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terça-feira, 18 de junho de 2013

Tempo de Mudanças

É impressão minha ou chegou aquela época do ano em que os jovens protestam? Tenho que pesquisar umas  notícias do ano passado para ver se os números batem e confirmar minha teoria, mas, se eu não me engano, o protesto de 2012 foi contra a presença da polícia na USP, certo? Isso pode muito bem ter sido em 2011, já não tenho mais a noção de tempo que eu um dia tive, só sei que ele não para - tenham paciência, estabelecer o óbvio pode abrir os olhos às vezes. E da mesma forma que do ano passado, temos uma grande maioria da população chamando os manifestantes de arruaceiros que merecem cada bala de borracha que a polícia lhes atira na nuca e cada expirar das bombas de "efeito moral" e spray de pimenta - afinal, quem lhes deu o direito de realmente se manifestar nas manifestações? Tinha que ser civilizado; todo mundo andando em linha reta, como uma procissão católica, de tal rua a tal rua, com hora marcada e data para começar e terminar.

Dessa vez o estopim foi o aumento da passagem dos ônibus. Não sei dizer de quanto para quanto, pois não ando de ônibus desde que eu me mudei para Itajaí e minhas pernas se tornaram o suficiente, mas essa não é a questão aqui. Como foi dito, este foi o estopim, os motivos reais estão na casa dos milhares por agora. Outro caso foi uma multidão de vaias à presidenta durante a abertura da Copa das Confederações, que foi semana passada? Não sei, tampouco estou assistindo ou pretendo assistir aos jogos - das confederações ou do mundo, quero que se exploda da forma mais literal possível -, só sei que foi assim. Ainda,  por mais que motivos não faltem para a revolta - e, por que não, a violência -, a rede Globo, que durante as Diretas Já, dissera que as mais de milhão de pessoas estavam na Praça da Sé para comemorar o aniversário de São Paulo (suposta confusão na linha de reportagem), expõe os jovens como arruaceiros, apontando os vandalismos ao invés das causas por trás deles. E, se não bastasse, ainda existe a já citada parcela da população que desdenha o protesto, insinuando que os tais jovens não passam de classe-média desocupada - como se fizesse alguma diferença; já é visível que nos protestos existem jovens, adultos, idosos, empresários, operários, estudantes, desempregados; não se trata de uma batalha de classes.

É difícil analisar essas coisas friamente. É difícil explicar essas reações contra as tentativas de mudança, mesmo quando todos admitem a existência do problema. A verdade é que essa preguiça apática disfarçada de pacifismo é tradição histórica do Brasil. Já escrevi em minhas primeiras tentativas de texto e crônica que o brasileiro é um povo passivo por natureza e feliz por conformismo. Nem vou mencionar o tal do jeitinho brasileiro e o quão absurdo é o fato de todo um povo ter tomado como traço de personalidade um ato tão imbecil, pois a crônica brasileira já está lotada dessas críticas e mais outra seria inútil. Ao invés disso, vamos voltar no tempo e verificar alguns padrões.
 
O fato é que, se analisarmos a história política brasileira, o opressor é sempre o maior protegido. Veja a monarquia, que fim levou a família real que tanto oprimiu o povo quando no poder? Mortos como a família real francesa? Não, vivendo dos seus impostos em algum  palácio no Rio de Janeiro. O que eles fazem? Essa é uma excelente pergunta; vivem como realeza, mas sem qualquer função real - tanto no sentido monárquico da palavra, quanto no sentido de realidade. Estou dizendo que eles devem morrer? Não, isso seria absurdo, mas poderiam muito bem ter morrido quando foram removidos do trono, como acontecera com os absolutistas franceses tantos séculos atrás. Falam do jogador de futebol e do político, que de fato ganham muito mais do que o merecido, pensem na família real brasileira então - e esses nem fingem que trabalham, só posam para foto mesmo.
 
Depois da família real vieram os ditadores. Primeiro Getúlio, que teve a decência de se matar, depois os militares - esses são uma diversão, principalmente hoje em dia. Décadas de repressão popular, censura, desaparecimentos e tortura. Tantos anos depois do fim dessa desgraça, quem o povo defende, os militares ou os guerrilheiros? Os militares, é claro. Que importa que eles torturam milhares, sumiram com inúmeros - não se trata de hipérbole, não se sabe exatamente o número - e oprimiram todo o povo brasileiro? Os guerrilheiros mataram alguns e roubaram de vez em quando, para ter meios de libertar o Brasil. Como ousaram esses guerrilheiros! Hoje querem descobrir os nomes dos torturadores, só por motivos históricos, já que seria difícil aprisionar os culpados - que hoje não passam de sacos de ossos -, e o povo resiste contra isso. Dizem que é necessário catalogar os crimes dos revolucionários também. Talvez isso faça sentido, acontece que os tais crimes "tão mais graves que os dos ditadores" cometidos pelos guerrilheiros, libertaram a porra do país. Claro, libertaram em troca de uma prisão tão ruim quanto, mas isso é outra história. O que vale é a intenção - os protestos atuais são justamente uma tentativa de fuga dessa nova prisão.
 
A prisão de hoje é essa aí que nós vivemos. Um setor público generalizadamente precário, da educação até a saúde. E corrupção espalhada e intrincada o suficiente para enlouquecer qualquer um que tente racionalizar suas fontes. É, francamente, exaustivo pensar nisso. Mensalões, propinas, favorecimentos, funcionários públicos filhos de putas, hospitais lotados e em petição de miséria, escolas tão ruins quanto e com professores abaixo da linha da pobreza, polícia mais despreparada que bandido, nenhum político honesto visível para nos salvar e os que até parecem honestos acabam soterrados na corrupção enraizada. Seja síncero, dá pra consertar uma merda dessas? O pior de tudo, é que os culpados por isso tudo parecem intocáveis e todos os dias inventam um problema novo - PEC-37 (essa seria risível, se não cômica), Marco Feliciano, bancada evangélica...
 
 Só parecem intocáveis.
 
Essas últimas semanas serviram para mostrar ao povo brasileiro que é possível se revoltar. É verdade que dói, é verdade que parece não valer a pena, é verdade que não existe apoio. Mas tem resultado. Pela primeira vez (nunca antes na história desse país, parafraseando o velho canalha) em sei lá quantos anos, o brasileiro esqueceu o futebol e vaiou a presidenta em plena abertura da Copa das Confederações. Juro que me veio lágrimas nos olhos quando ouvi as vaias. Teria sido melhor ainda se alguém tivesse deixado de assistir ao jogo no estádio, afinal vaias não ferem políticos - prejuízo, por outro lado, é como ferir com ferro quente. Agora o mundo inteiro está envolvido e estão até planejando um boicote, e para isso eu digo, que o façam! Verdade que agora é tarde e tudo que tinha de ser roubado já foi, mas vamos um passo de cada vez - esse é só nosso primeiro protesto. Tornar a Copa um fracasso vai mostrar que nem tudo acaba em pizza por aqui. Depois disso, é só cuidar para iniciar os protestos antes dos roubos, não depois.
 
 
Na verdade, o primeiro parágrafo do meu texto pode ter soado sarcástico demais, acontece que eu ainda estou cético quanto à todos esses protestos. Brasileiro tem memória curta, ou vocês já se esqueceram disso? Temo que semana que vem tudo isso tenha acabado, não surta nenhum resultado e tudo volte a ser o que era antes, com a Copa e o ônibus e a política brasileira intocável e destemida. Tanto esforço, tanto sofrimento, tantos presos e feridos, por nada. Isso me dá medo, de verdade, e acho que aos leitores também, ou estou errado? Sei que é difícil levar tiro de bala de borracha, ouvir as explosões e os gritos de pavor, levar pancada de policial despreparado - e intelectualmente deficiente, já que o cretino também é povo e sofre tanto quanto qualquer civil na hora de pagar suas contas e impostos -, só para ver a televisão focando em alguns atos isolados de vandalismo, e deixando de lado todas as agressões desnecessárias - até contra animais inocentes -, prisões e opressões dos tempos da ditadura - que hoje vemos nunca nos ter deixado -, mas é sempre assim. Nada grande vem facilmente, é sempre um passo de cada vez. Esse é o primeiro passo, só não podemos esquecer de continuar caminhando até começarmos a correr.
 
 
 
Quem sabe com isso as pessoas não vão aprendendo como se consegue as coisas; como fazer o governo ter medo do povo e não o contrário; como cuidar para que os líderes competentes sejam maioria e não os enganadores e corruptos. O que eu quero ver, de verdade, é um protesto desses em pleno dia de eleição. Ninguém votando, só andando pelas ruas segurando lampiões, tal qual Diógenes, buscando os homens honestos. Agora já não dá para esquecer, chegamos no ponto sem volta. O mundo inteiro se envolveu e protestou conosco, seria uma vergonha esfriar agora. E quando isso vai parar? Quando os problemas estiverem resolvidos, não maquiados - resolvidos.
 
 
*Desculpem-me os donos das fotos que surrupiei para o post, saibam que foi para uma boa causa.

6 comentários:

  1. Pois é, o pior é que todo mundo vai estar feliz da vida na Copa, fizeram todo esse movimento, tudo isso, mas estarão todos bebendo alegres quando a Copa chegar, não é?
    Eu não sou contra esses protestos, pelo contrario, mas penso como você, brasileiro tem memória curta...

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    1. Espero, sinceramente, que eu esteja errado.

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  2. É realmente isso que me dá medo. O povo lutar, sofrer, vaiar, guerrear, para daqui alguns meses gritar feliz num jogo da Copa, e se esquecer de todas as balas, os feridos, toda a imundice que enfim enchergaram e por isso resolveram revolucionar. Porque não é só os políticos corruptos e toda a joça que chamam de autoridades que vão continuar em seus pedestais, intocáveis no fim das contas; o povo vai deixar de se tocar, de acreditar que uma revolta atinge uma revolução. Pense em como todos esses jovens que tanto protestaram e sofreram nas manifestações verem daqui a provável pouco tempo que de nada resolveu receber todas aquelas balas de borracha no corpo. O povo vai desacreditar do povo. Pra que lutar por uma gente que se auto descrimina em vez de buscar por justiça mínima - que nunca tivemos?
    Tenho medo que todos esse jovens lutadores virem velhos conformistas porque seus próprio povo não os apoiaram.

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    1. Pior que isso é muito possível. Tem muita gente tratando esses protestos como se fosse um desabafo, e pode ter começado assim, mas se tornou algo muito maior. Outros países se envolveram nessa história, esquecer agora seria uma vergonha mundial.

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  3. Não sou á favor desses protestos, tampouco os menosprezo!
    Acredito que mesmo com algumas pequenas conquistas, tais manifestações só mostram e comprovam o quão distante o povo está de acordar! Protestos e manifestos acontecem com frequência, não na proporção atual, mas ainda assim acontecem. Sair às ruas e protestar contra tudo é ao mesmo tempo protestar contra nada, vejo gritos mudos e cartazes reivindicando o impossível, uma incoerência cidadã.
    Um protesto, ou melhor, uma revolução (pois é disso que precisamos) se inicia com ideais claros, pauta bem elaborada e justificada, coisa que está longe de acontecer. A luta contra a corrupção deve começar dentro de nós, pois os líderes e governantes são o reflexo do seu povo, não há como combater a corrupção dos grandes, sendo que a massa e o poder está definitivamente em nossas mãos. Bom, acho que não fui tão claro ou convincente, por isso convido-o para visitar o meu blog e ler um texto que fiz à respeito!

    E a propósito, gostei muito do seu blog, seguindo já!
    Abraços,
    www.revolucaonerd.com

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    1. Não discordo de você e foi mais ou menos isso que eu quis passar no fim do texto: que o que está acontecendo agora não é o suficiente e nem pode parar por aí. Infelizmente eu vi um povo tratando os manifestos como desabafo, e mais gente ainda tratando como carnaval - isso é o que machuca. Não acho que os ideais de agora não estejam claros - são bem simples: um mínimo de honestidade na nossa política -, mas o método de manifesto ainda é ineficiente. Resumindo meu ponto, achei essas manifestações um bom primeiro passo.
      Vou dar uma olhada no seu blog, então.

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