Páginas

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Dave Matthews Band - Away From The World (2012)




Existem bons músicos, maus músicos e músicos que se importam com a música - este é o meu tipo favorito e o que escreverei sobre nessa resenha. Respeito, mas não consigo suportar os artistas tecnicamente prolíficos que, só por saberem tocar milhares de notas por segundo e usar uma escala exótica e absurdamente complicada, fazem canções extremamente longas, que mais parecem um grande exercício musical. Odeio esses caras que lançam discos com canções fáceis e pré-fabricadas para a rádio, por algum produtor milionário, sem nenhuma preocupação além da moeda. Os músicos que se importam com a música - com a arte -, podem ser ruins ou bons, tecnicamente falando, mas isso é imperceptível, pois o que ouvimos não são só notas organizadas ou um ritmo grudento, é a alma do artista falando com a alma do ouvinte. Isso é música de verdade, isso é arte, isso é o que Dave Matthews e sua tropa vêm fazendo pelos últimos quase 20 anos.

É raro ver uma banda tão equilibrada. Eles tocam músicas fáceis e agradáveis como qualquer outro grupo pop, mas com um ritmo e capacidade de improviso dignos das bandas de jazz. Não me lembro de ter ouvido um álbum ruim desses caras, o pior talvez tenha sido o Everyday, de 2001 - modernoso demais para o meu gosto -, mas mesmo esse tem músicas excelentes quando ouvidas ao vivo. O amor que eles sentem pela música é visível, eles não estão nessa pelo dinheiro. Infelizmente não ouvimos muito sobre eles pela grande mídia, mesmo assim, todos conhecem de ouvido o hit Crash Into Me. Mas vamos ao álbum.


O ano de 2012, pelo jeito que andam as coisas, será o último. Não esperava álbuns tão bons assim, mesmo quando vindo de tão bons músicos. Desde quando anunciei que o primeiro álbum do Chris Robinson Brotherhood seria o melhor do ano, todos parecem ter decidido entrar na competição. Agora já não sei mais. Away From The World é excelente. Me lembrou muito dos primeiros álbuns da banda, sem parecer mais do mesmo. Outra característica dessa banda - são bons sem serem repetitivos. Estou ouvindo - como sempre -, enquanto escuto faixa por faixa do disco, em busca de um defeito, um detalhe fora do lugar que possa gerar uma crítica ou umas risadas. Não escuto nada. Tudo parece perfeito. A parte instrumental é impecável como sempre, técnica sem ser chata ou massagem para o ego. O vocal é excelente e as letras também - essas eu quero tirar um dia para analisar, estou ouvindo estrofes lindas de vez em quando e acho que essa resenha não as fará justiça. A mixagem, a qualidade de som (considerando que comprei esse disco na Baía Pirata), tudo é bom demais para ser verdade. Se o último álbum deles foi uma homenagem triste e densa ao falecido saxofonista da banda, esse é uma prova de que eles ainda vivem e viverão por muitos anos. O único defeito desse disco é que ele não me deu nenhum motivo para colocar a foto de uma gostosa no post - essas são minhas resenhas mais lidas... isso, no entanto, não afetará a nota final.

Sugiro a todos, que ouçam esse disco com atenção, faixa por faixa - todas valem a pena - e tirem suas próprias conclusões. Mesmo você, menino infantil que nunca ouviu falar dessa banda, escute esse álbum e depois toda a discografia.
Nota: 5,0/5,0 (eu preciso mesmo ouvir algo ruim esse ano, minhas resenhas estão ficando sem graça)







domingo, 28 de outubro de 2012

Casamento

Chega o dia da gloriosa união, dez anos santificados perante a sociedade
     o religioso vestido como um espectro recita Camões e depois suas bençãos, enquanto uma lágrima escorre pelo rosto de uma mulher
eles aceitam, se beijam e dizem umas palavras decoradas - aplausos se misturam a uma música alta
conversas, risos e gritos - uísque, uísque, uísque, sem ti me mataria
todos se enfileiram pela comida
conversas, risos, gritos e mais uísque

agora uma sala escura
músicos tocam músicas ruins
todos dançam 
rituais primitivos, mas nenhum sinal de chuva
álcool nunca é demais
assisto-a dançar
aquele vestido longo e dourado ao redor de seu corpo, move-se hipnoticamente
ela controla o meu olhar e agarra um homem
é casada, pensei que ele fosse seu pai
mais uísque
luzes piscam descontroladamente
uma voz me chama e me serve
sento-me em um sofá, cercado de pessoas frenéticas que aos poucos somem
meu sofá se transforma em uma cadeira e a sala não tem mais paredes
é banhada diretamente pela lua e enfeitada por água

assisto a todos se despirem e se atirarem na água
já não estou mais lá, somente meu corpo olha fixo para o nada
sombras tentam se comunicar
me chamam, me tocam, me cercam

minha cabeça dói

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poesia Lírica Moderna - 7 - Passa Nela - Mr. Catra



Hora da putaria crianças!

Areia


As areias do tempo são
descontroladamente
atiradas pelo vento
perpétuo e impassível

Não tenho tanto tempo
quanto cria ter
quanto queria ter

Os grãos machucam meus olhos
e me empurram ao abismo

tudo acaba

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma história Medieval - Parte 1 (Exercício Literário)

Nunca me entendi com o gênero literário - Fantasia. Não passei a gostar ainda, mas tive uma ideia que se encaixava no gênero e decidir pôr em prática.
 
A história que vem a seguir não é necessariamente um conto, ainda não tem começo, meio e fim. É um exercício literário, sem pretensões, mas ou menos como a minha ideia de escrever sobre meus sonhos (não desisti dessa ideia, logo posto aqui um segundo sonho). Desenvolvi esse personagem e vou inventar uma vida para ele. Casos, acontecimentos, acidentes, o que vier na cabeça. Tudo ambientado em um mundo fictício - que também será desenvolvido conforme avança a história -, com um temática medieval.
 
Apresentação do personagem:
O tal personagem que protagonizará a maior parte dessas histórias é - Alvah. Um bardo viajante em busca de reconhecimento e iluminação. Vive de modo nômade, passando de vila em vila, de reino em reino, sempre com um nome diferente, mas o mesmo ideal. A diferença de Alvah, para os outros bardos, é sua visão sobre a poesia que está um pouco afrente do seu tempo. Alvah é como um poeta beat, usa versos livres e um linguajar "falado" para suas composições, o que o torna infame entre os outros de sua classe.
 
Parte 1
 
Fogo e pedaços de madeira. Foi isso que restou de minha vila após a pilhagem, além dos corpos carbonizados e do cheiro de sangue – com estes já estou tão acostumado que, ao respirar ar puro, sinto falta da violência. Rasguei um pedaço de pano das roupas de um dos cadáveres que me cercam - um que não tenha sido cremado -, para cobrir meu ferimento. Só um corte no braço, um pouco profundo, mas nada que não tenha sofrido antes. Ele estava em seu cavalo e passava o fio de sua espada em suas vítimas como um explorador na densa mata, entediado e indiferente.  Não via rostos, não via seres humanos, somente vegetação e mais vegetação, de vez em quando um espinho, esse é abatido com mais vigor.
            Cai para trás ao sentir o frio da lâmina, deixando-me levar pelo medo e fingindo que aquele fora um golpe morta. Pulei em direção a um monte de palha, gritando em desespero, e lá me mantive silencioso e atento, como no útero materno, até o cair da noite e o retorno do sol. Chama-me de covarde, não me interessa. Nunca antes segurei o cabo da espada, ou tirei a vida de outro homem, não me envergonho. Nesse mundo de praga, fome, guerra e dor, isso é patético, mas vivo pela palavra e pela pena, admito que essa não vença a espada – pelo menos não a minha -, portanto vivo como um vagabundo. De vila em vila, até que esta seja atacada e meu lar destruído. A quem engano? Nunca tive um lar. Tive teto, mas nunca um lar. O mais próximo que chego de um clima familiar é na taverna, essa é eterna. Lá sou gente, lá tenho força. Passo horas embriagado, lendo, cantando e rindo com meus verdadeiros irmãos. Vez ou outra me aparece uma mulher e, então, sinto-me completo, pronto para a morte. Essa sensação dura algumas horas, depois a ressaca torna-me um covarde novamente.
            Caminhava sem rumo pela estrada, procurando por uma placa indicando meu próximo destino. O sol ainda estava em suas primeiras horas e o clima ainda era frio, embora agradável. O cheiro de sangue e fumaça ainda estava impregnado em minhas narinas, mesmo que a paisagem agora fosse outra. Só me restava andar, pois logo teria fome e não carregava nada comigo, só minhas poesias em memória e outras anotações no bolso da calça. O triste é que nem como bardo, me respeitam. Desprezo as rimas e a métrica perfeita - quero algo diferente, algo meu, mas confundem minha originalidade com falta de habilidade. Como se não soubesse rimar.
            Aproximava-se o meio dia, vejo uma placa indicando que, não muito longe a minha direita, fica a vila de Fernstar. Segui nessa direção, desviando apenas para me dirigir a um lago para me refrescar. O dia já esquentava com o sol direto em minha cabeça, protegido apenas pela sombra de algumas árvores no caminho, tinha sede e fome, infelizmente a fome não havia meios de matar antes de chegar à cidade, mesmo chegando, teria ainda que arrumar um serviço ou uma esmola. Sentia-me sortudo, pois em todo o caminho não encontrei sequer um bandido ou animal feroz. Carregava comigo sempre uma faca para proteção, mas esta serviria apenas para animais pequenos, além do mais, já disse não ser um grande lutador. Hidratei-me no lago e sentei por um instante em uma pedra, contemplando a passagem. De onde estava já era possível ver os portões do que talvez fosse Fernstar, nunca passei por lá antes, ou sequer ouvi sobre o lugar. Parte do reino de Catarat, com certeza.
            Descansei por breves minutos, usei o lago para lavar também minhas feridas. Quatro horas de caminhada não causava grandes estragos em meus pés de vagabundo, mas sempre me cortava em uma pedra ou outra. Precisava urgentemente de botas de viajante, como são boas essas! Tive um par, mas foi roubado em uma de minhas viagens, depois disso, nunca mais tive tanto dinheiro para comprar outro. O corte em meu braço também já não doía mais e agora estava limpo.
            Segui meu caminho, não estava muito distante, cheguei à vila em dez minutos.  Os portões eram grandes e de madeira. Não protegeriam de um exército, mas resistiria a um grupo razoável de bandidos. Não teria que enfrentar outra pilhagem tão cedo, não teria que sair em viagem novamente. Ficaria bons meses por lá, se não acabasse expulso por qualquer motivo antes.
            Via dois guardas em vigília, em duas torres, uma de cada lado do portão, e uma vasta parede de pedra e madeira, cercando os limites da vila. Outro guarda mantinha-se em frente à porta e já me havia avistado. Observava-me cuidadosamente, dividindo sua atenção entre mim e sua lâmina. Deveria saber que eu não representava perigo, mas nesses tempos, cautela nunca era excessiva. Fui a sua direção, sempre com minhas mãos a vista, e o cumprimentei.
            - O que você quer, viajante? – ele perguntou, calmamente.
            - Queria me hospedar em Fernstar por um tempo, caro senhor. Não tenho casa e creio que essa vila me seria bastante aconchegante.
            - Qual seu nome, de onde você vem e o que faz?
            - Meu nome é William, senhor. Não veio de lugar nenhum e de todos os lugares, viajo desde minhas primeiras memórias. Sou apenas um bardo.
            - Como assim não vem de lugar nenhum? Todos nasceram em algum lugar.
            - Isso com certeza! – respondi – Mas não são todos que formam um lar. Posso ter nascido aqui ou em qualquer outra vila, de qualquer outro reino, ou até outro país, mas não sou de lá, sou de onde estou.
            - Muito bonito, mas o senhor sabe que estamos em tempos de guerra. Como saberia que você não se trata de um espião do reino de Sirius?
            Acontece que, naquele momento, Sirius e Catarat – os dois únicos reinos do país, Venitia – estavam em uma sangrenta guerra. Antes o fluxo de viajantes era livre, mas agora, todos os vagabundos, eu incluso, poderiam ser vistos como espiões.
            - Como disse – respondi mantendo a calma -, sou nada além de um simples bardo vagabundo. Dir-lhe-ia que nasci nessas terras, mas como poderia provar-lhe? Peço apenas que me dê uma chance. Deixe-me entrar em sua vila, ao primeiro sinal de distúrbio, expulse-me sem piedade.
             - Vejamos, você se diz bardo, é? Cante-me um de seus versos, então.
             - Ora com prazer.
            E lhe recitei uma de minhas obras mais queridas de memória:
            
Cinza é o céu, naquele dia de inferno
o fogo consome os seres agora sem vida
a lâmina e fria e indiferente, como seu usuário
as crianças choram, por seus pais carbonizados
vingança, vingança
e mais um se torna soldado...
 
             - Que monte de bobagem! – ele me interrompe - Onde está a rima, o verso. – ele diz, controlando o riso.
            - Senhor, a verdade é que não rimo. Não me prendo aos limites da rima e da métrica, creio que há muito mais na poesia que apenas isso. Sentimentos e liberdade.
            - Claro, claro! Grande bardo é o senhor! Ó nobre William! – ironizou – Venha, vou levá-lo ao mago local. Ele vai examiná-lo para garantir que você não possui a peste.
            Ele levou-me ao tal mago, que trabalhava logo ao lado da entrada. Era uma casa simples, mas por dentro era cercada de livros. Vários ingredientes e ervas se encontravam também nas estantes e mesas. Ao entrarmos, ouvimos um grito. Um momento, ele dizia.
            - É aqui. Sente-se em qualquer lugar e aguarde. O mago logo virá vê-lo. – e voltou à guarda.
            Sentei-me em uma velha cadeira de madeira, logo ao lado da porta, desse modo se algo estranho viesse a acontecer, tinha fácil acesso à saída. O silêncio era incomparável, nada se podia ouvir, nem mesmo os ruídos externos da vila. O cheiro das ervas se misturava ao do mofo, formando um aroma desagradável. Um espirro parecia vir, mas segurei-o, se desconcentrasse o mago em quaisquer fossem seus afazeres, poderia causar uma tragédia. Então a madeira começou a ranger, conforme os passos do mago que abria a porta. Saia então, da escuridão da sala ao lado, um homem com uma longa barba negra e longa, tal qual a minha, contudo, lisa, alcançava sua barriga e, com certeza, flutuaria ao vento. Tinha sinais de calvície, só lhe restando cabelo atrás da cabeça e entre as orelhas, não muito curto, mas não tão longo quanto sua barba. Seus olhos eram mortos, cansados e sem brilho, e sua expressão era de tédio. Vestia uma longa túnica e tinha anéis em todos os seus dedos. Olhou-me de alto a baixo e ordenou que me despisse.
            - Nem mesmo vai me levar para um jantar antes? – perguntei.
            - Ora, se o senhor não é cheio de piadas. Ande logo, não tenho o dia todo, não pense que isso me agradável também.
            Segui as ordens e ele me examinou, procurando por manchas, ferimentos e inchações.
            - Está tudo bem com você. Seria muito difícil viajar se estivesse infectado, mas nunca é demais prevenir – ele disse e eu me vesti novamente.
             - Quem diria que ratos seriam capazes de trazer tanta desgraça – observei.
             - Ratos são o meio, mas a causa é a fúria de Deus, a fúria do grande Hroff.
             - Mas o que causaria sua fúria?
               - Toda a bebedeira e promiscuidade a qual o povo desse país se entregou, é claro. Estou em busca de uma cura. Noites em claro estudando, mas não obtive sucesso algum.
              - Se a vontade de Hroff é que a praga nos ataque, logo, a cura seria inalcançável. Do contrário, não teria sido Ele o causador da doença.
               - Seria você um herege?
              - Não, claro que não! Pelo contrário, digo que seria heresia curar a praga, se esta ocorre por vontade divina.
               - Entendo. Mas penso que a cura deve ser buscada de qualquer forma. Se for de Sua vontade que nos livremos desse mal, a cura será encontrada, se não, morreremos em meio aos ratos. Qual o seu nome mesmo, meu caro?
                - William.
               -  Sou Ollaf. Se estiver sentindo qualquer sintoma de doença, venha até mim. Talvez possa lhe ajudar. Essa foi uma boa conversa. E aqui. – ele me entrega um papel – É um documento, certificando que você foi examinado e está livre da peste, apto para viver na vila de Fernstar.
                - Sou muito grato.
                Despedimo-nos e saí de sua casa. Um homem muito sábio, com certeza. Sentia-me mal por ter mentido logo em sua cara, mas não poderia arriscar ser acusado de heresia novamente. Essas terras não são tolerantes com os descrentes e crentes em outras divindades. Fugi uma vez, mas não teria novamente a mesma sorte. A verdade é que me recusava a acreditar que um criador exigiria sofrimento de suas criaturas, seja pela peste, ou por punir bebedeiras e promiscuidades. Minha fé é outra, mas não vem ao caso. Já vi muitos homens serem torturados e levados à forca, mulheres queimadas como bruxas, por uma simples expressão de descrença em Hroff, ou mesmo uma crença heterodoxa, considerada herética. Eu mesmo já senti a corda ao redor do meu pescoço.
             As coisas que o vinho pode fazer um homem falar! Estava em uma taverna, em uma das vilas as quais fui levado por minhas andanças. Morava por lá já fazia três meses e tinha uma reputação. Era desrespeitado pela maioria como bardo, mas alguns poucos me admiravam e seguiam. Estava reunido com esses poucos para uma leitura de minha obra. Erámos todos bardos, nunca consegui agradar alguém que não o fosse, salvo por umas donzelas, quando sou romântico. Recitávamos, cantávamos e bebíamos até as mais altas horas da madrugada, quando o veneno do álcool fez-me esquecer de minhas auto-restrições e recitar uns versos proibidos. Palavras heréticas sobre ilusão, dinheiro e pecado, que foram ouvidas pelo dono do ambiente. Ovelha fervorosa que era, correu para me denunciar. O mesmo veneno que mata a inibição, também mata a inteligência. Assumi a culpa das acusações com orgulho, que viesse a forca! Não tinha medo.
             Não me recordo de mais nada, somente do sol do meio dia em meu corpo arrastado pelos guardas. Estava tudo preparado, até que a bela filha do governador, após muita insistência, consegue meu perdão. Seria minha vida em troca de minha liberdade, com ela teria que me casar na noite daquele mesmo dia. Estava salvo!
             Bela e inocente Jezebel! Seus olhos eram como duas pérolas de verdade e beleza, espelhos de curiosidade capazes de descobrir qualquer segredo e realizar qualquer desejo; seus cabelos ruivos e cacheados. Posso senti-los por todo meu rosto até hoje e sentirei para sempre. Para sempre sua pele, suas curvas, sua voz. Ela era a mais bela arte, prova única da criação divina. Fiz-lhe a corte por três dias, três noites e três garrafas de vinho, até que cedeu. Dormi com ela uma vez - sua primeira -, duas vezes, três; estava viciado naquele corpo! Ela também se viciou e viu na minha sentença de morte a perfeita oportunidade, a chave para minha gaiola. Era esperta aquela jovem, filha de político.
              A cerimônia foi a maior já vista por aquela vila. Nada espetacular, mas todas as seis famílias que lá moravam estavam presentes, assim como alguns de meus amigos bardos – aqueles que não haviam partido para seu próximo destino. Aceitei a punição por meu crime com muito gosto. Quanto a heresia, bastou que eu emitisse uma nota, pedindo desculpas pela minha colocação, que era eu também temente ao grande Hroff e tudo que foi dito era apenas um engano alcóolatra. O quê daria errado - uma esposa como ela era capaz de vencer o tédio da repetição. Fomos felizes naquele casamento, pelo menos por alguns dias. O tédio sempre vence nessa vida.
                Passou-se um mês e a união já não era suportável. Desejava todas as noites por trocar a aliança em meu dedo, por outra corda em meu pescoço. Já não suportava sua voz. Amava seus olhos e seu corpo e seus cabelos, mas não a sua voz. Isso era o menor dos problemas – seus pais, aquela casa, toda a política de ser genro do governador, um inferno.
                Disse a ela, uma noite, pouco antes de nos deitarmos, que não me sentia bem e iria dar uma volta rápida para respirar. Ela estranhou, mas viu que eu suava muito e parecia incomodado, então aceitou, preocupada.
                Caminhei em direção à saída daquela vila, devagar, apreciando a lua, como se estivesse distraído. Um guarda perguntou onde estava indo, respondi que queria caminhar um pouco. Tinha autoridade. Não fui questionado. Continuei andando pela estrada que ficava à beira do rio, sentindo a brisa, assistindo aos reflexos da noite na água.
                Cheguei a uma distância satisfatória e tirei minhas roupas. Estava usando minhas roupas maltrapilhas e eternas por baixo daquele conjunto sofisticado que minha esposa e seus pais me deram. Rasguei toda aquela roupa e a passei na terra. Um coelho passava desatento ao meu lado, com a minha fiel faca, usei seu sangue para manchar os pedaços de minhas roupas. Joguei parte no rio e espalhei o resto pela estrada em direção à densa floresta que cobria toda a paisagem. Desde o casamento, carregava uma quantidade satisfatória de ouro comigo, sempre que saía, então estava seguro por umas semanas, até encontrar uma nova casa. Deixei junto ao fino conjunto, que virara um trapo ensanguentado, uma nota dizendo:
 
Bela Jezebel,
 
Sei que nessas últimas semanas estive distante, desatento, até, aparentemente, arrependido. Só quero que saiba que a razão disso é que nunca esperei um dia me casar com tão esplendorosa criatura, divina, como você. Não saber expressar esse amor me angustia profundamente, me sinto doente e febril. Por isso saí essa noite. Saí em busca de inspiração, em busca de palavras dignas de sua beleza e de sua companhia. Saiba minha querida, que te amo e assim será pelo resto de minha existência. Amei-te em nossa primeira noite e a cada dia que passa esse sentimento apenas se torna mais forte.
Isso tudo parece incoerente, considerando que já nos casamos, mas eu queria tirar de nosso caminho aquele senso de “obrigação” que nosso casamento pode ter gerado. Por favor, responda-me, posso passar uma eternidade em seus olhos?
 
Com amor,
 
Maximiliano
 
                Rasguei levemente o papel e derramei nele gotas de água e sangue. A dúvida faria o resto de meu trabalho. Só teria que garantir nunca mais voltar àquele lugar, seguindo viagem, constante como um cavalo de viseiras.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Bob Dylan - Tempest (2012)


Não pensei que eu fosse dizer isso, mas este ano está ótimo para a música. É verdade que tem um monte de merda sendo lançada diariamente na música pop, sertaneja, brega e eletrônica, mas alguns lançamentos me fazem esquecer de tudo isso, e lembrar que houve um grande período na história da música em que as letras eram poéticas e tinham significado, o instrumental era composto por músicos e não máquinas, e a aparência do músico pouco importava. Essa foi a década de 60 para o rock, um mundo de paz, amor livre, drogas e boa música.
 
Falando nisso, já mencionei alguma vez nesse blog, que Bob Dylan é foda? Não?! Ora, que erro da minha parte! Deixe-me compensar por esse erro: - Bob Dylan é foda pra caralho! - Pronto, acho que foi o suficiente... Pensando bem, não foi. Repito: - Bob Dylan é foda pra caralho, porra! - Agora sim. Se você é menino juvenil, criado na era da internet, acostumado a ouvir Michel Teló ou aquele vesgo viado que eu me esqueci o nome, saia daqui e vá até o tio google. Busque por Bob Dylan, escute alguns dos discos e agora volte. Sua vida vai mudar completamente. Eu insisto em uma teoria que diz que todo o adolescente, pelo menos uma vez, quis ser Bob Dylan, até os que não sabem da existência dele.
 
Tempest, álbum mais novo desse gênio, é uma excelente apresentação de sua obra para as novas gerações. Tem folk, tem blues, tem jazz, tem rock, tem poesia, é um resumo de uma carreira de 50 anos.
 
Eu queria ser imparcial e falar sobre esse disco como um crítico de verdade, mas é preciso coragem para falar de um músico com tanta bagagem. É verdade que ele teve momentos baixos em sua carreira, todos tiveram. Na verdade, tudo que ele fez nos últimos anos foi bem chato. Mas Tempest foi um retorno tão bom, tão incrível, que apagou todos os momentos de mediocridade da carreira dele (se apenas o Rush ouvisse esse álbum e aprendesse uma lição ou duas...).
 
Resumindo - se você conhece o Dylan e gosta de seu trabalho, você já ouviu esse álbum e sabe como é bom. Se você não o conhece, se arrependa e será perdoado. Se não gosto, eu tenho pena de você... só isso.
 
Nota: 5,0/5,0
 
 
 
 


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

ZZ Top - La Futura


Sabe como a década de 80 parece ter sido a década da decadência das grandes bandas de rock de 70? Então, tenho a impressão de que os anos 2000 são os de redenção para essas bandas. Primeiro com Rush lançando um álbum em 2007 e outro agora - ambos medíocres, mas melhores do que os que seguiram o Moving Pictures -; Dr. John, que já foi resenhado por aqui; Bob Dylan, com o excelente Tempest, que será logo resenhado; enfim, esse ano está sendo ótimo para essas bandas antigas.
 
Voltando um pouco no tempo. Na década de 70, surgiu no Texas um trio. Dois dos membros desse trio, carregavam barbas assustadoramente grandes e tinham pose de mau. Tocavam o bom e velho rock, misturando com blues e temas como cigarros, putas mexicanas, álcool, tudo que é bom vessa vida tão curta. Tudo estava bem, até a década de 80 chegar, com suas discotecas, sintetizadores, baterias eletrônicas, vídeo clipes incoerentes e dancinhas patéticas (estou olhando pra você A-ha). Vendo a mudança no mercado, as bandas de 70 ou se aposentaram ou decidiram se unir ao inimigo. Foi exatamente isso que fez ZZ Top. Lançou o Eliminator que, embora divertido, era cheio dessas características repulsivas da década maldita. Enquanto o Eliminator era tolerável, por causa de umas quatro músicas, tudo que o seguiu é insuportável, beirando o vergonhoso. Foram anos lucrativos, mas tristes para a música.
 
La Futura é um belo e muito aguardado pedido de desculpas. As faixas têm um toque moderno, mas no mesmo estilo que o álbum do Dr. John, ou seja, até que agradável. Os sintetizadores só estão presentes em uma ou duas faixas mais lentas, no entanto com um timbre orquestrado bem agradável, trazendo uma atmosfera interessante para a música - sem falar que os sintetizadores evoluíram muito, então o orquestrado não é tão feio quanto em Rough Boy.
 
A maior parte das músicas tem uma levada mais rápida, bem rock das antigas, com um toque sujo e pesado de blues. Mais ou menos igual ao dos primeiros discos da banda. No entanto, tem algo diferente, não sei bem explicar o que é. É como se a banda não fosse a mesma, não carregasse a mesma paixão pela música e só estivesse tentando vender mais do mesmo que um dia os tornou grandes. Não é ruim, nem acho que a banda tenha que se aposentar agora, mas não é a mesma coisa... Acho que só ouvindo para entender.
 
La Futura é um bom álbum, tem seus defeitos, mas é muito melhor que qulaquer coisa que essa banda produziu após o Eliminator. Merece ser ouvido com bastante atenção, principalmente as novas gerações que, assim como eu, não viram o ZZ Top no pico de sua carreira.
 
Nota - 4,0/5,0
 
 
 
 
 

sábado, 20 de outubro de 2012

Minha Geração

Quero escrever sobre minha geração
devo
devo, do contrário quem sou eu?
se a vida já é tão curta e o tempo irrelevante, se não me situo - torno-me nada flutuando no espaço
mas nada, nada é justamente o que minha geração representa
nada de personalidade
nada de originalidade
nada de loucura
não vi as grandes mentes da minha geração, loucas, nuas, histéricas, uivando para a pálida lua

Posso resumir nosso estado em uma frase solitária
"perdemos os acid tests"
perdemos não só o tempo, não só o local
perdemos em espírito
não o reinventamos
talvez fisicamente, com festas e drogas sintéticas e música ruim
música ruim como o barulho de uma construção - constante repetitiva eterna vazia
as grandes mentes são invisíveis
nem mesmo se escondem, nem são mudos, nem mesmo falam baixo
o massa é cega surda e muda, tapando seus sensos, seus sexos e suas almas
são estátuas, sujas de merda de pombo

Como queria reunir essas mentes
esses poucos que usam seus sensos com orgulho e coragem
reunir cada um deles - músicos, escritores, pensadores, poetas
trazer de volta as reuniões de Ken Kesey
invocar o espírito de Ginsberg, Kerouac, Garcia, Hendrix, Joplin, Slick, Morrison, Apollinaire, Blake, Byron
todos, nem que fosse para que cuspissem de desprezo nossas faces indignas

vocês existem, então lutem
quebrem as pedras humanas que andam estáticas e sem vida pelas esquinas das metrópoles

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Minha Querida Sputnik - Haruki Murakami


Esse foi um livro que me surpreendeu. Estou nesse momento, tentando reunir as informações essenciais do livro para preparar a resenha, mas foi tanta coisa, que sei que não será possível lhe fazer justiça. Não é o melhor livro da história, também não quero exagerar, mas não esperava que fosse tão bom.
 
 
Enquanto pesquisava sobre o autor, antes de comprar o livro, pensei que ele seria um desses autores superestimados, considerados grandes gênios contemporâneos, mas na realidade, não são tão bons assim, ou não têm originalidade alguma. Errei. É um livro original e Murakami é um dos melhores escritores contemporâneos.
 
 
O livro é sobre Sumire, aspirante a escritora, fanática por Kerouac (pelo menos naquela semana), um tanto perdida e aparantemente irresponsável, e a única amiga de K., o narrador. K. é um jovem professor, solitário, que conheceu Sumire na universidade e se apaixonou. No entanto, nunca foi correspondido, pois, embora entre eles existisse amor, Sumire não sentia desejo sexual, pelo menos não por ele, nem por homem algum. Sumire, em um casamento, conhece Miu, uma mulher misteriosa, dezessete anos mais velha, ex-pianista, empresária de sucesso e casada. Sumire se apaixona por Miu, mas também não é correspondida. Nesse contexto, desenvolve-se a história dos três. A sinopse dessa edição do livro, diz tratar-se de um triângulo amoroso, mas como eu sempre pensei que para formar um triângulo, um dos lados tem que ser correspondido, creio que se trata de outra coisa. Sobre relacionamentos e afeto, ou mais exatamente, a falta desses - tema comum na cultura asiática moderna, como pode ser visto nos filmes de Wong Kar Wai.
 
 
A história começa leve, com um humor interessante e tantas referências quanto em um filme do Tarantino. Na verdade, lendo o livro, pensei em filmes do Woody Allen, Tarantino e Godard, se os três se unissem, provavelmente o resultado seria algo assim. Com o passar dos capítulos, o surrealismo começa a invadir e as marcas registradas do Murakami começam a aparecer.
 
 
Talvez o leitor não saiba, mas a NY Times desenvolveu o Murakami Bingo, para ser jogado durante as leituras de seus livros. Fiz isso, não consegui completar nenhuma linha, mas marquei vários quadros. Se você tiver a oportunidade de lê-lo (leia-o, falo sério!), jogue também, é muito interessante. (Marquei: Mysterious woman, ear fetish, dried-up well, something vanishing, unexpected phone call, cats, old jazz record, running, historical flashback, parallel worlds, vanishing cats)
 
 
O que mais me impressionou foi Sumire. Como escritor amador, sei como é difícil escrever uma mulher sem cair nos velhos clichês. Murakami conseguiu, criou uma das grandes personagens femininas da literatura. Além disso, ele também conseguiu capturar a alma dessa personagem e transformá-la em uma boa escritora. Reparem se não existe uma quase mudança de personalidade na narração, durante os capítulos em que vemos os documentos escondidos com o diário de Sumire. É impressionante, não é mais o autor escrevendo, mas Sumire assumindo a escrita, só esse detalhe já valeria o livro.
 
 
Fiquei ainda mais interessado pelo trabalho do autor. Não quero me exceder, falando muito sobre a história, pois isso poderia estragar a experiência. Esse livro é melhor se lido sem nenhum conhecimento sobre os acontecimentos e complicações do enredo. Apenas saiba que surpreende. Talvez não tenha sido parcial nessa resenha, nunca sou, mas o livro me tocou profundamente. Também vi minha melhor amiga "sumir feito fumaça", então toda hora me via perdido na leitura, por causa de algum flashback que tive de meus momentos com ela. Não consegui não me identificar com a história e com os problemas de K. Creio que, em alguns anos, esse será um daqueles autores clássicos, que não podem faltar nas bibliotecas pessoais de leitores assíduos.
Nota: 5,0

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Minha vida onírica - 1


Aviso para o blog: Não sabia se devia postar esta série de textos no meu blog ou não. Não tem realmente, qualquer valor literário - não que qualquer outra coisa aqui tenha, mas pelo menos nos outros existe esforço -, é apenas um diário de sonhos. Diário em termos, já que nem todos os dias serei capaz de manter tanta memória, ou terei sonhos tão interessantes, mas mesmo assim, um bloco de notas... por assim dizer, de sonhos. São todos experiências reais, por enquanto sem cronologia, pois se tratam de sonhos passados, mas que ficaram na memória, logo terei a data nos textos futuros. Essas notas têm por objetivo, serem um exercício literário. Textos simples e rápidos, para que eu possa praticar a escrita e desenvolver novas ideias. Muitos desses sonhos já foram usados em contos e podem soar familiares para aqueles que acompanham o blog com frequência. Não se preocupe, logo chegarei nos sonhos inéditos. Por não se tratar de um conto, ou mesmo ficção, pensei em manter isso para mim mesmo, mas qual seria a graça? Meus sonhos serão uma nova série de posts aqui no Delirando e Escrevendo, quer gostem ou não. Mas chega de apresentações, segue o que escrevi até o momento:
-
Escrevo esse documento com o objetivo de analisar meus próprios sonhos. Sou fascinado pelo assunto e pelos simbolismos da vida onírica, portanto usarei esse documento em word, como um caderno de anotações.
Esses textos não têm a menor pretensão de serem publicados, por esse motivo serão livres, livres como a fala. Não me importarei com qualidade literária.

Sim, fui inspirado pelo trecho em que Sumire, no livro “Minha Querida Sputnik”, do Murakami - o qual estou lendo no momento – faz anotações sobre um sonho, para analisa-lo com mais facilidade. Trecho esse que, muito provavelmente, foi inspirado no livro dos sonhos de Kerouac, escritor admirado pela personagem (Sumire). Não adianta tentar, os anos passaram e tanto já foi feito na arte, que é impossível ser original. Tudo já foi feito, de único só nos resta anos mesmos, e até isso é questionável. Já não era original quando foi feito por Kerouac, Freud já estudava anotações sobre seus sonhos, muito antes; e filósofos curiosos pela vida do sono, antes dele. A verdade é que o assunto é fascinante, e, ao mesmo tempo, um exercício literário e de autoconhecimento.
Desde que li “O Homem e seus Simbolos”, do Carl Jung. Tenho dado mais atenção aos meus sonhos, como o autor avisara que aconteceria. Minha memória ainda é curta, mas os sonhos parecem mais relevantes, mais nítidos, mas sólidos. É interessante, sugiro a todos a leitura desse livro – todos que se interessam por sonhos. Algumas dessas imagens noturnas eu transformei em contos, outras eu preparei notas mentais que foram apagadas pelo tempo – essa borracha incerta e aleatória, chamada tempo – e outras eu guardei. Não escrevi sobre, não analisei, somente atirei em uma gaveta mental para uso futuro. Tive medo de esquecer esse arquivo, então passarei todas as memórias de sonhos e sonhos futuros, aqui, nesse documento. Pra quê? Ora! Pra quê fazer qualquer coisa? Procurar sentido é o primeiro passo em direção ao suicídio. É hora de encarar, pouco nessa vida faz sentido ou é feito por um motivo. Toda a razão é inventada, logo, inventarei minha razão para esse bloco de anotações. Talvez o use para futuros textos, talvez o use para praticar a escrita. A verdade é – não tenho motivos, apenas quero anotar meus sonhos.

Tive essa ideia da noite para o dia, ironicamente, não por causa de um sonho. Então ainda não tenho datas. Os primeiros sonhos não tem ordem cronológica, apenas escreverei aqueles que estão em minha memória, como se uma livraria pegasse fogo e só restassem algumas obras, ou mesmo uns pedaços incoerentes e desconexos. É isso! No momento, a memória de meus sonhos é como uma livraria incendiada. Tampouco escreverei sobre todos eles, alguns sim, outros não. Aqueles que me causarem algum sentimento, com certeza. “Estava andando no deserto, tropecei em uma pedra, cai e acordei” – não, por mais que eu tenha tido um sonho assim, mais que algumas vezes.
 

Estava escuro. Não sabia onde estava, tinha acabado de acordar e minhas memórias estavam apagadas. Olhava em volta e estava deitado em uma cama grande de casal. Em pé ao lado da cama, via um par de olhos femininos, brilhando e me recebendo, como se aguardasse o meu despertar. Olhei ao meu redor, mas era tudo escuridão, salvo por aquele olhar fixo. Perguntei onde estava; quem era a dona do par de olhos, o que fizemos, mas suas respostas eram vagas e desconexas, como um ser místico, instigando meu raciocínio em um jogo de charadas.


Não me diga que você não se lembra, era o que ela repetia, sarcasticamente. Não reconhece sua própria casa. Ela abriu a janela. Ela estava em frente a uma janela o tempo todo. Vi que estava em um quarto pequeno, mas não era o meu, nem mesmo era a minha casa. Percebia que não se tratava da minha casa, então voltei a questionar a mulher, agora totalmente visível, embora ainda desconhecida. Ela era familiar, tinha cabelos longos e negros, a pele branca; era magra e não muito alta. Tinhas os olhos verdes, mas o rosto – o rosto - parecia com o de alguém que sempre cruza comigo no elevador da empresa em que trabalho. Não sei o nome dessa pessoa, nem o que ela faz. Não sei quem ela é, só sei que trabalhamos no mesmo prédio. É uma daquelas pessoas, com quem cruzamos diariamente, nessas cidades pequenas, mas nunca paramos para conhecer. Uma figurante constante da minha vida, e agora dos meus sonhos. Conheço várias pessoas assim, que simplesmente passam. Presto atenção nelas, seus rostos, sua expressão. Estão com pressa?, talvez tristes ou decepcionadas. Hoje estão felizes, noutro dia, só cansadas. Observo-as atentamente e as adiciono ao meu catálogo de figurantes. Ela não é a primeira a ganhar um papel em meus sonhos, nem será a última, mas não quero me adiantar. Um sonho de cada vez.

Ela falava em enigmas, dava a entender que tínhamos passado uma noite de sexo e álcool, naquele quarto, naquela cama, em meio à escuridão que consumia nossos corpos. Ela insistia que eu conhecia o lugar, mas não era minha casa. Levantei-me da cama, ficando em pé ao lado da moça misteriosa. Olhei a rua pela janela. Reconheci a rua. Logo a frente tinha os fundos de um posto de gasolina, normalmente usado como garagem, mas no momento, vazio. Ao longo da rua, vizinhos ao posto, tinha uma série de casas geminadas silenciosas e escuras. Ninguém na rua, nem mesmo um sonho, nem mesmo o vazio parecia estar presente. Atrás das casas, tinha uma série de prédios, muito familiares, foi quando eu me virei de volta em direção ao quarto, agora iluminado pela lua e as luzes da rua. Era o quarto de meus pais, estava no velho apartamento, em minha cidade natal. Fiquei surpreso em saber que eles se mudaram deixando a mobília exatamente como era. Um grande armário que cobria a metade do espaço, com um espelho em uma das várias portas. A cama na qual eu estava deitado, agora recebia forma, cheiro, sensação – todo o quarto agora fazia sentido, estava lá, sem sombra de dúvidas. Fui tomado por um arrebatador sentimento de nostalgia. Vivi naquela rua por tantos anos, mas já tinha dificuldades em reconhecê-lo.

A nostalgia logo passou, quando olhei novamente os olhos daquela bela mulher ao meu lado. Só tinha o rosto conhecido, o corpo era como de uma lenda medieval, daquelas que costumavam encantar os homens e retirar seu espírito. Era esse sentimento que tinha quando a olhava, de que ela não era humana, mas sim um demônio atraente, pronto para me tomar, ou mesmo já tivesse tomado. Já tínhamos dormido juntos, de acordo com ela. Minha angústia passou, cheguei à conclusão de que, fosse ela quem fosse - humana ou mitológica -, já tinha feito seu trabalho. Só me restava servi-la.

Virei-me em direção a rua novamente, para apreciar àquelas memórias de outros tempos. Tempos de simplicidade e inocência. Ao longe, em um dos vários apartamentos, vejo em uma varanda, duas crianças brincando. Pulam de um lado para o outro, se empurrando inconsequentemente. Um deles, o maior, parece se empolgar com a brincadeira e lança seu irmão – tinha a impressão de que eram irmãos – da varanda, derrubando-o do prédio. Assisto aquele minúsculo corpo em queda livre em direção ao concreto. Ouço um barulho forte e seco, seguido de gritos. Uma mãe desesperada pede por seu filho; o irmão arrependido se atira para o salvamento. Todos no prédio são como sombras, silhuetas de algo quase humano. Indistinguíveis, exceto por altura. Assisto, ao lado da mulher sem nome e sem rosto, à cena, horrorizado, pensado no destino das crianças. Os gritos se multiplicam. Não é mais somente uma mãe pedindo aos céus pelos seus filhos, é uma multidão de sombras heroicas, buscando salvar as pobres vítimas do descuido e da inocência.

Os corpos se atiram da janela, declarando poder salvar as duas almas infantis. Todas as janelas se abrem. As das casas geminadas, as dos meus vizinhos no prédio e as de todas as construções ao redor.  Ritmicamente, as luzes se acendem, a janela se abre e dela sai um corpo sombrio e sem forma, como de uma pintura de Picasso. Todos caem no concreto imutável, um-a-um em direção ao seu destino cruel. Eu assisto cada queda, cada morte, cada agonia. O demônio na mulher ao meu lado parece desistir, seus olhos já não tem o mesmo brilho, tornam-se humanos; e ela me pergunta com a voz desesperada:
- Você não vai fazer nada?
- Não. De que adianta. – eu respondo indiferente, embora me sinta profundamente angustiado com o episódio.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Acidente


Um carro passa pela lombada
Morreu! – diz um grito de surpresa

A lombada era humana
seus pés balançam em desespero sob carroceria assassina
           as formigas da civilização interrompem seu serviço e correm angustiadas, imaginando detalhadamente a dor da vítima
           ao redor da máquina, eles empurram, o culpado empurra, o vizinho empurra, o padeiro empurra – salvem a lombada humana!
           Olhos reúnem-se nos vidros das prisões, protegidos pelas imensas torres de negócios, admirando e profetizando o destino da vítima, agora cercada de sombras
Será que morreu? Será que morreu? Voltem ao trabalho!

Soam as sirenes heroicas
as buzinas, as sirenes, os gritos, os soluços e as lágrimas, formam a sinfonia urbana
            remove-se o corpo em agonia debaixo do aço indiferente, agora completamente tombado pelas formigas afobadas
            morre ou não morre? - indaga o jogo da vida, os dados estão lançados e já, quase, mostram seu temível resultado
            as formigas assistem, em orgulho e medo, o resultado do seu árduo trabalho – já estão atrasados, que se foda o mundo e as torres as quais eles pertencem!
as sirenes diminuem e a orquestra aos poucos se retira
           as formigas - ou seriam cardumes, ou seriam rebanho – já não se recordam de seu trabalho e retornam a grande máquina para receber sua punição

O seguro cobre o tombamento, mas não cobre a indenização
reze para que os dados da vítima sejam positivos, jovem negligente
ou sua vida terminará com a dele

 


sábado, 13 de outubro de 2012

Entre bicos e ferroadas



Os pássaros cantam, voando ao redor das cadeiras de plástico
as abelhas voam nas lixeiras, brigando com os pássaros, pelo território
bicadas e ferroadas, em troca de uma bala cercada de saliva humana indiferente
 A abelha, uma vida por um ideal - as militares entre os insetos. Sem propósito, sem [conhecimento, sem sabedoria, o que importa é a batalha e a morte inevitável.
O canto cessa por um instante, mas a abelha morre
entrega seu coração em um golpe final
o pássaro atropela o cadáver de seu insignificante inimigo, para alcançar seu alvo
bica a bala por um instante, mas a abandona, seguindo seu voo

a abelha geme seus zumbidos finais, orgulhosa de sua vitória
chama suas companheiras, em louvor de batalha
elas respondem em um zumbido confiante, ansiosas pelo seu próprio final

uma delas é pisoteada pelo humano passante
 outra perde uma batalha contra um cão e outra fica grudada no doce descartado e outra ainda [batalha incessantemente, com um dos inúmeros sóis impenetráveis que a ela muito incomodam 
mas a rainha está protegida e o mel da honra é infinito

Tudo está bem no mundo das asas e zumbidos inaudíveis

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Esgotos Existenciais


Nenhum som na cidade escura, nas ruas só a solidão passeia, o carro passa, o bêbado tropeça, o [casal discute
todos sozinhos
os jovens festejam, a família dorme, a puta fode, acompanhados da solidão eterna e onipresente
alguém grita no vazio, e as sirenes tocam, um invisível acende a vela solitária da chama eterna
a vida, então, se apaga
a família chora, os jornais escrevem e o idealista da inocência virgem protesta
ninguém viu, ninguém sabe, ninguém liga

As boates estão cheias de luxúria, mentiras, vazio e lágrimas, tais quais as igrejas
uma garota foi drogada, uma criança enganada – ambas violadas
ninguém viu, ninguém sabe, ninguém liga
a vida é curta - tanto que a de alguns chegou ao fim, enquanto você lê essas palavras, talvez a sua [seja a próxima cortina a se fechar

no espetáculo da vida, ao fim não se aplaude – se teme e se esquece
Reze bastante meu filho, agradeça a cada momento, se tornarás um de nós amanhã ou depois, se [não fores antes levado ao esquecimento

esses são os banheiros da existência

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lua dos Sonhos



Lua - taciturna e indiferente lua, que mantém a sanidade da noite,
observa
observa e ilumina este corpo estirado e embebido em vinho
corpo que chove de saudade por sua amada perdida
amada que nunca me amou, amando outro amor
Ajuda-me a dormir, a abandonar a vigília mais uma vez, pois quero sonhar, pois em sonho ela me [visita, ela me iludi
ela me ama

Nesse outro mundo surreal, em que as pessoas vêm e vão
nascem e morrem, para poder acordar
mundo em que frases mudas são interrompidas sem aviso
as leis e a lógica inexistem

Encontro-a sempre nesse mundo e realizo meus desejos impedidos ao despertar

Agora somos duas ilusões
nuas e pervertidas
que se transformam em
um caralho e uma boceta em posições cósmicas e oníricas
 que se transformam em um emaranhado de luxúria  cruelmente interrompido pelo amanhecer [inevitável

Acordo e estou vivo ainda
sozinho na solidão mais forte – a companhia do sol
vivo
A vigília como uma sala de espera para a próxima
ilusão

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Diários de um Jornalista Bêbado

 
 
Ah! As adaptações de livros... O veredicto que darei logo mais a esse filme, não é definitivo, pois ainda não li o livro no qual ele se baseia. Conheço o autor, Hunter S. Thompson, seu histórico, sua opiniões, li alguns de seus artigos, e já o vi em algumas entrevistas, sem o que esperar do autor e acho que é justamente o tipo de literatura que me agrada, contudo, ainda não tive tempo de lê-lo. Vi o filme mesmo assim, pois ele serve como uma "continuação", embora não relacionada, ao filme, de 1999, Medo e Delírio em Las Vegas, também baseado em um livro do Hunter que eu não li.
 
Medo e Delírio, é um filme excelente, sobre um jornalista (Johnny Depp) e seu advogado porra-louca (Benicio del Toro) e suas experiências com drogas em Las Vegas - trama simples, mas interessante, se bem desenvolvida. Dirigido por Terry Gilliam (ex-Monthy Python), o filme entre o humor e o bizarro, de forma extremamente perturbadora - como já era de se esperar do diretor de Brazil. Um filme excelente, que fez ter vontade de assistir "Diários de um Jornalista Bêbado", na esperança de que desse continuidade ao belo trabalho.
 
Minha primeira decepção, foi que o Terry Gilliam não é o diretor desse filme. Ele seria perfeito para o filme, embora o foco desse não seja as drogas, mas sim o álcool. Johnny Depp seguiu com o papel principal, o que é bom, pois ele é o melhor imitador doHunter S. Thompson que eu já vi na vida. O próprio autor, disse que ninguém mais poderia interpretá-lo, depois de assistir a sua atuação nos testes para o primeiro filme. Ainda assim, o filme não consegue ser tão bom quanto o seu antecessor.
 
A trama se dá em Porto Rico, lugar em que Paul Kemp (alter-ego de Hunter), busca trabalho como jornalista, conseguindo uma vaga no setor de horóscopos. Lá ele encontra um capitalista malvado, que quer transformar uma ilha, em um grande hotel para a classe alta branca americana. O capitalista é noivo de uma baita gostosa (desculpem-me as moças que acompanham esse site, mas toda a vez que eu boto uma foto de uma mulher linda na resenha, minhas leituras triplicam, indo de 2 pra 6, o que pra mim é necessário...), chamada Chenault (Amber Heard). Ele é convidado pelo capitalista pra entrar no rolo, mas depois de umas confusões, é convidado a se retirar. O filme termina com um letreiro explicando o que aconteceu com cada personagem (não sei porque acho que isso não acontece no livro...).
 
O filme é mediocre - desculpe-me por estragar a surpresa. nenhum dos "plot-points" é bem desenvolvido e o roteiro em si, parece superficial e corrido - típico de adaptações. Eu sei, botar um livro em um filme, é como botar um elefante num fusca, no entanto, alguns roteiristas conseguem adaptar bem. Esse não é o caso. Tanto, que eu percebi a falha, mesmo sem ler o livro.
 
É boa diversão, as cenas do Paul Kemp fazem o filme valer a pena - principalmente se você já viu o Hunter S. Thompson em alguma entrevista ou vídeo e conhece a voz dele e seus maneirismos. Ele e seus companheiros de trabalho alcólatras são o ponto alto do filme. Vale a pena, mas não é nada espetacular - faça o que eu não fiz ainda e leia o livro.

Nota: 3,0 - pra fazer caridade!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Anjos Caídos (Duo Luo Tian Shi, 1995) - Wong Kar Wai

 
Sabe esses filmes que, ao terminar, você não sabe dizer o que houve, mas está fascinado e emocionado pela experiência de poder vê-lo. Esses são meus filmes favoritos, e uma das marcas do diretor chinês Wong Kar Wai (Amor a Flor da Pele - minha próxima resenha de filme).
 
Gostaria de avisar que baixei esse filme na loja do Paulo Coelho (se isso te revolta, me envie uns DVDs que eu resenho tranquilo), me arrependi profundamente. A qualidade de vídeo era impecável, digna de Blu-ray, mas as legendas estavam péssimas. Se você for fluente em chinês e conheça o dialeto de Hong Kong, baixe, se não, alugue em qualquer lugar, ou peça emprestado daquele amigo cinéfilo chato pra caralho - confie em mim, ele tem esse filme, só não vá riscar o DVD. Por causa das legendas, que em muitos momentos aparecia atrasada ou nem mesmo aparecia, perdi muitos detalhes do filme, por isso vou alugá-lo hoje e editar essa resenha caso alguma coisa me chame atenção.
 
A história é sobre um assassino em seu último dia de trabalho. Ele tem uma parceira no crime, com a qual ele tem que se separar por não achar apropriado que colegas de trabalho se relacionem de modo afetivo. A falta do afeto também o faz buscar companhia em qualquer mulher que esteja disposta, como ocorreu com a Blondie. Em seu caminho ele cruza com um mudo fascinante e este, por alguns momentos, se torna narrador da história. - Outra obs.: isso pode soar meio racista, mas até a primeira metade do filme, confundi o assassino com o mudo, pensando que eram um personagem só..., pois é, eu realmente preciso rever esse filme.
 
Mesmo se tratando da vida de um assassino, a ação é muito sutil, acontecem alguns tiroteios exporádicos e mortes bem gráficas, mas o foco do filme são os relacionamentos, as idas e vindas, pessoas que aparecem e somem sem qualquer explicação. É sobre o desligamento das relações afetivas atuais nas grandes cidades. Tema comum na arte contemporânea asiática, vide escritores como Haruki Murakami (que logo resenharei, tenho dois livros dele recém-comprados, a caminho de minha casa).
 
Como a maior parte dos filmes asiáticos, Anjos Caídos, é um espetáculo visual. As cores são espetaculares e constantemente exploradas. Os tons mais escuros da cidade e da noite, dão aquele ar de submundo, meio literatura beat, que o diretor, provavelmente, queria explorar. A trilha sonora, os movimentos, os sons do trem, é um grande festival para os sentidos. Por isso gostei do filme, mesmo com as legendas defeituosas, pois tudo nele é um espetáculo, os personagens mesmo quase não falam, vez ou outra narram a história, mas imagino que, se fosse um filme mudo, a impressão seria a mesma. Os diálogos, embora raros, são excelentes. A cena da moça que teve o coração partido e decide se vingar por telefone, e o rapaz mudo gesticulando seus pensamentos enquanto a consola, é hilária e brilhante. Outra cena marcante é quando a parceira, ouve a música que seu parceiro assassino encomenda no bar que os dois frequentam em horários diferentes, para indicar a separação. Depois ela volta para a casa do parceiro, que ela costuma limpar enquanto ele trabalha, e se masturba em sua cama, chorando e fumando, enquanto a música toca. Os gemidos em contraste com as lágrimas e a voz doce da cantora, é uma das coisas mais assombrosamente lindas que eu já tive o prazer de experienciar com o cinema.
 
Em suma, é um filme sobre relacionamentos, mais exatamente a falta deles. O fim do afeto nas cidades modernas e o sexo como a única coisa capaz de fazer a população dormir a noite. Como um filme europeu, mas com aquele típico sentimento de repreensão e diligência asiático. Um excelente filme, que deveria ser visto por todos que gostam de cinema para mais que só diversão estúpida.
 
Nota: 4,5/5,0
 
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Em Meus Sonhos com Ela - parte 6 - Final


Nada podia me distrair do amanhã. Domingo é um dia contemplativo, nada realmente acontece, somente assistimos as horas passando e, quando o sol se põe, nos arrependemos. Será que algo poderia ter sido feito? Talvez a chave para a mudança do meu destino estivesse em algum lugar fora de casa no Domingo, mas deixei passar.
Não me recordo de nada, somente fui para cama em busca do dia seguinte.

Fui ao trabalho. Não sonhei essa noite, creio. Talvez tenha, mas não me recorde, pois não foi com ela. Vez ou outra, pouco antes de acordar, sonho com o que devo fazer durante o dia. Acho que sonhei brevemente com o escritório, com o elevador. Sempre uma situação absurda, na qual eu me atraso, ou encontro por lá velhos amigos que não trabalham comigo. Não atribuo muito sentido a isso, acho que só ocorre, pois tenho um medo profundo de perder a hora, em qualquer circunstância.

Fui ao restaurante, no horário de almoço, na esperança de encontrá-la de novo. Não a encontrei. Enviei uns e-mails para ela de manhã, mas recebi uma mensagem automaticamente, informando que a funcionária não estava mais no quadro de empregados, logo, ela perdera o vale alimentação. Não voltaria tão cedo àquele restaurante, exceto que alguém oferecesse para pagar a conta. Telefonei-a logo depois, mas seu telefone não funcionava. “Esse número não está recebendo ligações, obrigada.” Era essa a mensagem que eu recebia. Depois disso devo tê-la ouvido vezes o suficiente para memorizar cada palavra, e quantos toques vinham antes da mensagem. Chegava a repeti-la com exatidão a cada ligação sem sucesso.
Esses se tornaram meus dias. Trabalho e ligações sem resposta. Tinha medo de não vê-la novamente. Mas o telefone não poderia receber ligações.

Dessa vez meu sonho encontrou sua casa. Uma figura que parecia ser sua mãe cuidava de um gato aparentemente morto, na frente de sua casa. Não a conhecia, mas me aproximei perguntando por Nuna.
- Você, quem é? – ela respondeu, indiretamente confirmando minhas suspeitas de que se tratava da mãe.
- Um amigo.
- Ora entre. Ela está em algum lugar da casa.

Tudo ocorria rapidamente e de forma desconexa. A parte de fora da casa, não era condizente com o interior, e quando percebi o interior era na verdade meu próprio apartamento.

Ela estava na sala, vestindo somente uma camisa. Viu-me entrando e me recebeu com um abraço. Não parecia se incomodar, por estar seminua em minha presença. Conversamos incoerências por uns instantes e a convidei para jantar. Ela se despiu sem vergonha alguma e pediu para que lhe ajudasse a encontrar suas roupas.

Não muito tempo depois, ela escolheu uma lanchonete de lanches rápidos, próxima do meu apartamento. Não a costumava frequentar, pois, em outras ocasiões, encontrei baratas no ambiente. Decidi ignorar esse fato, devido à companhia.

Comemos e conversamos até o sol me bater no rosto, me indicando a realidade. Estava deitado em meu sofá, desejando não acordar novamente. Sentindo a minha falsa felicidade partir, junto com ela e meus sonhos.

Os dias se repetiram, os sonhos acabaram e o telefone não podia receber ligações. O tédio, o jazz, a bebida, a literatura e a lua, são, no entanto, eternos.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Em meus Sonhos com Ela - parte 5


Letras - é o que dizia a pulseira pendurada em uma vitrine em minha frente. Uma dessas pulseiras que universitários usam para exibir seu curso. Vendiam aos montes na loja da faculdade. Pensei em comprar uma para ela. Não era nada demais, mas com certeza a faria rir. Por anos esse foi um dos únicos objetivos de minha vida, vê-la sorrir, o cumpria religiosamente e passava horas pensando em novas formas de continuar a tarefa.
 
Fui somente uma vez a essa loja universitária. Nuna precisava de uma calculadora, então fomos juntos comprar. Ela encarou essas pulseiras por um instante, mas decidiu não comprar, talvez porque soubesse que não seguiria com o curso. Decidi comprar a pulseira de “Letras” para ela, mas não havia ninguém atendendo na loja. Não havia ninguém, nem nada além da prateleira. As luzes estavam apagadas, estava fechado. Mas como eu teria entrado? Verifiquei e vi que a porta estava destrancada. Saí e fingi que não tinha reparado em nada.
 
Continuei caminhando pelos corredores da faculdade. Sentia-me perdido mesmo depois de tantos anos tendo aquele lugar como minha segunda, ou terceira moradia. A segunda seria o escritório, se este não fosse a primeira. Os tijolos avermelhados pareciam mais fortes e brilhantes, e o número de salas parecia ter multiplicado.
 
Virei à direita em uma das muitas saídas e ouvi, à distância, o badalar de um sino. Era uma igreja. A última vez que entrei em uma igreja foi para a missa de sétimo dia de meu avô. Tinha quatro anos de idade, depois disso, nunca mais.
 
Entretanto fui atraído pelo som de um leve órgão, que ecoava pelo interior da igreja. Tocava alguma coisa de Bach que não reconhecia. O contraste entre o bizarro e o belo é fascinante nas igrejas. De um lado com imagens de tortura e sofrimento, buscando culpar o ser humano de algo que não aconteceu. Do outro a beleza estética das pinturas, da música e da arquitetura. Tudo somado ao peso moral da gigantesca construção, que busca diminuir a todo custo o ser humano.
 
 
Ela se encontrava ao centro da construção, vestida pronta para o casamento. Creio que ainda se organizavam. Os familiares se encontravam em concentrações espalhadas. Pequenos grupos sem rosto, exceto pelos dois. A noiva e o noivo. Nuna e seu namorado. Vi os dois e decidi sair de lá antes que alguém me visse, mas quando me virei senti sua mão em meu ombro.
 
 
- Você veio Rafa! – ela me abraço.
 
 
Estava linda naquele vestido. Minha sílfide branca, que não é nem nunca foi minha, parecia tão natural naquele ambiente. Ela nunca foi católica, mas algo nela exalava casamento. Até para mim, que não tinha grande respeito pela instituição. A partir de um momento em que se torna necessário assinar um contrato para unir duas pessoas, o amor verdadeiro pode ser declarado morto.
 
 
- Não, eu tenho que ir embora. – respondi, tentando me soltar de seus braços.
- Mas por quê? Nós somos amigos, eu te queria em meu casamento.
- Não posso. Desculpe-me, mas presenciar esse momento seria demais pra mim.
 
 
Soltei-me, virei às costas, mas fui surpreendido por dezenas de flashes dos fotógrafos do casamento. Estava atordoado pelas luzes, pela música, pelo seu choro, pela conversa. Tudo girava e nada era real. Acordei perturbado, cinco da manhã em minha cama.
 
 
Levantei-me e, não me importei com o horário, servi-me uma dose do uísque, que já estava no fim, e bebi em um gole. Servi outra e bebi aos poucos, pensando naquilo, pensando nela. Uma noite transávamos loucamente, na outra ela se casava, independentemente, era tudo um sonho. Seria o álcool que produzia essas imagens tão vívidas e significativas? Tinha que interpretar aquele sonho de uma forma ou de outra. Se o sonho é uma realização de um desejo, estava me esquecendo de algo.
 
 
Peguei um papel e anotei cada detalhe antes que partisse. A loja, a pulseira, o corredor, a igreja, a música, o vestido, o diálogo, os flashes.
 
 
O casamento dela não poderia ser um desejo meu - era na verdade um medo. Outro dia, quando ainda almoçávamos juntos com frequência e morar junto era apenas um plano de Nuna e seu namorado, estávamos em uma loja de eletrodomésticos. Ela olhava para as roupas de cama, os aparelhos, os computadores. Planejando como mobiliária o apartamento que já estava comprado e era só uma questão de tempo para ela poder chamá-lo de lar.
 
Ela olhou para um conjunto de chá, seu preço, os diferentes modelos, virou para mim e disse:
 

- Olha só o que você pode me dar de casamento.
- Então eu fui convidado? – perguntei.
- Claro!
- Quanta honra.
- Então, o que você diz. É um conjunto bonito, não?
- O que sou eu pra você? Amigo gay?
- Só me diz sua opinião.
- Por que a xícara é octogonal?
- Acho que é moda agora. Não sei. Só me diz o que você acha.
- Já disse, é estranho. Nunca vi xícara nesse formato. Mas não importa. Você sabe bem que eu não vou ao seu casamento.
- Por quê?
- Porque, nessas cerimônias, somente o noivo deveria estar apaixonado pela noiva, não o convidado.
- Ainda isso?
- Ainda...
- Você precisa arranjar alguém. – ela dizia com olhar de pena.
- Concordo plenamente. Convidei a Maíra para sair outro dia.
- Qual Maíra? – ela levantou uma sobrancelha.
- A que trabalha comigo.
- Ah. Ela. – ela respondeu pouco interessada – Estudamos juntas. Não sabia que você gostava das siliconadas. Sempre achei que você fosse o cara que buscasse personalidade e inteligência.
- E busco. Achei você. Como você não quis, a siliconada vai ter que servir. A propósito, o silicone dela é bem sutil, só percebi depois que ela me contou. De qualquer forma, pouco importa! Ela disse não, também. Disse estar ocupada todos os fins de semana. Não disse o que fazia, só disse que não podia. Desde então ela nem me olha mais no rosto, como se eu a tivesse ofendido de alguma maneira. – ela começou a rir da minha história – Continue rindo da minha desgraça e nada de xícara octogonal pra você! Nem mesmo xícara quadrada!
- Mas você não disse que não ia?
 
 
Nunca mais falamos sobre isso desde então, nem sei que fim levou Maíra. Só sei que o casamento ainda não aconteceu, pois me lembro de nosso encontro no restaurante e, em suas mãos, não havia aliança. Mas se não desejava o casamento, que desejo se cumpriu no sonho? Pensava enquanto o sol de domingo nascia. Tinha que resolver isso logo, já era meu terceiro dia de autoflagelo emocional, até a mais cruel das religiões já oferece um feriado aos seus seguidores a essa altura.
 
 
No sonho tinha vontade de fugir e dizia não querer presenciar àquele momento. Seria minha mente dizendo que a chave da minha liberdade morava no casamento dos dois, que ao ver os dois se unindo meu amor por ela morreria? Queria que meu amor morresse? E os flashes? E a música?
 
 
A música. Sempre associei Bach com igreja. Concordo com Cioran que dizia que Deus muito deve sua popularidade a Bach. Sem Bach não haveria igreja, não haveria Deus, não haveria cristão. Enchi um terceiro copo e a garrafa estava vazia finalmente. Sempre que vejo uma garrafa derramar suas últimas gotas, sinto uma saudade insuportável.
 
 
O pior era ter que aguentar mais um dia de mistério e ansiedade. Queria ligar para Nuna na segunda, resolver de uma vez meus problemas. Marcaríamos um almoço ou jantar, não importava. Conversaríamos, contaríamos as novidades. Talvez finalmente lhe contasse de minhas poesias, de meu chamado escrito por seu amor, por seu afeto. Já me dissera não ligar para poesia antes, mas por não gostar das rimas. Eu não rimava nunca, nem quando queria. Descobriria se ainda estava para casar. A ausência da aliança, para ela, não bastava. Nunca usara aliança, exceto por aquelas de namoro prateadas, mas essa ela jogou fora após uma briga com seu namorado e nunca mais a recuperou. Seu noivado era um acordo verbal. De acordo com ela, ele um dia disse querer casar-se. Ela acreditava tanto quanto no dia que ele disse que nunca a traíra, nem mesmo no dia em que ele trocava mensagens com uma mulher qualquer, logo em sua frente. Talvez ela fosse inocente, talvez eu fosse maldoso, o passado não significava nada. Descobriria se o noivado verbal ainda existia. Independente da resposta declarar-me-ia por uma última vez. Se ela não aceitasse, não a buscaria mais. Esquecer-lhe-ia logo ali.