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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Falando de Solidão - Parte 1 [Conto]


Às vezes a arrogância humana nos impede de considerar certos eventos como simples coincidências, como se o universo ou a divindade, se ela de fato existir, se preocupasse o suficiente com sua vida solitária a ponto de armar pequenos joguinhos e preparar situações inusitadas só para te deixar perplexo e reavivar na memória um passado esquecido, mas eu juro que foi isso que eu pensei naquele dia. Afinal de contas, quais as chances de, entre todos os canais de televisão que eu poderia sintonizar e em todos os horários que uma empresa pode agendar uma propaganda, seria justamente naquelas exatas circunstâncias que eu a veria novamente. E quando foi que ela começou a atuar?
            Esse tipo de pensamento é absurdo, já que ela estava na mesma televisão de milhares de pessoas e muito provavelmente em mais de um canal e em diversos horários, sendo assim nem poderia dizer que as probabilidades eram nulas, eu só não esperava por aquilo. Honestamente, se eu soubesse de antemão que isso poderia acontecer, nem teria ligado minha televisão para começo de conversa, mas agora era tarde. Enquanto a imagem dela caminhava com um vestido caro pelo tapete vermelho de uma mansão e um homem, tão bem vestido quando, vinha em direção a ela, e os dois meio que começavam a dançar pelo corredor, fazendo os aromas dos perfumes que eles usavam flutuarem pelo ambiente e se mesclarem, eu era puxado para fora da minha sala, de volta aquele bar um tanto sofisticado no qual eu nunca mais voltara. Um copo frio e suado de uísque, eu sentado sozinho em uma das mesas próximas ao balcão assistindo a um pianista tocar uma interpretação instrumental de uma canção de Duke Ellington, e, logo à minha frente, essa garota de cabelos louros, que na época não passavam muito dos ombros, mas no comercial voavam pelas suas costas como uma cachoeira de ouro.
            Ela sentou na cadeira do balcão e pediu um gin e tônica. Então, enquanto esperava, voltou o rosto ao pianista e eu pude vê-la de perfil; seu rosto lhe dava um ar quase adolescente, embora eu fosse descobrir que ela tinha vinte anos na época, e seus olhos azuis brilhavam a ponto da cor refletir por sua bebida.
            Olhei-a por uns instantes, pensando no que dizer. Às vezes o assunto me vinha como mágica em situações assim, mas não naquele dia. Ainda, sentia como se fosse minha obrigação falar com ela, me torturaria pelo resto da vida pensando no que poderia ter sido se não o fizesse. Em retrospecto - e eu já havia pensado nisso antes daquele dia, mas nunca, até os dias de hoje, pus isso em prática -, a frase "precisava tentar falar com você, pois me torturaria pelo resto da vida pensando no que poderia ter sido se não o fizesse" é romântica o bastante e poderia funcionar, contudo, sempre me esqueço dela ou desisto de usá-la no meio do caminho. Apenas me aproximei e me sentei ao seu lado no balcão. Ela se mantinha atenta no músico e parecia conhecer a composição, então disse:
            - Bom músico, não? - primeira frase que meio veio na cabeça.
            - Ótimo - ela respondeu em tom aparentemente receptivo. - Sabe que música é essa?
            - Se não me engano, Sophisticated Lady. Mas agora ele parece estar improvisando.
            - Não existem mais músicas assim.
            - Talvez existissem se tivesse público pra elas. Esse lugar está vazio - estávamos nós e mais umas oito ou dez pessoas no bar, e ela e eu éramos figuras estranhas, considerando que a média da faixa etária dos frequentadores devia estar entre cinquenta e setenta anos; e ela mesma era mais estranha ainda, já que eu pelo menos me aproximava dos trinta. Ela era uma criança quase.
            - Acho que você tem razão. Ainda assim, fazem falta os Duke Ellingtons, os Cole Porters, Frank Sinatras, esses músicos de verdade - o pianista parou de improvisar e voltou à melodia normal nas últimas frases. - Ah, agora percebi. É Sophisticated Lady mesmo.
            - Supondo que existisse um compositor moderno que fizesse esse tipo de música, seria a mesma coisa?
            - Pode ser que eles não tivessem a mesma classe, né?
            - Eles foram o símbolo de uma era que já passou.
            - Dos Martinis, das canções, da sofisticação, das festas...
            Perguntei se ela queria vir até a minha mesa para continuarmos a conversa, caso ela não estivesse acompanhada, e ela aceitou. Lá nos assistimos ao final daquela música e terminamos nossas bebidas, pedindo outras logo em seguida, assim como o pianista começava a tocar outra canção - Garota de Ipanema agora.
            - Ele não seria um pianista de bar se não tocasse essa - ela disse.
            - Você não gosta de Garota de Ipanema?
            - Gosto, só acho que existem outras, sabe? Por que não Desafinado ou Inútil Paisagem?
            - Boa pergunta. Não costumo questionar a programação desses músicos de bar, mas você pode pedir a música, eu acho.
            - Pode ser - ela tomou um gole longo do seu gin. - Então, quanto tempo vai te levar para perguntar meu nome?
            - Desculpe - respondi, tomando eu mesmo um gole do meu uísque -, é um mal-costume meu ignorar os nomes. Aquilo que chamamos de flor, com qualquer outro nome, exalaria mesmo agradável perfume, disse o Bardo, ou coisa parecida.
            - Acabei de te conhecer e já está citando Shakespeare? Gostei do caminho que essa conversa está seguindo. Mas você se esqueceu de perguntar o nome de novo.
            - E qual é seu nome, então?
            - Fabiana, mas todos me chamam de Bia, então...
            - Bia?
            - Sim, como uma abreviação.
            - Sei - respondi -, mas a abreviação de Fabiana não costuma ser Fabi?
            Ela parou e pensou por um tempo, como se nunca tivesse ouvido nada assim antes, e respondeu:
            - Tem razão, mas, não sei por que, todos sempre me chamaram de Bia. Quer saber, você parece diferente de todos, então me chame de Fabi, que tal?
            - O que você quiser. Mas e você, Fabi, não vai perguntar meu nome?
            - Era o que eu ia fazer, assim que você me desse seu julgamento na abreviação. Qual o seu nome, caro senhor?
            - Tomas, distinta madame.
            - Prazer em conhecê-lo, Tomas - ela disse emprestando-me sua mão para que eu a beijasse, e foi o que eu fiz.
            - O prazer é todo meu - respondi.
            - Agora, me diz se você não se sente em um daqueles filmes da década de quarenta, com a Ingrid Bergman, e essas pessoas.
            - Já estou até vendo em preto e branco.
            Rimos um pouco.
            - E imagino que todos seus amigos te chamam de Tom?
            - Eu tive poucos amigos pela vida e agora mesmo estou sem contato com nenhum deles. Mas sim, eles me chamavam de Tom, às vezes.
             - Me deixa pensar em alguma variação de Tomas, pra que eu também tenha minha própria abreviação exclusiva, do contrário seria injusto. Pense você também, tá bem?
            Obedeci, mas não pude vir com nada. Um nome de duas sílabas raramente permite muita variação afinal.
            - Não sei de nenhuma abreviação - ela desistiu e esvaziou seu copo como que por frustração, então voltou a pensar e continuou. - Que tal Jerry? Não encurta seu nome, mas é como se fosse uma piada interna, sabe? Tom e Jerry? O desenho antigo?
            - Sei, Fabi. Me surpreende que você saiba.
            - Como eu não conheceria um desenho tão famoso? Não subestime tanto as novas gerações, velhinho.
            - Referência ao Pernalonga agora?
            - Não tinha pensado nisso, mas pode ser.
            - Bom, desculpe te subestimar, é que eu trabalho como professor e acompanho as novas gerações. Você se surpreenderia ao ver quantos não fazem ideia de quem foram Tom e Jerry.
            - Professor de quê?
            - Filosofia.
            - Ah, aqui da faculdade.
            - Não, ensino médio mesmo.
            - Que nobre. Acho ótimo ver que ainda existem pessoas interessadas em educar os adolescentes.
            - Agora você não me superestime, Fabi. Só dou aula no ensino médio, porque sou preguiçoso para fazer meu mestrado ou mesmo começar a tese. De início tudo bem, queria educar as mentes jovens. Só que elas recusaram e, depois de três anos nisso, só repito as mesmas coisas das aulas do ano passado. Alguns ouvem e isso me anima, mas a maioria não quer saber, e eu quero que se foda, me desculpe o vocabulário.
            Ela riu das minhas desculpas:
            - Desculpa é o caralho, você acha que eu nunca ouvi uma porra de um palavrão na vida. Mas voltando à sua carreira, quem poderia te culpar? Você tentou - então ela ouviu que o pianista terminou Garota de Ipanema e tentou, com sucesso, chamar a atenção do músico. - Ei! Aqui, amigo! Oi, tudo bem com você? - ele sinalizou que sim com a cabeça. - Bom trabalho, viu? - ele agradeceu com outro sinal. - Você pode tocar Inútil Paisagem? - ele pensou por um segundo, confirmou e começou a tocar.
            - Tem razão, eu tentei, fazer o quê! Pros que me ouvem, eu dou atenção. Mas e você, o que faz? - perguntei e sinalizamos por mais bebidas, sempre o uísque com gelo pra mim e o gin e tônica pra ela.
            - Recepcionista em uma firma de direito.
            - Você estuda direito?
            - Não. Fiz um ano de Medicina, por causa dos meus pais, e desisti. Depois outro ano de Administração, porque eu não fazia ideia do que fazer. Descobri que não era Administração. Agora estou pensando.
            - O que seus pais acham disso?
            - Não me importa, não vivo mais com eles. Acho que tão felizes quanto os seus quando descobriram que você ia estudar Filosofia.
            - Então você pretende não falar com eles por mais de cinco anos.
            - Se chegar a esse ponto - ela disse, depois de mais um longo gole da bebida que acabava de nos ser entregue -, que escolha eu tenho?
            - É - eu bebi metade do meu copo logo no primeiro gole, pois já não sentia o ardor do álcool. - Não sei se o meu caso foi por falta de escolha.
            Ela deixou sair uma leve risada irônica, com um olhar altamente compreensivo, indicando que sabia bem do que eu falava, e disse:
            - Não falemos de família, então. Vamos fingir que não a temos.
            - Perfeitamente.
            - Quanto nós já gastamos com bebida?
            - Não faço ideia. Pra mim foram...quatro...seis....oito uísques. Você?
            - Acho que seis gins com tônica. Quanto dá isso?
            - Fica tranquila, eu pago sua conta.
            - Nada disso, desde quando professor tá podendo esbanjar. Deixe que eu cuide de mim.
            - Não posso esbanjar - eu disse -, mas é só com isso que eu gasto mesmo. Bar, aluguel e contas. Eu aguento o baque.
            - Olha, não sou donzela indefesa, saca? Eu tenho meu dinheiro, eu decidi encher a cara, eu pago a conta. Se você acha que precisa gastar pra me levar pra cama, tá me confundindo com puta.
            - Não quis te ofender, só manter o cavalheirismo.
            - Eu sei. Às vezes eu exagero, desculpe, já não estou bem sóbria. Entendi o gesto, mas não, muito obrigada.
            - Como você achar melhor.
            Pagamos nossas contas, mas só saímos quando o pianista terminou sua longa e altamente improvisada versão de Inútil Paisagem, a qual Fabi aplaudiu de pé no final. Do lado de fora do bar, perguntei onde ela morava e se poderia acompanhá-la e ela me beijou ao invés de responder. Então a levei para minha casa e foi quando dormi com ela pela primeira vez. Inevitavelmente, sempre me sinto constrangido transando com uma mulher pela primeira vez, independentemente de quantas vezes já tenha passado pela situação, mas não aconteceu com a Fabi. Senti uma liberdade imediata com ela e, como por telepatia, sabia exatamente o que fazer e quando, e ela respondia em perfeita sincronia a cada ato, como a erótica dança dos aromas no comercial que ela viria a participar poucos anos depois.

2 comentários:

  1. Oi, Raphael!

    Aô textinho grande, do jeito que eu gosto!

    Gostei bastante do enredo e achei uma leitura bem leve, mesmo com a linguagem mais bruta no meio/fim do texto (eu não estava esperando um palavrão no meio de tanta cortesia, rs).

    Não achei o final exatamente inesperado, até por conta do rumo que as coisas vão tomando ao longo do conto...

    Gostei bastante e só achei um errinho — uma vírgula que faltava. Bom conto.

    Abraços,

    Mariana Machado
    http://lentesdeleitura.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Oi Mariana, bem-vinda à essa bagunça que eu chamo de blog.
      A linguagem bruta foi porque eu queria mostrar um maior conforto entre os personagens, sabe quando você se censura na frente de desconhecidos e depois vai agindo com mais naturalidade? Então, foi isso somado aos efeitos do álcool.
      Esse final não foi inesperado, mas também não é o final do conto, vai ter parte 2, espere.
      Pode me apontar onde está esse vírgula? Realmente não revisei esse texto, então queria poder corrigir.

      Obrigado pela visita e pelo comentário, e volte sempre.

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