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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Sobre Arte e Entretenimento

Tive uma discussão com um colega de trabalho um dia desses sobre a diferença entre uma obra do Paulo Coelho e a de uma do Hermann Hesse. Acho que começou após o comentário que o diretor da empresa fez uns minutos antes. O chefe estava com a namorada dele, que é de Joinville, e ela começou a zombar do sotaque de itajaiense dele; em resposta ele perguntou quantas cadeiras Joinville tinha na Academia Brasileira de Letras, em referência a cadeira do poeta e político  de Itajái, Marcos Konder. Então ele se lembrou de Monteiro Lobato e retirou o que disse. Em defesa dele, mencionei a cadeira do Paulo Coelho e José Sarney, para não falar de Roberto Marinho - que nunca escreveu uma linha para fins literários -, e disse que a Academia não significava nada e, quando muito, era uma ofensa. Isso acabou ofendendo o tal colega, que lê e gosta de Paulo Coelho, e gerou toda a conversa. Em retrospecto, nada disso deveria ter acontecido, afinal nem Marcos Konder, nem Monteiro Lobato fizeram parte da Academia Brasileira de Letras; e Monteiro não é de Joinville, só é nome de uma rua na cidade - juro que não sei de onde ele tirou todas essas informações erradas. Ainda assim, toda essa loucura não foi suficiente para me impedir de escrever esse texto, pois esse assunto muito me intriga. Passei o resto daquele dia pensando no assunto, não cheguei a conclusão alguma, nem acho que vou conseguir agora, mas acho a discussão interessante.
 
Existe uma diferença clara entre arte e entretenimento? A maior parte das pessoas com quem conversei sobre o assunto disse que sim, considerando como exemplo de arte Beethoven, e exemplo de entretenimento qualquer artista pop atual, desses que surgem e somem semanalmente. Ou, no cinema, O Sétimo Selo como arte, e Transformers, como entretenimento. Isso além do meu exemplo inicial de Hermann Hesse e Paulo Coelho. Em outras palavras, o erudito contra o popular. O que normalmente se esquece nessas comparações é o fator tempo e os costumes históricos. Beethoven foi de uma época em que música erudita era tida como entretenimento. Os nobres se reuniam nos grandes teatros para ouvir as orquestras e as sinfonias - essa era a única opção de música na época. É claro que uns se esforçavam para agradar os ouvidos do povo mais do que outros; Beethoven e Mozart, por exemplo, eram considerados extremamentes difíceis de se trabalhar, compondo apenas conforme seu gosto e inspiração pessoal; ainda assim, hoje em dia, um compositor mais popular antigamente, hoje é considerado erudito e, portanto, arte. Com essa forma de pensamento, tudo que é velho é arte e isso não é verdade.
 
Outra questão é: arte não é capaz de entreter? Esse não é justamente o objeto inicial da arte? Se uma vez foi, quando foi que ocorreu essa separação entre entretenimento e arte? Na minha concepção pessoal da coisa - e dito isto, quero que fique bem claro que não sou doutor, todo meu conhecimento sobre arte vem de experiência e sentimentos pessoais -, foi a insatisfação do homem com sua própria realidade que fez surgir a arte. Sejam com pinturas nas paredes de uma caverna, com o intuito de relatar um acontecimento; escritos antigos; escritos sagrados; retratos, fotos, pinturas, filmes; lendas, livros, contos, poesia; cantos, música popular ou erudita. Tudo foi gerado de uma insatisfação nada mais que humana, com a vida cotidiana comum. Caçar se tornou um hábito aborrecido, por isso passou-se a pintar as caçadas e inventar relatos - um exemplo de fuga da realidade, primitivo, que eu acabei de inventar. Fugir do aborrecimento, do tédio, não é nada mais que entretenimento.

No entanto, alguns artistas decidiram que era necessário ainda mais; perceberam que, a partir da arte, era possível se fazer toda uma análise da existência, dos costumes, das relações, da mente humana. Surgiu a busca pelo ideal estético e o conceito de beleza - isso antes das modelos e atrizes, e a estética manipulada em favor da propaganda e do comércio -, não só física, mas da própria arte em si. É um fato, a arte é ilimitada e serve para muito mais que agradar observadores ou distrair do aborrecimento que é a existência comum, no entanto, nunca deixa de entreter - essa é sua característica imutável -, do contrário perderia sua essência, seu motivo de ser.

Agora gostaria de falar da separação entre entretenimento e arte, mas gostaria de dizer que não passa de uma expeculação, se não for uma reclamação vazia. Tenho a impressão de que a arte passou a se desprender do entretenimento, ou melhor, o entretenimento passou a se desgrudar da arte, quando está passou a ser vista como fonte de renda. Longe de mim dizer que um artista não deve ser pago pelo que faz, pelo contrário, bons artistas merecem cada centavo e ainda assim ganham pouco. Estou falando em manipular a arte, retirar dela tudo que há de profundo e mantendo somente o que há de agradável e simples e fácil; em outras palavras, arrancar o entretenimento da arte e exibi-lo por si só, pois é visível que dessa forma se atrai um público muito maior. No momento em que essa possibilidade foi descoberta e explorada, digo que o entretenimento se tornou um ser independente da arte, embora a arte se mantenha dependente do entretenimento.

Então retorno ao Paulo Coelho. Sobre ele admiro uma coisa, a habilidade comercial do sujeito. Ele sabe muito bem o que faz e como faz, conhece o seu público e o que o público em geral quer ler, sabe como agir e o que falar em entrevistas (criticando clássicos como Joyce e Hesse, para mostrar ao povo que não entende esses escritores, que eles não são inferiores por causa disso e na verdade o problema é dos autores), dizer que suas histórias de misticismo e magia são reais, e parecer realmente acreditar nisso. Ele não é um dos mais vendidos do mundo sem motivo. Mas pode-se chamar de arte? Existe alguma sinceridade no trabalho ou é só um belo ganha pão (no caso dele o pão está mais pra caviar)?

Com essa pergunta, gostaria de me afastar um pouco mais do assunto e mencionar outro, que me intriga tanto quanto e complementa a ideia geral desse texto. Sempre que um admirador decide defender um escritor como Paulo Coelho ou, partindo para os tempos modernos, Stephanie Meyer ou a famigerada E. L. James, o argumento principal é: "você não conhece o suficiente para falar." E, caso a pessoa que esteja do outro lado desse argumento rebata dizendo conhecer a obra do dito cujo, logo o argumento muda para "mas se não gosta, por que lê?" - o que invalida toda a conversa, da mesma forma que os erros do meu chefe quanto aos membros da ABL invalidam toda a razão de ser deste texto - e essa é uma excelente pergunta. É necessário conhecer para criticar, isso é inquestionável, mas é necessário conhecer profundamente? Ler toda a bibliografia do autor, conhecer sua vida, ou mesmo ler uma obra do começo ao fim? Eu digo que não. É verdade que um livro pode começar ruim e mudar no meio, então um capítulo não é base o suficiente, mas que tal as críticas? A opinião do crítico não é absoluta, porém as críticas costumam conter trechos da história, a sinopse, ou um breve resumo do enredo, além do mais, as críticas, pelo menos as de qualidade, são fundamentadas, ou seja, é possível entender a ideia geral de um livro partindo de uma ou várias críticas. Foi assim que montei minha opinião sobre 50 Tons de Cinza, por exemplo, li dois capítulos, o primeiro e um outro mais para o meio - depois que se deu início a sacanagem - e li dezenas de críticas, positivas e negativas. Os argumentos das críticas positivas não me convenciam, enquanto com os das negativas eu concordava. Conclusão: não li o livro todo, não lerei suas continuações e, ao que tudo indica, não lerei nada que essa mulher venha a escrever no futuro - exceto que, por algum milagre, ela aprenda a escrever e venha com uma história interessante ou pelo menos alguma sacanagem aproveitável. Repita todo esse trecho e troque 50 Tons por Paulo Coelho; o resultado foi o mesmo. Faço o mesmo com filmes e música. Por quê? Ora, tenho 21 anos, logo terei 22; a média de idade do brasileiro do sexo masculino é algo em torno dos 75 anos (quando de classe média); minha família tem todos os problemas de saúde e genéticos que você possa imaginar, faltava cancêr, até que uns anos atrás um tio do meu pai morreu disso; gosto de encher a cara de vez em quando, além de outros hábitos  não aconselháveis que eu não pretendo abandonar; se não bastasse, tenho uma pilha aparentemente infinita de livros, filmes e músicas que eu gostaria de apreciar antes da morte - o suficiente para me ocupar por, no mínimo 300 anos. Eu não vou viver 300 anos, terei sorte se viver mais 50. Dito isto, não me arrependo de ignorar certos "artistas", eles e seus admiradores que me desculpem. Se não existisse Georges Bataille, Sade, Henry Miller, Anaïs Nin, talvez eu parasse para ler E.L. James.

Agora que esse ponto foi esclarecido, volto ao tópico. É possível considerar um trabalho feito somente pelo dinheiro, uma obra de arte? Não, pois a arte deveria ser uma extensão da mente do artista; se este manipula seu trabalho e o corrompe de modo que não seja mais obra de sua alma, com o intuito de emocionar quem com ela tem contato, mas sim obra planejada, com intuito de ser vendida, a arte perde sua essência. Ao mesmo tempo, toda arte tem como função entreter mesmo que um grupo limitado, portanto se uma obra é feita com fins puramente intelectuais, com objetivo de espantar seu público - não passa de bobagem pretensiosa.

Em suma, a arte deve entreter ao artista, na minha concepção da coisa. O músico de jazz não deve tocar esse gênero só por causa do respeito que ele traz, e sim porque é o que ele ama. O mesmo vale para o escritor, o pintor, o cineasta, o escultor ou quem quer que seja. Ser um artista egoísta é única forma de ser totalmente sincero; sendo que, nesse caso, o egoísmo não é algo ruim, pois é apenas parcial - ao mesmo tempo que te agrada criar a obra, o sentimento de que outra pessoa também a aprecia, é que realmente faz que tudo valha a pena.
 
 

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