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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Falando de Solidão - Parte 2 [Conto]

Na manhã seguinte, ela já não estava lá, e se não fosse por um bilhete com seu nome, número de telefone e um “desculpe, tive que correr”, teria achado que mais da metade da noite passada não fora mais que um sonho estranhamente realista. “Tive que correr”, quem tem que correr em um sábado de manhã afinal? Não importava, ela parecia exatamente esse tipo de garota excêntrica, das que somem por semanas e depois voltam, como um gato, fingindo que nada aconteceu. Gosto dessas relações, me entendo bem com gente que preza por individualidade. Entretanto, por um misto de respeito e curiosidade - ela deixou o número, afinal de contas -, a telefonei naquela mesma tarde e marcamos um encontro em meu apartamento no dia seguinte.
    Conversamos enquanto ouvíamos discos dos mortos que nós tanto amávamos – Count Basie, Thelonious Monk, Stan Getz -, bebendo duas garrafas de vinho do porto e outra de tinto seco; até que nossas palavras foram inutilizadas e só nos restava o desejo um pelo outro, não só entre nossos corpos, mas entre nossos seres mais profundos; a vontade que eu tinha de fazer parte dela e vice e versa. Um prazer angustiante, pois nunca parecia ser plenamente realizado - sempre chegava ao fim, quando podia durar eternamente. Então falávamos mais um pouco até decidirmos voltar a nos invadir pouco-a-pouco – provando errado o porteiro em Macbeth e sua teoria do vinho que alimenta o desejo, mas mata a performance -, até a exaustão impedir qualquer novo movimento e só nos restar o sono.
    Já nessa nova manhã, fui eu quem tive que correr, porém não tive coragem de despertá-la. Após minha rotina matinal, separei meus papéis para a aula e parei ao lado de Fabi, com seus cabelos espalhados pelo travesseiro e olhos azuis que, mesmo fechados, pareciam cintilar. Levemente, passei a mão pelo seu rosto, afastando alguns fios que o cobriam, tentando não acordá-la, mas ao mesmo tempo esperando que ela acordasse e saísse comigo, já que não sabia exatamente como não deixá-la presa no apartamento, pois só tinha uma chave. Decidi que arriscaria deixar a porta aberta, os casos de invasão de apartamento naquela cidade eram mínimos. Deixei um bilhete ao lado dela, avisando que tinha ido trabalhar, mas, se ela tivesse que ir, a porta estava aberta e ela poderia trancar ao sair, deixando as chaves com o porteiro.
    Mesmo decidido, somente meu corpo realmente deixou o apartamento, minha mente a cada cinco minutos retornava ao quarto para checar o sono de Fabi. E se ela se ofendesse por tê-la deixado lá sozinha. Fabi não parecia do tipo que se deixava ofender por qualquer coisa, mas o que são esses tipos? Naquele momento, no entanto, eu tinha que deixá-la de vez, mesmo mentalmente. Era o professor Tomas que tinha que tomar conta de mim, tinha que entrar na personagem.


Começo do quarto trimestre, hora de passar as últimas partes da matéria e os trabalhos finais, para mim isso equivalia à algumas semanas sobre a Alegoria da Caverna, depois outras assustando aos alunos com questionamentos existenciais que logo eles descartariam como "viagem do professor", e finalmente as provas, exatamente iguais as do ano passado, que são iguais as do retrasado. Então é que me atingiu, não precisa ser assim. Eu tenho liberdade para fazer algo diferente esse ano, mesmo que seja rejeitado pelo gosto dos alunos ou que a maioria não se importe, nada disso importava. Minha vida não precisava ser um tédio planejado, desde que eu me esforçasse um pouquinho. Passaria um trabalho diferente, que exigiria interpretação ao invés das típicas horas lendo e relendo livros e anotações. Ainda envolveria Platão e sua alegoria, um passo de cada vez, não havia motivos para revolucionar completamente. Mas não precisava passar aquela prova, que todos os alunos dariam um jeito de arranjar com um colega ou parente do ano superior, para memorizar as respostas. Algo que todo o adolescente de classe média alta de escola particular poderia arranjar. Eles se juntariam em grupos - cinco, seis, quantos fossem -, arranjariam uma câmera e fariam um curta metragem baseado na Alegoria da Caverna. Sem forma definida, apenas seguindo os conceitos que lhes seriam passados em aula, obedecendo um limite de vinte minutos de duração, na estrutura que mais os agradassem. Tinha certeza que um ou dois viriam com materiais surpreendentes, enquanto os outros ao menos me fariam rir do ridículo ao qual eles se submeteriam.
    Trinta alunos, trinta cópias do texto. Eles passavam as folhas entre si e eu lhes dava um tempo para leitura antes de começar a discussão. Quinze minutos, quinze minutos para eu pensar no sono de Fabi. Será que me esperaria? Eu estaria de volta pouco depois do meio-dia, só dava aula pela manhã nas segundas, mas ela não sabia disso. Merda, poderia ter deixado no bilhete. Mas ela não se ofendeu, pelo contrário, deve estar feliz com a minha consideração por ter deixado tudo tão bem explicado para ela, deve ter reparado no cuidado. Nós estávamos nos vendo há apenas três dias, por que tanta preocupação? Ela é uma adulta independente, ela mesma me avisou. Isso nem é uma relação propriamente dita, só uma garota que eu encontrei no bar e que parece ser bem bacana, bem liberal, não tinha que pensar naquilo, muito menos me preocupar.
    - Silêncio, vocês dois aí! É pra ler o texto, não pra ficar de conversa - avisei para uma dupla.
    - Deu quinze minutos já, terminaram a leitura? Alguém tem alguma pergunta ou comentário? - nem uma alma se manifestava. - Você, Luis, o que você que acha que o texto significa?
    - É...han...é sobre homens acorrentados em uma caverna.
    - Sim, mas o que isso significa? Tem um significado por trás desses homens acorrentados, não tem?
    Ele não respondia, só desviava os olhos por diferentes pontos da sala, como se evitar contato visual me impedisse de vê-lo.
    - Alguém sabe? - desisti daquele.
    - É sobre as coisas que o ser humano não sabe? - perguntou Alana.
    - Isso, isso mesmo. Sobre os mistérios da humanidade. Sabe me dizer um exemplo, Alana?
    - Pra onde nós vamos depois da morte? - mania que ela tinha de responder em interrogações.
    - Sim, é um exemplo muito bom. Mais alguém tem outro?
    - De onde nós viemos - disse Marcos.
    - De onde viemos, para onde vamos, duas das grandes questões que afligem a humanidade, isso mesmo. E o que vocês veem como as sombras projetadas nas paredes? O que elas representam?
    - A resposta para as perguntas? - voltava Alana.
    - Pode ser, pode ser que sejam as respostas. Alguma outra suposição? - todos estáticos. - E se não forem respostas propriamente ditas, mas apenas sinais das possibilidades? O que vocês diriam para isso?
    Alguns ficaram pensativos, outros apenas pediam para que eu não os chamasse - tampouco eu tinha qualquer interesse em os ouvir. Do silêncio, Alberto, que parecia querer se manifestar desde o início, finalmente deixou sua voz ser ouvida, embora que trêmula no começo:
    - E se as sombras forem a realidade e as correntes ilusões que nos distraem dessa realidade.
    - Perfeito, faz todo o sentido, pode dar exemplos?
    - As correntes podem ser as religiões - ele disse.
    - Eu discordo, professor - disse Alana. - E se for o contrário, as sombras forem evidências de algo maior, enquanto as correntes são o materialismo.
    - Mas não faz sentido. A razão não prende as pessoas, não bloqueia a visão, apenas aponta para evidências que dizem que não existe algo maior, um Deus nem nada disso, enquanto as religiões insistem em pregar mentiras, acorrentar os fiéis. Quando aqueles que fogem trazem a verdade, eles são calados - disse Alberto, e eu já não queria interferir.
    - E como você explica o universo, então? Veio de algum lugar, começou, então quem fez? A resposta está nas sombras, mas você está acorrentado ao mundo físico - Alana replicou, dessa vez sem dúvida em sua afirmação, usando tom até desafiador. - O que você acha, professor?
    - Eu não tenho como responder essa. Ninguém tem.
    - Mas o que você acha? - insistiu Alberto.
    - O que eu acho? Eu acho que as evidências apontam contra um motivo ou um deus. Eu não sei dizer de onde veio o universo, mas também não sei dizer de onde veio Deus.
    - Eu acredito - apontou Alana - que Deus, sendo o criador, é eterno e não precisa de criação.
    - Sim, mas isso indica que nem tudo precisa de criação para existir, talvez nem o universo.
    - Mas e aí qual o sentido de existir? - ela continuava.
    - Essa é a questão, talvez não tenha sentido. Talvez seja só isso, e seja bom que nós aproveitemos bem, porque é a nossa única chance. Pode ser que tudo tenha sido criado por um deus benevolente e cuidadoso, e que após a morte nós voltemos para ele. Porém ninguém pode defender com segurança nem um nem outro. Só digo que é perfeitamente possível que não haja motivo para o universo e a vida que se cria nele, assim como pode não haver um criador.
    Alberto sorria vitorioso. Alana parecia abalada, embora não derrotada. Já tivera uma conversa com essa garota antes. Era de criação espírita e tomava grande interesse pelos debates existenciais, muitas vezes tentando me encurralar em conversar casuais depois da aula, só para me ouvir dizer que não sabia a verdade e que ela podia estar certa. E realmente era possível, partindo da suposição de que espíritos são reais, assim como os livros que lançam essas suposições - afirmações, para ser mais exato -, coisa que eu não tinha motivo nem conhecimento para concordar ou discordar. Ela podia acreditar no que quisesse, não mudaria minha vida. Até achava interessante que os únicos momentos em que ela abandonava  a insegurança era quando falava do espiritismo e de suas crenças e ideais.
    Nenhum outro aluno pensava em dizer mais nada e eu estava satisfeito com a discussão que a aula tinha gerado, esperando apenas que minhas outras classes oferecessem argumentação de igual qualidade.
    - Bom, alguém mais tem algo a colocar? Não? Está bem, então eu tenho um trabalho pra vocês, mas não se preocupem, é coisa para vocês prepararem até o fim do trimestre, porque eu não pretendo dar mais nenhuma prova além desse trabalho e da prova final. Mas não se enganem, vocês vão precisar de todo esse tempo. O que eu quero é que vocês se reúnam em grupos de quantos vocês acharem que será necessário, para gravarem um curta-metragem baseado na Alegoria da Caverna. A interpretação pode ser a do grupo, ou seja, não tem resposta errado. O que eu vou avaliar é a criatividade e a compreensão que o grupo demonstrou ter do material. Alguma dúvida?
    - Precisa atuar no vídeo?
    - Não necessariamente, desde que você consiga descobrir algum outro jeito. É necessário que seja um filme, de até vinte minutos, não mais que isso. Pode ser entregue até a primeira semana de novembro, no formato que vocês acharem mais fácil, DVD, CD, fita, não importa, desde que seja reproduzível. Mas alguma coisa?
    Ninguém disse mais nada e o sinal tocou logo depois. Peguei minhas coisas e repeti palavra por palavra toda a aula na outra classe do dia. Incitei a mesma discussão, porém sem o mesmo sucesso, o que me forçou a repetir os argumentos que a outra sala debateu, esperando que alguém concordasse ou discordasse de alguma coisa. Funcionou, porém de forma bem menos expressiva. Depois outra classe e mais outra, a mesma coisa até que tocasse o último sinal da manhã e eu pudesse ir para casa.
    Ao meio-dia Fabi não estava lá, nem nenhum bilhete em seu lugar, somente minha chave com o porteiro, que disse não tê-la visto sair, apenas viu a chave aparecer sobre sua mesa. No fim da tarde daquele dia, telefonei. Quinze toques, ela não atendeu. Tentei novamente no dia seguinte, mesmo resultado. Assim a semana inteira. Talvez ela tivesse se ofendido.

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Obs.: e as resenhas de álbuns? Fodam-se elas, cansei.
Obs2.: esse conto continua.
Obs3.: não sei quando sai a parte 3.
Obs4: Parte 1

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