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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Django Livre (Django Unchained) - Quentin Tarantino - Resenha



Tarantino é um daqueles caras que você ama ou odeia, sem direito a meio termo. Os que odeiam dizem que ele não é original, usa o termo homenagem como justificativa para roubar diálogos, premissas, ângulos de câmera, trilhas sonoras e até nomes de personagens; dizem que ele exagera na violência; dizem que ele exagera no vocabulário, enfim, dezenas de motivos que, até certo ponto, são a mais pura verdade - ele é culpado de todas essas acusações. Já os que amam, me incluo nesse meio, costumam saber que nada do que ele faz é original, mas se entusiasmam com a forma e com a paixão de Tarantino pelo cinema. Sim, no fundo, Tarantino nunca deixou de ser um adolescente aficionado por cinema, que por acaso conseguiu realizar seu sonho de escrever roteiros e dirigir filmes. E é essa paixão, esse amor pela arte do cinema, que é tão raro de se ver hoje em dia e que fazem dele um bom cineasta.

Quando eu fiquei sabendo da premissa de Django Livre (Django Unchained, no original), que era um spaghetti western no sul dos Estados Unidos, antes da guerra civil e na época da escravidão, achei bem criativo e interessante. Mal podia esperar para ver todas as referências aos velhos filmes do Sergio Leone e do Corbucci (diretor do Django original, que, se você não viram, sugiro que vejam). Foi o próprio Tarantino que despertou meu interesse pelo faroeste, principalmente o dos diretores italianos e dos revisionistas da década de 60 e 70. Ele sempre falou em fazer um filme nesse gênero, então imaginei que, de qualquer forma, haveria muita dedicação da parte dele. Antes de ver o filme, fiz questão de acompanhar todo o processo pré-lançamento, assisti os trailers, vi entrevistas com o diretor e com o elenco, tudo só serviu para me deixar mais ansioso ainda. 

Então vieram as notícias e as primeiras críticas quando o filme foi lançado nos EUA, poucas semanas antes de estrear no Brasil. Como era de se esperar, reações mistas, de um lado ele foi admirado pela sua coragem e criatividade, do outro, desprezado pelo excesso de violência e vocabulário, digamos assim, inadequado - principalmente no que se refere ao uso da palavra "nigger" (preto, seria a tradução mais exata, forma pejorativa de se referir a pessoas negras, muito popular na época da escravidão). Não sei se eu quero abordar essa questão com muita firmeza, se o leitor tiver interesse em saber mais, sugiro que busque no google tudo o que foi dito sobre o filme pouco depois do lançamento. Só quero deixar clara a minha opinião, estou do lado do Tarantino nessa. O contexto da época exigia esse vocabulário e essa violência, talvez ele tenha até aliviado considerando que algumas cenas me pareceram cortadas - o que é incomum nos filmes dele -, como a dos cachorros, por exemplo (assistam). Quanto a influência da violência cinematográfica na mente das crianças, ora, esse não é um filme para crianças. Simples assim, não levem seus filhos para assistir essa porra desse filme, é violento pra caralho. Fui claro? Bom, então pulemos para o enredo e depois meu julgamento, como de costume.

O roteiro é simples, trata sobre vingança, tal qual Kill Bill e Bastardos Inglórios, principalmente esse último, considerando que o cenário do filme é histórico. Django (Jamie Foxx) é um escravo que se encontra com o caçador de recompensas e dentista alemão, Dr. Schultz (Christoph Waltz). Django conhece os rostos de  seus próximos alvos, por isso decide levá-lo consigo e treiná-lo como seu ajudante. Se tudo der certo, Schultz promete levar Django para reencontrar sua esposa e libertar os dois, permitindo que eles fujam para o norte e sigam suas vidas. 

No meio de toda essa simplicidade, existe uma série de conceitos e referências, mais complexos espalhados pelo filme. Por exemplo, as técnicas de punição usadas contra os escravos, Tarantino é fiel nos detalhes quando expõe essa parte tão ignorada da história americana. Trata também das lutas mandingo, citadas em um livro e filme do mesmo nome, que são lutas entre escravos, promovidas pelos mestres, nas quais eles apostavam dinheiro no vencedor (cena forte, mas muito bem trabalhada). Com isso a violência real é mostrada ao expectador. Pode parecer só uma justificativa para a vingança que vem em seguida, mas não se trata de violência gratuita, para ganhar a simpatia do público, se trata de violência história e pesquisada. Até os locais nos quais o filme foi filmado, foram pontos históricos onde se realizavam punições reais. Tudo no filme é devidamente pesquisado e realista. Então chega a violência "divertida" do cinema, a vingança, quando todas as cenas tristes do começo são compensadas - como na cena do cinema em Bastardos Inglórios.

As atuações são espetaculares. Jamie Foxx ficou perfeito no papel, como os silenciosos heróis "sem nome" dos clássicos do faroeste. Samuel L. Jackson, como já era de se esperar, está ótimo, dessa vez atuando como um grandessíssimo filho da puta. Leonardo DiCaprio, que era o único no elenco que eu não achava que faria um bom trabalho - tá certo que nos seus últimos filmes ele conseguiu me convencer que era um ator competente, mas ainda assim tinha um pé atrás com ele como vilão -, também está perfeito em seu papel. Christoph Waltz repete a perfeição do papel em Bastardos Inglórios, só que dessa vez com um personagem muito agradável. E Kerry Washington também não podia ter sido mais perfeita. Simplesmente não tenho reclamações quanto ao elenco, até mesmo o Franco Nero (Django do original) fez uma participação, que foi muito engraçada para aqueles que sabiam quem ele era.

A trilha sonora também é excelente. Nada nela é original, já que o Tarantino não gosta de trabalhar com compositores, mas as músicas que ele escolhe se encaixam muito bem. As faixas vão de Ennio Morricone (trilogia dos dólares, do Sergio Leone) e Luis Bacalov (Django), até James Brown e 2Pac. Todas as músicas são retiradas de outros filmes, mas ou a música é secundária ou o filme é muito obscuro para que ela seja reconhecida de imediato - exceto pela música tema de Django, mas essa era perfeita demais para se deixar de fora.

É um filme divertido, engraçado - algumas cenas e falas são impagáveis - e inteligente, mesmo com seu contexto pesado e cenas de violência exageradas, cheio de referências a spaghetti westerns e blaxploitations da década de 70, gêneros que o diretor adora. Não é para se assistir com a família num fim de semana de chuva, mas é perfeito para aqueles que gostam de passar o tempo livre vendo um bom filme. Não é o melhor do diretor, achei o final muito corrido, como se ele tivesse ouvido do editor que eles já tinham mais de duas horas e meia de filme e ele tivesse decidido dar fim a coisa toda em quinze minutos, mas todas as linhas do enredo são fechadas. Também senti que o diretor anda se repetindo ultimamente - Kill Bill, Bastardos e À Prova de Morte, também são sobre vingança -, o ritmo desse filme é praticamente igual ao de Bastardos. É longo, mas não é nem um pouco cansativo, vale as quase três horas de filme. Não é para ser considerado inovador ou como a salvação do cinema moderno - isso pode causar fortes decepções -, mas é, em resumo, um bom filme, feito por um amante do cinema, para aqueles que amam cinema também.

Obs.: o tempo todo, durante o filme, fiquei esperando "Don't Call Me Nigger, Whitey", do Sly & The Family Stone, ou qualquer música dessa banda começar a tocar. Não aconteceu.
Obs2.: The D is silent.

Nota: 4/5

2 comentários:

  1. Já assisti esse filme, logo farei resenha em meu blog também.
    Gostei, achei bem legal, como você disse, algumas falas engraçadas, outras impagáveis, gostei de tudo e o filme é mesmo muito bom. :)
    Fiquei esperando pra ver Leonardo DiCaprio, uma pessoa ficou dizendo que ele era um senhor que estava passando em uma cena, e eu dizia que não era, então quando ele apareceu a câmera se focou em seu rosto e se não me engano até tocou uma musiquinha, acho que era pra mostrar que ele entrou no filme kkkkkkk

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    1. É essa apresentação de personagem, com a musiquinha tocando e o foco no rosto, é típica dos faroestes do Sergio Leone. Um toque muito interessante que ele deu pro filme. Quero ler essa sua resenha, não é bem o estilo de filme que você costuma resenhar, certo?

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