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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Resenha Especial de Natal

É natal, ou quase, ainda é dia 23 - mas isso é pra que você tenha tempo de achar o filme que eu estou pra sugerir. Época que todo mundo dá uma amplificada naquela boa e velha hipocrisia, e todos fingem se amar um pouquinho mais. A TV fica ainda mais chata do que já é, e todo lugar parece querer enfiar garganta abaixo alguma espécie de lição de moral mesclada com um consumismo disfarçado. Essa festa também "inspirou" muita gente no cinema, lançando milhões de filmes temáticos todos os anos, indo dos grandes clássicos até os filmes "família" chatos pra caralho. 


A resenha de hoje é especial para essa época do ano, pra vocês que querem juntar a família e distrair todo mundo com um filme em uma reunião especial. É com essa intenção que eu lhes apresento: Natal Sangrento (Silent Night, Deadly Night), de 1984, dirigido por Charles E. Sellier Jr.(conhecido por porra nenhuma).



Billy era apenas uma criança quando seus pais foram assassinados. Isso aconteceu na noite de natal, logo depois de eles terem ido visitar seu avô, no asilo. Seu avô não falava nada, seus pais disseram que ele não ouvia nem percebia ninguém perto dele, mas quando eles o deixaram sozinho com o velho, ele começou a falar sobre como o Papai Noel punia as crianças malvadas na noite de natal. Logo depois disso, um assaltante aparece no meio da estrada, vestido de Papai Noel, para o carro de sua família, mata seu pai, tenta estuprar sua mãe, que resiste, mas acaba tendo a garganta cortada. O homem ainda procura por Billy, mas ele se esconde e sobrevive, junto com seu irmão mais novo, e os dois vão para um orfanato católico.

Papai Noel estuprador: chupa essa, infância!
No orfanato, Billy aprende que sexo é errado e tudo que é errado deve ser punido severamente (eu amo essas tradições católicas). Então, por se recusar a aceitar as tradições de natal, como sentar no colo do Papai Noel, ele é punido diversas vezes. Uma vez com um cinto, depois ele é amarrado na cama. A igreja católica pode querer punir o sexo, mas sabe ensinar umas putarias bacanas pra criançada. Mas voltando ao filme. Mesmo assim, Billy cresce, completa dezoito anos e é levado pela freira para arranjar um emprego. Onde? Numa loja de brinquedos, claro, onde mais você acha que o enredo desse filme poderia se completar? E Billy é muito útil para a loja, já que, aparentemente, durante todos esses anos que se passaram no orfanato, ele se viciou em musculação. A igreja devia ter uma academia no subsolo, isso explica.

Depois dessa sessão de cintadas, a freira prosseguiu e prendeu os mamilos do garoto com pregadores, então pegou uma palmatória e jogou pingue-pongue com seus testículos. Ei, tem gente por aí que pagaria uma boa grana pra umas prostitutas fazerem isso. Ele recebeu de graça.












Pra que o ciclo se complete, Billy é forçado a vestir uma fantasia de Papai Noel, para a loja de brinquedos, e a garota que ele gosta é quase estuprada. O que segue essas duas cenas é o padrão filme slasher da década de 80. Billy sai por aí punindo as pessoas, vestido de Papai Noel. Isso gera cenas como um enforcamento com luzes de natal e um empalamento com os chifres de um alce empalhado, pura diversão natalina.
De jeito nenhum isso poderia dar errado...não é?
Ops, parece que a irmã aqui leu o script e discorda.








Natal Sangrento gerou bastante controvérsia em seu ano de lançamento. Não tanto pelo seu conteúdo, já que filmes slasher eram coisa batida em 84 (mesmo ano de lançamento de Hora do Pesadelo), mas por causa da temática. Aparentemente, as mães de 1984 não queriam que seus filhos vissem Papai Noel assassinando pessoas por aí. Afinal, está mais que claro pelo título do filme (Silent Night, Deadly Night), e pelo cartaz (Papai Noel segurando um machado), que se tratava de um filme infantil, não é? E outra, é absurdo que alguém possa denegrir a imagem de um feriado tão amado, fazendo dele um filme slasher...mas quando Halloween fez o mesmo, aí não teve problema.


De qualquer forma, tentaram banir o filme, e o boicote foi forte o bastante para tirar o filme de cartaz e causar forte prejuízo econômico aos produtores, e pessoal para os atores e atrizes envolvidos. O que é uma pena, porque, apesar do enredo meio bobo, Natal Sangrento não é um filme ruim. Verdade que alguns detalhes poderiam ser melhor trabalhados, afinal o filme inteiro poderia ser evitado se algum dos personagens fossem sensíveis o suficiente para se lembrar que os pais de Billy foram assassinados por um cara fantasiado de Papai Noel, mas, mesmo assim, o desenvolvimento do personagem Billy fugiu completamente dos padrões slasher da época. Existe uma moralidade por trás das ações de Billy, reforçadas pelos seus anos no rígido orfanato católico. Ele foi ensinado que coisas ruins deviam ser punidas, por isso punia as coisas ruins da mesma forma que ele foi punido quando criança, com a morte. Tá bom, o Papai Noel assassino matou os pais de Billy e não ele próprio, mas vocês entenderam a analogia.


É estranho, porque, quando eu pensei em fazer uma resenha de natal, pensei em fazê-la como uma piada (sim, essa resenha queria ser engraçada, caso você não tenha reparado; ninguém entende o meu senso de humor...). Quando eu ouvi dizer que existia um filme slasher natalino, na hora minha conclusão foi de que seria um desastre, mas não foi bem assim. Está longe de ser uma obra prima, mas quando se fala de um filme desse tipo, não dá pra comparar com La Dolce Vita. Natal Sangrento deve ser comparado com Halloween ou Sexta-feira Treze, esse gênero cinematográfico. E, em se tratando dessa classificação, Natal Sangrento é muito bom. Carrega todos os clichês do gênero, como as cenas de sexo só pra gerar espectadores, o exagero nas cenas de morte - que são sempre hilárias -, a estupidez de alguns personagens - se bem que esse clichê quase não se faz presente, o que é bom - e uma ou duas inconsistências do enredo, como por exemplo, onde foi que Billy achou um arco e flecha numa loja de brinquedos. Só que, repito, isso é padrão do gênero, um filme sem esses problemas, não é slasher. É necessário o clichê e a baixa qualidade pra que a obra funcione. Às vezes existe um exagero e acaba dando errado, mas não é o caso de Natal Sangrento.

Não, Papai Noel, eu não vi seu machado ensanguentado, nem ouvi os gritos da minha irmã sendo empalada pelos chifres do alce empalhado, só vim aqui pedir meu presente. Ah, um estilete manchado de sangue...obrigada, Papai Noel.
O único problema que eu pude perceber foi o final. O começo e o meio conseguem carregar uma quantia equilibrada de tensão, violência e humor, mas na última meia hora de filme (que mal chega à uma hora e meia de duração), fica claro que eles precisam completar um certo tempo pra poder chamar o filme de longa-metragem, então a coisa fica arrastada, chata, esticada. Alguns flashbacks também poderiam ter sido retirados, mas, novamente, o filme acabaria muito curto. No mais, Natal Sangrento é uma experiência familiar natalina perfeita. Sente todo mundo no sofá, depois que seu tio beber demais e ameaçar sua tia de "estapeá-la como na semana passada"; ou seu pai acabar admitindo entre uma ou vinte taças de vinho que ele meio que queria um divórcio, mas acabou mudando de ideia quando analisou os custos; ou quando o seu irmão, que você não vê há cinco anos - quando ele foi preso por tráfico de drogas -, decidir que é uma boa ideia trazer alguns dos amigos que ele conheceu na cadeia para comemorar o natal com a família, lembrando que ele pode ou não ter vendido sua irmã em troca de uns cigarros; ou quando sua vó decidir que natal em família é uma boa hora para começar a desferir seus racismos em forma de palestra neo-nazista. Diversão garantida.

Nota: 3,5/5

2 comentários:

  1. Nossa, não conhecia esse filme, mas achei perfeito para meu sobrinho que quase teve um enfarto quando viu minha mãe vestida de Papai Noel, sim, na minha família alguém sempre se veste de Noel, mas meu pai se recusou esse ano, por isso tivemos um Noel meio gay, mas tudo bem.
    Sério, quero ver esse filme, acho que deve ser engraçado e já que vc gostou, deve ser legal.
    Depois digo o que achei.

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    1. É bem engraçado. Se você gosta desses filmes como Halloween, Sexta-Feira 13, Hora do Pesadelo, é perfeito. Só não espere uma obra-prima.

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