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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dia da Virada


É uma noite como outra qualquer, mas eles se reúnem. Pais filhos avós, tios e tias dos quais antes nem mesmo o nome se lembrava.
Na grande sala iluminada pela riqueza e o barulho da televisão que não se cala.
           E o banquete está servido pelos serventes que não puderam relembrar os nomes de seus tios e tias, talvez nem vivos estejam – o que não interessa nem um pouco àqueles que sofrem com o jejum voluntário de poucas horas, disfarçado com champagne, e uísque para o pai que vê apenas seu suor por todos os lados, uísque mais velho que seus filhos e mais caro que o lar dos serventes.
            E a Lua sobe lentamente, ou a Terra gira como sempre, enquanto milhões de pessoas esperam o fim do ciclo.

Alguns emergentes atiram nas águas indiferentes, promessas vazias de amor e de paz, que logo são engolidas pelo sal e destruídas pelas ondas – mas que importa se o sol e a ressaca fará com que tudo seja esquecido logo mais.
            E as lembranças dos dias que passaram nesse velho ciclo são sempre doces, de riquezas e felicidades, ao som do tilintar dos cristais e risadas, ambos falsos como todo o resto.
E em meio à plasticidade, eis que surge um pedido mudo:
- Um trocado, por piedade.
           E feliz ano novo! Todos gritam surdos, enquanto ele vai embora, com sua sujeira e delírios e solidão. Seus desejos são levados apenas pelas lágrimas.

Começa a tão esperada contagem.
Em meio aos gritos e alegria absoluta – tiros, roubos e um ou dois estupros, invisíveis.
           Então o seu explode em ilusões e sonhos e desejos nunca realizados, dando fim ao jejum da sofrida burguesia e a sobriedade de todo o resto.
           Fumaça, fogo, luzes, lixo por todos os lados, em terra e mar, mas nenhum ambientalista parece reclamar. Em que buraco eles se meteram?

A Terra gira, dá voltas em total indiferença, virando sua fronte ao sol e iluminando as baratas que jazem em seu corpo, visitantes indesejadas.
E o Sol queima as memórias e as vergonhas e os sentidos.

É o tal ano novo começando, estranhamente igual aos passados.
Sem sonhos, sem festa, sem desejos, sem realizações.
Os servos e o mendigo e o mar, continuam suas vidas.
Só resta o mistério da noite passada, fragmentos.
As lágrimas e sangue invisíveis são expostos, mas ninguém sabe de nada.
Até as próximas comemorações.

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