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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Amor à Flor da Pele - Wong Kar-Wai (Resenha)



Há uns tempos atrás, na minha resenha de Anjos Caídos - outro filme do mesmo diretor -, disse que já tinha assistido Amor à Flor da Pele e que essa seria minha próxima resenha. E eu esqueci e o tempo foi passando. Agora, vários meses depois, lhes digo o que eu achei desse filme.
 
 
Notem que faz tempo que vi o filme, então alguns detalhes podem ter fugido da minha mente, como por exemplo, os nomes das personagens. A história é sobre dois casais em Hong Kong, que se mudam para um mesmo apartamento - vamos chamá-los de casal A e casal B, para facilitar, ok? -; ambos são, aparentemente, infelizes em seus casamentos, contudo devem manter as aparências para vizinhaça, que por sua vez passam os dias comendo, jogando mahjong e se metendo na vida dos outros. Então a esposa do casal A e o marido do casal B, descobrem que seus respectivos cônjuges estão tendo um caso um com o outro. De início um não sabe que o outro sabe, mas tudo fica bem claro depois de uma conversa em uma cafeteria, que é o ponto de partida para o relacionamento entre os dois. O tempo passa e eles não sabem se devem ou não realizar o adultério, enquanto isso, os dois passam noites e mais noites em um quarto de hotel (para não atrair a atenção dos vizinhos), conversando, compartilhando o silêncio e escrevendo livros de artes marciais.
 
Esse filme, na época de lançamento, foi dito como um dos mais românticos da história, e eu sou obrigado a concordar - românticos e tristes, sério, não sugiro que gente com depressão chegue perto dessa história. É possível sentir pelas imagens a situação dos dois, o amor que um sente pelo outro, a raiva que eles sentem pelos seus próprios cônjuges e, ao mesmo tempo, a culpa que eles sentem por pensarem em cometer o adultério. Infelizmente não posso falar mais nada da história, pois acabaria estragando o filme para alguns, embora esse não seja um filme de surpresas - saber a história, nesse caso, não atrapalha a experiência -, trata-se de uma tragédia, e muitas vezes nesse gênero, o fim já se mostra óbvio logo no começo e a arte está em ver essas personagens cometerem todos esses erros, que levam à inevitável infelicidade. Ao terminar de ver o filme, fiquei me perguntando o quê que eles poderiam ter feito para evitar esse fim, talvez fosse melhor ter assumido logo de cara o caso, terminado o relacionamento com seus cônjuges e buscado a felicidade, ou simplesmente viver aquele momento, sabendo que, embora não tenha durado para sempre, eles foram felizes naqueles dias. E principalmente, por que não foram atrás da felicidade? Medo talvez, mas de quê?
 
É um filme fascinante e complexo, pesado e até mesmo cansativo, mas que vale cada instante. Cheio de metáforas e símbolos (existe até uma discussão sobre o caso dos dois, se eles transaram ou não), que exigem atenção de quem assiste e convida até a assistir mais vezes. Não assista buscando diálogos ou acontecimentos fantásticos e surpreendentes. Posso arriscar dizer que nada acontece nesse filme. Não é um filme de situações, mas de clima. Tudo no filme gira em torno do clima e dos sentimentos expostos em imagens. É 1h30min (que mais parecem 3h) de puro sentimento. É um filme lindo, estéticamente falando, os cenários, as cores, o figurino, tudo parece uma obra de arte - o que é bem comum no cinema oriental. A trilha sonora, composta de alguns boleros, também contribue para o clima triste e romântico da história. Enfim, fiquei tremendamente triste (até nas cenas em que nada acontecia) e maravilhado quando terminei de ver esse filme. Um dos melhores do diretor e um dos melhores que já vi.
 
Nota: 5,0/5,0
 
 
 
 
 
 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Desfile de Páscoa - Richard Yates (Resenha)



Esse livro me foi sugerido no meio do ano passado por um cara que trabalha no único sebo de Itajaí, o Casa Aberta, que é talvez o lugar mais fascinante da cidade. Estava comprando uns clássicos antigos baratos, quando ele apareceu e me sugeriu Richard Yates, lendo pra mim a primeira frase de Desfile de Páscoa, para atrair minha atenção:

"Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz e, olhando em retrospecto, sempre pareceu que o problema começou com a morte de seus pais."

Até hoje, essa é uma das melhores primeiras frases que eu já li e, desde então, tento seguir as sugestões desse cara que se chama Enzo e mantém um blog muito interessante sobre literatura do sul dos Estados Unidos - que não sei se ainda está na ativa, ele tinha parado, mas acho que agora voltou, sei lá, mas as informações estão ali ainda -, como por exemplo Flannery O'Connor, que eu comprei, mas ainda não deu tempo de ler.

Quanto a Yates, após escrever "Foi Apenas um Sonho" - que eu já li e assim que eu ver o filme farei uma resenha comparativa, igual ao post sobre Bonequinha de Luxo, que é o meu post mais popular por causa da foto da Audrey -, foi considerado um dos mais importantes escritores americanos de seu tempo. Então anos se passaram até sua segunda publicação e, como ele não continuou criticando a geração da década de 60 especificamente, nem se tornou politicamente engajado, acabou sendo esquecido. O que é uma pena, considerando que ele continuou sendo um dos melhores escritores norte-americanos.

Como a primeira frase do livro deixa bem claro, Desfile de Páscoa é sobre a vida das irmãs Grimes, suas decisões, erros e problemas. Nada além disso, o livro é um retrato bem cru da vida comum. Sarah, a irmã mais velha, casa cedo e se rende à vida de dona de casa. Emily, a mais nova, decide ser independente, seguir carreira em alguma coisa, sem depender de ninguém. Exatos opostos que buscam um mesmo objetivo - viver de forma satisfatória, seja para si ou só para mostrar à sociedade ao seu redor.

Emily tenta, mas parece não conseguir encontrar um homem que a satisfaça plenamente, ou satisfazer um homem plenamente, dependendo do caso. Enquanto Sarah, finge ter encontrado a felicidade, assistindo sua vida passar aos poucos, embriagada.

Não é um romance leve, para passar o tempo, embora a linguagem seja simples e a forma nem um pouco pretensiosa. Só que não é um livro que tenta ensinar ao leitor como viver; poderia até dizer que nem mesmo o autor sabe o que quer. Emily e Sarah são opostos completos, mas nem por isso uma delas alcança a felicidade. Elas buscam da melhor forma possível, pensam ter chegado perto, então a verdade lhes acerta com tudo.

O narrador tem um tom sarcástico e, em alguns momentos, até humorístico quanto às histórias que ele relata, mas ao mesmo tempo mantém um certo respeito e simpatia por aquelas vidas destruídas. Ele sabe que sua vida não é diferente da de suas personagens; sua história é um espelho cruel e realista. Às vezes você ri, às vezes você encontra um conhecido e, nos momentos mais angustiantes, você vê a si mesmo.

Excelente livro. Richard Yates é um dos melhores escritores americanos e é uma pena que ele não tenha sido reconhecido em vida o tanto quanto merecido, embora ache que ele estava pouco se fodendo para isso.

Nota: 5,0/5,0

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Para Roma com Amor - Woody Allen (Resenha)


Já expressei nesse blog o quanto Woody Allen me influenciou, não só na escrita e no senso de humor, mas na vida. Ele é um dos cineastas que eu mais admiro e, mesmo que os trabalhos dele não sejam mais o que um dia foram, sempre me empolgo quando fico sabendo que ele está lançando um filme novo - o que acontece uma vez por ano, quando não duas. Mesmo não sendo uma obra-prima, sei que vou rir e me divertir como uma adolescente assistindo Crepúsculo - exceto que eu não grito nem choro durante as exibições.

Fiquei puto quando vi que o filme não ia estrear nos cinemas dessa terra de ninguém chamada Itajaí. Não me levem a mal, gosto daqui, mas o cinema é deplorável. É composto de duas salas - só duas! - pequenas, com uma leve inclinação, uma tela pequena o bastante para que ninguém - independente da fileira - fique confortável, o projecionista leva dez minutos para acertar a posição da imagem na tela, as pessoas conversam como se estivessem em casa e eu - que vejo o cinema como uma experiência religiosa - tenho uma úlcera de fúria com todas essas situações acumulando, como se não bastasse que todo o cinema hoje em dia, até nas cidades grandes, fica numa porra de um shopping, cercado de gente filha da puta.

Do que eu estava falando mesmo... Ah! Para Roma Com Amor. Pois é, acabei de ver o filme nesse exato momento e estou processando a coisa toda ainda. Um problema, que eu não sei se foi por que eu baixei o filme na internet ao invés de alugar uma cópia original, foi a ausência de legendas nas cenas em que o diálogo acontece em italiano - idioma que eu não domino nem um pouco -, ou seja, em torno de 60% do filme. Por isso adianto que minha compreensão não foi completa, posso ter perdido piadas nessas cenas, embora o contexto permita perfeito entendimento do enredo. Se foi planejado deixar aquelas cenas sem legenda, à la Paixão de Cristo, foi uma péssima ideia, embora o clima da cena consiga transmitir os acontecimentos. Os filmes do Woody dependem muito do diálogo para arriscar uma coisa assim. Como isso pode ter sido culpa minha e da pirataria, não afetará a nota - pelo menos até que eu consiga descobrir o que aconteceu.

As marcas do Woody Allen estão por todo o filme. O filme começa com imagens da cidade na qual se passa a história - nesse caso Roma, caso você sofra de alguma deficiência e não tenha deduzido isso ainda - com a música "Volare" no fundo. Então um guarda de trânsito quebra a quarta parede e apresenta ao público os personagens. O roteiro segue quatro grupos de pessoas em quatro linhas de roteiro não relacionadas, salvo pelo assunto e as personalidades das personagens masculinas - todos paranoicos, afobados e meio doidos, principalmente o próprio Woody, que volta a atuar nesse filme; o que não é nenhuma novidade, com exceção do Alec Baldwin, que começa como personagem e depois se torna a consciência de um jovem parecido com ele no passado. O assunto, mortalidade, adultério, tédio, fama indesejada, tudo que ele já falou dezenas de vezes, embora dessa vez, assim como em Meia Noite em Paris, senti leves toques de surrealismo - como na ópera liderada por um cantor de chuveiro ou o homem comum que fica famoso por nada.

As piadas, embora familiares e previsíveis, não deixam a desejar. É impossível não rir das reações do Woody no avião em turbulência, do homem comum dando entrevistas sobre seus hábitos cotidianos, a cena do assalto, e as pequenas linhas de diálogo que te cutucam aqui e ali.

Outro traço comum à obra do seu Allen, é a capacidade de reunir mulheres espetacularmente lindas em um mesmo filme. Sério, são tantas e tão belas, que me fizeram menosprezar a Ellen Page, que, embora seja uma coisinha linda, não é nada em comparação a Alessandra Mastronardi, a Cecilia Capriotti (que espetáculo essa!) ou mesmo a balzaquiana Penélope Cruz. E ele já faz isso desde a década de 60. Como ele consegue?














Como eu faço pra voltar a falar do filme agora... A verdade é que é só isso. O filme começa devagar com as apresentações dos personagens, mas vai tomando ritmo quando as histórias tomam forma. Não é o melhor do Woody, até porque a essa altura ia ser difícil, mas não é nem de perto o pior. Não entendi o motivo da recepção negativa, acho que foi o excesso de surrealismo, incomum na obra do diretor. Eu gostei.

Nota: 4,0 / 5,0

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Sobre Arte e Entretenimento

Tive uma discussão com um colega de trabalho um dia desses sobre a diferença entre uma obra do Paulo Coelho e a de uma do Hermann Hesse. Acho que começou após o comentário que o diretor da empresa fez uns minutos antes. O chefe estava com a namorada dele, que é de Joinville, e ela começou a zombar do sotaque de itajaiense dele; em resposta ele perguntou quantas cadeiras Joinville tinha na Academia Brasileira de Letras, em referência a cadeira do poeta e político  de Itajái, Marcos Konder. Então ele se lembrou de Monteiro Lobato e retirou o que disse. Em defesa dele, mencionei a cadeira do Paulo Coelho e José Sarney, para não falar de Roberto Marinho - que nunca escreveu uma linha para fins literários -, e disse que a Academia não significava nada e, quando muito, era uma ofensa. Isso acabou ofendendo o tal colega, que lê e gosta de Paulo Coelho, e gerou toda a conversa. Em retrospecto, nada disso deveria ter acontecido, afinal nem Marcos Konder, nem Monteiro Lobato fizeram parte da Academia Brasileira de Letras; e Monteiro não é de Joinville, só é nome de uma rua na cidade - juro que não sei de onde ele tirou todas essas informações erradas. Ainda assim, toda essa loucura não foi suficiente para me impedir de escrever esse texto, pois esse assunto muito me intriga. Passei o resto daquele dia pensando no assunto, não cheguei a conclusão alguma, nem acho que vou conseguir agora, mas acho a discussão interessante.
 
Existe uma diferença clara entre arte e entretenimento? A maior parte das pessoas com quem conversei sobre o assunto disse que sim, considerando como exemplo de arte Beethoven, e exemplo de entretenimento qualquer artista pop atual, desses que surgem e somem semanalmente. Ou, no cinema, O Sétimo Selo como arte, e Transformers, como entretenimento. Isso além do meu exemplo inicial de Hermann Hesse e Paulo Coelho. Em outras palavras, o erudito contra o popular. O que normalmente se esquece nessas comparações é o fator tempo e os costumes históricos. Beethoven foi de uma época em que música erudita era tida como entretenimento. Os nobres se reuniam nos grandes teatros para ouvir as orquestras e as sinfonias - essa era a única opção de música na época. É claro que uns se esforçavam para agradar os ouvidos do povo mais do que outros; Beethoven e Mozart, por exemplo, eram considerados extremamentes difíceis de se trabalhar, compondo apenas conforme seu gosto e inspiração pessoal; ainda assim, hoje em dia, um compositor mais popular antigamente, hoje é considerado erudito e, portanto, arte. Com essa forma de pensamento, tudo que é velho é arte e isso não é verdade.
 
Outra questão é: arte não é capaz de entreter? Esse não é justamente o objeto inicial da arte? Se uma vez foi, quando foi que ocorreu essa separação entre entretenimento e arte? Na minha concepção pessoal da coisa - e dito isto, quero que fique bem claro que não sou doutor, todo meu conhecimento sobre arte vem de experiência e sentimentos pessoais -, foi a insatisfação do homem com sua própria realidade que fez surgir a arte. Sejam com pinturas nas paredes de uma caverna, com o intuito de relatar um acontecimento; escritos antigos; escritos sagrados; retratos, fotos, pinturas, filmes; lendas, livros, contos, poesia; cantos, música popular ou erudita. Tudo foi gerado de uma insatisfação nada mais que humana, com a vida cotidiana comum. Caçar se tornou um hábito aborrecido, por isso passou-se a pintar as caçadas e inventar relatos - um exemplo de fuga da realidade, primitivo, que eu acabei de inventar. Fugir do aborrecimento, do tédio, não é nada mais que entretenimento.

No entanto, alguns artistas decidiram que era necessário ainda mais; perceberam que, a partir da arte, era possível se fazer toda uma análise da existência, dos costumes, das relações, da mente humana. Surgiu a busca pelo ideal estético e o conceito de beleza - isso antes das modelos e atrizes, e a estética manipulada em favor da propaganda e do comércio -, não só física, mas da própria arte em si. É um fato, a arte é ilimitada e serve para muito mais que agradar observadores ou distrair do aborrecimento que é a existência comum, no entanto, nunca deixa de entreter - essa é sua característica imutável -, do contrário perderia sua essência, seu motivo de ser.

Agora gostaria de falar da separação entre entretenimento e arte, mas gostaria de dizer que não passa de uma expeculação, se não for uma reclamação vazia. Tenho a impressão de que a arte passou a se desprender do entretenimento, ou melhor, o entretenimento passou a se desgrudar da arte, quando está passou a ser vista como fonte de renda. Longe de mim dizer que um artista não deve ser pago pelo que faz, pelo contrário, bons artistas merecem cada centavo e ainda assim ganham pouco. Estou falando em manipular a arte, retirar dela tudo que há de profundo e mantendo somente o que há de agradável e simples e fácil; em outras palavras, arrancar o entretenimento da arte e exibi-lo por si só, pois é visível que dessa forma se atrai um público muito maior. No momento em que essa possibilidade foi descoberta e explorada, digo que o entretenimento se tornou um ser independente da arte, embora a arte se mantenha dependente do entretenimento.

Então retorno ao Paulo Coelho. Sobre ele admiro uma coisa, a habilidade comercial do sujeito. Ele sabe muito bem o que faz e como faz, conhece o seu público e o que o público em geral quer ler, sabe como agir e o que falar em entrevistas (criticando clássicos como Joyce e Hesse, para mostrar ao povo que não entende esses escritores, que eles não são inferiores por causa disso e na verdade o problema é dos autores), dizer que suas histórias de misticismo e magia são reais, e parecer realmente acreditar nisso. Ele não é um dos mais vendidos do mundo sem motivo. Mas pode-se chamar de arte? Existe alguma sinceridade no trabalho ou é só um belo ganha pão (no caso dele o pão está mais pra caviar)?

Com essa pergunta, gostaria de me afastar um pouco mais do assunto e mencionar outro, que me intriga tanto quanto e complementa a ideia geral desse texto. Sempre que um admirador decide defender um escritor como Paulo Coelho ou, partindo para os tempos modernos, Stephanie Meyer ou a famigerada E. L. James, o argumento principal é: "você não conhece o suficiente para falar." E, caso a pessoa que esteja do outro lado desse argumento rebata dizendo conhecer a obra do dito cujo, logo o argumento muda para "mas se não gosta, por que lê?" - o que invalida toda a conversa, da mesma forma que os erros do meu chefe quanto aos membros da ABL invalidam toda a razão de ser deste texto - e essa é uma excelente pergunta. É necessário conhecer para criticar, isso é inquestionável, mas é necessário conhecer profundamente? Ler toda a bibliografia do autor, conhecer sua vida, ou mesmo ler uma obra do começo ao fim? Eu digo que não. É verdade que um livro pode começar ruim e mudar no meio, então um capítulo não é base o suficiente, mas que tal as críticas? A opinião do crítico não é absoluta, porém as críticas costumam conter trechos da história, a sinopse, ou um breve resumo do enredo, além do mais, as críticas, pelo menos as de qualidade, são fundamentadas, ou seja, é possível entender a ideia geral de um livro partindo de uma ou várias críticas. Foi assim que montei minha opinião sobre 50 Tons de Cinza, por exemplo, li dois capítulos, o primeiro e um outro mais para o meio - depois que se deu início a sacanagem - e li dezenas de críticas, positivas e negativas. Os argumentos das críticas positivas não me convenciam, enquanto com os das negativas eu concordava. Conclusão: não li o livro todo, não lerei suas continuações e, ao que tudo indica, não lerei nada que essa mulher venha a escrever no futuro - exceto que, por algum milagre, ela aprenda a escrever e venha com uma história interessante ou pelo menos alguma sacanagem aproveitável. Repita todo esse trecho e troque 50 Tons por Paulo Coelho; o resultado foi o mesmo. Faço o mesmo com filmes e música. Por quê? Ora, tenho 21 anos, logo terei 22; a média de idade do brasileiro do sexo masculino é algo em torno dos 75 anos (quando de classe média); minha família tem todos os problemas de saúde e genéticos que você possa imaginar, faltava cancêr, até que uns anos atrás um tio do meu pai morreu disso; gosto de encher a cara de vez em quando, além de outros hábitos  não aconselháveis que eu não pretendo abandonar; se não bastasse, tenho uma pilha aparentemente infinita de livros, filmes e músicas que eu gostaria de apreciar antes da morte - o suficiente para me ocupar por, no mínimo 300 anos. Eu não vou viver 300 anos, terei sorte se viver mais 50. Dito isto, não me arrependo de ignorar certos "artistas", eles e seus admiradores que me desculpem. Se não existisse Georges Bataille, Sade, Henry Miller, Anaïs Nin, talvez eu parasse para ler E.L. James.

Agora que esse ponto foi esclarecido, volto ao tópico. É possível considerar um trabalho feito somente pelo dinheiro, uma obra de arte? Não, pois a arte deveria ser uma extensão da mente do artista; se este manipula seu trabalho e o corrompe de modo que não seja mais obra de sua alma, com o intuito de emocionar quem com ela tem contato, mas sim obra planejada, com intuito de ser vendida, a arte perde sua essência. Ao mesmo tempo, toda arte tem como função entreter mesmo que um grupo limitado, portanto se uma obra é feita com fins puramente intelectuais, com objetivo de espantar seu público - não passa de bobagem pretensiosa.

Em suma, a arte deve entreter ao artista, na minha concepção da coisa. O músico de jazz não deve tocar esse gênero só por causa do respeito que ele traz, e sim porque é o que ele ama. O mesmo vale para o escritor, o pintor, o cineasta, o escultor ou quem quer que seja. Ser um artista egoísta é única forma de ser totalmente sincero; sendo que, nesse caso, o egoísmo não é algo ruim, pois é apenas parcial - ao mesmo tempo que te agrada criar a obra, o sentimento de que outra pessoa também a aprecia, é que realmente faz que tudo valha a pena.
 
 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Tentativa de Haikai - 5


Água celeste,
molha a cidade fria e
os rostos vazios.


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Sempre sinto necessidade de escrever alguma coisa a mais nesses posts, só nunca sei o que...
E aí, como vão vocês? Tudo certo, e a família? Pra quem não viu, estou colocando os capítulos do livro (Ilusões de um homem justo), em uma página separada. Demorei pra descobrir a existência dessa função, é interessante.
Agora os capítulos vão ser postados em partes no blog, normalmente, e assim que terminado, ele vai ser jogado na outra página, por inteiro, para que possa ser lido sem interrupção. Que tal essa?

A propósito, percebi que um grande número de pessoas descobrem esse site, enquanto procurando por fotos de suecas gostosas, por causa do meu post sobre a banda sueca Graveyard. Não sei se me orgulho ou me envergonho disso... Alguém chegou aqui por causa disso e ficou?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sobre o BBB

Já falei por aqui que não assisto televisão. Pois é, não assisto nem tv aberta, nem por assinatura; os poucos programas que ainda me chamam a atenção eu baixo na internet ou vejo no youtube. Isso vale para filmes também, gosto de alugar de vez em quando - para isso mantenho minha televisão tipo caixa, sentada e apagada em um móvel da sala, com um dvd empoeirado logo abaixo -, mas as locadoras de Itajaí, embora se esforcem, não têm muita variedade. Infelizmente as locadoras são um negócio perdido e logo terão o mesmo destino dos sebos - casas raras e fascinantes, mas que servem apenas para vender antiguidades.
 
No entanto, mesmo com meu exílio voluntário do mundo televisivo, certos programas invadem sua vida, seja por conversas no escritório, reclamações aleatórias de estranhos barulhentos nas ruas ou elevadores. Mesmo sem assistir um capítulo, sempre sei quando uma novela está para acabar, não sei do que ela se trata, mas sei que termina essa sexta-feira. BBB é a mesma coisa. Assisti dois capítulos da primeira edição - treze anos atrás! - e nunca mais, não vi graça. Contudo meus familiares viram, meus amigos de escola, depois amigos de faculdade e companheiros de trabalho. Todos viam o tal BBB. Segue agora alguns dos comentários feitos por essas pessoas:

"Uma baixaria. Absurdo um programa desses estar no ar."
"Como pode um imbecil pagar pra votar nos vencedores."
"Essa é a prova da estupidez do povo brasileiro."
"Palavrões, bebida, sexo, não entendo como pode tanta imoralidade."
"Alguém deveria tirar isso do ar."

Além dessas frases revoltadas, revistas e críticos intelectuais, ora ou outra aparecem dando motivos extremamente específicos (muitas vezes citando nomes e descrevendo minusciosamente as situações) para que o programa deixe de existir. A maior parte dessas críticas vale também para as novelas.

Se o leitor menos perceptivo ainda não entendeu o que eu quis dizer com tudo isso, vou tentar explicar. O que tudo isso significa é que os críticos desse programa (e quaisquer outros que sigam a mesma linha de qualidade), são tão imbecis, se não ainda mais, do que os que assistem por prazer. Ora Raphael, isso quer dizer que você gosta desse tipo de programa? - você me pergunta indignado, mas sem pensar em momento algum em sair do site. Não, não é isso que eu estou dizendo. Sexo, alcóol e palavrões não me incomodam nem um pouco, mesmo quando exibido em horário nobre, pelo contrário, tudo isso é natural e talvez desenvolva esse outro pensamento um dia; não gosto do programa, mas escolho não assistir. Você pode pensar que isso é uma atitude passiva e permissiva, e para isso eu respondo: - Seu jegue! Você pensa que a Globo ou qualquer outra estação, dá a mínima para as suas críticas? - Respondi minha própria pergunta com um sonóro não.

Televisão lucra com audiência e intervalos comerciais. Quem critica furiosamente esse tipo de programa, geralmente esquece que, enquanto isso, o está assistindo e a emissora "criminosa" está enchendo o cu de dinheiro. Tanto que eles dão um milhão desse dinheiro para um completo idiota, todo o ano, e ainda assim tem um lucro inimaginável para qualquer um de nós.

A ideia de gritar e espernear para o cancelamento do programa é infantil e autoritária. Por acaso o BBB é exposto para a nação brasileira em uma espécie de Tratamento Ludovico? Não. Se vivessemos no tempo em que se era necessário levantar do sofá e girar uma manivela bizarra para mudar de estação, eu entenderia a preguiça, mas hoje tem televisão que muda de canal por comando de voz, caso apertar o botão de um controle remoto seja trabalho demais para sua bunda gorda. Muda de canal, desliga a televisão, veja um filme, leia um livro, feche os olhos, porra!

Não existe desculpa. Por mais que se critique o tempo em que vivemos, nunca houve período melhor para cultura e entretenimento - que por sua vez poderiam ser considerados uma coisa só. Todos os livros, todos os filmes, todos os programas de televisão, todas as músicas, todas as obras de arte, estão a nossa disposição, graças a internet. Não existe tal coisa como "a música se perdeu" ou "hoje em dia não se faz filmes tão bons", nem nada parecido. Arte de qualidade existe e sempre vai existir, e hoje está mais acessível do que nunca. Só precisa procurar. Não é dever da Globo, nem da Record, nem do raio que o parta, oferecer entretenimento de qualidade. Eles têm o direito de exibir o que lhes der vontade, assim como eu escrevo o que eu quiser, a única diferença é que eles variam de acordo com lucro e tendências mercadológicas populares, eu não ganho nada com isso aqui e estou, como já dizia o Falcão, que nem cavalo em sete de setembro - cagando, andando e sendo aplaudido.

Enquanto você xinga todos os participantes do BBB e todo o elenco das novelas, eles entendem que, como a audiência sobe, o povo gosta, portanto é burrice mudar. Se um dia os diretores da Globo acordassem e vissem que a audiência deles e todas as emissoras do Brasil caíram para zero, enquanto os filmes do Ingmar Bergman, as composições de Stravinski e os livros de Machado de Assis, fossem os temas mais procurados na internet, acreditem, tudo ia mudar. Mas o que ninguém quer admitir é que, no meio de todos os insultos, existe um prazer relutante e envergonhado. Você, meu caro, que fica passando e-mails de corrente, pedindo pelo cancelamento do BBB e afins, assiste religiosamente o programa, seja por vício ou por gosto, mas morre de medo que alguém descubra, por isso disfarça o seu amor com ironia, descaso e ofensas. Dormiria no sofá se um filme de Truffault fosse televisionado no lugar da novela; nunca ouviu falar de Mahler, mas cantarola mentalmente o último hit do Michel Teló; não sabe quem foi Goethe, mas releu A Cabana cinco vezes, e chorou em todas elas.

Desculpe-me se exagero, mas é a impressão que eu tenho.
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami (Resenha)


Olha só, mais uma resenha desse mesmo autor. Até eu já estou me cansando de mim mesmo - se bem que isso já não é de hoje. De qualquer forma, esse foi o primeiro livro que eu li esse ano e, portanto, será resenhado, porque minha ideia a partir de agora é resenhar todos os livros que eu ler, até mesmo os clássicos que por muitas vezes eu acho melhor não falar sobre por não me achar capaz. Continuarei incapaz, mas escreverei de qualquer forma. Farei o mesmo com filmes e cds, provavelmente...
 
É um livro longo, 570 páginas, e, na época de lançamento, foi considerado sua obra mais ambiciosa. Honestamente, nem sei por onde começar. Amor, morte, existência, tragédia grega, destino, mundos paralelos, gatos falantes, chuva de peixes e sangue-sugas, música, literatura, sexo, todos esses assuntos são tratados ao longo do livro, com a devida profundidade e sem deixar nada mal-explicado ou esburacado. É um romance extremamente organizado e cheio. Acho que eu poderia resumir dizendo que essa obra é um apanhado geral da bibliografia do Murakami, seus gostos, seus hábitos, seus cenários, tudo pode ser encontrado nesse romance. Então, se o realismo fantástico é um gênero que te agrada e você também gosta de referência a cultura pop aqui e ali, mas nunca leu nada desse autor, esse é um bom começo.
 
Quanto à história. Kafka é o nome inventado por um adolescente de 15 anos que, para fugir das profecias do pai - que diz que ele um dia o vai matar e dormir com sua mãe e irmã -, decide fugir de casa a procura de sua mãe e irmã, que partiram quando ele ainda era uma criança. Do outro lado da história, está o velho Nakata, vítima de um acidente misterioso durante a infância, que o fez perder a memória e a capacidade de ler e escrever, em troca ele recebe o dom de conversar com gatos e, aparentemente, dificultar a vida dos meteorologistas. Partindo desse ponto, novos personagens são introduzidos, a história da curvas surreais e vai, aos poucos como em um quebra-cabeça, tomando forma e chegando ao fim.

Mesmo com o número de páginas, o ritmo do livro é muito rápido e pude lê-lo em poucos dias, isso considerando que não sou leitor afobado, aproveito linha por linha, calmamente, dos livros que me agradam. Todas as referência, também, são fantásticas e, caso o leitor já não conheça cada uma delas, sugiro que as procurem. Ao longo da narrativa são lançadas observações sobre a obra de Haydn, Beethoven, John Coltrane, Duke Ellington, Cream, Prince, Led Zeppelin, Truffault, Natsuki Soseki, Kafka (o escritor, não o narrador), e mais inúmeros artistas. Eu mesmo já defini futuras leituras após esse livro. Como eu sempre digo, toda a arte está interligada de alguma forma.

Vamos ao bingo, como sempre. O resultado dessa obra foi: Mysterious woman - ear fetish - feeling of being followed - unexpected phone call - cats - old jazz record - supernatural powers - train station - historical flashback - precocious teenager - cooking - speaking to cats - parallel worlds - weird sex (BINGO MOTHERFUCKER!) - unusual name. Como eu disse, esse livro é um resumo da obra do Muraka, todas as manias estão inclusas.

Nota: 5,0/5,0

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dia da Virada


É uma noite como outra qualquer, mas eles se reúnem. Pais filhos avós, tios e tias dos quais antes nem mesmo o nome se lembrava.
Na grande sala iluminada pela riqueza e o barulho da televisão que não se cala.
           E o banquete está servido pelos serventes que não puderam relembrar os nomes de seus tios e tias, talvez nem vivos estejam – o que não interessa nem um pouco àqueles que sofrem com o jejum voluntário de poucas horas, disfarçado com champagne, e uísque para o pai que vê apenas seu suor por todos os lados, uísque mais velho que seus filhos e mais caro que o lar dos serventes.
            E a Lua sobe lentamente, ou a Terra gira como sempre, enquanto milhões de pessoas esperam o fim do ciclo.

Alguns emergentes atiram nas águas indiferentes, promessas vazias de amor e de paz, que logo são engolidas pelo sal e destruídas pelas ondas – mas que importa se o sol e a ressaca fará com que tudo seja esquecido logo mais.
            E as lembranças dos dias que passaram nesse velho ciclo são sempre doces, de riquezas e felicidades, ao som do tilintar dos cristais e risadas, ambos falsos como todo o resto.
E em meio à plasticidade, eis que surge um pedido mudo:
- Um trocado, por piedade.
           E feliz ano novo! Todos gritam surdos, enquanto ele vai embora, com sua sujeira e delírios e solidão. Seus desejos são levados apenas pelas lágrimas.

Começa a tão esperada contagem.
Em meio aos gritos e alegria absoluta – tiros, roubos e um ou dois estupros, invisíveis.
           Então o seu explode em ilusões e sonhos e desejos nunca realizados, dando fim ao jejum da sofrida burguesia e a sobriedade de todo o resto.
           Fumaça, fogo, luzes, lixo por todos os lados, em terra e mar, mas nenhum ambientalista parece reclamar. Em que buraco eles se meteram?

A Terra gira, dá voltas em total indiferença, virando sua fronte ao sol e iluminando as baratas que jazem em seu corpo, visitantes indesejadas.
E o Sol queima as memórias e as vergonhas e os sentidos.

É o tal ano novo começando, estranhamente igual aos passados.
Sem sonhos, sem festa, sem desejos, sem realizações.
Os servos e o mendigo e o mar, continuam suas vidas.
Só resta o mistério da noite passada, fragmentos.
As lágrimas e sangue invisíveis são expostos, mas ninguém sabe de nada.
Até as próximas comemorações.