correndo atrás do tempo perdido.
 
Entre os diversos filmes que me chamaram atenção, os principais foram Intocáveis, Amour, No, Moonrise Kingdom, Beast of the Southern Wild, Cesare deve Morire, De rouille et d'os - pra citar alguns. Por isso aguardem essas resenhas num futuro próximo.
 
O primeiro da minha lista, que tive que assistir, pois já não suportava mais ouvir falar desse filme tão bom que todo mundo viu, sem saber do que todos estavam falando, foi, o francês, Intocáveis. E toda a história em cima dele não foi o único motivo - afinal, um monte de gente falando bem não foi o suficiente para que eu perdesse meu tempo vendo as continuações de Matrix -, outra razão foi por eu gostar do cinema francês. Truffault, Godard, Melville, gosto muito dos filmes dessa gente. Então empurrei para o primeiro lugar da lista.
 
Caso alguém não saiba ainda, a história é baseada em fatos reais, sobre um tetraplégico rico e seu cuidador...peculiar, digamos assim. Enquanto todos os candidatos ao cargo se esforçam ao máximo para parecem santos durante a entrevista para o cargo, Driss - jovem africano, imigrante e cheio de problemas familiares - aparece sem nenhuma intenção de ser contratado, pedindo que os estrevistadores assinassem um papel que comprovasse que ele estava procurando emprego e, portanto, não perdesse os cheques do seguro desemprego. Ele é contratado e, aos poucos, um vai afetando a vida do outro, seja no gosto pela arte, seja ajustando a educação da filha adolescente, seja mudando o tom das festas de aniversário - até aí, nada de muito diferente.
 
Nada de muito diferente, realmente. Esse é o filme francês mais americano que eu já vi. Tudo nele é americanizado, exceto a língua. Até o gosto musical do Driss - Kool & The Gang e Earth, Wind & Fire - é americano. Mas isso não é um problema. Não sou grande fã do jeito hollywoodiano de fazer cinema, mas a falta do politicamente correto e a liberdade do humor, compensaram esse leve problema cultural. Além do mais, talvez as coisas estejam mesmo mais americanizadas - até mesmo na França - e isso seja apenas um reflexo da realidade.
 
A questão social também é bem explorada, com uma sutileza que poderia servir de exemplo para os filmes nacionais. Driss veio da periferia, nem por isso o filme precisa girar em torno de seus sofrimentos e angustias, é possível fazer uma história ao redor desses problemas, sem fechar os olhos para o caso. Nisso o filme está de parabéns. O mesmo vale para o paraplégico, tratar a deficiência com bom humor, talvez, tenha sido a razão de todo o sucesso desse filme. Todos estavam esperando uma tragédia que seguisse a risca o Manual de Como Arrancar Lágrimas do Espectador Inocente. Não é o caso, o filme é engraçadíssimo e, mesmo podendo emocionar àqueles mais suscetíveis ao choro, não é o foco da história. O filme fala de superação e somente superação, deixando a piedade de lado em todos os momentos, ao mesmo tempo que toca em assuntos delicados como o uso de drogas (maconha) para fins medicinais e desigualdade social, sem deixar aquele gosto amargo de propaganda barata na boca de quem assiste.
 
Então por que eu não achei o filme perfeito? O final. Não a última cena, depois disso, quando veio aquele maldito "que fim levou os personagens". Sabe do que eu estou falando? Aquelas frases, seguidas de fotos felizes (por vezes em preto e branco), dos personagens - reais ou fictícios da história - nos contando se eles se casaram, arranjaram um emprego, morreram ou sei lá o que mais. Existe coisa mais chata? Isso é desnecessário. O final de um filme pode ser deixado em aberto, mesmo em histórias reais. Senti como se os produtores quisessem mastigar a história pra mim e eu não gosto de nada disso. Ainda assim poderia ter deixado essa passar considerando que o resto do filme foi tão bom, mas outra coisa, justamente nesse mesmo ponto, me atingiu e me decepcionou profundamente. O verdadeiro cuidador do tetraplégico não é africano, é argelino. Ora, então por que isso foi modificado? Claro que para conseguir a simpatia do espectador inocente. Desculpem-me, podem me chamar de chato, mas isso é um dos truques mais baratos do cinema - basear uma história em um caso real, mas, ao mesmo tempo, trocar uma pessoa de fundamental importância, por outra mais interessante aos olhos do público. Truque barato, comercial e do pior gosto. É possível fazer a mesma história com um argelino, a xenofobia francesa é altamente conhecida e poderia muito bem ter sido retratada.
 
O filme é bom. Não é o melhor filme do ano, muito menos o melhor filme da França, mas é uma boa comédia, com toques dramáticos. Eu, pessoalmente, achei o fim completamente desnecessário e até prejudicial, mas não acho que minha opinião é a opinião do grande público. Sugiro que vejam e tirem suas próprias conclusões.
 
Nota: 3,5/5,0

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Django Livre (Django Unchained) - Quentin Tarantino - Resenha



Tarantino é um daqueles caras que você ama ou odeia, sem direito a meio termo. Os que odeiam dizem que ele não é original, usa o termo homenagem como justificativa para roubar diálogos, premissas, ângulos de câmera, trilhas sonoras e até nomes de personagens; dizem que ele exagera na violência; dizem que ele exagera no vocabulário, enfim, dezenas de motivos que, até certo ponto, são a mais pura verdade - ele é culpado de todas essas acusações. Já os que amam, me incluo nesse meio, costumam saber que nada do que ele faz é original, mas se entusiasmam com a forma e com a paixão de Tarantino pelo cinema. Sim, no fundo, Tarantino nunca deixou de ser um adolescente aficionado por cinema, que por acaso conseguiu realizar seu sonho de escrever roteiros e dirigir filmes. E é essa paixão, esse amor pela arte do cinema, que é tão raro de se ver hoje em dia e que fazem dele um bom cineasta.

Quando eu fiquei sabendo da premissa de Django Livre (Django Unchained, no original), que era um spaghetti western no sul dos Estados Unidos, antes da guerra civil e na época da escravidão, achei bem criativo e interessante. Mal podia esperar para ver todas as referências aos velhos filmes do Sergio Leone e do Corbucci (diretor do Django original, que, se você não viram, sugiro que vejam). Foi o próprio Tarantino que despertou meu interesse pelo faroeste, principalmente o dos diretores italianos e dos revisionistas da década de 60 e 70. Ele sempre falou em fazer um filme nesse gênero, então imaginei que, de qualquer forma, haveria muita dedicação da parte dele. Antes de ver o filme, fiz questão de acompanhar todo o processo pré-lançamento, assisti os trailers, vi entrevistas com o diretor e com o elenco, tudo só serviu para me deixar mais ansioso ainda. 

Então vieram as notícias e as primeiras críticas quando o filme foi lançado nos EUA, poucas semanas antes de estrear no Brasil. Como era de se esperar, reações mistas, de um lado ele foi admirado pela sua coragem e criatividade, do outro, desprezado pelo excesso de violência e vocabulário, digamos assim, inadequado - principalmente no que se refere ao uso da palavra "nigger" (preto, seria a tradução mais exata, forma pejorativa de se referir a pessoas negras, muito popular na época da escravidão). Não sei se eu quero abordar essa questão com muita firmeza, se o leitor tiver interesse em saber mais, sugiro que busque no google tudo o que foi dito sobre o filme pouco depois do lançamento. Só quero deixar clara a minha opinião, estou do lado do Tarantino nessa. O contexto da época exigia esse vocabulário e essa violência, talvez ele tenha até aliviado considerando que algumas cenas me pareceram cortadas - o que é incomum nos filmes dele -, como a dos cachorros, por exemplo (assistam). Quanto a influência da violência cinematográfica na mente das crianças, ora, esse não é um filme para crianças. Simples assim, não levem seus filhos para assistir essa porra desse filme, é violento pra caralho. Fui claro? Bom, então pulemos para o enredo e depois meu julgamento, como de costume.

O roteiro é simples, trata sobre vingança, tal qual Kill Bill e Bastardos Inglórios, principalmente esse último, considerando que o cenário do filme é histórico. Django (Jamie Foxx) é um escravo que se encontra com o caçador de recompensas e dentista alemão, Dr. Schultz (Christoph Waltz). Django conhece os rostos de  seus próximos alvos, por isso decide levá-lo consigo e treiná-lo como seu ajudante. Se tudo der certo, Schultz promete levar Django para reencontrar sua esposa e libertar os dois, permitindo que eles fujam para o norte e sigam suas vidas. 

No meio de toda essa simplicidade, existe uma série de conceitos e referências, mais complexos espalhados pelo filme. Por exemplo, as técnicas de punição usadas contra os escravos, Tarantino é fiel nos detalhes quando expõe essa parte tão ignorada da história americana. Trata também das lutas mandingo, citadas em um livro e filme do mesmo nome, que são lutas entre escravos, promovidas pelos mestres, nas quais eles apostavam dinheiro no vencedor (cena forte, mas muito bem trabalhada). Com isso a violência real é mostrada ao expectador. Pode parecer só uma justificativa para a vingança que vem em seguida, mas não se trata de violência gratuita, para ganhar a simpatia do público, se trata de violência história e pesquisada. Até os locais nos quais o filme foi filmado, foram pontos históricos onde se realizavam punições reais. Tudo no filme é devidamente pesquisado e realista. Então chega a violência "divertida" do cinema, a vingança, quando todas as cenas tristes do começo são compensadas - como na cena do cinema em Bastardos Inglórios.

As atuações são espetaculares. Jamie Foxx ficou perfeito no papel, como os silenciosos heróis "sem nome" dos clássicos do faroeste. Samuel L. Jackson, como já era de se esperar, está ótimo, dessa vez atuando como um grandessíssimo filho da puta. Leonardo DiCaprio, que era o único no elenco que eu não achava que faria um bom trabalho - tá certo que nos seus últimos filmes ele conseguiu me convencer que era um ator competente, mas ainda assim tinha um pé atrás com ele como vilão -, também está perfeito em seu papel. Christoph Waltz repete a perfeição do papel em Bastardos Inglórios, só que dessa vez com um personagem muito agradável. E Kerry Washington também não podia ter sido mais perfeita. Simplesmente não tenho reclamações quanto ao elenco, até mesmo o Franco Nero (Django do original) fez uma participação, que foi muito engraçada para aqueles que sabiam quem ele era.

A trilha sonora também é excelente. Nada nela é original, já que o Tarantino não gosta de trabalhar com compositores, mas as músicas que ele escolhe se encaixam muito bem. As faixas vão de Ennio Morricone (trilogia dos dólares, do Sergio Leone) e Luis Bacalov (Django), até James Brown e 2Pac. Todas as músicas são retiradas de outros filmes, mas ou a música é secundária ou o filme é muito obscuro para que ela seja reconhecida de imediato - exceto pela música tema de Django, mas essa era perfeita demais para se deixar de fora.

É um filme divertido, engraçado - algumas cenas e falas são impagáveis - e inteligente, mesmo com seu contexto pesado e cenas de violência exageradas, cheio de referências a spaghetti westerns e blaxploitations da década de 70, gêneros que o diretor adora. Não é para se assistir com a família num fim de semana de chuva, mas é perfeito para aqueles que gostam de passar o tempo livre vendo um bom filme. Não é o melhor do diretor, achei o final muito corrido, como se ele tivesse ouvido do editor que eles já tinham mais de duas horas e meia de filme e ele tivesse decidido dar fim a coisa toda em quinze minutos, mas todas as linhas do enredo são fechadas. Também senti que o diretor anda se repetindo ultimamente - Kill Bill, Bastardos e À Prova de Morte, também são sobre vingança -, o ritmo desse filme é praticamente igual ao de Bastardos. É longo, mas não é nem um pouco cansativo, vale as quase três horas de filme. Não é para ser considerado inovador ou como a salvação do cinema moderno - isso pode causar fortes decepções -, mas é, em resumo, um bom filme, feito por um amante do cinema, para aqueles que amam cinema também.

Obs.: o tempo todo, durante o filme, fiquei esperando "Don't Call Me Nigger, Whitey", do Sly & The Family Stone, ou qualquer música dessa banda começar a tocar. Não aconteceu.
Obs2.: The D is silent.

Nota: 4/5

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Blow Out (Um Tiro na Noite) - Brian De Palma (1981) - Resenha


Quando era criança, muitos anos atrás, e meu interesse pelo cinema estava começando a despertar, passei a procurar filmes antigos e clássicos nas locadoras que eu frequentava, alguns eram até sugestões dos meus pais na época. Um deles foi um dos principais filmes de dança da história "Nos Embalos de Sábado a Noite" (ou Saturday Night Fever). Na época eu detestei o filme e desenvolvi um certo desprezo pela música disco - eu era uma criança esperta -, também não tinha gostado nem um pouco da atuação do John Travolta, embora eu não entendesse muito disso naqueles tempos. Anos depois, vi de novo o filme e percebi que tem muito mais nele, além da música disco, que eu não fui capaz de entender, e John Travolta é um excelente ator - vide Pulp Fiction e Blow Out.
 
O filme começa com cenas de um típico exploitation de baixo orçamento, resumindo em cinco minutos todos os clichês do gênero. Então a atriz da um grito inaceitávelmente ruim e somos apresentados a equipe responsável pelo filme. Jack (Travolta) é técnico de som da equipe e se compromete a corrigir esse problema. Na mesma noite, ele sai para gravar sons da natureza - vento, trovões, corujas, e por aí vai. No meio da gravação, ele presencia um acidente, o pneu do veículo fura, o motorista perde o controle e o carro cai no lago sob a ponte na qual ele fazia seu trabalho. Ele mergulha para resgatar os passageiros, mas só consegue salvar um deles, Sally (Nancy Allen). Ele a leva ao hospital, ela se recupera e surge uma atração entre os dois. O possível romance é interrompido por dezenas de jornalistas e policias que avisam Travolta que o cara que ele não conseguiu salvar é o favorito para a eleição presidencial. Jack escuta a gravação da noite do acidente e percebe que tudo pode não ter sido um acidente, o que leva ao filme de verdade.
 
A primeira vista pode parecer com um filme suspense/conspiração padrão, mas não é bem assim. É um filme que coloca os personagens a frente da conspiração em si. Os diálogos são muito interessantes e o enredo explora os diferentes sentimentos que um caso desses pode gerar em um ser humano. É um filme de suspense que gera questionamentos além do velho "quem foi o culpado", esse mesmo nem é explorado - o assassino já é mostrado logo nas primeiras cenas.
 
Outra coisa que foge do clichê é o relacionamento entre Jack e Sally. Eles estão profundamente atraídos um pelo outro, mas não é esse amor absurdo e instantâneo que a indústria do entretenimento insiste em mentir dizendo que existe. Jack é só um cara normal, tentando sair com essa garota que ele salvou, sobre a qual ele não sabe nada - e nem sabe se quer mesmo conhecê-la melhor. Sally queria fugir da coisa toda, da culpa gerada pelo pequeno e inocente envolvimento que ela pode ter tido com o incidente.
 
Muito interessante a forma que o cinema e a mídia são abordados, embora muito sutilmente. Os produtores não se interessando nem um pouco pelos problemas de Jack, interessados somente no grito para terminar o filme - grito que Jack não para de procurar tampouco - e a mídia querendo apenas uma manchete sensacionalista para os seus jornais.
 
Blow Out é um excelente filme, com um final surpreendente, muito diferente dos outros de seu gênero. Faz justiça a filmografia de Brian De Palma que, pra quem não sabe, fez Carrie, Scarface, Os Intocáveis e Missão Impossível.
 
Nota: 4,0/5,0