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domingo, 26 de maio de 2013

Prisão (conto)


Ela deu uma última passada de olhos pelo escritório em que trabalhava, cuidando para ter certeza de que não deixava nenhuma janela aberta ou impressora ligada ou lâmpada acesa. Já estava acostumada com esse processo, mas não conseguia deixar de se sentir apreensiva quando fechava o escritório. Tinha medo de deixar a porta destrancada e um ladrão aparecer e levar os computadores, o dinheiro, os documentos - mesmo que ninguém pudesse fazer nada com eles -, tudo que havia de valor por lá. Não só pela perda, mas por medo que os itens levados pudessem vir a prejudicar seu trabalho.
            Desligou a luz, abriu a porta para sair, mas, antes disso, deu uma última olhada, mesmo sem poder enxergar nada, esta não de apreensão, mas de saudade, mesmo sabendo que voltaria pela manhã do dia seguinte. Finalmente passou a chave - sempre duas voltas -, na porta e foi até o corredor do andar em que o escritório ficava, a esperar o elevador. Em horários de alta movimentação, é quase impossível pegar um elevador vazio, considerando os dezesseis andares do prédio e seu número enorme de salas, mas às sete e meia da noite é bem rápido. As únicas pessoas no prédio eram a recepcionista - que também já se preparava para voltar para casa -, algumas faxineiras e o segurança. Além de meia dúzia de funcionários como ela.
            Em casa, no entanto, ela não conseguia deixar de pensar nos e-mails que ela deixava de responder estando ali. Despiu-se, ligou o chuveiro e tomou uma ducha bem quente, achando que assim suas preocupações se evaporariam junto com o cansaço e o suor acumulados de um longo dia de trabalho. Realmente funcionou. Ela saiu da água mais relaxada e pensando em nada. Passou a toalha pelo corpo molhado, pelos cabelos longos, pensando no que iria comer naquela noite. Foi até o quarto, enrolada em sua toalha, e abriu o armário, pensando no que vestiria para passar aquelas poucas horas que tinha em casa. Um pijama, uma camisola, uma camiseta velha, grande e confortável. Mas e os documentos que eu tenho que preparar para amanhã? Posso fazer pela manhã, mas aí eu já terei uma série de novos e-mails para responder, mas ligações para atender. E se surgir alguma emergência e nem isso eu tiver tempo de fazer. Seu coração foi acelerando, sua mão tremeu e ela fechou rapidamente a porta do armário. Abriu outra, logo ao lado, na qual ficavam suas roupas casuais. Queria evitar, se possível, mas, se continuasse muito preocupada, teria que ir até o escritório mais uma vez, só para dar fim àqueles tais documentos. Não eram roupas tão confortáveis, mas não eram pesadas, e pelo menos não teria que se trocar de novo, caso realmente viesse a sair.
            Foi preparar um sanduíche e um pouco de café, mas antes, passando pela sala no caminho até a cozinha, ligou sua televisão. Era o jornal que passava, mas ela não estava interessada em nada do que ele tinha dizer, só queria encher seu apartamento vazio de barulho, mesmo que insignificante; qualquer som que não fosse sua própria voz, ecoando mentalmente em sua cabeça. Silêncio é uma coisa que não existe. Quando não são os aparelhos eletrônicos, o abrir e fechar de portas dos vizinhos de passos pesados e bocas que não se calam, dos cães de rua, das crianças que brincam, dos carros, das motos, do vento; quando não é o mundo que faz barulho, é a sua própria mente que insiste em falar com você. Fazer com que você pense em todas essas coisas desagradáveis e desnecessárias, não a fim de te ajudar a encontrar soluções e raciocinar melhor, mas para te tirar da paz que seriam os momentos de absolutamente som nenhum.
            Agora era a cafeteira que ajudava com os ruídos e os talheres batendo, os pratos e os copos. Sua cabeça estava começando a doer, principalmente por causa dos malditos documentos que, enquanto ela estava lá se divertindo e comendo, estavam se acumulando em sua mesa. É isso, vou terminar de comer e voltar correndo até lá para terminar essas coisas. Até porque não é como se eu fosse conseguir dormir com isso em mente, assim faço algo de útil ao invés de me entregar ao ócio.
            E isso ela fez. Oito e meia da noite, pegou novamente seu carro e foi até o prédio do qual acabara de sair. Agora as luzes da recepção já estavam apagadas e a porta automática frente já não abria mais. Teria que ir até os fundos, na garagem, falar com o segurança e pedir que ele lhe abrisse a porta. Por sorte, ele já era um velho conhecido dela, justamente por esse tipo de situação, que não era coisa rara.
            Quando chegou na parte em que ficavam os elevadores, um deles abria suas portas e deixava um homem sair. Um homem de aparência cansada e que deveria estar saindo daquilo que ela planejava entrar.
            Acendeu as luzes do escritório, ligou a impressora e seu computador, respirou fundo e sentiu o alívio entrar por suas veias e seu coração voltar ao ritmo normal. Agora poderei fazer tudo e evitar atrasos amanhã. Finalizou documentos, assinou contratos, deixou algumas coisas na mesa de seu chefe, preparou alguns envelopes para o envio no dia seguinte, respondeu uns três e-mails e, ao olhar para a tela do computador, espantou-se ao ver que já era quase meia noite.
            Repetiu o processo de despedida, desativando, apagando e desligando, fechando e trancando; agora não mais apreensiva, pois sentia ter cumprido seu trabalho. Era exagero, algumas pessoas lhe diziam. Tinha que cuidar de sua vida pessoal, mas de que ela lhe servia. Não é como se coisas boas costumassem acontecer quando ela focava em sua vida pessoal. Entrou no elevador e apertou o botão para o térreo. As portas fecharam e ela sentiu que ele se moveu um pouco, mas não parecia continuar. Talvez eu nem consiga sentir o movimento de tão cansada. Só que os segundos foram passando, mas nada parecia acontecer.
            Ela apertou o botão do térreo mais uma vez, mesmo ele já estando aceso, indicando que fora apertado antes. Apertou várias vezes, como se isso fosse surtir algum efeito, mas nada aconteceu. Então foi para o botão que abria a porta, mas este também não funcionava. Talvez tenham desligado a energia, mas as luzes ainda estão acesas. Além disso, o segurança me viu entrar e me conhece o suficiente para perceber que eu não saí, não teria desligado tudo assim desse jeito, sem nem confirmar que o prédio estava vazio. Realmente a energia não fora desligada, nem o prédio tinha esse costume, mas tampouco o elevador se movia.
            Tentou forçar a porta a abrir, pois é bem comum que as portas de elevadores não sejam tão pesadas. Não tão leves a ponto de qualquer criança curiosa conseguir abrir no meio de um percurso, mas nem tão firmes a ponto de trancar uma pessoa para sempre. Ela não se moveu um centímetro. Nem tremer, indicando algum abalo, ela tremeu. Talvez eu não seja forte o suficiente. Foi ficando mais nervosa e sua respiração foi acelerando. Apertou o botão de emergência, então, tentando chamar a atenção do segurança. Nada, nem um som. Apertou para os outros andares, mas eles não acendiam. Logo, o botão do térreo, que antes parecia reconhecer as ordens que lhe foram passadas, embora incapaz de executá-las, apagou-se também, como se todo o elevador estivesse dando seu último suspiro, contudo mantivesse seus olhos abertos - luzes ligadas.
            A trabalhadora trancafiada desferiu golpes na porta de alumínio, como um animal selvagem recém-capturado tentando fugir de sua jaula. Primeiro devagar, para testar a resistência de seu alvo, então aos poucos ganhando força, até atingir o desespero completo. A força bruta não surtiu qualquer resultado. Gritou, mas ninguém a ouviu. Foi até a sua bolsa procurar seu celular, e, embora tenha encontrado algumas barras de cereais, uma garrafa d'água, um frasco pequeno de perfume, um pacote de lenços de papel e mais uma série de outros itens que até para ela eram desconhecidos, seu celular se mantinha invisível. Cansada, sentou-se no chão e espalhou por ele todo o conteúdo de sua bolsa. Por último, caiu seu celular. Passou seus dedos pelo aparelho, mas este não reagia. Mas eu acabei de carregar essa coisa! E realmente o carregara pela manhã, mesmo assim ele não funcionava. Insistiu mais algumas vezes, apertou uns botões dos quais ela não sabia a utilidade, mas estava em um coma profundo.
            Devagar, foi recolhendo de volta todas as coisas que jogara pelo chão, tentando controlar o ritmo de sua respiração e racionalizar o que poderia lhe estar ocorrendo, e o que poderia fazer quanto a isso. Era o que ela sempre fazia quando o trabalho se tornava mais do que ela podia suportar. Sentava, respirava, pensava e punha ordem em tudo. Estando com sua bolsa organizada novamente - deixando o celular em uma posição de destaque -, olhou seu relógio, antes de passar para a etapa de organização mental. Onze e cinquenta e oito da noite. Mas essa foi a hora em que eu saí. Aproximou os olhos para prestar atenção no ponteiro dos segundos. Como ela imaginava, ele não se movia também. O elevador era como uma área livre de eletrônicos, eliminando tudo, até ele mesmo. Mais informação para ela organizar.
            Vamos recapitular o que aconteceu. Eu saí de casa, voltei ao escritório, fiz meu trabalho, saí do escritório e entrei no elevador. Nesse momento, tudo parou e agora eu estou aqui. Não conseguia chegar a conclusão alguma. Não ajudava o fato de estar exausta e, sempre que parecia encontrar uma linha de raciocínio, seu sono fazia com que ela tomasse um rumo completamente incoerente. Encostou a cabeça na parede fria de alumínio e continuou a pensar, até suas linhas serem tomadas pela completa escuridão, deixando a coerência da vigília de vez.
            Teve alguns momentos de consciência em seu sono, mas só lhe serviram para posicionar seu corpo de maneira mais confortável, em posição totalmente horizontal e usando a bolsa de travesseiro.
            Descansada, mas dolorida, ela foi voltando ao mundo real, piscando rapidamente, para sair da escuridão. Mas não conseguia, a escuridão era interminável, estava cega? Não, foram as luzes que se apagaram. Seu rosto estava meio colado no material de sua bolsa quando ela acordou e, mesmo de pé, ela ainda podia senti-lo esquentando sua bochecha. Não sabia dizer as horas, não podia avisar ninguém de sua condição, só lhe restava esperar que, pela manhã, quando as pessoas estivessem chegando, alguém reparasse o mal-funcionamento de um dos elevadores e chamasse o conserto. Se não fosse seu medo do atraso que este imprevisto traria ao seu trabalho, riria só de prever a reação dos funcionários que abrissem essas portas e a vissem lá dentro. Ainda não podia ouvir nada, então tentou fechar os olhos novamente e dormir, para assim acelerar o tempo.
            Acordou mais uma vez, agora devido a sons vindos do mundo exterior. Sons de golpes, alguém tentando abrir sua prisão, mas sem muito sucesso. Mas como pode um elevador tão duro? Pelo menos agora eu sei que estão tentando me tirar daqui e é só uma questão de tempo. Os golpes continuaram, e, quanto mais tempo se passava, mais barulhento ficavam. Quando já parecia haver passado mais de hora desde que ela acordara, o som passou de golpes, para serras automáticas. Elas raspavam contra a porta, mas não conseguiam penetrar o material. Decidiu ela, então, bater na porta. Não com a intenção de ajudar a abrir, mas para mostrar que ali tinha vida e que eles não podia desistir. Gritou também, chamando aqueles que vinham em seu resgate:
            - Olá! Eu estou presa aqui desde ontem! O que está acontecendo?
            Ninguém respondia. Tentou de novo, quando as serras pararam, mas era como se não a ouvissem. Encostou o ouvido na porta, podia ouvir vozes das pessoas do lado de fora, mas elas não reagiam como se estivessem tentando resgatar alguém. Pareciam só um grupo de pessoas, tentando consertar um elevador que agia estranhamente.
            Fizeram uma pausa, talvez fosse hora do almoço. Ela, pelo menos, estava com fome. Tateou sua bolsa, primeiro testando o celular mais uma vez - nem uma luz acendia na tela -, depois foi atrás da barra de cereais e da garrafa d'água, as encontrando facilmente. Comeu bem devagar, pois não sabia quanto tempo iria ficar presa ainda, e bebeu com a mesma ideia de preservação em mente. Tinha vontade de urinar, mas não tinha banheiro naquele elevador; coisa que ela nem sabia se existia, mas que, naquele momento, a surpreendia o fato de ninguém nunca ter pensado nisso. Por que não? Tantas pessoas ficam presas, um pequeno vazo sanitário, fechado em uma pequena salinha, não é nenhum absurdo. Era bobagem ficar pensando nessas coisas, tinha que ir e não adiantava ter vergonha naquele momento. Arranjou um canto, baixou suas calças e fez o que tinha que fazer, cuidando para não encharcar o piso todo e ficar sem ter onde dormir mais tarde. Fez bem próxima da porta, rezando para que o líquido escorresse pelo pequeno vão entre ela e o piso. Podia tentar, mas nunca saberia, até a hora de seu resgate, se de fato lhe serviu de alguma coisa todo o esforço.
            Passou mais um tempo, que poderiam ser minutos ou horas, voltaram com as pancadas e tentativas de cortes. Nada parecia funcionar, nem mesmo arranhar aquela porta de alumínio. Os funcionários encarregados pelo conserto já estavam com medo daquilo, assim como os funcionários do prédio. Afim de não denegrir a imagem da construção e perder locatários, desistiram. Puseram uma placa de "em manutenção" na porta e deixaram o tempo apagar o acontecido. A prisioneira também, sabendo que não podia ser ouvida pelo mundo exterior, desistiu de seu resgate, calou seus gritos e dormiu. Às vezes ela sonhava com os documentos que não pode entregar, mas logo também isso passou. Tudo que restavam eram alguns poucos funcionário que, vez ou outra, se perguntavam:
            - Mas quando é que eles vão consertar essa coisa?
            Ninguém nunca respondia.

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Faz quanto tempo desde o meu último conto? Bom, terminei meu romance, agora só falta revisar o canalha e mandar para as editoras. Isso ainda vai levar um tempo, então decidi, enquanto isso, postar um conto que eu escrevi um dia desses. É meio que uma releitura de um conto antigo meu, que pode ser encontrado nos porões do blog, mas o refiz mesmo assim, de forma completamente diferente, pois, após analisar meus primeiros trabalhos, concluí que muito do que eu escrevi nos meus primeiros meses é ilegível, embora recuperável. Essa recuperação é o que eu pretendo postar aqui nos próximos dias.

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