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sábado, 14 de dezembro de 2013

Decadência; ou Uma análise do rei do camarote, mesmo que tardia

Príncipe do camarote.
Depois de assistir mais vezes do que é mentalmente saudável – duas ou três - o vídeo da Veja sobre o rei do camarote, só me resta dizer que Alexander de Almeida é a caricatura vilanesca de um playboy mais repugnante a amaldiçoar essa Terra já tão assolada pela cretinice; ele não só representa tudo o que me é desprezível, mas também carrega em sua carcaça indecente todas as características de uma pessoa que eu procuro me manter longe e acho que merece ser pisoteada por nossa sociedade. E quanto mais eu leio textos sobre esse homem e seu vídeo, mais fica claro que a pior parte desse neo-aristocrata desumano é que ele é um espelho. Se Alexander de Almeida não fosse tão parecido com o resto de nós, fisicamente eu digo – reza a lenda que o diabo pode assumir forma humana a vontade -, tão homersimpsoniano, tão Zé da Silva, que sua riqueza é inacreditável para muitos; fora de contexto, ele pareceria bem mais um ator amador em um falso documentário satirizando os socialites das metrópoles e suas crises de meia-idade eternas em busca da fonte da infantilidade. O doloroso nisso tudo, é que os grandes críticos do rei do camarote – os comentaristas de internet, principalmente os mais radicais – têm como fonte de fúria o fato que, se não fosse por suas condições de proletários, fariam o mesmo que ele, seriam Alexander.
Psicopata brasileiro? Fico pensando se alguém
nessa imagem falou mal dele no youtube...
Provavelmente.
Nobody knows you 
when you're down and out...

Há uma razão para esse meu raciocínio, mas precisarei usar exemplos. Ninguém melhor para começar do que com o Eike Batista, ou melhor, sua cria, Thor Batista. Lembram desse cara? Não, né? Mas ele matou um ciclista. O tempo foi passando e aparentemente ele teve que pagar uma multa de um milhão de reais e passar dois anos fazendo uns serviços públicos. De acordo com o advogado do deus do trovão, ele só foi acusado por que é rico. Afinal de contas, que pobre é punido pelos crimes que comete? Pobre nenhum passa anos na cadeia por roubar comida pra família. Tudo que o garotinho fez foi atropelar um pedreiro. Quem se importa? Papai Batista deu uns oito mil reais pra família pagar o enterro, que mais eles querem? Justiça? Isso é coisa de rico, e vocês me perdoem a contradição, acho que me perdi na ironia. O juiz que fez com que o filho do bilionário cumprisse a pena por seu crime é corrupto, esse é o veredicto não pronunciado do advogado.

Agora vocês querem saber qual juiz não é corrupto? O bom homem que permitiu que o filho de, na época do incidente, quatorze anos do diretor da RBS, Sérgio Sirotsky, permanecesse livre e imaculado após embriagar e estuprar, com o auxílio de um amigo, uma garota de treze anos qualquer aí, filha de anônimo, tal qual o pedreiro morto pelo deus nórdico-brasileiro da bufunfa. Esse moleque aí não levou nem susto. Até porque, tenho que admitir que ele foi honesto, confessou o crime na internet. Pararei aqui, o último blogueiro a falar desse caso “se” enforcou com um lençol. Quem tem cu tem medo, só digo isso.

Psicopata Americano.
Lembrando que essa cena termina em machadada.
Esse último caso, os leitores terão que me perdoar, mas me é sensível, difícil de falar sobre sem que eu engasgue. Sorte que sou homem das letras e não orador, do contrário, estaria em soluços. É que esse caso foi esquecido e me dói desenterrá-lo. Roberto Justus, esse porco-mesquinho-indecente-animal-imundo-monstro-depravado, gravou um disco de interpretações de standards do jazz, como I Got You Under My Skin, clássicos imortalizados por Nat King Cole, Frank Sinatra, Louis Armstrong. Sim, ele agarrou os eternizados pela garganta e lhes sugou a vida como uma puta sedenta e barata com transtorno obsessivo compulsivo e uma agenda pra cumprir. Deixe-me pausar para secar as lágrimas. Jesus Cristo, isso aconteceu, meu povo! Como vocês puderam esquecer? E ele fez shows, turnês, sem nunca ser preso em flagrante. Pelo amor de José-Corno, é só falar em impunidade...

Já é hora de eu responder qual a relação entre essa série de crimes, assassinatos, atos puramente vis contra a humanidade, porém bilionários, e, o mais criminoso de todos, o rei do camarote. Todos eles te esfregam o dinheiro na cara. Esquece o que aquele débil-mental, cretino de babar na gravata (salve Nelson!), desculpa esfarrapada de advogado com diploma comprado falou sobre “Thor só ter sido punido por ser rico”. Você, meu caro pobre – porque, se você me visita, chances são que tu é pobre -, se você pensa em cometer qualquer uma das atrocidades listadas acima, seja fazer um vídeo com a revista Veja ou estuprar uma criança ou cantar Sinatra no karaokê do boteco da esquina, você vai preso, e muito merecidamente, pro resto da sua vida.

Mas as pessoas esqueceram o assassinato, nem ficaram sabendo do estupro e, incrivelmente, esqueceram do CD do Justus – essa porra ficou em lista de mais vendidos, pelo amor da minha vó! -, mas não conseguem deixar em paz o riquinho metido a besta agarrado na figura grotescamente fálica da champanhe que pisca.

Talvez faça sentido. Talvez os “Justus”, “Batistas” e “Sirotskys” estejam em um grau tão surreal de disparidade financeira, que até a revolta é impossível. Vai ver o Alexander é um desses caras, só que alcançável. Ouvi dizer que ele fechou a conta do Instagram, então, seja lá o que for que “os invejosos” falaram, surtiu efeito. Juro que odeio esse puto tanto quanto todos vocês, mas, quando você fica sabendo de todas as outras ostentações pelas quais nós fomos e somos forçados a passar, não parece um pouco injusto?

Pois não se enganem. Justus ostentou gravando esse CD, assim como ostenta mantendo empregadas a sua disposição vinte e quatro horas por dia em casa, e ostenta mantendo um programa na televisão a fim exclusivo de poder demitir alguém. Eike e seu filhote ostentaram matando uma pessoa e dando um troquinho pra calar a boca da família que sofreu com a perda. Sirotsky e seu filhote, que vai crescer livre, ostentaram ao se salvarem de um estupro, totalmente silenciado por sinal, e de um assassinato também, de um homem de imprensa que se recusou a ficar quieto.

Isso tudo é ostentação, e muito pior que uma Ferrari e um infinito de dinheiro rasgado no camarote de uma balada. Injusto que ele possa fazer isso em um país faminto. Sim, mas vale lembrar que a maioria dos revoltados contra o rei do camarote são capitalistas e contribuem para a existência de gente assim. Não que eu seja socialista, isso é só uma observação. Uma sociedade que permite competição e acúmulo individual de riquezas gera, por consequência, reis do camarote. Estou tentando deixar claro, no entanto, que isso não é nada. Isso mesmo, falta de consciência social não é nada em comparação a assassinatos. Pra começar, ser rico não é crime. Estupro de menores, por outro lado, é.

Quer dizer então que eu acho errado insultar o rei do camarote? De forma alguma, podem insultar livremente. Eu fiz isso, não só no começo do texto, mas na vida pessoal também. Ele é um filho da puta, afinal de contas. Só peço, imploro, que não se permita que esses outros reis de camarote, muito mais soberanos, saiam pisoteando o povo. O capitalismo, embora permita acúmulos absurdos de capital, não permite a divinização do rico. Thor só é deus no nome, e um deus falido ainda por cima.


Acho que todos gostariam de uma sociedade mais justa. Eu, pelo menos, sonho em uma utopia à Summer of Love, Age of Aquarius, Acid Tests, Alice’s Restaurant Anti-Massacree Movement. Nasci algumas décadas tarde demais pra isso e hoje a sociedade está quebrada, por isso não me importo com sistemas econômicos e políticos. Admito, cheguei no ponto que estou apenas esperando o fim da nossa civilização e sem nenhuma curiosidade para ver o que vem depois. Só que isso não significa que eu vou saudar o rei do camarote como se fosse seu súdito. Quem precisa de sociedade quando se tem o indivíduo, né? Eu sou minha sociedade e sugiro que vocês, que estão lendo e entendendo esse texto, façam o mesmo. Não, não se unam à minha sociedade. Façam a de vocês. A não ser que vocês realmente queiram se unir à minha sociedade, aceito inscrições, vai que cola a minha revolução. A única condição é que se cuspa no rei do camarote, não só o Alexander, mas no rei como símbolo. Viu o Thor Batista passar na rua – como se esse puto andasse na calçada -, cospe nele. É assassino, não é? Tá solto por quê? Cuspam no pai dele também que cooperou pra impunidade. E no advogado. Façam o que for, mas parem de chorar no facebook. Milhares de curtir num vídeo falando mal do rei do camarote não é sinal de mudança dos tempos. Não se a fúria morre online. Existe um mundo além da internet, meu povo, e ele precisa ser mudado também. Isso, ou cale a boca e admita que você queria estar lá no camarote, não com ele, mas aproveitando melhor a vida dele, só que isso é feio de se admitir, então você vai ficar importunando o mundo com fotos de crianças famintas da África que você finge acreditar que serão alimentadas graças aos seus compartilhamentos.

3 comentários:

  1. Eu não odeio o cara do camarote, eu na verdade não sinto nada por ele, acho um babaca, pois quem com sanidade faria um vídeo tão ridículo como aquele? Mas não odeio, não me importo, entende? Tipo, que se dano o cara do camarote.

    Bem, você sabe que faço Direito, então me sinto na obrigação de defender o advogado, pois eu o entendo, assim como entendo as pessoas que ficam com ódio de advogados quando eles defendem caras como aquele que matou o moço atropelado. Não é que ele seja um sem alma, sem coração, corrupto e tudo mais, ele é advogado, ele está defendendo a pessoa e não o ato que ela cometeu.
    Eu defenderia um estuprador, um assassino ou um pedófilo tranquilamente, não me leve como uma filha da mãe, mas eu estaria defendendo a pessoa, não o ato, eu odiaria meu cliente, eu o odiaria com todas as minhas forças, mas ele merece defesa, todo mundo merece, nossa Constituição diz isso claramente, ele merece uma defesa. E o advogado não é um cara ruim ou ordinário por defender alguém assim, é o trabalho dele, ele precisa estar lá pra garantir uma defesa justa e fazer de tudo para que o cara tenha a menor pena possível. É frustante e difícil de entender, algumas pessoas nunca entenderão, mas ele não está errado, é o trabalho dele e ele não é um ser desprezível por defender um ser que é.
    Sobre os pobres serem presos por coisas banais como comida, isso também é tudo papo, coisas que são colocadas nos jornais, revistas pra gerar falação, isso não acontece. Tenho aulas com delegados, eles contam como as coisas realmente são. Essas pessoas que roubam comida não estão fazendo isso pela primeira vez, elas estão fazendo isso pela oitava vez, roubam toda semana. Nas primeiras vezes o local nem ao menos avisa a policia, apenas dão uma advertência e pedem para que a pessoa não volte mais, então na oitava, nova vez, eles ligam e a policia não os prendem, fazem advertências, se o caso continua, então o cara é preso, mas não é somente pelo roubo de comida, ele possui antecedentes, ninguém é preso por bagatela no Brasil.
    Mas sim, concordo com você no restante, gostaria de um mundo mais justo, algumas vezes fico pensando que certas pessoas não deveriam procriar e que o mundo seria um lugar bem melhor, caso isso acontecesse.
    É triste!

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    1. Gostei do comentário. Meus textos não costumam ter qualquer conhecimento técnico ou pesquisa, então é bom ter alguém aqui para dar aula de vez em quando. Na verdade, quando comecei a escrever isso aí, fiz por raiva. Mas, pro final, comecei a achar graça e tirar sarro da coisa toda.

      Só uma observação. Não falei mal do advogado por ele ter defendido o cara. É o trabalho dele, oras. Falei mal do comentário feito para mídia depois do julgamento. Aquilo ele não foi pago pra falar, era uma opinião sincera, mesquinha e pela qual ele pode muito bem ser insultado - trabalho que eu faço questão de chamar de meu.

      Já as pessoas que são presas por roubarem comida continuamente...ora, elas têm fome todos os dias, não têm? E não adianta essa história de que "eles poderiam procurar um emprego", porque é meio difícil uma empresa contratar gente que não se veste de forma apropriada ou não tem meios de tomar banho todos os dias. Como eu disse no texto, nossa sociedade permite esse tipo de coisa, fazer o quê? Vivemos num mundo moldado para não permitir que um pobre saia do seu estado, ou que um rico perca suas posses. Meio que uma sociedade de castas, só que muito bem disfarçadas.

      Admito que esse texto é bem superficial, mas o único jeito que eu teria de passar esses argumentos cuidadosamente, sem deixar passar nenhum detalhe, seria com 600 páginas, num texto que ninguém leria. O meu objetivo foi fazer o leitor rir e se enfurecer ao mesmo tempo, os fatos, ele que busque, como você fez.

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    2. Ah, sim, o comentário foi desnecessário mesmo.
      Sim, eu concordo, no mundo de hoje é muito difícil uma pessoa nascer pobre e sair dessa vida, se você nasceu pobre, provavelmente morrerá pobre e seus filhos, netos e toda a geração seguinte, será pobre. Engraçado, estava falando sobre isso com alguém agora pouco.
      Eu entendi seu ponto, como disse, também acho que as coisas estão erradas, mas infelizmente ficará como está por muito tempo.

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