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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ademar "Chocolate" - O Vendedor de Versos

Esse post é um bônus. Depois de amanhã acho que vou ficar sem internet por um tempo e ando muito ocupado no trabalho para trabalhar no blog por lá, como costumava fazer até uns meses atrás. Por ser um bônus, a temática é meio diferente. Na verdade nem sei qual é a temática. Uma mistura de divulgação, homenagem, memória e uma série de outras coisas. Já é hora de eu parar de tentar organizar essa porra. O blog é meu e sobre mim, decidi escrever sobre essa pessoa que eu conheci e o trabalho que ela realiza, então é isso que será feito.

Acho que boa parte dos moradores de Itajaí conhecem esse homem. Talvez não saibam quem ele é ou o que faz, mas com certeza já o viram. Um homem simples, abatido pelo sofrimento da vida, às vezes com uma longa barba, outras mais aparado. Pedalando por aí com uma cesta de livros, até chegar em seu ponto de venda de costume. Antes numa praça no final da Hercílio Luz, hoje no estacionamento do McDonald's, na Marcos Konder. Na mureta ele alinha seus livros, adquiridos por doação, usados e danificados, mas não tanto quanto seu próprio corpo. Dez reais por livro é o que ele pede, se não puder que o ajude com um trocado qualquer para conseguir a refeição do dia.

Dele eu comprei Prosa e Poesia Completa, do Edgar Allan Poe, em frente a um restaurante por quilo, depois de uma promessa de longa data que eu lhe havia feito, de comprar um livro quando o visse e tivesse algum dinheiro no bolso. Então fiquei sabendo seu nome. Cumpri minha promessa, prometendo comprar outro. Meses se passaram e não o via, então ele apareceu e eu não tinha mais que algumas moedas, que lhe dei para que pudesse comprar uma águas. Uns tempos depois, comprei Pensar é Transgredir, da Lygia Fagundes Teles, que acabava de ser rejeitado por uma mulher. Estava molhado da chuva, mas perfeitamente legível. O mantive um tempo sob o notebook da minha empresa. Fim de expediente e ele estava novo. Nesse dia ele me pediu que o chamasse de Chocolate e visse seu vídeo no youtube. Um curta da RBS, sobre sua vida.

O vídeo está logo abaixo. Peço para que os poucos que me leem, pela primeira vez me levem a sério. Fiquei fascinado por essa pessoa. Analfabeto, vendedor de livros e poeta de inspiração. Sem saber escrever produziu coisas superiores a qualquer coisa que eu já me arrisquei a escrever nessa bagunça, ou li escritos em outros blogs de pura pretensão e pouco conteúdo. Todos temos algo a aprender com ele e com todos aqueles que, por loucura ou puro azar, perdem tudo e vivem por aí, com o que a vida e o acaso lhes oferece. Se você for de Itajaí, mesmo que não tenha dinheiro, o escute, ouça suas poesias e aprenda uma coisa ou duas.


Uma Volta


Passos firmes e rápidos
sombras passam e esbarram
sombras sem rosto
sombras sem voz
por todos os lados
desatentas

O asfalto frita e os veículos gritam
desesperados e apressados para compromisso algum
sem rumo nem destino, mas pressa
para sair
sair dali, de todo o lugar
por medo das areias que os engolem
caindo grão por grão sobre suas cabeças
sem nunca virar
sem piedade
sem consciência

O que eu te fiz? Fala comigo! Eu não tenho o direito de saber?
Ela grita desesperado para um pedaço frio de plástico
ela daria a vida por aquele plástico, mataria por ele
seus gritos perdem força
até silenciarem

Em algum lugar, uma mãe espanca um pedaço de si própria
esse pedaço chora, esse pedaço pede ajuda
inocente, não sabe que para ele não há resgate
ele é uma lembrança, uma ferida eterna
que um dia terá direito a sua vingança
de sua mãe que se vingou de sua mãe que se vingou de sua mãe


Eu compro pão e manteiga
e frios e água
e volto para casa
pelo mesmo caminho
mas por outras sombras
e as outras foram engolidas
pelas areias

as areias que caem grão por grão
sem tréguas
sem piedade

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sobre a Ética no Restaurante Self-Service (Hora da História com o Tio Rapha)

Moro sozinho desde o meio de meus dezessete anos, quando comecei a faculdade em uma cidade distante de minha terra natal. Como todos aqueles que já passaram por essa nobre experiência, tive algumas dificuldades em meus primeiros anos. Nunca tive qualquer habilidade para trabalhos manuais ou domésticos, não tenho coordenação motora, senso de direção ou equilíbrio  se não bastasse, não sei cozinhar tampouco. Eu sozinho em um quarto-e-sala no meio de uma terra desconhecida, seria a receita para o desastre. Mas eu sobrevivi. Trabalhei pra caralho pra conseguir comer em restaurantes por quilo (self-service) da pior categoria e lavar roupa em lavanderias amigáveis com universitários (que oferecem desconto). Com isso, devo dizer que não foi sofrimento algum - foi até bem confortável. Tentei aprender o básico da vida domesticada, mas não é pra mim.
 
 
A escola em que fiz ensino médio era consciente da possibilidade de seus alunos saírem da cidade após a formatura, por isso ofereceu, gratuitamente, aulas de culinária, adaptadas de modo que até o maior dos imbecis seria capaz de aprender qualquer coisa. Esse era justamente o problema, a maior parte dos alunos eram imbecis (incluo-me nessa). Some isso ao fato da aula ser grátis - convenhamos, é difícil levar algo que não te fere o bolso a sério -, poucos saíram de lá com qualquer conhecimento. Os alunos que já sabiam cozinhar usavam aqueles que não sabiam para fazer o trabalho desagradável, cortar cebolas, descascar batatas, picar cenoura, alho e por aí vai - era o que eu fazia, não era minha vontade, mas os olhos verdes da moça que me pedia para fazer esse serviço me hipnotizavam. Então, na hora de cozinhar de verdade, algum imbecil gritava: - Truco! - e nos reuníamos à mesa até que servissem o prato, magicamente, pronto. Foi uma bela perda de tempo, mas a culpa foi toda minha. 
 
 
Mas esse texto não é sobre culinária e sim sobre restaurantes. Em Itajaí, devo dizer que me tornei uma espécie de pioneiro do paladar. Um restaurateur da classe operária, por assim dizer. Almocei em basicamente todos os restaurantes self-service da cidade, conheci os padrões, as combinações diárias, variações semanais, preço por quilo, acompanhei as mudanças, frequentei inaugurações, fiz indicações e resenhas verbais, descobri os melhores horários para evitar filas e como conseguir uma mesa independente da situação, além de breves análises sociológicas sobre o tipo de ser humano que frequenta esses ambientes.  Isso me permitiu desenvolver uma espécie de código de ética. Não etiqueta, etiqueta é para senhoras frescas que dedicam a vida a segregar garfos e facas, enquanto ingerem uma refeição do tamanho do meu punho, subdividida em cinco pratos. Não é sobre isso que esse texto trata, mas sim sobre normas de comportamento social, não escritas em legislação, mas que deveriam sujeitar a punição o sujeito que as quebra.
 
 
Peço que o leitor visualize uma fila de quilo ao meio-dia e quinze. Sim, meio-dia e quinze, não meio-dia em ponto. Meio-dia em ponto é quando os funcionários dos grandes prédios comerciais estão se matando por um espaço no elevador (que por sua vez será o tema de minha próxima história), os quilos ainda não estão lotados nesse horário (lembrando que esse guia somente é válido para Itajaí e cidades de tamanho igual ou menores). Os quinze minutos são um detalhe essencial, pois é quando as pessoas começam a chegar, em manadas, nos restaurantes; quando a fila começa a sair do restaurante e tomar conta das ruas. É nesse tipo de situação que se baseiam as primeiras regras:
 
 
Regra 1: Nunca vá até um conhecido bater papo só para furar a fila.
Isso acontece com uma frequência assustadora. Um cretino decide conversar com aquele amigo do colegial que ele não via faz dez anos. Por acaso, o tal amigo está quase alcançando a pilha de pratos em frente à comida. Ele não quer falar com o amigo, nem se lembra dele. O único objetivo do cretino é entrar na frente de todos. Não se intimide de constranger uma pessoa assim, mesmo que para isso seja necessário incitar uma revolta. Gente assim merece a cadeira elétrica.
Regra 2: É proibido guardar lugar. Se uma pessoa não está com você na fila, ela não está na fila.
Regra 3: Mantenha uma distância razoável da pessoa em sua frente, mas não deixe que uma distância maior que um braço se abra. Use o bom senso, do contrário pode-se considerar que você abandonou a fila.
Regra 4: Sempre pegue o prato do topo da pilha.
 
 
Essas são as regras da fila. Deve ter mais coisa, mas isso pode ser revisado um dia. Vamos avançar para o principal. Você não está mais na fila, tem um prato e talheres em mãos. Chegou a hora de se servir.
 
 
Regra 5: Não pense. Você sabe o que é a comida, pegue-a ou deixe-a. Tem dezenas de pessoas famintas atrás de você, respeite isso. Se você não respeita as pessoas, respeite a fome. A comida não vai falar com você, nem muito menos vir andando ao seu prato, se quiser decidir vá ao restaurante à la carte.
Regra 6: Não devolva a comida. Tocou seu prato, é seu, ponto final.
Regra 7: Não olhe pra trás. Se você deixou passar alguma comida específica e uns passos a frente mudou de ideia - tarde demais. Siga em frente com a vida ou volte para o fim da fila.
Regra 8: A comida disponível não é só sua, ela tem que alimentar toda a fila até a reposição. Limite seus instintos animais. Não carregue consigo todos os doze filés de frango. Em uma utopia, a quantidade de comida seria regulada.
 
 
Na hora de pesar e escolher a bebida:
 
 
Regra 9: São três etapas simples - pôr o prato na balança, pesar, retirar o prato da balança. Não é tão difícil.
Regra 10: Pense na bebida enquanto estiver na fila, depois disso, siga a regra 5.
Regra 11: Em todas as etapas, mantenha movimento. Essa é a chave para todas as filas - se é possível seguir, siga.
 
 
Essa parte é delicada. Escolher a mesa.
 
 
Regra 12: Nenhuma das mesas tem um prêmio escondido debaixo da cadeira. Não tem porque passar horas de pé pensando, se você vir uma mesa vazia, pegue-a.
Regra 13: Não deixe sua carteira, capacete de moto, celular ou qualquer outro pertence em uma mesa, enquanto estiver na fila. Em uma utopia, esses itens seriam considerados abandonados e passariam a pertencer àquele que pegasse a mesa primeiro.
Regra 14: Você está sozinho ou com um acompanhante, fique longe das mesas para quatro pessoas, exceto que essas sejam as únicas disponíveis.
Regra 15: As cadeiras vazias de sua mesa podem e devem ser ocupadas por qualquer um, caso todas as mesas estiverem cheias.
Regra 16: Se o restaurante estiver cheio e você tiver que se sentar com um desconhecido, peça permissão.
Regra 17: Quando uma pessoa pedir permissão para se sentar com você e o restaurante estiver cheio - aceite.
Regra 18: Nunca se sente com um desconhecido se ainda houver uma mesa vazia.
Regra 19: O primeiro a pegar a mesa é seu dono até que este termine sua refeição.
Regra 20: Evite conversas ou mesmo contato visual com o dono da mesa.
Regra 21: Ao dono da mesa é reservado o direito de ignorar qualquer um que a ele dirija a palavra.
Regra 22: Se seu prato e sua bebida estão vazios. Saia. Vá para casa, vá para o trabalho, vá para a rua, vá para a puta que te pariu, mas desocupe a mesa.
 
 
Acho que é o suficiente. Cobre os principais momentos, da fila até o fim da refeição. O código não é fixo e, a todo o momento, algo pode ser adicionado a ele. Retirado, somente se seguido de devida argumentação. Sigam as regras e até a proxima história com o Tio Rapha.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Tentativa de Haikai - 3 e 4

Eu sei que o haikai tem como objetivo passar uma imagem transcedental, relaxante, para meditação. Acontece que eu escrevo sobre o que eu conheço. Eu nasci na cidade, eu cresci na cidade, eu sou urbano paranoico pessimista indiferente e nem um pouco zen. Então o que eu faço é pegar a métrica do haikai e tento transferir nele o meu ambiente ou o que quer que se passe em minha mente. Acho que antes de qualquer coisa esse era o objetivo do haikai, posso estar errado, mas vou me imaginar como certo, pois essa gente vegetariana, cheia de pensamentos positivos naturais bonitos zen puros e corretos têm a mania de roubar tudo para eles. Se eu estiver errado, então invento o haikai negativo, para nós bêbados niilistas urbanos carnívoros que também existimos, pensamos e temos um ambiente para descrever.
Hoje é dia de promoção, dois haikais pelo preço de um. Aproveita, dona de casa, que é só por hoje (depois fico sem material e não sei o motivo...).
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Nuvens
Seu nome nas nuvens
pode ser real, ou uísque
dançando na mente
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Quadro de vidro
Minha janela
quadro de inspiração
maior e único

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sobre a Música - parte 1 (Hora da História com o Tio Rapha)

Sabe que eu gostei desse tipo de post. É rápido, posso escrever o que eu quiser, quando eu quiser. Muito bom, vou continuar com essa coisa por mais um tempo. Tem uma série de assuntos que eu gostaria de escrever sobre, mas que não são possíveis de encaixar em nenhuma crônica ou conto nem nada do gênero. Talvez seja possível, mas comigo ficaria uma coisa meio forçada. Um dos meus assuntos favoritos, que eu sempre tento encaixar em qualquer conversa e sempre me sinto seguro falando sobre, é música.

Que fique claro de início. Não sou músico. Estudei um pouco de piano, por em torno de dois anos. Nunca levei jeito pra coisa, quase não tenho coordenação. Além disso, sempre fui preguiçoso para praticar qualquer coisa. Horas e horas fazendo um mesmo exercício e mesmo assim não conseguindo nenhum resultado. Por isso eu gosto da escrita. É fácil de praticar, estou fazendo agora mesmo, e, mesmo que não seja tão bom assim, no final ainda se tem um resultado. O mesmo serve para línguas estrangeiras, para praticar basta abrir a boca ou ler qualquer coisa no idioma desejado - é perfeito. Mas vamos a música antes que eu me perca novamente em meio a discursos sem fim, pensamentos sem sentido e memórias disconexas.

Estranhamente, quando criança, não sentia interesse algum pela música. Não sei se é porque não fui apresentado cedo às coisas que hoje me agradam, mas simplesmente não ouvia música, não procurava saber sobre e, quando ouvia em algum lugar, geralmente não gostava. Parecia um barulho desnecessário, com palavras sem sentido sendo ditas em meio a um monte de instrumentos tocando qualquer coisa de repetitivo. Essa era minha impressão ao ouvir o rádio quando tinha quatro anos de idade.

Nessa mesma época, fuçando as coisas do meu quarto - achava impresionante como tinham coisas lá que eu não fazia ideia do que eram ou pra que serviam -, encontrei uma série de gavetas, que eu já havia visto, mas nunca antes abrira. Lá estavam dez CDs, de uma coleção de uma revista que hoje eu nem sei se ainda existe. Música clássica, dizia a capa. Nunca tinha ouvido falar antes. Então botei um dos discos pra tocar e ouvi. Minha concepção de música mudou totalmente, era a música do rádio que eu não gostava e não todas, como eu costumava pensar. Beethoven, Mozart, Vivaldi, Wagner, Ravel, Albinoni, Verdi, Bizet, Bach e Strauss, eram eles os compositores dos CDs, que continham suas principais e mais conhecidas músicas. Foram só esses 10 discos que eu devo ter ouvido durante a infância.

Aos treze anos, talvez um pouco antes disso, creio que meus amigos passaram a se interessar mais por música também. Antes eles ouviam o que tocava na época, a música pop da década de 90 - que, por mais que me doa dizer, era melhor que a de hoje, não pensava que poderia ficar pior. Nessa época, começo dos anos 2000, eles começaram a ouvir Heavy Metal. Iron Maiden, Manowar, Venom, clássicos do gênero, e outras bandas modernas que, com o passar do tempo acabaram se mesclando em minha memória, não me sobrando o nome de nenhuma delas, o que realmente não importa para esse texto. De início, admito que gostei daquilo. Não comprava CDs dessas bandas, pois costumavam ser muito caros, principalmente os das bandas mais modernas, que eram todos importados de algum lugar bizarro da Europa, mas escutava sempre que possível.

O tempo passou e cheguei a conclusão que a maior parte das bandas de heavy metal são idênticas entre si. As que fugiam a regra eram as clássicas, mas o que aconteceu que me afastou do gênero foi a descoberta daqueles que o influenciaram. Ouvi, naquela mesma época, Deep Purple pela primeira vez. Não pela primeira, já tinha ouvido as mais conhecidas, quis dizer que os ouvi pela primeira vez, no sentido de ouvir um álbum, do começo ao fim e com profunda atenção aos detalhes. Este álbum não foi o Machine Head, mas sim o In Rock. Então busquei e escutei todos os discos deles de 1968 até 1976. Não era sempre a mesma coisa, existia uma busca pelo progresso, por fazer uma música melhor. Gostei daquilo e fui cavando pelos seus contemporâneos. Arte não é nada mais que isso, uma busca sem fim, e cada artista é uma pá. Toda a música está interligada de alguma maneira, independentemente do gênero. Sempre existe uma influência, uma referência que facilita a descoberta. Quando realmente existe interesse, é possível passar anos buscando e não encontrando tudo que tem que se encontrar em um determinado gênero musical.

Encontrei a década de 60 do rock, mas especificamente 65-69, Beatles (fase LSD, antes disso nem tanto), Jimi Hendrix (Experience e outras bandas), Jefferson Airplane, Cream, Grateful Dead (talvez minha favorita), The Doors e outras mais obscuras que eu fui descobrindo com o tempo. Todo esse universo musical hippie verão do amor, fez com que eu mudasse completamente minha forma de ver a música e me mostrou outros gêneros e outros mundos. Creio que foi nesse momento que ocorreu meu despertar para essa vasta arte, com a psicodelia de São Francisco.

Vou precisar de mais posts para falar por completo da minha relação com a música. Tenho outros gêneros para falar sobre, músicos e críticas a fazer. Então esse post vai ter continuação um dia desses, por enquanto é só.








terça-feira, 20 de novembro de 2012

Meu Primeiro Livro (Hora da História com o Tio Rapha)

O leitor que acompanha essa bagunça que eu insisto em chamar de blog, sabe que eu sou um contista irregular, poeta ruim, cronista medíocre e romancista indeciso, ou seja, de tempos em tempos fico sem material e preciso improvisar fazendo resenhas apressadas e criando colunas que, por mais que eu diga que são contínuas, nunca voltam. Por isso eu me recuso a criar um cronograma - não consigo trabalhar com prazos e não acho que ninguém aqui se importa.
Decidi então criar, depois de escrever meus sonhos, tentar fazer um conto com temática medieval e me aventurar com haikai, a "Hora da História com o Tio Rapha". Por que Tio Rapha? Porque todos me chamam de Rapha, mesmo eu não gostando que homens me chamem assim, e o tio dá um toque de sabedoria. Lembro-me da primeira vez que fui chamado de tio. Estava saindo do cinema, com um grupo de amigos. Creio que tinhamos acabado de assistir o Motoqueiro Fantasma - e que filme horrível foi este -, estávamos rindo das cenas e ridicularizando o Nicolas Cage. Eu tinha dezesseis anos (isso foi em 2007, acho eu), estava começando a desenvolver minha arrogância cinematográfica. Não eram bons tempos, mas eu era jovem e pensava ter um futuro pela frente. Um futuro que não se baseasse em escrever devaneios e memórias em um blog visto por ninguém e, ao mesmo tempo, agindo como se fosse lido por vários, ou pelo menos tivesse um certo "cult following". Ela deveria ter uns catorze anos no máximo. Loura, magra e maquiada como uma pré-adolescente. Andava despreocupada a passos desajeitados e risos juvenis, segurando o braço da amiga que era como uma imagem do espelho, um pouco maior e mais cheia talvez. A mais bonita entre as duas cutucou meu ombro distraído pelos comentários sarcásticos que fazia sobre o filme risivelmente ruim. Sério, já falei que o filme foi ruim?
Viro para trás e sua aparência me surpreende. Quero saber se a conheço de algum lugar ou por que ela me chamava. Então ela diz: - "Tio, que horas são?" E eu respondo: -"Tio? Que história é essa! Tá bom, são nove e meia." Tio... Naquele momento, pensava que ela tinha a minha idade. Hoje penso que ela deveria ser mais nova, mas não sei, pode ser que fosse a noite, embora aquela rua fosse iluminada o bastante. Virei lentamente de volta para os meus amigos que seguravam o riso. Tinha de haver uma explicação para ela vir falar comigo e não era minha simpatia. Mas o tio foi de lascar.
Eu me perdi completamente nessa história, sobre o que eu ia falar mesmo? Sim! A coluna nova - Hora da História com o Tio Rapha.
A ideia aqui é falar sobre um assunto qualquer. Uma lembrança, um tema, um livro. Sem aquele tom de resenha, crônica ou ensaio. Só uma conversa. Ver se eu consigo atrair algum leitor usando um tom mais pessoal e amigável. Mas acho que é melhor eu ir direto ao tema de hoje, se não esse post fica quilométrico.
Queria falar sobre meu primeiro livro. Não o primeiro que fui forçado a ler ou que alguma tia me deu e eu atirei para o canto com desinteresse. O primeiro que eu escolhi e disse, "vou ler esse filho da puta."  Li, fui até o fim e gostei. O suficiente para ler outro e outro e por aí vai.
Para minha vergonha, já estava relativamente velho quando perdi a virgindade literária. Tinha lido outros livros, é verdade, mas por obrigação escolar, o que, em termos sexuais, equivale a punheta, ou seja, não conta. Minha primeira vez foi com Misto Quente do velho Bukowski. Li em e-book, em inglês, nos momentos de ociosidade do trabalho, no computador da empresa. Tinha começado a trabalhar lá fazia pouco tempo, então não era muito ocupado. Li o bicho em três dias. Nunca tinha lido nada tão rápido na minha vida. Estava impressionado com o estilo e a sinceridade do autor. A verdade é que eu não sabia que livros assim existiam. Conhecia apenas os pólos opostos - clássicos escolares e livros juvenis (hoje conhecidos como YA) e nenhum dos dois me agradava na época (hoje gosto e entendo os clássicos, pelo menos alguns). Depois segui para Cartas Na Rua e Factotum, o último em livro físico, pois a tela de computador passou a me dar nos nervos, e na tranquilidade de casa.
Misto Quente, pra quem não sabe, é um romance de memória ficcional (como quase todos do Bukowski), que fala sobre o desenvolvimento de Henry Chinaski, da infância ao começo da idade adulta. As principais descobertas do homem - mulheres e álcool. A frieza do mundo, o abandono e a "mediocrenização" - a forma que a sociedade conspira para destruir qualquer sinal de individualidade que resta em um ser humano, com o objetivo de torná-lo parte da máquina - e a revolta contra isso. Um livro inspirador que, se eu tivesse conhecido durante a adolescência, teria mudado tudo - talvez nem tivesse me incomodado por ter sido chamado de tio.
Buk mudou minha vida. Se não tivesse passado por ele, talvez passasse a vida sem livros, o que seria triste. Sugiro a todos que nunca o leram ou nunca leram na vida, vale cada palavra de cada página.
Gostei dessa "coluna", provavelmente seguirei com ela no futuro. Espero que vocês, minhas centenas de leitores diários, tenham gostado também, o suficiente para comentar e falar sobre sua primeira vez literária. Talvez continue com aquela coluna sobre os sonhos... O problema é que, justamente quando eu me propus a escrever algo assim, parei de me lembrar dos meus sonhos ao acordar. É carma, eu sabia que algo assim ia acontecer. Bom, chega por hoje.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Norwegian Wood - O filme e uma leve comparação com o livro.


Sugiro a todos que, antes de lerem essa resenha, busquem a resenha do livro, que fiz não faz muito tempo. Não pretendo retornar em conceitos básicos do roteiro, isso já foi feito, se você não viu o filme, não leu o livro, não leu minha resenha do livro, mas mesmo assim quer ler e entender essa resenha (qual o seu problema?), pesquise sobre no tio Google. Não quero ficar repetindo coisas.

Ontem a noite assisti a adaptação para o cinema de Norwegian Wood, lançada em 2010 no Japão, em 2011 nos EUA e nunca no Brasil. Dirigido pelo vietnamita Ahn Hung Tran, conhecido em concursos da Europa, mas não por mim - esse é o primeiro filme dele que vejo. Tampouco conhecia o elenco, mas fiquei bem feliz com as performances. Estava curioso para assistir uma adaptação de um filme do Murakami, é bem possível sentir esse lado cinematográfico nas histórias dele e algumas influências do cinema europeu tradicional e um pouco de Woody Allen. Esperava alguma coisa assim nesse filme e foi mais ou menos isso, no entanto, com algumas complicações.

Antes de tudo, o filme é um espetáculo visual como todo o cinema asiático parece se esforçar em ser. As luzes, as cores, o ambiente, tudo perfeitamente escolhido conforme o clima que a cena quer oferecer. Nesse quesito, se estivesse resenhado uma obra de arte puramente visual, receberia a nota máxima. Contudo um filme precisa de roteiro. É aí que começam os problemas.

O livro Norwegian Wood é uma extensa obra de mais de 350 páginas, com poucos personagens relevantes, mas todos com um desenvolvimento fenomenal, começo meio e fim. Não esperava que isso fosse perfeitamente representado no filme. Primeiramente, gostaria de avisar que não sou desses que criticam com fúria adaptações de livros. esse é um trabalho extremamente complexo. O livro não sofre com o mesmo número de restrições de um filme. O livro para ser escrito só precisa das palavras e ideias de seu autor, publicação e outros detalhes acontecem depois de o livro estar pronto. O filme pode ser pensado e escrito, mas precisa de um puta investimento para sair do papel e para conseguir isso, ele precisa ser vendido para alguma produtora. Livros passam por isso, mas as editoras me parecem bem mais abertas que as produtoras de cinema. No cinema detalhes como, tempo de duração, drama rentável e toda essa bobagem, devem ser respeitados. Nesse caso decidiram fazer esse filme em apenas duas horas. Sinto informar-lhes, mas não é possível.

A trama é tão mal-cortada e desorganizada que qualquer um que não tenha lido o livro, não vai entender uma cena sequer. Nenhum personagem passa por um desenvolvimento em cena, é tudo presumido. O Nazista, um personagem muito interessante no livro, aparece no filme, mas seu nome não é mencionado, suas peculiaridades são reduzidas a duas linhas desconexas de diálogo e, sem mais nem menos, o personagem, assim como no livro, desaparece. Isso tem efeito no livro, pois nós fomos apresentados ao personagem, nos relacionamos com ele e nos acostumamos com sua presença. No filme, sua existência é um grande foda-se. Se ele nem aparecesse na história talvez fosse melhor. O problema é que não é só o secundário "Nazista" que passa por isso. Todos sofrem esse problema, até os protagonistas. Em muitas cenas o espectador desavisado vai encarar a tela com um profundo olhar de confusão, porque algo está acontecendo, algo que até parece fazer sentido, mas é completamente incoerente ou mal-explicado. Imagino que o roteiro deva ter sido muito maior originalmente (ninguém consegue ser tão ruim assim em seu trabalho), além do mais, toda a equipe é competente, por que logo o roteirista não seria? O roteiro deveria ser ótimo, mas algum produtor o cortou em pedaços para que ele se encaixasse nas malditas duas horas. Honestamente, um filme assim nem precisaria existir.

Outro defeito é a trilha sonora. Em todos os livros do Murakami música é algo fundamental, sempre tem algum disco de jazz tocando em algum lugar em suas cenas. Norwegian Wood recebe seu nome por causa de uma música. Repito, música é fundamental nessa história. Não sei se eles não conseguiram os direitos autorais ou coisa assim, mas nenhuma das músicas citadas no livro aparecem no filme, exceto por um pedaço de Norwegian Wood, contudo, a história por trás da música não é explicado, então que se foda. A trilha que eles realmente usam, não é tão ruim. Embora não seja a mesma do livro, combina, na maior parte das cenas, com a história. No entanto, em alguns trechos, a música utilizada me fez sentir que um assassino iria aparecer em alguma cena, de preferência em um hospital escuro - essa faixa me confundiu profundamente.

Confundir, tá aí o verbo que resume o filme. Todas as cenas parecem se esforçar para confundir por completo o espectador. As cenas do livro são fiéis, mas completamente soltas e sem explicação. Para quem leu o livro, esse filme é uma experiência incompleta e insatisfatória. Para quem não leu, o filme não é experiência alguma, apenas um conjunto de cenas bonitas e coloridas e sem sentido algum.  Imagina que um cidadão afobado e com alguma deficiência de atenção, que você nunca viu na vida, aparece na sua frente e te conta a história desse livro, mas como ele está com pressa, fala muito rápido para cobrir a coisa toda em cinco minutos - o filme é mais ou menos isso. Não recomendo a ninguém, mas não culpo os envolvidos. O filme me cheirou a corte de produtora gananciosa, mas não posso provar nada. Talvez tenha sido realmente incompetência, darei o benefício da dúvida.

Nota: 2,0/5,0 (somente pela atuação e visuais, se não seria 0 mesmo)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Vazio


Caminhando
olho para o céu
azul e sem nuvens
tento me situar no espaço e
me vejo como um grão de poeira
preso a outro grão de poeira ainda maior
pela gravidade em meio ao infinito

Estranho como o que mais angustia o homem
não é a dor, a fome ou o sofrimento
mas a sua mente
que faz do vazio, seu tudo

Uma pomba insiste em cruzar meu caminho
resolveria tudo se batesse as asas, mas não tinha vontade
eu era nada para ela, quem sabe nem me via
formamos do mesmo vazio, um tudo infinitamente diferente
ela vê migalhas e restos de comida e banheiros infinitos
eu vejo um homem vestido de bermuda, regata e chinelos
fumando charuto no ponto de ônibus
enquanto uma moça, vestida como Tom Waits
passa na rua de monociclo
sendo seguida por alguns homens vestidos iguais a ela

Uma outra moça
cruza duas vezes meu caminho
de biquíni e bicicleta

Tudo isso é a mente
fazendo do vazio qualquer coisa real
como o sol forte que nos queimava a pele

domingo, 11 de novembro de 2012

Fome


Não comerei por um dia
decidi, um dia desses
tentei e falhei
percebi então que
naquele exato momento
alguém tinha sucesso nessa tarefa
sem nem precisar tentar

sábado, 10 de novembro de 2012

Gringo Idiota


Não tive muitos empregos nessa vida. Em vinte e um anos de idade, somente três. Porém todos geraram alguma memória específica a qual eu guardo com imensa nostalgia e respeito, meu primeiro principalmente. Trabalhei por dez meses como voluntário em uma empresa de comércio exterior pertencente à faculdade. Era um estágio como qualquer outro, todos os processos de importação ou exportação nos quais nos envolvíamos, assim como os clientes, eram reais. A única diferença era a falta de remuneração.

Foram tempos difíceis. Não passei fome, mas precisava depender de meus pais, o que me afligia e envergonhava. Não que eles fizessem qualquer exigência ou pressão, era uma questão moral, interna. Acho absurdo que qualquer um acima dos dezoito anos não traga dinheiro para sua casa. Sempre achei, e sempre desprezei essas pessoas, até tentar entrar no mercado de trabalho, descobrir que não era assim tão fácil, e acabar me tornando um dos desprezíveis. No entanto, sempre pensei que o sentimento de culpa me redimia um pouco. Odiava profundamente àqueles que, assim como eu, eram um peso à sociedade, mas pareciam se orgulhar disso por vir de família abastada. Não existe pessoa pior que o “filho de alguém”. Filho do juiz, filho do doutor, filho do advogado, filho do engenheiro, filho do empresário – todos uns filhos da puta.

O grupo de voluntários daquela empresa era realmente muito bom. Fiz algumas amizades por lá, embora tenha perdido contato com a maioria deles. Os únicos que não se misturavam também eram justamente os filhos de não sei quem. Um cidadão de vinte e oito anos, que após ter feito viagens para Nova Zelândia para aprender inglês, decidiu fazer um estágio para ter um pouco de experiência antes de passar a gerenciar a empresa que seu pai lhe prometera. Outro era mais jovem, mas era a definição de idiota. Passava horas se vangloriando das somas exorbitantes que ele rasgava em baladas e motéis, e como ele não conseguia passar mais de uma noite com apenas uma mulher, ou uma semana sem sexo. Não tenho nada contra a libertinagem, até acho o hedonismo interessante, contudo a vida me ensinou que, se você precisa falar, é porque faz muito pouco. No entanto me disperso, essa história não é sobre idiotas, mas sobre trabalho.

Quando já trabalhava há oito - ou seriam nove? - meses, nos meus momentos finais naquela empresa., fomos contratados pela equipe de uma feira internacional de calçados em São João Batista como intérpretes. Formaríamos um grupo com quatro pessoas. Dois intérpretes para inglês e dois para espanhol. De acordo com as instruções que me passaram, seria o intérprete de uma boliviana, importadora de calçados. Meu dever era acompanhá-la pelas várias lojas, traduzir a negociação para ambos os lados e fazer anotações sobre as vendas – quantidades, datas, qualquer coisa que pudesse servir mais tarde para a organização da feira divulgar como sucesso. Seria pago por dia um valor acima da média brasileira. Ao fim dos três dias, fiquei triste que aquele não era meu emprego definitivo, mas apenas um bico isolado.

Transporte seria por conta da faculdade. Uma Combi branca, com o logo da faculdade, espantosamente nova e limpa, mas sem ar condicionado e a porta fazia um barulho estranho. Era verão e aquele dia foi representativo da temporada, um sol forte batia na lataria, transformando o veículo em um forno. Isso no primeiro dia, nos outros dois chovia muito, ainda assim o calor continuava forte. Éramos quatro, três sentavam no banco de trás e outro ia isolado no banco da frente, o que não fazia diferença, já que os ruídos do carro somado ao barulho do vento causado pelas janelas escancaradas, tornava qualquer conversa inviável. Quando alguém sentia a necessidade de falar qualquer coisa se punha a gritar e o barulho só aumentava. Esse foi o maior problema no trajeto, o calor e o barulho, que não importava, levando em consideração que São João Batista não era tão distante de Itajaí. A verdade é que esse serviço foi realmente confortável e pagou bem, queria ter mais reclamações para tornar o texto interessante, mas não tenho muitas quanto a essa parte.

Chegando lá, a organizadora nos divide entre os estrangeiros, fui o último na fila. Ela me pergunta se eu serei o intérprete dos italianos.

- Italianos?
- Sim, eles dois vão trabalhar com os peruanos – ela fala apontando para os meus colegas de trabalho -, ela vai com o português e você com os italianos.
- Mas não foi isso que me disseram. Eu não ia acompanhar uma boliviana?
- Sim, mas ela não pôde vir.
- E eu não falo italiano.

Ela me disse que isso não importava, pois um deles falava português. Era um representante da Havaianas em uma determinada região da Itália. Casou-se com uma brasileira, se divorciou, mas manteve seu amor pelo país, passando períodos em São Paulo. Decidi encerrar a conversa nesse ponto. Poderia perguntar o porquê de um intérprete, se o italiano fala o idioma perfeitamente, mas percebi que também contrataram uma intérprete para um português, ou seja, não nos queriam para auxiliar os estrangeiros, queriam que nós preparássemos um relatório sobre as visitas desses estrangeiros, para que os organizadores não tivessem que fazê-lo ao final da feira. Ainda assim, o pagamento era justo e aceitei sem problemas. Além disso, o almoço também era grátis. Se não tivesse dinheiro, teria comida.

No primeiro dia a dupla de italianos não veio. Não justificaram o motivo, simplesmente passei o dia no nosso pequeno escritório, lendo um livro qualquer que decidi carregar comigo. Os outros que vieram comigo seguiram seus estrangeiros que muitas vezes rejeitavam seus intérpretes. A verdade é que os latinos se entendiam mesmo sem falar o idioma, traduções só atrapalhariam o andamento da negociação. O português pegou sua intérprete – uma moça linda, por sinal, tímida, só ouvi sua voz a partir do segundo dia de trabalho, mas com um corpo de modelo e olhos fascinantes, escuros e fortes – e seguiu pela cidade, visitando umas fábricas que ele conhecia fora da feira. Achávamos, eu e meus colegas, que ela tinha sido levada à Europa. Mais tarde descobrimos que o português era realmente um galanteador, mas preferia as louras, dizendo para outra de minhas colegas que ela seria o centro das atenções em uma praia do Marrocos. Passamos o caminho todo de volta para Itajaí discutindo se isso tinha ou não sido um convite bem discreto.

Trabalhei muito no dia seguinte. De início os italianos não me queriam por perto, principalmente o que era quase brasileiro, que tentava me provocar dizendo:

- Por que contratariam uma pessoa que não fala italiano? Você não fala nada? nem uma palavra?
- Uma ou duas, já que tenho descendência, mas acaba aqui.
- E como foi que te contrataram?
- Fui contratado para uma boliviana. Também não sei o que eu estou fazendo aqui.
- Inglês você fala?
- Falo. E espanhol e alemão e um pouco de francês. Só não falo italiano mesmo.

Então ele se punha a falar com seu sócio. Creio que entendi alguma coisa, mas nada que formasse uma frase completa. Corremos para tudo quanto é lado e em todas as lojas ele fazia questão de deixar claro que eu era um intérprete de italianos que não falava italiano. Descobri também que ele era uma figura importante naquela feira, conhecido por todos. Um grupo de jornalistas locais nos cercou por um momento e os levaram para dentro de uma sala, me trancando do lado de fora. Nesse momento acho que conquistei a confiança deles, pois eles insistiram em autorizar minha entrada. Ou isso, ou ele queria fazer a piada do idioma para os jornalistas também – provavelmente foi isso. Separamo-nos na hora do almoço e me encontrei com os outros intérpretes. Cada um tinha uma anedota sobre sua jornada com o estrangeiro, exceto a moça dos belos olhos que se manteve em silêncio quase o tempo todo, com um sorriso discreto e tímido nos lábios, rindo de uma bobagem ou outra que nós falávamos. Creio que sua timidez não era parte de sua personalidade, só quando ela estava próxima de desconhecidos. Já eu sou o contrário – não gosto de me comunicar com meus conhecidos, mas não vejo problema em trocar uma ideia com estranhos. Falamos sobre a feira, sobre os estrangeiros, sobre as traduções, os absurdos e nosso trabalho na empresa. Reclamações, exclamações e palavrões cercavam nossa mesa, enquanto nos serviam cerveja barata – não era permitido beber no trabalho, mas ninguém viu, logo não aconteceu -, com gosto de água – exceto para a bela silenciosa, que bebia suco, em retrospecto, devia ter-lhe acompanhado.

Uma coisa era comum em todas as nossas anedotas compartilhadas, a estupidez dos exportadores e vendedores brasileiros. Os peruanos conseguiam se comunicar perfeitamente bem em um portunhol fluente, compreendendo cada palavra dita em português, exceto aquelas que realmente não seriam compreensíveis, nem mesmo em contexto – nessa hora o intérprete exercia sua função. Contudo, os brasileiros simplesmente não pareciam ter essa mesma capacidade, ou, pelo menos, a mesma vontade de se esforçar para compreender. Palavras que soam muito similares entre o português e o espanhol, e tinham o mesmo significado, compreensíveis até para uma maior dos leigos, não era entendida pelo idiota exportador. Desnecessário dizer que estes perderam negócio. O mesmo aconteceu comigo e os italianos. Um completo cretino, daqueles que respiram pela boca, ficava me encarando a cada frase que o importador que me acompanhava dizia, mesmo que tudo estivesse sendo dito em um português muito superior ao dele. Estava distraído em minhas anotações e fui cutucado pelo imbecil que exigia de mim uma tradução. Não acreditei na situação, achei que era uma piada, mas a expressão de surpresa em seu rosto de idiota era tão clara, quando lhe informei que as palavras que ele estava ouvindo estavam sendo ditas em seu idioma, que toda a minha esperança morreu. Ninguém acreditou nessa minha história, nem mesmo eu acredito agora revivendo essas memórias.

Ficou pior após o almoço. Estava tudo tranquilo, estávamos (eles estavam, eu assistia) conversando com uns fornecedores deles, já conhecidos, quase amigos. De vez em quando o que falava português traduzia alguma coisa para o que não falava. Percebi agora enquanto escreveu, que não peguei o nome dos dois, ajudaria muito agora para que essa história não ficasse repetitiva. Chamarei o que falava português de Luigi e o que não falava de Mario. Mario era gordo e animado. Insistia em falar comigo, às vezes em inglês outras em italiano – mesmo sabendo que não o entendia. Sua voz era quase incompreensível em qualquer idoma, de qualquer forma. Uma mistura de Don Corleone com Super Mario (por isso dei-lhe esse nome), eu não entendia nenhuma de suas palavras, mas concordava com tudo. Uma hora, durante essa conversa, a silenciosa passou ao lado da loja em que estava, viu minha cara de tédio e começou a rir e me cumprimentou. Mario percebeu isso e disse:

- Bella ragazza! You go, go!

Essa foi a primeira frase dele que eu entendi. Não fui, pois ela já tinha passado. De novo, em retrospecto, talvez seria melhor que tivesse ido. Esse é o mal de escrever memórias, hora ou outra se esbarra em um arrependimento. Fazer o quê? A verdade é que arrependimento não mata, só decepciona. Falei com ela mais tarde e era tarde demais. Hoje, não importa.

Depois da conversa, voltamos a caminhada e eu, que pensava já ter visto toda a idiotice do mundo, vi que esta não tem limites. Entramos na loja de um cidadão que se dizia interessado em exportar, contudo, ele não tinha preços prontos para o exterior, somente venda interna. Luigi perguntou os preços e o dono da loja dobrou o valor de seu produto. Para aqueles que não sabem como funcionam as exportações e seus custos, o governo brasileiro isenta todas as exportações de seus tributos, frete , seguro e custos portuários, geralmente, ficam para o importador. Ou seja, não seria necessário para ele, dobrar os custos do seu produto. Isso só afastaria, como afastou, qualquer importador com um mínimo de conhecimento.

-Intérprete! – Luigi me chamou – Você não fala italiano, mas entende de exportação, certo?
- Sim – respondi.

Ele me perguntou sobre os tributos de exportação e eu confirmei a isenção que ele já suspeitava existir. Mesmo assim, o vendedor insistia, inventando motivos e custos incoerentes para dobrar o valor de seus sapatos. Isso tirou do sério Luigi, que disse alguns insultos para o vendedor esperto e saiu da loja, dizendo:

- Por isso o Brasil não funciona! Esse idiota só pode estar tirando uma com minha cara, porque eu sou um “gringo retardado” e não sei como as leis brasileiras funcionam. Esse filho da puta fica inventando coisas para aumentar seu próprio preço, achando que eu nasci ontem. Eu moro no Brasil já faz anos, sei bem como funcionam as coisas por aqui. Você concorda, não é intérprete? - concordava sempre, gesticulando com a cabeça – Perdeu um cliente, o otário.

Ele não foi o primeiro nem o único naquele dia. Os peruanos passaram pelo mesmo problema. A imagem que “o Brasil” - pois, sem querer cair no clichê, embora, às vezes, o clichê é a melhor forma de se expressar uma ideia, o Brasil são os brasileiros -, foi de um país despreparado para tratar estrangeiros. É verdade que as coisas melhoraram muito nos últimos vinte anos, mas ainda assim, não vejo no Brasil um povo preparado para eventos internacionais ou qualquer participação no mundo. Todos os dias tem alguma notícia sobre um turista estrangeiro que foi roubado, sequestrado ou qualquer outro crime, em alguma praia do Rio de Janeiro. Copa do mundo, Olimpíadas, tudo isso vai parecer perfeito nos jornais, televisionado por alguma rede de televisão aberta. A verdade é, que grande parte do povo brasileiro ainda vê o estrangeiro como um gringo idiota e inocente. Uma bolsa de dinheiro aberta, largada sem supervisão.

Não quero fazer discursos vazios, cheios de “isso tem que mudar!” e “basta”. Vai ser necessária uma reeducação por parte do povo desse país. Explicar a todos que o Brasil não é uma ilha isolada na Terra e agora será mais visitada pelo resto do mundo. Xenofobia sempre vai existir e, com limites, é necessária, do contrário o país é ocupado. No entanto, essa ilusão de que o brasileiro é receptivo e gentil, tem que morrer, se não ninguém aprende sobre o erro e o tenta corrigir. Não é só uma questão de educação, mas uma questão econômica. Exportações, turistas, tudo isso será perdido, se os idiotas continuarem abrindo suas bocas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Reféns da Máquina


A máquina pegou tudo que eu amo
e os mantém como reféns
para me transformar em engrenagem
mais um peão, mais um tijolo

Quero sair desse mundo
largar tudo
andar pelas estradas
a pé
escrevendo poesias viajando pelas cidades e pelo cosmos

Mantenha a arma apontada
e meu terno arrumado
e minhas camisas passadas
e minha conta bancária ativa
como escravo voluntário, mas na verdade não
não mate minha família de fome
pegue minha alma
sonhos não comem, morrem por não nascer

Tudo que quero é uma casa
pequena, minúscula
na boemia de Praga
vinho barato e uma mulher
uma que me ame e me entenda
ou várias que não saibam meu nome
e não me amem e não me entendam
me acostumaria à todas

Onde possa escrever minha prosa ruim e
minha poesia pior

não mate aqueles que amo, máquina dos infernos
jogarei seu jogo
moverei suas peças
até amanhã te pertenço
e depois de amanhã
e ainda depois disso

talvez um dia
meu cuspe constante em sua face fria
te enferruje aos poucos
junto com a saliva dos que comigo concordam
e comigo lutam

Um dia você emperra
um dia você cai

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Encontrei uma foto sua por aí
tirada depois de você sair de minha vida
desaparecer como uma estranha
figurante do momento

Suas pedras castanhas brilham mais que antes
parece mais viva com um sorriso sutil nos lábios rosados
dois sóis pendurados nas orelhas pequeninas
sempre te achei mais bela sem maquiagem
mas a pintura desta foto te caiu bem
deixou teus olhos ainda mais hipnotizantes

Você está aqui
ao meu lado, em minhas mãos
mas não sei onde
longe que nem te vejo

“Este número não está recebendo chamadas no momento”
diz a voz insensível do seu celular
estou em um relacionamento de longa data com essa voz
a cada chamada ela parece mais sensibilizada pela minha desgraça
sinto sua pena de máquina
criada pela minha mente já um tanto alcoolizada

São dez da noite
vejo a lua da minha janela
escrevo alguns versos entre tragos de uísque
São onze horas
abro uma garrafa de vinho
o saca rolhas é barato, invento posições sexuais com a garrafa para poder abri-la
São meia noite
a garrafa está seca, como o vinho que nela vivia
tenho tanta saudade de seu líquido quanto de você
volto para o uísque, então
Enquanto isso
as notas de Miles me cortam como navalha da alma

Escrevo mais uns versos
sua foto fala comigo enquanto o sol nasce
tampouco ela me ama

Fecho as persianas
o sol não é boa companhia quando não está em suas orelhas
gosto mais da lua, pois me lembra seus olhos
o sol me julga com seu brilho e calor
a lua me consola

Por que não durmo de uma vez?
já nem me sinto acordado
não sinto meu rosto e minha cabeça arde
você não está aqui

O sorriso de sua foto me arrepia
me persegue
marcado em meus olhos
em minha alma
peço a foto que te diga que te amo
só isso
só isso quero que ouça
depois pode desaparecer de novo

O que me mata
é que já te disse isso
e tenho sua resposta
um triste

“não posso”

seguido de um leve terno e eterno beijo no rosto

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Tentativa de Haikai - 1

Nunca tinha tentado medir meus versos antes ou mesmo limitar de qualquer forma. Esse poema é uma exceção, estou lendo "Vagabundos Iluminados" do Kerouac e tive vontade de explorar o haikai pelo menos uma vez. Não sei se ficou bom, o ambiente que tentei transmitir foi o escritório no qual me encontro, mas não quero explicar muito, fica pra interpretação do leitor quaisquer conclusões.
 
Pra quem não sabe, o haikai é um estilo tradicional de poesia oriental, não deve ultrapassar as 17 sílabas poéticas, dividindo-se em 5/7/5. Acho que foi, talvez eu tente outros um dia. Gostei do gênero. Mas chega de enrolação...
 
 
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Haikai 1
 
o plástico bate
frio severo artificial
dia igual a ontem
 
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É só isso... me digam o que acharam e se eu devo continuar tentando.

domingo, 4 de novembro de 2012

Norwegian Wood - Haruki Murakami



Não queria resenhar livros de um mesmo autor em sequência, creio que isso deixaria minhas resenhas previsíveis e desagradáveis para o leitor. Acontece que eu não planejo essas críticas, não planejo os filmes, os discos ou os livros. Simplesmente resenho aquilo que li, ouvi e vi - não necessariamente tudo, mas aquilo que é resenhável. Esse é o caso. Acabo de ler Norwegian Wood. Comecei sexta, achei que levaria mais tempo, mas esse livro é incrivelmente rápido, mais ou menos como a vida universitária - não sei se foi o objetivo, mas parabéns ao Muraka por gerar esse impressão, afinal, como ele é famoso por seu ritmo, lhe darei crédito independentemente.

A história é sobre Toru, um jovem universitário. Seus encontros, desencontros, amores, felicidades e tristezas. Ele se apaixona por Naoko, namorada de seu melhor amigo Kizuki, que por sua vez se suicida aos 17 anos, formando todo esse quebra cabeças afetivo que é o tema do livro. A música favorita de Naoko é Norwegian Wood, dos Beatles (excelente música por sinal). Toru a ouve, muitos anos depois dos acontecimentos desse livro, em um aeroporto, em versão orquestrada, o que lhe traz todas as memórias de sua juventude.

Além de Naoko, Toru se encontra com Midori (que personagem fantástica!), companheira de sala que acaba se envolvendo com ele, complicando ainda mais essa tragédia moderna. Tragédia que, "por coincidência" é o tema de estudos dos jovens - Sófocles, Eurípides, sabe?

Em geral o livro é sobre perdas. De pessoas, amores, juventude, até a vida. Todo tipo de perda ou, mais exatamente, transição, pois como o narrador define, morte não é necessariamente a perda da vida, mas sim parte dela. Mostra a difícil transição da juventude para a vida adulta, esse período entre os 18 e 20 anos, que, diferentemente da adolescência - que simplesmente acontece -, é uma transição escolhida e, muitas vezes, forçada e confusa, embora necessária.

As referências à cultura pop e o humor sutil e peculiar são os pontos fortes do romance, que fazem com que história não se torne um poço de depressão, até porque o objetivo da história é justamente esse - mostrar que, nesse mundo imperfeito de pessoas imperfeitas em que vivemos, merda acontece, e por mais cruel que isso possa parecer, essa merda deve ser superada. É difícil, mas não há nada que sexo, jazz, uísque e viagens não ajudem a esquecer.

Fizeram um filme sobre esse livro. Pelo que vi no trailer, ele é visualmente fantástico - como tudo que os orientais fazem. Não sei se é tão bom, mas irei vê-lo e, quem sabe depois faça um comparativo.

Vamos, então, aos resultados do Bingo de Murakami para Norwegian Wood: ear fetish - dried-up well - cats - old jazz record - train station - precocious teenager - cooking - weird sex (tive problemas para definir o que é estranho para os padrões do autor, mas acho que entendi) - tokyo at night

Passei o livro todo esperando algo desaparecer, mas não aconteceu. Deve ter sido o efeito de "Minha Querida Sputnik". Tampouco sei o que é um nome estranho para japoneses, por mim todos são esquisitos - tal como Raphael deve ser bizarro pra caralho para eles...

Agora gastarei o dinheiro que não tenho para comprar Kafka a Beira Mar (pelo que ouvi é o melhor) e Após o Anoitecer. Depois digo o que eu achei.

Obs.: Isso não vai afetar a nota, pois a culpa é dos tradutores e revisores, mas a edição da Alfaguara vem com três belos erros de concordância, os quais não marquei, mas são bem visíveis durante a leitura. Não prejudica o entendimento, mas é feio pra cacete, viu Alfaguara (Objetiva)!

Nota: 5,0/5,0



Não é linda a música?


Esse é o trailer do filme.