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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sobre a Poesia


Alguns sabem, outros não, mas só me importo com os que sabem, recentemente voltei a fazer poemas. Não aos montes, só quando a vontade me toma e, depois de escrito, eu releio e vejo se é sério, se não abandono o bicho no word e ele fica lá, escondido, longe das vistas humanas que não as minhas. Nos primeiros posts do meu "retorno" ao mundo dos versos, ainda cheguei a deixar justificativas sobre essa mudança de ideia, principalmente por ter deixado muito claro algumas vezes que ia parar com a poesia - juro que era essa a intenção na época.

Disse que não me sentia bem com os poemas, mas não sei se isso ficou bem entendido. É que é meio difícil, pra mim, a exposição. E minhas poesias são muito pessoais, então é sempre um esforço pessoal decidir se publico ou não; esse blog pode ser pessoal, mas só falo de gostos, tem muito pouco sobre mim aqui e o que tem é muito vago e, vez ou outra, falso - sim, sou paranoico com privacidade, pronto, agora vocês têm uma informação sobre mim. E poesia, por ser tão confessional, é meio que uma contradição com o que me fez começar a escrever pra começo de conversa, que foi a ideia do câmbio de consciência, ser outra pessoa por um instante, porque eu canso de mim muito facilmente - isso justifica minhas leituras e amor pelo cinema, poder experimentar com outras vidas.

Por isso escrevi poemas que só tive coragem de jogar no blog depois de 2 meses, mesmo tendo levado duas horas pra escrever, mistura de paranoia de privacidade com autodesprezo. Além disso, todo o processo de abertura emocional que os poemas envolvem são meio dolorosos para mim. Com isso eu quero dizer que a qualidade da poesia não é o único fator que faz com que eu queira parar. Sei lá, o fato de eu ter recebido comentários positivos sobre os poemas de retorno fez com que eu me sentisse melodramático, como se estivesse pedindo aceitação; achei melhor eu me explicar.

Antes de mais nada, concordo com o que dizia E. B. White, sobre o humor, que ele pode ser dissecado como um sapo, mas a coisa morre no processo e suas entranhas são desencorajadoras a todos, exceto àqueles de mente puramente científica. Digo o mesmo sobre a arte. Só agora, enquanto escrevo, percebo o quão contraditório é esse meu pensamento, visto que a maior parte do conteúdo desse blog é resenhas, essencialmente dissecações de filmes, livros, música, talvez não tão profundas e científicas, mas definitivamente capazes de expor e até remover alguns órgãos. Ainda assim, tenho a cara de pau de reafirmar que concordo com o sr. White, mesmo até que esse texto seja, nada mais nada menos, que dissecação, e da pior espécie - a de si mesmo.

Existe algo de inocente no escritor amador - me incluo nessa. A ideia de que o texto sendo sincero o suficiente já serve como comprovante de qualidade ou relevância artística. Não é bem assim que a banda toca, eu iria descobrir ao terminar meu primeiro romance e tentar revisá-lo. Eu mesmo percebia que faltava alguma coisa, mesmo que todo meu processo de escrita fosse o mais honesto possível. Mas não estou aqui pra falar da minha prosa, o alvo aqui é a poesia e os motivos que me fizeram desistir dela por um tempo.

Falemos de história por um breve momento, ok? A quem estou tentando enganar? Não sei das origens da poesia, muito menos das diferentes escolas e todos aqueles autores e datas e estilos, não sei nada disso e não vou fingir que sei. Mas eu sei que a poesia começou como música. Sílabas que organizadas de certa maneira davam ao texto um certo lirismo, ritmo, musicalidade, mesmo sem o auxílio de instrumentos. Eis a poesia em sua forma mais primitiva. Com os anos, a forma dos ritmos e números de sílabas por verso e disposição das tônicas e uso ou não das rimas foram se alterando e transgredindo, liberando e chegando ao verso livre, assim como o conteúdo, que passou pelas narrativas, foi aos épicos, chegando às confissões e ao banal cotidiano, até o surreal e o incoerente alucinatório. 

O que eu gosto de fazer, me sinto bem fazendo, poderia talvez ser classificado como verso livre, vez ou outra confessional. A maior parte das coisas escritas são verdadeiras, baseadas em acontecimentos e estados de espírito reais, sem prestar atenção em formas sólidas de verso. O problema disso? O que separa o verso descuidado da prosa mal fatiada? Até que ponto o verso livre é de fato livre?

Existem teorias, a mais popular é a de que o verso livre segue o ritmo da fala e os limites da respiração humana. Walt Whitman fez isso, William Carlos Williams também, estes passaram a tocha para os beats, principalmente Allen Ginsberg (é possível ouvir dois poemas dele na playlist do blog*, a musicalidade é visível, vocês verão). Mas todos eles têm uma coisa em comum, a capacidade de limitar seus versos se desejado. Isso é pouco conhecido, mas os primeiros poemas de Allen Ginsberg foram tradicionalíssimos, rimados, medidos, quase clássicos do romantismo inglês, se não fossem americanos e modernos. O que eu quero dizer é que, diferentemente de mim, ele sabia limitar versos. A transgressão aos versos livres era questão de escolha. Não é meu caso. Faço versos livres porque sou incapaz de fazê-los de qualquer outra maneira. Mas se eu desconheço as tônicas e ignoro o corte das sílabas, que musicalidade eu posso dizer que sigo, além da instintiva, em outras palavras, do acaso e da sorte?

Espero que você, lendo esse texto, não seja um aspirante a poeta a fim de sanar dúvidas. Minha criança, não tenho respostas. Talvez só uma, mas mesmo dessa não tenho certeza, de que a arte não responde nada, só explora e questiona ainda mais, disseca a sua maneira - vejamos se eu consigo manter um tema constante pelo texto - sem que se perca dentro de si ou caia em autoanálise, disseca a sociedade da qual a arte é parte marginalizada. Mas não responde porra nenhuma. 

Acho que perdi a inocência literária. Estou perdendo aos poucos. Isso é ruim, sinto falta daquela espontaneidade. Todas as minhas sentenças agora são calculadas, fabricadas, lidas e relidas e remontadas, e o pior de tudo, nem sei se sei o que estou fazendo. Admirável para alguns, mas me deixa angustiado. Até meus poemas, 7 ou 8 linhas, são feitos com todo o cuidado do mundo. Eu realmente não sei se isso é bom ou ruim. É complicado querer criar alguma coisa depois de tantos milênios de existência de uma arte. O que ainda falta fazer? Só resta falar do que é interno e pessoal, já que isso é tão variado quanto o indivíduo em si, mas até isso, se procurar bem, é possível de encontrar quem faça melhor. Melhor é termo subjetivo, mas vocês entendem.

Defendo que, independente de forma, certas coisas não podem ser ditas em prosa. Poesia, nessas horas, mais que música, é um bom disfarce. Além disso, poesia também é tudo que precisa ser dito para que se evitem catástrofes humanas. Vai além do bom e do ruim, nesse sentido, e salva vidas, nem sempre só a do seu autor, embora seja esse a maior parte dos casos.

Tudo isso foi só uma justificativa. Texto longo demais para só servir de desculpas para alguma coisa. O que me consola é que deve ter quem se sinta igual e queira ler alguém dizendo aquilo que ele sente, que não seja ele próprio. É por isso que eu continuo escrevendo. Isso e um medo profundo de seguir com a vida de escritório. Já disse uma vez e repito, escrevo para não morrer - ou pra não deixar a vida. É tudo um dia depois do outro, qualquer mentira que me salve da noite. Por isso, boas ou ruins - espero que boas, principalmente se for verdade que a prática leva à perfeição - as poesias e as prosas seguirão enquanto eu estiver respirando, e o fim de um pode ser consequência do fim do outro.

Tendo em vista essa conversa toda, fiz um poema baseado nisso e outras coisas, decidi encerrar o texto com ele:
-12

você assiste ao homem sem esperança se abrir com uma caneta em uma operação ritualística do espírito,]
se perguntando por que disso, quando a dor transfere às suas entranhas,
sem nunca abandonar o operado -
multiplicando, somente.
ninguém sabe o porquê disso.
nem ele.
é uma dor fútil, desnecessária, insuportável,
tão difícil de conter, mas que nunca deveria envolver outras pessoas.
e ele próprio sabe,
sabe que não devia se abrir dessa maneira,
sabe que coisas ruins acontecem quando ele se abre.
que sentimentos são gnomos irracionais da infelicidade,
que existe uma gaiola na alma, especial para esses bastardos.
que a chave está à mão, mas não deve ser tocada
jamais.
ele vai, alcança a chave e, não só libera os animais,
os expõe - em público.
a verdade sobre os demoniozinhos
é que eles não são de proveta,
nascem de outras pessoas.
nunca se deve mostrá-los as suas mães.
tudo bem para um público - são todos cegos de qualquer forma -, mas nunca os devolva à origem.
ele fez isso uma,
duas,
três vezes.
mais que isso?
os putos se perdem com esse tipo de exposição.
é tortura, eu digo.
tortura.
isso causa náusea insuportável quando essas mães rejeitam os filhos,
principalmente porque elas não pedem por eles, nem sabem como eles surgiram.
é crime de várias vítimas, mas sem culpado.
e o condenado aqui vive para escrevê-los.
acha que os gnomos emocionais se acalmam assim,
um tolo perdido de fato.
alguém deveria ensiná-lo tudo isso,
a manter suas gaiolas trancadas.
agora deve ter aprendido.
para seu próximo número, irá escrever:
“o melhor é sentir desejo por aquelas pelas quais se sente desprezo,
o afeto, em troca de esforço, só traz a dor.”
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*Acabei de reparar que a playlist sumiu quando eu mudei a porra do layout. Se eu soubesse que isso ia acontecer, não teria mudado nada, agora foda-se. O pior é que eu me orgulhava daquela playlist... Outro dia faço uma nova, por enquanto, acreditem em mim quando eu digo que a poesia do Ginsberg é genial quando recitada.

2 comentários:

  1. Eu não gosto muito de poemas, nunca gostei. Nem sei o motivo, mas meu pai diz que eu não tenho coração, então talvez seja por isso. kkkk
    Não, de alguns poemas eu gosto, normalmente de gente que não é famosa, como vc, talvez pela espontaneidade, não sei.
    Mas sabe, se vc gosta, faça. Vida de escritor não é fácil, mas pra mim seria muito pior não escrever, acho que pra vc tbm.
    Vc é escritor, viva com isso e aproveite!

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    1. Sei o que você quer dizer. Poetas publicados podem ter uma forma afetada demais às vezes. Isso que você falou para eu fazer é o que eu faço. Poemas, quando eles me vêm, eu os faço, deixei de me preocupar se são bons ou não, não vou publicar mesmo.

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