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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sobre o BBB

Já falei por aqui que não assisto televisão. Pois é, não assisto nem tv aberta, nem por assinatura; os poucos programas que ainda me chamam a atenção eu baixo na internet ou vejo no youtube. Isso vale para filmes também, gosto de alugar de vez em quando - para isso mantenho minha televisão tipo caixa, sentada e apagada em um móvel da sala, com um dvd empoeirado logo abaixo -, mas as locadoras de Itajaí, embora se esforcem, não têm muita variedade. Infelizmente as locadoras são um negócio perdido e logo terão o mesmo destino dos sebos - casas raras e fascinantes, mas que servem apenas para vender antiguidades.
 
No entanto, mesmo com meu exílio voluntário do mundo televisivo, certos programas invadem sua vida, seja por conversas no escritório, reclamações aleatórias de estranhos barulhentos nas ruas ou elevadores. Mesmo sem assistir um capítulo, sempre sei quando uma novela está para acabar, não sei do que ela se trata, mas sei que termina essa sexta-feira. BBB é a mesma coisa. Assisti dois capítulos da primeira edição - treze anos atrás! - e nunca mais, não vi graça. Contudo meus familiares viram, meus amigos de escola, depois amigos de faculdade e companheiros de trabalho. Todos viam o tal BBB. Segue agora alguns dos comentários feitos por essas pessoas:

"Uma baixaria. Absurdo um programa desses estar no ar."
"Como pode um imbecil pagar pra votar nos vencedores."
"Essa é a prova da estupidez do povo brasileiro."
"Palavrões, bebida, sexo, não entendo como pode tanta imoralidade."
"Alguém deveria tirar isso do ar."

Além dessas frases revoltadas, revistas e críticos intelectuais, ora ou outra aparecem dando motivos extremamente específicos (muitas vezes citando nomes e descrevendo minusciosamente as situações) para que o programa deixe de existir. A maior parte dessas críticas vale também para as novelas.

Se o leitor menos perceptivo ainda não entendeu o que eu quis dizer com tudo isso, vou tentar explicar. O que tudo isso significa é que os críticos desse programa (e quaisquer outros que sigam a mesma linha de qualidade), são tão imbecis, se não ainda mais, do que os que assistem por prazer. Ora Raphael, isso quer dizer que você gosta desse tipo de programa? - você me pergunta indignado, mas sem pensar em momento algum em sair do site. Não, não é isso que eu estou dizendo. Sexo, alcóol e palavrões não me incomodam nem um pouco, mesmo quando exibido em horário nobre, pelo contrário, tudo isso é natural e talvez desenvolva esse outro pensamento um dia; não gosto do programa, mas escolho não assistir. Você pode pensar que isso é uma atitude passiva e permissiva, e para isso eu respondo: - Seu jegue! Você pensa que a Globo ou qualquer outra estação, dá a mínima para as suas críticas? - Respondi minha própria pergunta com um sonóro não.

Televisão lucra com audiência e intervalos comerciais. Quem critica furiosamente esse tipo de programa, geralmente esquece que, enquanto isso, o está assistindo e a emissora "criminosa" está enchendo o cu de dinheiro. Tanto que eles dão um milhão desse dinheiro para um completo idiota, todo o ano, e ainda assim tem um lucro inimaginável para qualquer um de nós.

A ideia de gritar e espernear para o cancelamento do programa é infantil e autoritária. Por acaso o BBB é exposto para a nação brasileira em uma espécie de Tratamento Ludovico? Não. Se vivessemos no tempo em que se era necessário levantar do sofá e girar uma manivela bizarra para mudar de estação, eu entenderia a preguiça, mas hoje tem televisão que muda de canal por comando de voz, caso apertar o botão de um controle remoto seja trabalho demais para sua bunda gorda. Muda de canal, desliga a televisão, veja um filme, leia um livro, feche os olhos, porra!

Não existe desculpa. Por mais que se critique o tempo em que vivemos, nunca houve período melhor para cultura e entretenimento - que por sua vez poderiam ser considerados uma coisa só. Todos os livros, todos os filmes, todos os programas de televisão, todas as músicas, todas as obras de arte, estão a nossa disposição, graças a internet. Não existe tal coisa como "a música se perdeu" ou "hoje em dia não se faz filmes tão bons", nem nada parecido. Arte de qualidade existe e sempre vai existir, e hoje está mais acessível do que nunca. Só precisa procurar. Não é dever da Globo, nem da Record, nem do raio que o parta, oferecer entretenimento de qualidade. Eles têm o direito de exibir o que lhes der vontade, assim como eu escrevo o que eu quiser, a única diferença é que eles variam de acordo com lucro e tendências mercadológicas populares, eu não ganho nada com isso aqui e estou, como já dizia o Falcão, que nem cavalo em sete de setembro - cagando, andando e sendo aplaudido.

Enquanto você xinga todos os participantes do BBB e todo o elenco das novelas, eles entendem que, como a audiência sobe, o povo gosta, portanto é burrice mudar. Se um dia os diretores da Globo acordassem e vissem que a audiência deles e todas as emissoras do Brasil caíram para zero, enquanto os filmes do Ingmar Bergman, as composições de Stravinski e os livros de Machado de Assis, fossem os temas mais procurados na internet, acreditem, tudo ia mudar. Mas o que ninguém quer admitir é que, no meio de todos os insultos, existe um prazer relutante e envergonhado. Você, meu caro, que fica passando e-mails de corrente, pedindo pelo cancelamento do BBB e afins, assiste religiosamente o programa, seja por vício ou por gosto, mas morre de medo que alguém descubra, por isso disfarça o seu amor com ironia, descaso e ofensas. Dormiria no sofá se um filme de Truffault fosse televisionado no lugar da novela; nunca ouviu falar de Mahler, mas cantarola mentalmente o último hit do Michel Teló; não sabe quem foi Goethe, mas releu A Cabana cinco vezes, e chorou em todas elas.

Desculpe-me se exagero, mas é a impressão que eu tenho.
 

3 comentários:

  1. Eu não vejo TV, não vejo novelas, nem BBB, nada disso. Muito raramente assisto Discovery Home & Health, pois gosto dessas coisas de mulherzinha. Mas como já viu em meu blog, vejo muitos filmes e assisto várias séries, acho que vejo um filme ou então um episódio de alguma série todos os dias, pois eu adoro! :)

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    1. Já imaginava, isso é bom, procurar ver coisas com algum valor cultural. Mas a verdade é que eu acho que todos deveriam assistir ao que têm vontade, em total liberdade. Por isso acabo me irritando com essa gente que assiste uma determinada programação, só para poder reclamar e pagar de intelectual por causa das reclamações.

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    2. Pois é. Não vejo novelas, nem BBB, nem um milhão de outras coisas, pois não acho graça, apenas por isso, se gostasse, achasse legal, eu veria...

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