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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sem Ela - Conto

Faz quanto tempo desde meu último conto por aqui? De qualquer forma, esse conto será enviado para uma antologia da Andross. Caso aceito, será meu primeiro conto publicado, por isso decidi postá-lo aqui antes, para que minha multidão de leitores desse uma olhada.
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Sem Ela
Riso, essa foi sua primeira reação. Um riso indesejado, mas incontrolável. Não havia maldade alguma em seu rosto, somente nervosismo, pois a verdade é que não era de rir que tinha vontade, porém não sabia como deveria se expressar dada a surpresa da situação. De todas as coisas que eu poderia lhe dizer, aquela era a mais inesperada.
- Me desculpa – ela disse, tentando se recompor e mudar sua expressão.  – É que eu, sinceramente, não fazia ideia.
Ela parou e ficou totalmente séria. Com lágrimas nos olhos ela aguardava minhas próximas palavras. Tudo que eu conseguia fazer era admirar aquela beleza tão delicada, comparável a Anna Karina, dos velhos filmes do Godard, exceto que a Anna tinha olhos azuis e cabelos castanhos, enquanto Nuna tinha olhos castanhos e cabelos negros – não importava a exatidão das cores; muitos dos filmes da Anna Karina foram preto-e-branco mesmo. Ficamos lá, parados, de pé, um em frente ao outro, até eu sugerir que nos sentássemos em um dos bancos de pedra, disponíveis ao nosso lado.
- Mas você sabe que eu não posso fazer nada, não é Rafa? Quer dizer, eu tenho namorado já faz quatro anos, antes mesmo de a gente se conhecer. Ele comprou um apartamento para nós recentemente e até anda falando de casamento. Você sabe de tudo isso, eu te falei no outro dia.
- Eu sei – respondi. – Por isso que eu só te contei agora, porque eu já não aguentava segurar isso dentro de mim. Eu precisava contar isso pra alguém. O problema é que, quando eu fiz um levantamento das pessoas em que eu podia confiar, só tinha o seu nome na lista.
Ela sorriu e desviou o olhar em direção ao chão. Então ela se virou para mim novamente e disse:
- Você foi o primeiro a me dizer isso, sabia?
- O quê? “Eu te amo”?
- Isso.
- Você teve três namorados, um deles até morreu, e nenhum deles disse que te amava. Você tem que escolher melhor esses seus homens, viu? – fingi ter recuperado meu humor e forcei um sorriso, para que ela não ficasse preocupada.
- Também não chega a tanto – ela soltou outro riso nervoso. – Claro que eles disseram que me amavam, só que nunca de forma tão espontânea, assim no meio de um corredor de faculdade, entendeu?
- Nós estamos em um corredor de faculdade, não é. Tinha esquecido.
- Isso explica por que nós nos damos tão bem assim. Acho que eu nunca te contei isso, mas, ainda na escola, eu tive um amigo que me lembrava muito você.
- Ele te amava também?
- Não sei – novamente com a risada tensa. – Pensando bem, depois dessa, talvez. Me desculpa eu não ter percebido antes o que você sentia, às vezes eu sou meio inocente quanto a essas coisas.
- Não precisa se desculpar. Eu escondi bem, em parte é culpa minha.
- Vamos continuar fazendo aulas juntos semestre que vem?
- Claro.
Foi aí que o celular dela tocou.
- Fala. Já estou indo – ele disse alguma coisa. – Já estou indo – e outra coisa. – Tá bom, você tá aonde? – e mais outra – Sei, já vou.
Ela desligou e me disse que tinha que ir; ela se levantou do banco, guardou o celular na bolsa, veio até a minha direção e me deu um beijo no rosto. Beijo de duração indefinida, pois, tenha ele sido longo ou curto, durou pelo resto do dia e, até hoje, quando eu penso na ocasião, ele me revisita. Queria segurá-la, dar-lhe um beijo de verdade, mas eu estava paralisado, não só física, como mentalmente. Sua boca marcou meu rosto, como um ferro que marca o touro, e tudo que eu pude fazer foi ficar lá, sentado, com mil coisas flutuando na mente, mas sem a capacidade de agarrar qualquer uma delas.
- Você vai ficar bem? – ela perguntou.
- Nada que algumas doses de uísque não possam curar.
Ela tocou meu ombro e eu toquei sua mão e ela seguiu seu caminho, sem olhar para trás. Assisti o seu caminhar até que ela não fosse mais visível. Quando ela desapareceu, eu pude me mexer novamente, pensar, enxergar o mundo ao meu redor – mundo que, durante esses minutos, era habitado somente por nós dois. Só então pude ver o tal corredor sobre o qual ela falava, e as pessoas andando por ele; algumas olhando para mim, outras com muita pressa, outras completamente avoadas. Queria ficar naquele banco para o resto da minha vida, mas não podia; tinha que voltar para casa uma hora ou outra.
Cheguei ao meu apartamento; um quadrado minúsculo, pintado todo de branco e quase sem mobília alguma. Fui direto até a cozinha, que era conjugada à sala, e peguei uma garrafa de White Horse, do armário da dispensa, e um copo. Fui até a mesa de jantar, que ficava logo ao lado do armário, e enchi o copo até a metade. Peguei dois cubos de gelo do congelador e os coloquei na bebida. Então tomei um longo gole, antes que o gelo derretesse e diluísse o uísque.
Liguei meu computador e deixei uma música tocando. O álbum Giant Steps, do John Coltrane. Era oito da noite e eu não sabia o que fazer. Peguei a garrafa de cima da mesa e a deixei sobre o sofá, então fui até o meu quarto pegar um livro qualquer, pensando que isso iria distrair minha mente por algumas horas. Nem vi o título, só agarrei o mais próximo na estante. Voltei ao sofá e comecei a ler e beber. Não exatamente ler, já que nem via as palavras escritas nas páginas; ao invés disso, ficava revivendo aquele momento com a Nuna, como se estivesse ali, no meio das páginas, passando diante dos meus olhos como um filme.
Enchi mais um copo. Talvez eu realmente devesse tê-la beijado. É o certo a se fazer nessas horas; não ficar sentado, parado como uma estátua. Se o beijo fosse de mais, considerando que eu queria manter a amizade, poderia ter passado a mão em seu rosto, lhe acariciado, qualquer coisa que demonstrasse meu afeto. Mas não! Não fiz nada. Por que eu fiz isso? Se fosse para não fazer nada, melhor seria ter ficado em casa, sem ter inventado essa história toda.
Outro copo. Foi a coisa certa a fazer. Eu disse a ela, meu objetivo era somente declarar como eu me sentia. Nada mais que isso. É claro que se algo mais tivesse acontecido, seria ótimo, mas não aconteceu e era exatamente isso que eu esperava. Nada era a mais racional das consequências. E outro copo. Mas por que ela diria que não pode? Que resposta mais absurda, “não posso”. O que a impede? Um namoro? Alguns meses atrás ela me dizia que só continuava com ele por medo de ficar sozinha; pronto, ela não iria mais ficar sozinha, então por que não pode? Dizia que tinha suspeitas de que ele a traía, não a valorizava o suficiente – eu a valorizava. Em retrospecto, eu devia ter dito que a amava há tantos meses atrás e não hoje, esse foi o erro. E mais outro copo. Grande coisa aconteceria também. Naquele dia ela me disse que ia conversar sério com ele, resolver todos os problemas ou dar fim a tudo. Ela resolveu os problemas? Não. Deu fim a tudo? Não. Se eu tivesse dito que a amava naquele dia, o resultado seria exatamente o mesmo. Eu não sei como ela iria reagir, mas eu terminaria a noite beijando uma garrafa. Abandonei o copo e passei a receber o líquido diretamente de sua fonte.
Decidi que a enviaria um e-mail. Nenhuma declaração absurda; nada exagerado, somente daria fim ao caso. O telefonema interrompeu a conversa e atrapalhou a conclusão. O e-mail fecharia os pontos abertos e deixaria tudo bem claro. Comecei a escrever. A cada frase, tomava um gole do uísque. O disco começou a repetir, então passei para a faixa que mais me agradava – Naima. Como amava aquela música; poderia ouvi-la centenas de vezes, mas sempre encontraria algo novo, fosse o tom do sax do Coltrane, nos improvisos de piano do McCoy Tyner, ou na atmosfera que o baixo e a bateria davam a música. Eu sabia que, não importando o quanto eu ouvisse essa faixa, nunca a compreenderia por completo, ou me cansaria dela – sentimento parecido com o que eu sentia pela Nuna.
Em algum momento, fui sugado por uma escuridão completa e absoluta. Flutuei pela escuridão, sem rumo, durante horas. Até que um som estridente me puxou de volta a realidade. Lutei contra o meu próprio corpo para poder levantar. Nos primeiros momentos do meu retorno, nem sabia dizer onde estava ou o que fazia o barulho – pensava ser o despertador, mas não era. Era o telefone que tocava. Meu coração perdeu o controle e me deu um choque, de modo que acordei por completo. Talvez fosse ela me ligando; talvez tivesse lido meu e-mail. Atendi. Era tarde, a pessoa do outro lado desligou.
Minha cabeça latejava e eu não tinha certeza se os eventos da noite anterior eram reais. Lembrava-me de ter me encontrado com Nuna e de tudo que eu disse a ela, o que era incerto era o que aconteceu depois. Vi a garrafa em pé no chão, bem ao lado do sofá - sobre o qual estive deitado durante todo esse tempo e, por isso, minhas costas competiam com a dor da minha cabeça. O copo parecia ter sumido por completo, até eu encontrá-lo dentro da pia, cheio de água. Como ele foi até lá, eu não fazia ideia. Decidi verificar se havia realmente enviado o e-mail, indo até a caixa de itens enviados. Sem dúvida, lá estava ele.
Nuna,
Sinto muito por todo o inconveniente essa noite. Espero que possamos seguir com nossa amizade, como sempre. Você não faz ideia do quanto você é importante para mim. Talvez você não saiba, mas você é minha única amiga nesse inferno de cidade. Só uma coisa ainda fica em minha mente e eu queria que você refletisse sobre. Se for verdade que eu sou o primeiro a dizer que te amo daquela forma “tão espontânea”, talvez você devesse pensar se não é isso que você quer sempre, alguém te amando espontaneamente.
Não precisa responder, se não quiser.
Rafael
            Ela nunca me respondeu, embora tenha afirmado a leitura em uma de nossas conversas. Após essa verificação, vi as horas no relógio do computador. Eram cinco e meia da manhã, o sol ainda não havia nascido e o álbum de John Coltrane continuava a repetir. Como eu tinha que trabalhar em poucas horas, fiquei acordado, tentando me recuperar de todas as minhas dores e me preparando para continuar a viver como todos os outros dias da minha vida – sem ela.
Dedicado a B. A. M.
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Obs.: O título...eu não, particularmente, gosto dele.




2 comentários:

  1. Raphael,

    oi, li seu conto. Muito legal, triste, mas bonitinho, daqueles caras que fazem mais o tipo "garota", por causa da forma de amar, o que as garotas dos livros querem, mas quando eles são assim, elas preferem os complicados.
    O conto ficou muito bom, gostei da comparação com a moça e de citar as músicas tocadas. É bem simples, mas sei que irá agradar quem ler. :)

    Ah, lá no comecinho, você colocou “vazia” no lugar de fazia.

    Eu também tenho alguns contos, quem sabe não mande um dos meus também... :)

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    1. Obrigado pela observação. Reli esse texto dezenas de vezes, mas não tinha visto esse "vazia". Quanto a sua interpretação, achei bem interessante. Discordo da parte "tipo garota", mas é porque esse conto é parte de um romance inteiro, que eu só planejei. Nessa parte, o personagem parece bem mais simples mesmo.

      Gostaria muito de ver esses seus contos.

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