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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Intocáveis (Intouchables) - Resenha


Viver em uma cidade com apenas um cinema muito pequeno está causando danos a minha saúde mental. Já toquei nesse assunto antes e não adianta de nada ficar repetindo, até porque já vivo aqui faz mais de quatro anos, mas é muito chato passar um ano achando que nada de muito relevante estreou no cinema e, no ano seguinte ao chegar a época das premiações, descobrir que muitos filmes bons foram lançados, só não estrearam aqui e, por isso, não fiquei sabendo. Por isso nesse período de carnaval estou em uma cruzada cinematográfica por 2012, correndo atrás do tempo perdido.
 
Entre os diversos filmes que me chamaram atenção, os principais foram Intocáveis, Amour, No, Moonrise Kingdom, Beast of the Southern Wild, Cesare deve Morire, De rouille et d'os - pra citar alguns. Por isso aguardem essas resenhas num futuro próximo.
 
O primeiro da minha lista, que tive que assistir, pois já não suportava mais ouvir falar desse filme tão bom que todo mundo viu, sem saber do que todos estavam falando, foi, o francês, Intocáveis. E toda a história em cima dele não foi o único motivo - afinal, um monte de gente falando bem não foi o suficiente para que eu perdesse meu tempo vendo as continuações de Matrix -, outra razão foi por eu gostar do cinema francês. Truffault, Godard, Melville, gosto muito dos filmes dessa gente. Então empurrei para o primeiro lugar da lista.
 
Caso alguém não saiba ainda, a história é baseada em fatos reais, sobre um tetraplégico rico e seu cuidador...peculiar, digamos assim. Enquanto todos os candidatos ao cargo se esforçam ao máximo para parecem santos durante a entrevista para o cargo, Driss - jovem africano, imigrante e cheio de problemas familiares - aparece sem nenhuma intenção de ser contratado, pedindo que os estrevistadores assinassem um papel que comprovasse que ele estava procurando emprego e, portanto, não perdesse os cheques do seguro desemprego. Ele é contratado e, aos poucos, um vai afetando a vida do outro, seja no gosto pela arte, seja ajustando a educação da filha adolescente, seja mudando o tom das festas de aniversário - até aí, nada de muito diferente.
 
Nada de muito diferente, realmente. Esse é o filme francês mais americano que eu já vi. Tudo nele é americanizado, exceto a língua. Até o gosto musical do Driss - Kool & The Gang e Earth, Wind & Fire - é americano. Mas isso não é um problema. Não sou grande fã do jeito hollywoodiano de fazer cinema, mas a falta do politicamente correto e a liberdade do humor, compensaram esse leve problema cultural. Além do mais, talvez as coisas estejam mesmo mais americanizadas - até mesmo na França - e isso seja apenas um reflexo da realidade.
 
A questão social também é bem explorada, com uma sutileza que poderia servir de exemplo para os filmes nacionais. Driss veio da periferia, nem por isso o filme precisa girar em torno de seus sofrimentos e angustias, é possível fazer uma história ao redor desses problemas, sem fechar os olhos para o caso. Nisso o filme está de parabéns. O mesmo vale para o paraplégico, tratar a deficiência com bom humor, talvez, tenha sido a razão de todo o sucesso desse filme. Todos estavam esperando uma tragédia que seguisse a risca o Manual de Como Arrancar Lágrimas do Espectador Inocente. Não é o caso, o filme é engraçadíssimo e, mesmo podendo emocionar àqueles mais suscetíveis ao choro, não é o foco da história. O filme fala de superação e somente superação, deixando a piedade de lado em todos os momentos, ao mesmo tempo que toca em assuntos delicados como o uso de drogas (maconha) para fins medicinais e desigualdade social, sem deixar aquele gosto amargo de propaganda barata na boca de quem assiste.
 
Então por que eu não achei o filme perfeito? O final. Não a última cena, depois disso, quando veio aquele maldito "que fim levou os personagens". Sabe do que eu estou falando? Aquelas frases, seguidas de fotos felizes (por vezes em preto e branco), dos personagens - reais ou fictícios da história - nos contando se eles se casaram, arranjaram um emprego, morreram ou sei lá o que mais. Existe coisa mais chata? Isso é desnecessário. O final de um filme pode ser deixado em aberto, mesmo em histórias reais. Senti como se os produtores quisessem mastigar a história pra mim e eu não gosto de nada disso. Ainda assim poderia ter deixado essa passar considerando que o resto do filme foi tão bom, mas outra coisa, justamente nesse mesmo ponto, me atingiu e me decepcionou profundamente. O verdadeiro cuidador do tetraplégico não é africano, é argelino. Ora, então por que isso foi modificado? Claro que para conseguir a simpatia do espectador inocente. Desculpem-me, podem me chamar de chato, mas isso é um dos truques mais baratos do cinema - basear uma história em um caso real, mas, ao mesmo tempo, trocar uma pessoa de fundamental importância, por outra mais interessante aos olhos do público. Truque barato, comercial e do pior gosto. É possível fazer a mesma história com um argelino, a xenofobia francesa é altamente conhecida e poderia muito bem ter sido retratada.
 
O filme é bom. Não é o melhor filme do ano, muito menos o melhor filme da França, mas é uma boa comédia, com toques dramáticos. Eu, pessoalmente, achei o fim completamente desnecessário e até prejudicial, mas não acho que minha opinião é a opinião do grande público. Sugiro que vejam e tirem suas próprias conclusões.
 
Nota: 3,5/5,0

2 comentários:

  1. Não conhecia esse filme, o que é estranho, pois normalmente sei de todos os filmes que estão saindo. kkkk Fiquei curiosa pra ver.
    Concordo que não deviam ter colocado o africano só pra ficar mais "bonitinho", essas coisas também me irritam muito.
    Vou ver o filme, assim que puder.

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    1. O filme é ótimo, vale a pena assistir. Seria perfeito se eu não tivesse assistido os créditos e visto a história verdadeira...

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