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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Diálogos - Parte 1 [Conto em quatro mãos com Luana Kraemer]

Separados, mas interligados, eles caminhavam pelos corredores cercados de livros, deixando seus passos ecoarem pelo mar de conhecimento. Ela, Alice, seguia pelas prateleiras com seu velho costume de passar o dedo pelas lombadas enfileiradas, Dostoiévski, Goethe, Nietzsche, Turgueniév, Woolf; todos aqui, ela dizia para si, dedo e olhos em conjunto. Todas as mentes e mundos ordenados em montes de papel.
Do outro lado das prateleiras, Pedro olhava os títulos um a um, buscando por nada específico, mas que pudesse mudar o que ele estava sentindo, de alguma forma preenchendo o vazio de sua vida.
Sentiam a presença um do outro no seu íntimo, não como realidade, mas uma força que emerge do subconsciente.  A estranha certeza de que ali, entre aquelas paredes, alguém mais se questionava, alguém mais entendia o que quer que fosse que os angustiava. Continuaram andando pelos corredores vazios, cada um procurando algo, nenhum sabendo o quê.  
A livraria, dividida em diferentes salas, parecia mais um labirinto de estantes e corredores, madeira e papel. Entre os antigos e novos volumes, havia uma porta separando por completo uma das salas das outras. Pedro entrou nessa sala, que não continha mais livros, e, sim, velhos discos de vinil. Foi quando, entre as fileiras de capas levemente desgastadas, ele encontrou A Love Supreme, do John Coltrane, um de seus favoritos.   
Vendo um toca discos nos fundos da sala, imaginando que não tinha ninguém além dele na livraria. Colocou o disco na vitrola e deixou que a agulha o riscasse. Um segundo de chiado se passou até que o sax de Coltrane canta as primeiras notas, acompanhado dos acordes soltos do piano. Então o contrabaixo começa a dizer a frase, como um mantra, “a love supreme, a love supreme”. E a música começou a soar, preenchendo todos os cantos como o deus para o qual ela rezava em seus versos sem palavras.
Alice despertou da sua jornada pela livraria, ouvindo uma música que começou repentinamente, ao longe. Um jazz suave, que nunca ouvira antes; como que hipnotizada pelo som, foi de encontro à sua origem, um pouco assustada pois pensava estar sozinha junto aos livros. Ela caminhou por entre as estantes, usando a melodia para se direcionar, percebendo o volume aumentando a cada passo, parando em frente à porta aberta.
Era a sala em que Pedro estava ouvindo a música, concentrado em frente à vitrola, visivelmente perdido em pensamentos. Alice parou na soleira da porta, não sabendo o que fazer, não queria interromper os devaneios do garoto, mas também curiosa para saber quem era o autor de tal composição. Lentamente, ela adentrou na sala, fazendo todo o silêncio possível, decidira esperar a canção acabar para então saciar sua curiosidade.
Pedro não havia percebido ainda a presença na sala, pensando na música maravilhosa que soava do aparelho e em como ela representava o amor por um deus. Foi no breve silêncio entre a primeira e a segunda faixa que ele percebeu que não estava mais sozinho, percebeu a garota de olhar curioso parada em sua frente, um tanto inquisitiva. Ele estava incerto de quanto tempo fazia que ela se encontrava ali, não sabia nem que havia qualquer outra pessoa naquela livraria - o que era estranho, considerando que deveriam haver pelo menos alguns vendedores.
“Oi!” disse a garota, animada.
“Oi. Faz tempo que você está aí?”
“Um pouquinho. Não queria atrapalhar sua reflexão.”
“Ah, não tinha tanta reflexão assim. É que essa música me prende, sabe? Mas qual o seu nome?”
“Alice, prazer. E o seu?”
“Pedro. Você já tinha vindo nesse lugar antes?”
“Não, primeira vez. Não sabia que tinha uma livraria nessa cidade. Na verdade, parece que pouca gente sabe, nunca vi uma livraria tão deserta. Levei um susto quando encontrei você por aqui.”
“É meio estranho, não? Não digo uma livraria vazia, isso é bem comum, mas uma livraria sem ninguém, nem vendedores, nem donos. Isso é diferente.”
“Isso é verdade. Quando entrei, tentei chamar por alguém, mas ninguém respondeu. É estranho. Isso quer dizer que podemos pegar o que quisermos? Afinal, não tem ninguém para nos impedir.”
“Verdade. Você chegou a dar uma olhada nos livros? Eu acabei me perdendo nos corredores e vim parar aqui.”
“Olhei sim, só existem clássicos. Nada de Crepúsculo, ou 50 Tons de Cinza”, enfatizou o último título com um revirar de olhos, “acho que tenho certo preconceito com essa literatura… mas enfim, acho que entendi o objetivo dessa livraria, é nos provocar a lê-los, sem ninguém para nos criticar… digo, os clássicos.” E começou a andar pela sala, olhando todos os discos guardados nela.
“Acho que é isso que os livros atuais não fazem. Eles são seguros demais, parecem querer proteger o leitor de alguma coisa. É como a metade desses discos aqui, hoje ninguém os ouve. Ninguém faz nada assim”, disse acompanhando os passos de Alice. “Talvez seja por isso que essa livraria não tenha dono, mas continue intacta.”
“É, eles nos protegem dos pensamentos que os clássicos nos proporcionam. Nos protegem do raciocínio e do conhecimento passado pelos grandes autores. Isso não quer dizer que sejam ruins também, só são superficiais demais ao meu ver. E esses discos são maravilhosos e raros também”, achando um disco da Janis Joplin. “Caramba! Tá aí um mistério, como uma livraria com tanto conteúdo pode não ter um dono.”
“I Got Dem’ Ol’ Kozmic Blues Mama”, ele disse observando o disco que Alice pegou. “Esse é clássico mesmo. Ainda assim, uma mulher faz hoje o que a Janis fez naqueles dias e é chamada de puta. É como se nós estivéssemos andando pra trás. Mesmo 50 Tons de Cinza, um monte de gente se disse chocada com o conteúdo, mas aquilo não é nada se for comparar com Trópico de Câncer, do Henry Miller. Isso há mais de 50 anos atrás.”
“O tempo em que Janis viveu era de revolta, rebeldia, o tempo em que nós vivemos é de conformidade, a tecnologia faz tudo, não precisamos pensar, não precisamos mudar as coisas, a sociedade já está ‘perfeita’ como está.”
“Chega a cansar pensar nessas coisas. Toda uma geração lutando por direitos, hoje são eles os líderes do mundo. Woodstock agora é marca e tem algum primo distante de um Joplin ficando rico com direitos autorais. Não faltam motivos pra uma nova revolta, mas talvez existam motivos demais e seja tarde pra fazer qualquer coisa.”
“Fazer o quê? Mas ainda há o sonho distante de que um dia todos acordem para ‘mudar o mundo’”, fazendo aspas com os dedos enquanto fala as últimas palavras. “Mas, sacie minha curiosidade, quem tocava a música que você estava ouvindo?”, abandonando os discos para olhar Pedro.

Continua...
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O conto que vocês acabaram de ler (acho bom que tenham lido), foi escrito em conjunto com minha querida amiga, parceira do blog e conselheira jurídica, Luana Kraemer - desse blog -, e foi dividido em partes, não pergunte quantas, sendo que a parte 2 será postada um dia desses. O conto também pode ser encontrado no blog dela, então leia lá também, é a mesma coisa, mas o clima é outro. É isso, espero que tenham gostado.

Obs.: tá todo desconfigurado, eu sei, mas a culpa é do Google Drive, reclamem com ele.

2 comentários:

  1. Gostei muito, tanto do fato de estar sendo escrito por duas pessoa, quanto da história.
    Vocês dois conseguiram escrever de uma forma muito gostosa, a agente nem percebe que já chegou ao fim. Também gostei do fato de citarem os clássicos e músicas, eu adoro Jazz, parece que mais ninguém gosta de Jazz, não é?
    Só não concordo muito sobre a parte dos livros atuais serem superficiais, eu gosto de muito livro atual. kkkkk Claro que muita coisa podia ir por lixo que ninguém iria sentir falta, mas existe muita coisa boa por ai, da mesma forma que muitos clássicos não são tão bons assim.

    Bem, vou querer ler a continuação, já vi que foi postada. Parabéns aos dois.
    Depois vou passar no blog da Luana para comentar, pois o clima será outro. kkk

    Até :)

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    Respostas
    1. Finalmente uma alma caridosa aparecendo pra comentar nesse conto! É a primeira vez que eu escrevo com outra pessoa - a dela também -, mas foi ótimo. É verdade, ouvintes de jazz estão em extinção, até pretendo fazer um post falando sobre isso e sobre alguns músicos um dia desses.

      Foi uma generalização meio pesada, concordo, mas não é o que chama atenção. Mais ou menos igual a música ou cinema, tem coisa nova e boa, mas cadê? Onde que essa gente se esconde? E principalmente, onde está o povo que gosta dessas coisas boas?

      Já foi a parte 2 e a 3 chega semana que vem. O clima lá é outro mesmo, tudo organizado, você entra já tem a foto dela sorrindo pra te receber, é até mais limpo.

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