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domingo, 30 de setembro de 2012

Ted - Uma resenha diferente



Primeiramente, senhoras e senhores leitores, por que esta é uma resenha diferente, considerando que, até o momento, nenhuma de minhas resenhas foi realmente uma crítica, se não uma série de memórias vagamente relacionadas com o objeto criticado e uma nota final? Pois esta é a primeira vez que resenho um filme sem nem mesmo vê-lo. Isso mesmo, não vi Ted, mas mesmo assim falarei sobre ele. 

Se você não ouviu nada sobre esse filme, ora, saia de sua caverna uma vez na vida! É um filme sobre um homem de meia idade e seu ursinho. Ele leva uma vida normal, exceto pelo ursinho falante, com uma bela namorada (ah! Mila Kunis - Ah! Esses olhos! - Sua cena com a Natalie Portman em Cisne Negro será sempre inesquecível, com aquelas asas negras tatuadas em suas costas, dançando como uma bailarina enquanto você passava sua língua pela... é melhor parar por aqui, antes que eu me perca ainda mais), um emprego mediano, enfim um americano como outro qualquer. No entanto a Mila lhe dá um ultimato para que ele se separe do urso, que é um drogado, alcoólatra, viciado em prostitutas. Esse é o conflito. Típico roteiro de Seth Macfarlane, uma comédia fácil, mas ainda assim capaz de gerar polêmica. Não sei o que ocorre no fim, ou mesmo durante todo o filme, mas por conhecer a obra do diretor (Family Guy, American Dad e uma porrada de coisas exatamente iguais a esses dois, mas em outro cenário) sei como o filme deve rodar.

É sobre isso a resenha - conhecer uma obra de um diretor. O político Protógenes Queiroz - será que é da bancada evangélica? - viu o filme com seu filho de 11 anos, e agora se envolveu em uma cruzada para garantir que nenhuma outra família brasileira seja destruída pelas vis imagens as quais ele e sua cria foram surpreendentemente expostas. O filho não se manifestou quanto ao acontecimento, mas acho que ele deve estar em algum manicômio, separado da visão de qualquer outro ursinho de pelúcia; ou talvez na cracolândia, não sei ao certo. 

A cruzada de Protógenes é apenas um sinal do absurdo que é o politicamente correto. O homem agora decidiu censurar um filme que, até o momento, não fez mal a ninguém, porque ele é ignorante quanto a obra do Seth Macfarlane e achou que o filme seria infantil, simplesmente, porque o cartaz do filme o fez lembrar do filme O Paizão, do Adam Sandler (logo abaixo). Ou seja, ele decidiu que o filme deveria ser apropriado 
para crianças, pois o cartaz o fez lembrar de um filme infantil. Nem mesmo a capacidade de observação para ver que o urso carrega uma garrafa de cerveja (líquido do capeta) o gênio teve!

Isso se deve a ignorância. Toda a censura é burra, disse não sei quem, e é isso que o senhor Protógenes nos demonstra com sua fútil tentativa de mudar a censura do filme de 16 para 18 anos. Sim, a censura já era para 16, mesmo assim o asno achou que seria apropriado para seu filho de 11. Não sou a favor de censura, nem mesmo para classificação etária, mas se esta existe, pelo menos nisso preste atenção antes de levar seu filho e depois se assustar.

Não tenho nada contra prostitutas, álcool ou drogas, portanto verei esse filme, dada a oportunidade. Talvez até lhe dando uma resenha digna, com nota e tudo mais, por enquanto ficará por isso mesmo. Não se deixem levar pelos protetores da família e dos bons costumes. Se você não gosta de certos prazeres que a vida oferece, busque saber o histórico de determinado diretor ou roteirista antes de ver um filme. Reclamar da presença de drogas em um filme do Macfarlane é como reclamar do cigarro num filme do Godard, ou esperar uma bela experiência de família assistindo Nekromantik! 

E o idiota persiste em nos perseguir.


sábado, 29 de setembro de 2012

Poesia Lírica Moderna - 3 - Homenagem a Hebe Camargo

Grace Potter & The Nocturnals - The Lion The Beast The Beat


Não é nenhuma novidade que a música popular anda decadente. É o que costuma acontecer quando uma indústria se torna uma grande fonte de dinheiro. A moeda sempre falou mais alto que a arte, por isso vemos, em todas as eras, os artistas camaleões (não, não estou falando do David Bowie) - músicos sem personalidade, que se misturam entre si, formando uma massa homogênea, que tem por objetivo, satisfazer as necessidades do idiota.

Assim como em tudo, existem exceções. Músicos que negam os desejos da massa e fazem aquilo que eles próprios consideram arte, que, por sua vez, nada mais é que sinceridade. Sacrificam alguns milhões em vendas, pelo amor próprio e dignidade. Esse é o caso de Grace Potter & The Nocturnals.

Em 2004, a cantora canadense Grace Potter, lança o álbum Original Soul. O título representa exatamente o conteúdo do disco, soul, com uns toques de jazz e blues. A voz da bela cantora (sério, não sei se presto mais atenção em sua voz, ou suas pernas) sofre clara influência de gente como, Grace Slick, Dusty Springfield e outras do gênero. A música é original e excelente, contudo, não se encaixa nos padrões da indústria, portanto, a banda nunca tornou-se conhecida, exceto pelo grupo de pessoas que, especificamente, caça músicos desse estilo diariamente.

O tempo passou e o rock passou a ter um papel mais importante nas músicas do grupo. Nada de errado com isso, a qualidade se manteve a mesma. No entanto, em 2010, o disco "Grace Potter & Nocturnals", apresentou grande mudança no estilo da banda - era muito mais comercial que todos os outros. Pois é, nem sempre as exceções mantém-se fiéis a sua proposta - repito, a moeda fala mais alto que a arte -, mesmo a história mostrando que, por mais rentável que seja ser um artista pop, músicos de outros gêneros, que se tornam pop por dinheiro, perdem fãs e, geralmente, o disco é um fracasso.

E tentativa fracassada de pop é a definição do álbum The Lion The Beast The Beat (2012). A voz da Grace se mantém a mesma, continua excelente, entretanto, toda a produção, o instrumental, os efeitos, as letras, podem facilmente ser encontrados em qualquer disco de qualquer cantora pop adolescente medíocre. Na verdade, estou exagerando. O álbum não é uma desgraça tão grande. Em se tratando de música pop, a qualidade dessas músicas está muito acima da média, podendo quase se dizer que são boas. Porém - lembram do que eu disse na minha análise sobre a discografia da Black Crowes? -, para certos músicos, o medíocre é inaceitável. Grace Potter & The Nocturnals, pertence a esse grupo.

Talvez seja culpa minha, por acreditar que certos músicos podem mudar a indústria. Se minhas expectativas fossem menores, talvez esse álbum até me agradasse, mas não é o caso, e tenho certeza, que tampouco é o caso de qualquer um que tenha um mínimo de bom gosto e conhecimento musical. 

O disco é bom considerando o que ele se propõe a fazer - pop para agradar produtor. Porém é uma bosta em relação a toda a discografia dessa, que uma vez foi e espero que volte a ser, grande artista.

Nota: 2,0/5,0

Pois é, eu também não esperava uma merda dessas proporções.

Só para efeito de comparação, segue a mesma banda em 2005.
Surreal, não? Parecem duas pessoas diferentes...












sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Em meus Sonhos com Ela - parte 3


Não cheguei a acreditar que o sonho tinha realmente acontecido, mas os toques, a sensação, a presença, tudo parecia real. Só serviu para me fazer relembrar aquele momento no restaurante. Analisei cada frase, formulei possibilidades em minha mente. Pensei em ligar pra ela naquele momento. Sábado à tarde, dizer que queria conversar, que estava pensando nela, mas não fiz. Queria acreditar que ela estava finalmente solteira, porém nada indicava que fosse verdade. Além disso, mal podia falar direito naquele momento.

 Decidi analisar o sonho. Li apenas dois livros sobre análise dos sonhos, e não sou psicólogo. Qualquer que fosse minha interpretação poderia estar totalmente errada, ou incompleta. Por isso existe um grupo de pessoas que estudam por toda uma vida essas coisas, porque não é algo tão simples, que qualquer leigo que saiba ler pode fazer um trabalho perfeito - o nome disso é advogado. Queria pagar um analista há anos, mas não tenho dinheiro e a empresa em que trabalho se recusa a oferecer plano de saúde. Deveria ter estudado psicologia.

Enchi um copo de água, me sentei no sofá e comecei a pensar. Nunca sonhei com ela de forma tão explícita. Sonhei com conversas, lágrimas, beijos, abraços, mentiras e brigas, mas nunca sexo. A vontade sempre esteve presente, mas nunca era realizada. Será que isso significava que meu amor por ela tinha morrido, ou nem mesmo tenha existido, e só me restava o desejo sexual? Seria uma premonição? Não acredito nessas coisas. O ser humano tem o costume de divagar sobre seu futuro. Vez ou outra acerta. Isso se chama coincidência, não profecia. Até mesmo as mais fantásticas fazem parte desse grande jogo de estatísticas chamado vida.

Até a mais ínfima das probabilidades pode vir a se tornar verdade, não por milagre, mas por acaso. Lembro-me de quando a conheci.

Nasci em uma cidade relativamente grande do litoral de São Paulo, ela no litoral de Santa Catarina. Quase ao mesmo tempo, ela dois meses antes. Durante a adolescência, não sai da minha cidade. Ela fez algumas mudanças devido ao divórcio dos pais, mas sempre no mesmo Estado, sempre distante de mim. Eu queria estudar filosofia em São Paulo. Ela letras, lá mesmo em Itajaí, sua cidade de criação. Por algum motivo, completamente indiferente, fomos conduzidos a estudar comércio exterior. Na mesma cidade, na mesma sala e, de todas as cadeiras disponíveis naquela sala, logo no primeiro dia, ela se senta em minha frente.

No momento do nosso nascimento, as chances de nos conhecermos eram nulas, mas conforme acontecia a vida, elas foram aumentando e aumentando. Até que nos conhecemos e eu me apaixonei. Ela não, porém não desisti. Pensei em desistir várias vezes, era tudo o que queria - libertar-me de uma vez de sua prisão emocional -, mas não podia. Por isso sabia que a amava. Por continuar a desejando, sem receber nada em troca, exceto por meia dúzia de sorrisos e seu olhar. Seu olhar, seu olhar, só ele me bastava para alegrar um dia. Desejava tirar uma foto de seus olhos e pendurá-la em minha parede.

Eram eles a causa do meu sofrimento e inspiração. Ela é linda por inteiro, mas seus olhos eram eternos.

Não fiz nada naquele dia, exceto revisar o conto. Tenho a tendência de odiar tudo que escrevo após a primeira releitura. Sinto-me um gênio a cada frase que escrevo, e o maior dos idiotas a cada frase minha que leio. Como pode uma coisa assim?

Seria meu desejo por liberdade o sentido do meu sonho? – interrompi a revisão. Era meu amor por ela que me prendia e não o sexo. Nunca chegamos nem perto de um beijo, que dirá uma transa. Meu sonho dizia que, o que antes era amor, se tornara simples desejo sexual, já não mais a amava. Mas porque o sexo significaria o fim do amor? Não fazia sentido. Intenso desejo sexual, não significa ausência de amor, afinal tudo é sexo. Todas as relações humanas se baseiam no sexo. Desde a ida ao bar com os companheiros de trabalho na noite anterior, até meu anseio por sucesso profissional. Tudo uma tentativa frustrada de atrair as fêmeas da espécie. Com ela não haveria de ser diferente.

Mergulhei em meus devaneios e, quando o sol se pôs, em meu uísque. O conto estava revisado, mas não tinha vontade de publicá-lo ainda. Então voltei ao livro que tentava ler na noite anterior. Na verdade revivi todo o cenário. A bebida, a música, o livro, a janela. Estava tudo igual à sexta à noite. Quem sabe surgiria um novo conto em minha mente, ou, ao menos, uma prosa em versos.

Lia, enquanto o piano e os trompetes me distraíam a mente. Por que levei três anos para sonhar que transava com ela? Se isso significa que meu amor por ela tinha acabado, esse sonho deveria ter acontecido quando a conheci e o amor não existia. Talvez ela estivesse mesmo solteira, afinal, seu namorado não aceitaria que ela estudasse letras, ainda mais agora, que ele tinha comprado um apartamento e estavam morando juntos. Nuna somente se preocupava em trabalhar para ajudar a mobiliar seu novo lar. Sempre me atualizava com sua última compra, sobre seu sofá novo, ou a geladeira que sua mãe lhe prometera de presente de casamento. Perguntava-me o que lhe daria quando se casassem. Minha ausência é o que lhe daria. Minha fuga total e completa.

Dessa vez consegui ler melhor. Distraí-me menos e não me perdi na música. Estava entretido, queria saber o que aconteceria naquela história e mais ainda, saber o que tornava aquele escritor tão bom. Com certeza ele não se odiava ao reler suas próprias frases.

Não pensei em nenhum conto. Ainda estava cansado e a bebida não ajudava. Não costumo beber por duas noites seguidas, mas a situação exigia. Voltei ao sofá, desejando retornar àquele sonho.

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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Os Mercenários (2010)

Vi o trailer de Mercenários 2 no cinema, antes de ver o Dark Knight Rises (já resenhado duas vezes aqui, vá procurar), e isso incitou minha curiosidade para ver o primeiro. Minhas expectativas estavam nas solas dos meus pés, afinal o filme foi dirigido pelo próprio Stallone, que fez uns seis filmes bons na vida e dezenas de merdas inesquecíveis.

O roteiro? Que roteiro? Pra quê roteiro! Que se foda o roteiro! Mickey Rourke, Jason Statham, Jet Li, Terry Crews e o boxeador russo de Rocky IV em uma mesma cena, e você está esperando roteiro. Deixe de ser inocente, o filme é sobre um bando de mercenários, lutando contra o exército de um ditador boliviano. Por quê? Porque a Giselle Itié é gostosa. Só!

Esse é o típico filme, desligue o cérebro e babe para as explosões bonitas, tiroteio e membros voando. A história (haha, história, como eu sou engraçado...) acontece e se desenvolve tão rápido, que quando se percebe, o filme já está chegando ao fim e nada de coerente aconteceu, e você está nauseado por causa da movimentação frenética da câmera e a trilha sonora genérica de filme de ação (nas horas de calmaria, rock clássico, nas horas de porrada, música orquestrada agitada).

A única coisa que o filme deveria ter de positivo eram os efeitos, mas nem nisso eles conseguiram acertar. Sério, vi cenas de violência mais realistas em Machete (que por sinal, é um filme bem divertido). É difícil ver uma explosão, ou mesmo os desmembramentos causados pela metralha do Terry Crews, que disfarçem o CGI. A cena da facada final mais parecia efeito de editor de vídeo do youtube. Ou seja, nem na violência o filme acertou.

Pontos negativos: a existência do filme.
Pontos positivos: a Giselle Itié correndo.

Nota: 1,0/5,0

Agora verei Mercenário 2, pois acho que esse site precisa de mais resenhas de filmes ruins. Afinal, um filme que ressucita o Van Damme e o Schwarzenneger, só pode ser uma bosta. E como se não bastasse, Nelson Rodrigues tinha razão quando disse que o idiota ia dominar o mundo, Mercenários 3 já está em produção.

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Poesia Lírica Moderna - 2 - Despedida de Solteiro

Chegou a vez do Latino.


Os vídeos serão postados duas vezes por semana. Gostem, comentem, favoritem e se inscrevam no canal, para ajudar a divulgação.


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E se for tudo uma ilusão?


Sempre vi como o motivo para a descrença de um religioso fundamentalista na teoria da evolução, não a estupidez ou a fé cega, mas a relutância em se ver como um animal. Realizar que o ser humano não é especial, talhado cuidadosamente por um pai amável, em seu atelier divino, mas sim o resultado de bilhões de anos de puro acaso. E sempre vi tudo isso como uma grande demonstração de covardia intelectual.

Até que li uma notícia, mencionando a teoria que diz que o universo não é real, mas uma simulação gerada em computador por uma civilização altamente avançada. Ao terminar de ler, ri sarcasticamente e pensei que tudo aquilo era um grande absurdo, desperdício de inteligência, investimento e pesquisa. Então senti-me religioso. Eu, um programa de computador? Que absurdo! Quem esses cientistas pensam que são?

Percebi que, em nenhum momento, perguntei o porquê. Por que desenvolveram essa teoria? Então busquei a resposta para essa pergunta, e, por um instante, pensei como alguém que nela acredita. Não há nenhum absurdo, nenhuma falácia e, até onde meus conhecimentos de leigo permitem identificar, nenhum erro científico.

Convenhamos que, é possível julgar que os criadores desse mundo tenham nos criado a sua, se não imagem, semelhança. Ou seja, temos os mesmos hábitos e visão de vida, porém em um ambiente tecnologicamente atrasado. Vivemos inventando fugas artificiais para nossa vida, desde a descoberta do entretenimento. Hoje existem os videogames e computadores, que agora penso que podem ser primitivos criadores de universos. Antes deles, tínhamos o ópio, o haxixe, a cocaína, a maconha, o LSD, o álcool, muitos deles ainda nos acompanham, mesmo depois de séculos da descoberta de seu efeito recreativo. Nada impediria nossos criadores de estarem na mesma situação. De, depois de atingirem o tédio máximo em sua própria existência, terem criado esse simulador extremo, que não só cria uma vida, mas todo um universo.

Ainda assim, que grande vazio essa descoberta traria. Somos fugitivos, fugindo de nossa fuga. A realidade virtual se tornou tão tediosa quanto à realidade que desconhecemos. Mas por que a desconhecemos? Por que teriam os criadores de nossa simulação – que somos nós mesmos – decidido apagar a memória do “jogador”? Qual a diferença do universo simulado, para o universo divino? Não se enganem, não estou me convertendo, e sim comparando a teoria de deus, com a teoria do universo artificial. Porém não acho que posso continuar essa análise de forma imparcial, pois – e sinto uma dor imensa ao escrever isso, mas é a verdade – sou um religioso do humanismo – esse texto acaba de se tornar uma confissão. A ideia de que a humanidade é um jogo de alguma civilização avançada me revolta profundamente, mesmo sabendo que faço parte dessa civilização e sou, portanto, um jogador – revolto-me contra mim mesmo!

Nada foi provado com relação a essa teoria, contudo, admito meu medo. A ideia do “nada”, do esquecimento, me apavorava a infância. Por isso me rendi a deus nesses anos. Se não o tivesse feito, talvez não tivesse sobrevivido. Hoje entendo o suficiente para não temer o vazio absoluto, não o compreendo ou sequer gosto dele, mas o aceito.  Agora não acho que conseguirei aceitar que sou criatura de um fugitivo entediado, que entediado com sua fuga, tenta fugir de novo. Além do mais, o que criou os jogadores? Será que morrem conosco, ou mesmo morrem? Seriam eles, filhos do nada, como nós pensamos ser? Será que eles – o “nós” real - já descobriram todos os mistérios do universo verdadeiro – se é que este é verdadeiro e não somente outra de camadas infinitas de simulação – e por isso desenvolveram esse jogo? Quando morremos, o jogo acaba, ou o jogador morre? E o tempo? E a idade do jogador? E a vida real? Por que não posso parar, se é isso que mais desejo agora? Seria a morte a saída, mas, já que nos esquecemos, temos medo de testar? Que grande maldição nós inventamos!

As dúvidas são muitas, e as respostas ainda mais aterradoras, contudo prefiro saber a verdade. Aceito as descobertas da ciência, até porque aceitar ou não, não muda os fatos. Só me impressiono ao pensar em como sabemos pouco, e, quanto mais descobrimos, mais dúvidas aparecem.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Meia Noite em Paris - Woody Allen

Woody Allen mudou minha adolescência. Filmes como Annie Hall, Play it Again, Sam, Sleepers, Bananas e Love and Death, mudaram a forma que eu via o cinema e a minha própria vida. Era a primeira vez que eu me identificava com um personagem. Um homem em crise existencial, hipocondriaco, paranoico, cheio de problemas de relacionamentos (o principal sendo a ausência deles) e familiares. Woody Allen, aos poucos, foi se tornando meu herói. Principalmente pelo fato de que eu o conheci pelos seus primeiros filmes.

Com o passar dos anos, seu roteiro se tornou um padrão. Procure na filmografia de Woody, um filme que não fale sobre adultério. Pois é, mas esse não é o maior dos problemas. Filmes como Scoop, Vicky, Cristina, Barcelona e outros recentes, simplesmente não tinham mais aquele humor sutil característico. Woody Allen dazia filmes de fácil identificação, e eu não me identificava mais.

Isso mudou com Whatever Works (2009) e a performance hilária de Larry David (Seinfeld e Curb Your Enthusiasm), que, provavelmente é um dos melhores comediantes vivos. Era isso, Woody Allen era um comediante, um dos primeiros stand-up, e eu sempre tive grande admiração pelo gênero (até escrevi algumas piadas por um tempo, até descobrir que não tinha como apresentá-las - as transferi para minhas crônicas), e este sempre esteve presente em seus filmes, nos seus monólogos contemplativos ou nas respostas curtas, mas fortes como um coice, que seu personagem dava a todos ao seu redor. Isso tinha voltado aos seus filmes, agora faltava um roteiro original. Como uma prece sendo atendida, Meia Noite em Paris é o roteiro original que eu tanto aguardava.

A história é sobre um homem, um roteirista cansado do mundo de mentiras que é Hollywood, e decepcionado com seu próprio trabalho, que decide ir a Paris com sua noiva e sogros. Lá ele busca inspiração para o seu romance, contudo, como não confia na opinião das pessoas que o cercam, não consegue progredir muito. Seu sonho era viver em Paris, ou seria viver Paris? Sentir a arte e a história daquele lugar, sentar no mesmo bar em que um dia, Hemingway e Fitzgerald passaram a noite se embriagando.

O relacionamento dele com a noiva é péssimo, mas como ela é linda, ele acredita que a ama. Os sogros o odeiam, pois ele é liberal, e eles, típicos conservadores do "American Way of Life". Em Paris ele encontra o típico casal, mulher burra e homem pseudo-intelectual (daqueles que interrompem guias turísticos, para corrigi-los, sabe esse tipo de gente?). Em meio a toda essa complicação, uma noite ele busca a fuga em uma caminha, até que, a meia noite, aparece um carro antigo, que o pega de carona e o deixa em uma festa na década de 20, ao som de Cole Porter (trilha sonora constante nesse filme), encontrando assim, todos os seus ídolos.

As interpretações são muito boas. É visível que, a imagem de Fitzgerald, Zelda, Hemingway e Gertrude Stein, foi baseada no livro Paris é uma Festa (Hemingway), que se tornou um retrato da vida artistíca da capital da França naquela época. Encontra também Picasso, e sua amante (por quem ele se apaixona). Em outras andanças pela época, encontra em uma mesa, os surrealistas, Man Ray, Salvador Dali (performance impecável) e Luis Buñuel, que mais tarde, recebe uma dica para o roteiro de Anjo Exterminador, do protagonista. É hilário como o próprio Buñuel se vê intrigado e perturbado pela sua própria história, embora eu tenha achado a referência um pouco estranha, considerando que o filme se passa nos anos 20, e Anjo Exterminador só foi gravado na década de 60, mas isso são detalhes.

O adultério está presente, assim como as crises existenciais e a descoberta de que, não importa a época, o contemporâneo é sempre um tédio, e o passado sempre será mais atraente. O certo é aproveitar qualquer coisa o que você pode ter, na sua própria época, pois não é o tempo que causa o tédio e sim, a existência.

- Nota 4,5/5,0

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Comentem e divulguem essa porra.

sábado, 22 de setembro de 2012

Poesia Lírica Moderna - meu canal no youtube

Alguma vez você parou para prestar atenção na letra das músicas populares que invadem nossos ouvidos todos os dias por culpa de um trio elétrico portátil que passou na sua rua? Não? Neste canal, eu recito essa poesia perdida para você.

Os poetas da semana são João Lucas e Marcelo, com a bela obra, Eu quero tchu tcha. Toda a semana recitarei uma música nova, na fútil tentativa de ficar rico com o youtube.
Divulgue essa porra por aí, se você também acha absurdo que esse tipo de música receba tanta atenção do público geral, talvez assim seja possível trazer esclarecimento para o povo. Estes vídeos não são apenas humor, mas também um serviço de utilidade pública.


Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's) - Livro x Filme


Deixe-me lhes contar sobre como se deu início o meu fascínio, ou tara, pelo olhar feminino. Tinha quinze anos quando a conheci, uma garota espetacularmente linda. Ela era loura e pequena e tinha um sorriso hipnotizante, constante e fixo. Ela era tudo isso, e o leitor terá que me perdoar as imprecisões, mas não a vejo faz quatro anos. Ela costumava sentar-se em minha frente na sala de aula e, durante as aulas de física, começaríamos uma disputa imutável de jogo da velha - que sempre terminava em empate -, e me olhar com aquelas janelas azuis - ou seriam verdes? Minha memória não tem mais quinze anos infelizmente - curiosas e exploradoras. Sentia que ela poderia me pedir qualquer coisa, tirar qualquer coisa, descobrir qualquer coisa, olhando-me daquela maneira. Infelizmente eu era muito estúpido, na época, para compreender e muito tímido para aproveitar. Meus momentos com ela são os maiores arrependimentos da minha vida, e fique sabendo que eu não sou um desses idiotas que saem por aí dizendo não ter tristezas ou arrependimentos - só os vegetais e as crianças eternas não se arrependem. Hoje essa história é só uma bela memória, e o olhar dela foi logo substituído por outro, que foi substituído por outro, e outro por este. Só me resta a marca mental que ela me deixou, a marca que toda a grande mulher deixa em um homem, quando parte.

Holly Golightly é uma dessas, se não a grande mulher da literatura internacional. A mulher que escraviza, tortura e fascina o narrador - o aspirante a escritor, o qual Holly chama de Fred (nome de seu irmão) - e uma série de outros homens. O livro de 1958, conhecido no Brasil por Bonequinha de Luxo (Truman Capote), virou filme em 1961, dirigido por Blake Edwards.

Vi o filme antes de ler o livro, e sugiro a todos, que se interessarem pela história após essa resenha, que façam o mesmo. O filme é excelente, no entanto, se visto após a leitura do livro, vira um lixo, o que é uma pena, considerando que Bonequinha de Luxo, o filme, é uma experiência fascinante, graças a bela atuação de Audrey Hepburn (pra mim, a mulher mais linda que já existiu. Sério, tente encarar a foto no começo do post e não se sentir paralisado) e o roteiro bem executado, leve, mas sem cair no padrão das comédias românticas. Quase como um Roman Holiday, exceto que este não é uma adaptação de romance e é bom independente das circunstâncias.

O livro, como sempre, é extremamente superior ao filme. Tanto que torna o que, de outro modo, seria uma experiência cinematográfica interessante, em um romancezinho pretensioso e mal executado. Após ler o livro, a única coisa que me pareceu aproveitável no filme foi a cena inicial, com Audrey Hepburn saindo de um táxi, ou seria limousine, com um saco que contém seu café da manhã, caminhando lentamente em frente as vitrinas do Tiffany's, mordiscando seu sanduíche de forma melancólica. É uma excelente apresentação de personagem e, se o filme se mantivesse fiel ao livro em todos os momentos, hoje seria um dos melhores da história do cinema.

Infelizmente estamos falando da década de 60. A personalidade literária de Holly, criada por Capote, é polêmica até nos dias de hoje. Uma moça livre, tanto pessoal, quanto sexualmente, que não vê no homem um protetor, ou um parceiro, mas um meio para alcançar o estilo de vida que ela desejava. Ainda assim, não tão superficial a ponto de achar que o que ela faz é ideal. Somente não acredita no ideal. A curiosidade de Holly quanto ao homossexualismo é completamente apagada, embora as referências ao possível desejo incestuoso com relação ao seu irmão seja mantida, embora de forma bem mais sútil. Na realidade, todo o homossexualismo foi apagado, inclusive do protagonista, que de acordo com o próprio Capote, era gay, mesmo o livro não explorando esse lado. Se o filme não explorasse esse lado tampouco, não haveria problema, mas parece que os responsáveis pela adaptação queriam modificar o narrador por completo.

Existia no livro, um interesse romântico entre o narrador e Holly, mas era um tanto relutante e surpreendente para ele. Enquanto na adaptação ele é uma espécie de gigolô, sustentado por uma senhora rica, e não só se apaixona por Holly, como também... não vou dar spoilers, está decidido.

Muitas pessoas que leram o livro, não gostaram da interpretação de Audrey para Holly, nem mesmo Capote, que via sua amiga Marilyn Monroe no papel. É verdade que a personalidade de Marilyn é mais compatível com a personagem, contudo, o jeito, a delicadeza, a simplicidade e a beleza humana de Audrey me convenceram de que a interpretação não foi ruim, toda a falha é de responsabilidade do roteirista e da época. Não vou entrar no mérito de qual atriz seria melhor, pois não poderia ser imparcial. Acho que ambas fariam um trabalho igualmente interessante, em suas diferenças.

Se você for um desses idiotas que precisa ter os genitais de seus sentimentos esfregados a todo o instante, somente veja o filme e ignore o livro. Se você estiver atrás de uma excelente história e experiência cultural, veja os dois, mas o filme primeiro.
 
Nota: livro: 4,5 / filme: 4,0 (antes da leitura); 3,0 (depois da leitura)


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sinfonia do Proletariado Pós-Moderno


Tap-tatata-tatap-tap-tap, click; cli-click; tap-tatap
o cheiro de café invade a sala e o telefone toca
Bom dia, como posso ajudá-lo? ... E quem gostaria? ... Só um momento, vou passar a ligação

Pode tirar umas cópias disso aqui?
Confere essa documentação pra mim?
Já mandou aquele e-mail que eu te pedi?
Todos pedem ao estagiário, que aceita como um crente temente ao seu deus

 Hahaha, já viu isso aqui antes?
O que aconteceu na novela ontem? ... Não diga!

O dia é cinza, a chuva cai e está frio lá fora - dentro a temperatura é artificial
Chega um cliente e todos limpam as mesas e todos calam a boca

Como vai senhor não sei quem? O gerente o está esperando. Aceita um café?
Tap-tap-tap-tatap-tataptap, passa aquele documento pra mim, por favor
Uma água, um café, uma água, mais três cafés

                                    Por que o container do cliente tal ficou no porto?
Quem foi o filho da puta que conferiu essa documentação?

A pessoa se revela e os tambores rufam

O machado é preparado para ser derrubado em seu pescoço, enquanto os súditos, o cliente e a direção, aplaudem em êxtase e pavor
a lâmina fria cria mais uma vítima

taptap-tatatatap-tap-tap ... tap ... tatap ... pá! pá!
Travou essa merda!

eu quero isso pra ontem! – um grita

tá quase – outro responde


ouvi que a mãe de não sei quem foi internada
e a filha de fulano que é sapata
não diga!
pois digo e repito
nada disso importa, não aconteceu em meu cubículo

click-click
o relógio marca o fim do dia
até amanhã

o dia acaba, mas é eterno

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sirva o exército, menino!

“Todo jovem, ao completar dezoito anos, deve se direcionar ao posto militar de sua cidade e cumprir com o alistamento obrigatório”.

Quem nunca, na infância ou na juventude, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras na televisão e no rádio. O exército foi uma de minhas fobias de criança, com aquelas propagandas em que um homem uniformizado e autoritário, gritava palavras incoerentes sobre responsabilidade e amor à pátria para uma fileira de jovens. Não entendia realmente como funcionava aquilo e quando perguntava aos meus pais, ouvia sempre que meu pai fora dispensado por excesso de contingente, e meu avô por ter pés chatos – esse último caso geralmente era complementado pela minha mãe observando que “meus pés eram bastante côncavos”. Aos seis anos de idade, eu não fazia ideia do que significavam essas palavras, contingente, pé chato, pé côncavo, mas formava, ainda assim, suposições infantis e surreais das quais hoje já não me recordo.

Quando eu atingi a maioridade e tive que me alistar, juro que estava tão ocupado com outras preocupações, que só parava para pensar que aquele era o ano do exército quando tinha que fazer algo relacionado a isso. Estava sozinho, tinha acabado de me mudar para um apartamento em uma cidade distante da minha terra materna, começado uma faculdade e um emprego. Meus devaneios pertenciam a essas preocupações – os novos gastos, a família distante, os amigos abandonados, a namorada perdida, os horários corridos, ocupavam minha mente mais do que qualquer outra coisa. Na verdade, lembro-me que nessa época, minhas esperanças estavam em um pedaço de legislação que havia pesquisado no ano anterior que dizia, mais ou menos, que pessoas com ideologias filosóficas ou religiosas contrárias ao exército poderiam ser dispensadas. Era simples, no dia do alistamento, diria a pessoa responsável pelas inscrições que sou pacifista e, portanto, deveriam me liberar. Criei coragem e, no dia do alistamento, disse exatamente isso à atendente, que me respondeu com um sonoro “e...?”, enquanto me intimidava com um olhar de nojo, esperando que eu reagisse de alguma forma. Gaguejei um pouco, mas respondi que a lei mencionava que pessoas de ideologia religiosa ou filosófica contrária ao exército, poderiam ser liberadas. Ela me olhou como se não tivesse entendido e disse que aquilo só era válido para adventistas.

Acreditei naquela exceção. Poderia não ser verdade, mas, considerando as liberdades que os adventistas andam recebendo, era muito possível que eles sejam os únicos com o poder de receber dispensa automática do serviço militar. Aparentemente, eles fossem os únicos pacifistas oficiais do Brasil, mas isso é outro assunto.

Não tinha jeito, tinha que me alistar, no entanto isso não significava nada. Teria que esperar uns meses, me direcionar novamente até a secretaria do exército – que ficava a uma considerável distância da minha casa – para que me informassem se eu tinha sido selecionado para a segunda fase, que consistia de uma série de testes que eu logo lhes direi quais foram.

O dia dos resultados chegou logo, mas a essa altura eu já sabia que teria que fazer todos os testes, seguir até a última etapa antes da dispensa. Não tinha nenhum motivo para pensar assim, entretanto me parecia bastante óbvio que eu teria que seguir por todas as etapas. A secretaria era uma sala pequena, com aparência antiga e duas mulheres de meia-idade atendendo com um humor condizente a aparência. De vez em quando, um homem uniformizado passava e gritava instruções para as senhoras, tive medo que aquilo se tornasse minha vida – ouvir gritos de um idiota. Na parede tinha um quadro pendurado e orgulhosamente moldurado com os dizeres do juramento a bandeira. Devo ter lido compulsoriamente aquele quadro três ou quatro vezes enquanto aguardava os jovens que, antes de mim, recebiam suas condenações. Ao meu lado estava outro rapaz, acompanhado do pai orgulhoso por ter um filho que desejava seguir carreira militar. Sabia disso, pois ele não parava de falar sobre como o exército lhe foi uma experiência magnífica, como era importante o exército para ensinar responsabilidade a um jovem e toda uma série de coisas que, depois de algum esforço, consegui ignorar, graças à placa do juramento que me servia como chama de vela para meditação. A cada frase ele dava um tapa no ombro do filho, que sorria olhando para o pai como para uma estátua divina de Ho Chi Mihn.

Dirigimo-nos, eu e o orgulho do papai, praticamente ao mesmo tempo, à mesa em que se encontravam as duas senhoras, que naquele momento, já pareciam estar mortas. Eu recebi um papel que dizia que eu fui aprovado para a segunda fase, com o endereço do local onde seriam realizados os testes para a aprovação final. Não me surpreendi, até que ouvi choro. Ao meu lado, o aprendiz de soldado chorava, dizendo:

- Mas por que não, senhora? Eu quero me alistar! Eu quero servir à pátria! – algo me levava a crer que o pai da figura, ao ouvir estas palavras, teve o orgasmo mais bizarro de sua vida.
- Desculpe menino, mas não a nada que possamos fazer. – gritava o uniformizado, que surgiu do nada ao ver o choro do menino-modelo.
- Mas é o meu sonho... – seu pai teve orgasmos múltiplos, e o uniformizado uma indiscreta ereção, eu imaginava.
- Você estuda, meu jovem? Faz faculdade? – indagava o uniformizado.
- Engenharia naval - fungou e enxugou os olhos.
- Então! Vá estudar, aproveite a juventude. Essa sua faculdade vai te permitir um cargo bom no exército, caso você queira mesmo seguir carreira no futuro.

Enquanto esse diálogo acontecia, eu me direcionei ao cadáver que me atendia e sussurrei:

- Vocês não podem dar a minha vaga para esse coitado?

Ela não me respondeu. Só me olhou com reprovação e desgosto, o que me silenciou até o fim do processo. Por algum motivo, eu esperava um sim ou um riso, mesmo que isso fosse totalmente fora da personagem que a atendente interpretava.

Era isso. Eu, um estudante de comércio exterior, fisicamente inapto, contrário ao exército e indisciplinado, “roubei” a chance de um futuro engenheiro naval, responsável, amante do exército e com sérios problemas psicológicos (esse último é uma adivinhação minha). Qual é o critério dessa seleção? A intenção é gerar uma nova geração de soldados competentes ou simplesmente ser um grande inconveniente para o “pós-adolescente” avesso à vida de soldado? Restava-me aguardar os testes e o resultado final.

Naquela época eu era relativamente novo na cidade. Conhecia os lugares que eu frequentava, mas os nomes de rua e bairros para mim eram outro idioma. Ao ler o endereço, precisei buscar um mapa na internet. No grande dia, o imprimi e sai pelas ruas com ele, às cinco e meia da manhã (o teste era às oito, mas tinha medo de me atrasar), fazendo consultas a cada esquina, para garantir que estava no caminho certo. Já no meio do caminho, percebi que havia um erro na impressão e estava seguindo o caminho errado o tempo todo. Procurei pedir informação, mas é difícil falar com as pessoas antes das seis. Aproximei-me de uma varredora e lhe pedi informações, ela me indicou para a direção contrária a que estava seguindo. Chegando ao local onde deveria ser, - de acordo com a varredora - a base da Marinha (única possibilidade de alistamento em Itajaí) na qual se realizariam os exames, não encontrei nada que pudesse me servir de indicação. O único ponto de referência que tinha era o Mercado Público, que eu não sabia onde ficava e nem a varredora que eu abordara antes. Falei então, já depois das sete, com outra varredora, as únicas pessoas dispostas a ajudar no período da manhã em Itajaí. Essa sabia onde ficava o tal Mercado Público e, com o seu sotaque peixeiro irritante, disse:

- Vish nego! Pra chegar no Mercado Público tens que ir toda vida reto na direção da Igreja Matriz. Aquela igreja lá longe, ‘tas vendo?

Eu via a igreja. Ficava longe, mas era enorme, então servia de ponto de referência na cidade, independente de onde se estivesse. O que me irritou foi que, no momento que falei com a primeira varredora, estava razoavelmente próximo da igreja. Como poderia ela não saber onde ficava o Mercado se estávamos tão próximos dele? “Ela quis foder com a minha vida!” – pensei. Mas pouco importava, tinha que percorrer um longo caminho e não me restava muito tempo.

Consegui chegar as cinco para as oito, na praça onde fica a igreja. Encontrei um grupo de taxistas e perguntei em que direção ficava o Mercado Público. Um deles me direcionou para uma rua pela qual eu segui, até perceber, no meio do caminho, um homem vestido com o uniforme do exército e cabelo raspado. Perguntei se ele era da Marinha e ele afirmou. Acompanhou-me até o local do exame. Já estava uns quinze minutos atrasado, mas aparentemente não importava. Fui recebido por um marinheiro que perguntou se eu estava lá pelo alistamento obrigatório. O cansaço da caminhada de três horas me deixou razoavelmente hostil. Não ajudou que, para diminuir minhas chances de aprovação, no dia anterior eu fui ao mercado e comprei uma garrafa de uísque qualquer para me embriagar (isso sim deveria ser o dever de todo o jovem ao cumprir dezoito anos), só para fazer os exames de ressaca. “Onde está o Mickey, Pato Donald?” – pensei em responder, mas tive medo que ele fosse uma das autoridades que é crime desacatar. Então simplesmente afirmei e o segui até a sala de espera, na qual se encontravam dezenas de jovens que aguardavam seu nome ser gritado por outro uniformizado, que ficava em frente de um computador anotando as informações dos examinados.

Esse processo seria muito mais rápido se o militar em questão soubesse usar mais de um dedo para digitar. Por isso meu atraso foi irrelevante. Cheguei lá às oito e vinte, mas só fui chamado depois das nove.

Começou o tal teste. Fomos encaminhados para uma espécie de sala de aula, com carteiras e quadro negro. Lá um marinheiro, de cargo superior ao pato Donald da recepção, gritava instruções. Ficava imaginando o quanto o governo não gastava com pastilhas para a garganta para os soldados.

- O teste se divide em: um exame vocacional e intelectual, um exame físico e uma entrevista. O exame intelectual se divide em testes de lógica, matemática e engenharia mecânica.

Ao ouvir isso, lembrei-me do engenheiro naval e de como ele seria muito mais apto para tais testes do que eu, um simples auxiliar de exportação de uma firma de despacho aduaneiro. Até que eu li a prova e vi que pouco importava a aptidão do candidato. Qualquer um que tivesse passado pelo ensino fundamental, talvez nem isso, conseguiria fazer estes testes. Queria muito errar as questões, mas tinha medo que minha tentativa se tornasse óbvia. Tive que disfarçar e fazer parecer que os erros eram um acidente. Contudo, não deveria me preocupar com isso ainda. Primeiro teria que completar o exame vocacional. Já tinha feito um desses, o resultado foi “algo na área de humanas ou gestão”, nada nem sequer remotamente similar à militar.

Até hoje questiono a lógica daquele teste vocacional. Tínhamos uma série de quadros ilustrados indicando cada uma das possíveis áreas de atuação de um militar, com isso, marcávamos aquela que nos parecesse mais agradável. Um dos quadros tinha como opções: Operador de linhas telefônicas; operador de lança-chamas; mecânico; motorista. – Escolhi operador de linhas telefônicas, não sabia quais eram as funções, nunca operei uma porra de linha telefônica, mas estava escolhendo sempre a opção mais distante do serviço militar regular. Em outra questão dessa série, marquei que gostaria de ser médico, afinal todo o assistente de exportação que se preze, sabe realizar cirurgias emergenciais.

O maior dos insultos foi o exame intelectual e lógico. Principalmente por causa do fiscal da sala, que nos ficava rodeando e pressionando, como se aquele fosse o teste mais difícil concebível pela humanidade. Não vou falar sobre o teste de lógica, pois até hoje não o entendi, mas o tal teste intelectual foi, possivelmente, o mais fácil que eu já vi em toda a minha vida. Tão fácil, que o mais difícil era escolher uma opção errada que não parecesse tão forçada e levantasse suspeitas das minhas tentativas de forjar os resultados.

Uma das perguntas tinha o desenho de um balde, nele estavam marcados cinco pontos diferentes, um no topo da alça, e quatro em cada “extremidade”, superior e inferior do balde... balde de metal. O texto era: considerando a imagem abaixo, em qual dos pontos o soldado deve amarrar uma corda para erguer o balde sem derramar uma gota d’água? – Marquei que o ponto correto era o inferior direito. Não sei como amarraria uma corda nesse ponto, já que a corda teria que passar por dentro do balde de metal sólido, mas pouco me importava.

Durante a prova de matemática, o fiscal ficou ainda mais excitado e passou a pressionar os possíveis recrutas ainda mais, dizendo que “matemática é sempre difícil, mas um soldado deve ser rápido durante situações extremas”. A situação extrema, para ele, era o problema “2+5+3-4”, que, para mim, era igual a 14. Terminei a prova com tempo de sobra, o que chamou a atenção do fiscal, mas ainda teria que esperar o resto da sala, até que cada um de nós seria chamado, em grupos de três, para ainda outra sala, na qual seria realizado o exame físico.

Entrei na sala, que mais parecia uma enfermaria com um quadro negro, e, antes mesmo de dizer bom dia, os examinadores, dois homens (provavelmente soldados), exigiram que eu e os outros dois jovens que me acompanhavam, nos despíssemos e ficássemos somente em nossas roupas de baixo. Os outros dois que estavam comigo, cumpriram a lei social que diz: um grupo de homens seminus trancados em um mesmo ambiente não devem fazer contato visual. Ou, pelo menos, eu acho que a cumpriram, não os olhei para verificar. O examinador pediu para que cada um de nós puxasse uma barra de ferro presa a um aparelho que, supostamente, media nossa força. Estava fraco, não tinha tomado café da manhã, e minha cabeça estava me matando por causa do uísque da noite anterior, todos esses fatores devidamente planejados com antecedência. Fiz o máximo de força possível, mas não creio que o resultado tenha sido muito satisfatório, vide os olhares de reprovação que me foram lançados. Nunca havia recebido tantos olhares de reprovação na minha vida como naquela época. Tudo ficou ainda mais estranho quando fomos chamados individualmente para um canto coberto por uma cortina. Lá o segundo examinador fazia uma espécie de inspeção genital no examinado. Toda a movimentação manual era feita pelo próprio examinado, mas mesmo assim, não estava - e ainda não estou - acostumado a manipular meu pênis em frente a outro homem, ainda mais um que nem me deu bom dia. Mas o pior de tudo foi que ele nem me ligou no dia seguinte.

Todo o constrangimento passou, estava sendo direcionado para a última fase dos exames – a entrevista. Fui encaminhado para uma fila, relativamente curta e que se movia rapidamente, ela levava até o escritório do responsável por aquela área da Marinha. Não sei seu cargo, não me importava o suficiente para descobrir. Estava cansado, com fome e me sentindo péssimo, então ficava feliz ao ver que as entrevistas eram breves.

Chegou a minha vez, entrei e recebi autorização para me sentar.

- Seu nome é... Raphael Sal...cedo? É isso? – ele começou, com uma voz firme e desnecessariamente alta.
- Isso mesmo. – todas as minhas respostas foram curtas, cansadas e em voz baixa. Basicamente um oposto ao entrevistador.
- O senhor... Me desculpe a pergunta, mas hoje em dia ela é necessária. O senhor é homem?

Em minha mente se passaram as mais diversas respostas para essa pergunta, entretanto, tudo que eu queria era fazer a entrevista, receber o resultado e ir embora. Queria esquecer de todo aquele dia. Então eu segurei o “depende, na verdade só transo com árvores, e às vezes... elas transam comigo” na garganta, respondi que sim e seguimos em frente. Mais tarde, ao visitar uns amigos em minha cidade natal, ouvi que um deles tinha dito ser homossexual. Ele foi dispensado na hora. A única coisa que lhe disseram ao sair foi: - “Vê se come uma bocetinha um dia desses, rapaz!" – Em retrospecto, deveria ter feito o mesmo, ou mantido minha versão ecologicamente correta.

- Você estuda comércio exterior? Há quanto tempo?
- Comecei esse ano, então, uns quatro meses.
- Muito bom. Tem interesse em se alistar?
- Não. – ele riu da minha resposta rápida. Acho que ele ainda não tinha terminado a pergunta quando eu respondi.
- Vou ver o que posso fazer por você... Sabe nadar?
- Não, senhor.
- Se alistando pra marinha sem saber nadar?! Como assim? – ele parecia indignado pela falta de lógica (eu não o culpo...), contudo, Marinha é a única opção de alistamento em Itajaí, e ele sabia disso melhor que eu. Não apontei a estupidez do seu comentário, novamente, por medo do famigerado desacato, que pode incluir de ofensas verbais até respostas educadas, mas contrárias à vontade da dita autoridade.
- Pois é, senhor.
- Então, com você é só nos cem metros fundos?
- E sem volta, senhor.
 
Estava encerrada a entrevista e, com ela, todo o exame. Voltei à sala de espera inicial, até que um dos superiores de lá apareceu com os certificados carimbados com o resultado. Chamou os nomes daqueles que estariam dispensados, os outros teriam que aguardar por novas instruções. Fui dispensado por excesso de contingente. Não esperava o contrário, acontece que imaginava que iria ser dispensado muito antes. A sequência de surpresas desagradáveis me fez imaginar que teria que seguir o caminho todo e perder um ano da minha vida fazendo seja lá o que for que a Marinha faz.

É a isso que tudo se resume. O Brasil exige que todos os seus homens se alistem aos dezoito anos, mas como este país já é um dos que mais recebe voluntários interessados em seguir carreira, a grande maioria é dispensada. Para quê organizar toda uma série de exames e processos, se já se sabe que de nada serve? É como prestar um vestibular para uma faculdade que já distribuiu suas vagas. Além disso, por que o exército militar brasileiro, mesmo que este não recebesse voluntários o suficiente, precisaria de tantos recrutas? O último grande desempenho brasileiro em guerra foi durante a 2ª Guerra Mundial, e por grande, eu realmente quero dizer quase relevante. É verdade que nossos soldados foram úteis em muitas batalhas, mas a ausência brasileira não significaria a vitória alemã. Todos os recentes esforços do exército para a ocupação das favelas não deveria existir. Ocupar favela é serviço de policial, não soldado, no entanto, como a polícia não está preparada para grandes operações, o governo utiliza o exército como tapa-buraco. Como o Brasil é o país da gambiarra e do jeitinho, não adianta discutir. A não ser que haja uma espécie de Revolução Francesa por aqui nos próximos cinco anos (guilhotina inclusa), não haverá nenhuma mudança nesse sistema. Junto da minha dispensa, recebi o horário, data e endereço do Juramento à Bandeira, independentemente do que se passava pela minha cabeça.

O mais perturbador foi ver de perto a arrogância dos militares. Nunca simpatizei com esse grupo, acho que o mundo seria melhor sem eles. Militar é como um advogado, se a humanidade fosse perfeita, eles não seriam necessários. Durante o juramento à bandeira, fui obrigado a ouvir o responsável pela cerimônia proferir a palavra “civil” mais vezes do que eu escrevi a palavra “exame” ou “teste” nesse texto. Não há problema nenhum com essa palavra. Civis são todos que não fazem parte do exército de um país e, portanto, devem por ele ser protegidos. Além disso, pagam, por meio de tributos, o salário de cada soldado, sargento, general e almirante. O militar é um agente de segurança do governo, que existe para a proteção da soberania e do povo de uma nação, não necessariamente tornando-o superior àqueles cujo seu dever é proteger. A única ocasião em que militar é superior ao civil é durante um governo militar, o que já aconteceu no Brasil e, para não dizer coisa pior, não deu muito certo e, graças a Shiva, terminou. Foi justamente o contrário que presenciei na cerimônia.
 
O homem cujo título eu não me dignei a descobrir, tinha um tom de desprezo claro em sua voz, sempre que nos dizia que aquele momento significava que nos manteríamos como civis. Era possível sentir o nojo em sua pronúncia sempre que ele dizia essa palavra.

Mas de tudo isso, o maior absurdo é que, mesmo depois de tantos anos de opressão em uma ditadura militar - 0pressão esta, de consequências ainda desconhecidas, muitas vítimas ainda não foram encontradas -, o país ainda força seus jovens a fazerem parte dessa instituição que realizou um golpe de estado. E como se não bastasse, desse-lhes autoridade o suficiente, para tratar o povo, seus empregadores, como lixo. Em minha utopia pessoal, o Brasil dá fim ao exército militar. Os desempregados são incorporados à polícia militar, assim como todo o armamento e fundos de investimento. Guerras não são uma ameaça para esse país, mas mesmo que fossem, não é como se o exército brasileiro fosse capaz de gerar grande resistência, perderíamos em algumas semanas, salvo se o inimigo fosse a Bolívia, porém, até nessa hipótese, tenho minhas dúvidas. Tornaríamos uma força obsoleta, em uma força útil. O alistamento deixaria de ser “voluntariamente obrigatório”, como é hoje, e seria como na polícia, concurso. Não haveria mais riscos de uma nova ditadura militar (não que haja hoje, mas nunca se sabe), a polícia teria fundos, pessoal e armamentos, e os jovens do amanhã não terão que passar pelo que eu passei.

Quanto a mim, ao sair do juramento a bandeira – tendo mantido o silêncio durante a parte que dizia sobre “morrer pela pátria” -, passava do meio-dia e sol estava forte. Avistei não muito distante, um bar, e nele uma mesa na qual se encontrava um grupo de pessoas se refrescando com cervejas. Pensei em ligar para a empresa na qual trabalhava e inventar algum atraso na cerimônia, avisando que não voltaria após o horário de almoço, indo, então, juntar-me às cervejas, mas não poderia. Invejei-os por um instante e fui ao trabalho.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Em meus sonhos com ela - parte 2


Esmeralda sempre mantinha um tom de sarcasmo e desconfiança ao falar de Nuna. Como se, por ser mulher, ela soubesse da minha situação de prisioneiro emocional, pois já mantivera alguns homens nesse estado, por isso, sentia que ela a desprezava e, ao mesmo tempo, tinha pena de mim. No entanto, não sei ao certo. Esmeralda era também muito inocente em alguns momentos, pois foi muito protegida durante a adolescência. Costumava se impressionar com as coisas mais casuais e rir das piadas mais antigas. Tinha também um vocabulário limitado, em se tratando de sacanagem. Não fazia muito tempo, aprendera comigo e os outros homens do escritório, o outro significado da palavra rola, que ela conhecia somente como a espécie de passário, assim como outras expressões populares.

Acontece que Esmeralda já tinha me visto fazer favores para Nuna. Favores difíceis e trabalhosos, como por exemplo, copiar os resultados de uma prova em uma folha de caderno e passar, discretamente, para ela, de modo que ela obtivesse as respostas. E raramente a via retribuindo esses favores, no entanto, era eu que não aceitava suas tentativas de retribuição. Era isso que minha companheira de trabalho não sabia e, por isso, ela era hostil perante minha amiga. Buscava explicar a situação, mas ela não parecia acreditar, e tampouco me importava o suficiente para insistir. Queria encerrar o assunto logo, pois os outros funcionários estavam chegando e eles poderiam ser intrusivos, dependendo da situação. Com certeza perguntariam de quem estávamos falando, qual era minha relação com ela, por que só amizade; entre outras questões comuns, mas que eu não gostaria de responder.

Naquela empresa, qualquer assunto, por mais superficial que fosse, se tornava uma discussão política e filosófica.  Vânia, uma mulher de trinta anos, solteira e feminista, com frequência teria seus ideais questionados e algumas hipocrisias apontadas. Apolinário, o diretor da empresa, machista declarado e orgulhoso. Tirava quinze minutos do seu dia para questionar os ideais de Vânia e, ao mesmo tempo, provocar a jovem Esmeralda, que faria um discurso de resposta, apaixonado, mas pouco coerente ou realista.

Discutiam com frequência sobre o casamento de Marco, outro funcionário. Divertido, fora de forma e com uma cabeça quase que perfeitamente redonda. Os erros que a instituição do casamento representa, os riscos de divórcio, os problemas da vida de casado. Problemas esses que Marco aceitava com algum humor, respondendo com frases como, “não se preocupem, até advogado para o divórcio ano que vem nós já arranjamos”, que costumavam irritar as duas moças. Eu costumava assistir e, vez ou outra, fazer comentários favoráveis para ambos os lados. Fazia isso, pois o casamento não é uma questão generalizável. Um casamento baseado no amor puro e simples, não vai se divorciar, não pela perfeição do relacionamento ou ausência de brigas, mas pelo vício que um sente pelo outro. A maior parte dos casais não sente isso e, portanto, se divorciam. Amor é exatamente isso, um vício que precisa ser sustentado como qualquer outro, do contrário leva à loucura.

Sempre senti que essas discussões invadiam a vida pessoal dos funcionários, entretanto nem todos concordavam e estas continuavam a ocorrer ritualisticamente. Costumava verificar meu relógio todas as vezes que as portas de vidro do escritório de Apolinário se abriam. Era um homem alto, então era possível ver de qualquer ponto da sala, seu sorriso irônico, de quem está prestes dizer alguma coisa que gerará grande discórdia e discussão. Geralmente contava uma piada machista ou simplesmente perguntava por que Vânia ainda não tinha lavado a louça, ou Esmeralda feito o café. Se tão pouco tinha a capacidade criativa para discussões tão intensas, a minha situação com Nuna não seria diferente. Estou nessa situação de amor não correspondido há três anos, mas não estou preparado para ouvir opiniões e intromissões. Não no trabalho.

Aquela quinta era véspera de feriado. Combinamos de ir a um bar após o expediente. Não queria realmente sair de casa, mas não era fácil lhes dizer não. Trabalhava lá há quase um ano e meio e todas as minhas desculpas já eram muito conhecidas. Iriam tomar umas cervejas, talvez uma dose de uísque, e o quanto antes fugiria de lá. Preferia ler um livro, ou mesmo trabalhar em um conto ou poesia que eu estava escrevendo. Tinha bebida o suficiente em casa para me inspirar, então o bar não era necessário.

Não passava das nove da noite, consegui convencê-los de que tinha um compromisso e devia ir embora. Disse-lhes que visitaria meus pais no feriado e tinha que acordar cedo no dia seguinte para pegar o ônibus.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Chris Robinson Brotherhood - The Magic Door


O leitor vai ter que me perdoar se pela metade dessa resenha eu perder a coerência, o motivo é que, sempre que faço uma resenha de um álbum, tento escrever enquanto o escuto, para passar a impressão mais direta que a música me passa. O novo disco do Chris Robinson Brotherhood (CRB para os íntimos) me fez passar pela porta mágica e entrar em alfa, estou em meio a uma viagem astral cósmica e não quero mais voltar.

Você, que assim como eu, acompanha este blog com frequência, sabe que eu já fiz uma análise de três partes da Black Crowes (banda da qual Chris Robinson foi vocalista) e CRB fez parte do finado momento cultural. Sei que existem milhares de outras bandas por aí, mas a culpa não é minha que ninguém hoje em dia é tão profissional a ponto de lançar dois álbuns em um mesmo ano, ambos excelentes, pois é, queria manter o mistério por pelo menos um outro parágrafo, mas não consegui, The Magic Door é um excelente disco. É tão bom quanto seu antecessor, mas não é mais do mesmo, é possível ouvir os dois, um após o outro, sem ter a impressão que é tudo a mesma merda (viu Rush? É possível! Vocês já foram assim um dia).

Não é um álbum para todos. Já deve ter dado para perceber que eu som fanático pela psicodelia. Se eu pudesse voltar no tempo, para qualquer momento da história, eu não tentaria salvar a Terra de um grande desastre, prevenir um assassinato, ou mesmo concertar um momento da minha vida (e olha que existem vários que eu gostaria de revisitar com meu conhecimento e experiência atual). Eu iria voltar para o período de '66 até '69. Sim, eu não me contentaria só com Woodstock, eu gostaria de fazer parte do movimento. Me juntaria a algum grupo hippie, que vagava pelos EUA, de São Francisco a Nova York em uma combi velha, com nada além das roupas do corpo, uns instrumentos velhos, qualquer esmola que nos dessem e uma plantação de erva. Gostaria de ir aos velhos Acid-Tests, o Summer of Love, Woodstock e todos os outros concertos da época. É isso tudo que esse disco representa. Toda essa era, mostrar que ela não foi esquecida ou assassinada. Está dentro de alguns de nós e, não só pode, como deve ser revivida. Tudo na história volta, então porque não o amor livre, as drogas e a música boa.

Voltando ao álbum. Não é nenhum segredo que Chris Robinson é um Deadhead da 2ª ou 3ª geração (década de 80), se ainda havia alguma dúvida, acaba aqui. Desde a primeira faixa eu pude sentir aquele clima Grateful Dead da música. Aquela mistura rock, blues, jazz, country, ácido e improviso, que só o Jerry Garcia e equipe conseguiam executar com perfeição. Jerry pode estar morto, mas não seu legado.

Todas as músicas são originais, salvo por Blue Suede Shoes; standard clássico da música americana composto por Carl Perkins e interpretado por Elvis, Buddy Holly e outros; em uma versão mais lenta e "trippy", e Let's Go, Let's Go, Let's Go do grande Hank Ballard. Outro "cover" é uma versão diferente, um pouco mais lenta e cósmica de Appaloosa, do próprio Black Crowes (não sei decidir qual versão é melhor), que por sua vez é uma das minhas favoritas, a letra é fantástica.   O álbum inteiro é uma série de pérolas em sequência. Sem pausa, sem paz, sempre em frente, como toda boa viagem deve ser. Um álbum fantástico para qualquer um que goste do velho rock psicodélico da velha e finada era Flower Power.
- Nota: 5,0/5,0 (preciso resenhar um álbum ruim um dia desses)



O álbum é bem recente, então está difícil achar vídeos bons. Outro dia adiciono uns outros.



Em meus Sonhos com Ela - parte 1


Três da manhã. Já era tarde demais para tentar dormir novamente e esperar acordar descansado. Cedo demais para despertar. A maldição “sartriana” das três horas não é exclusivamente vespertina. Esse era o quarto sonho que tinha com ela essa semana. Desde que li O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, venho me deixando impressionar com minha vida onírica, a ponto de sentir falta dos tempos em que um sonho era somente um sonho, uma representação surrealista e delirante da vida de vigília, sem simbolismo ou significado. Ainda não acreditava no significado, mas passei a tentar interpretá-los de forma amadora, nem que fosse limitado a descobrir qual desejo ele realizava - como acreditava Freud.

É verdade que, sempre que me afastava dela, seja por uns dias ou mesmo meses, passava a sonhar com ela. Mas sempre coisas simples, como ela me contando que tinha brigado com o namorado ou terminado, e caindo nos meus braços enquanto eu acordava sem nunca poder tocá-la. A interpretação era simples – quando voltasse a vê-la, gostaria que ela estivesse solteira. Deixava tudo ainda mais óbvio o fato de que o cenário desses sonhos era sempre uma sala de aula, único lugar em que nos encontrávamos. Era um sonho de reencontro, outro desejo que queria realizar e realmente o iria poucas semanas depois.

Isso aconteceu anos atrás. Agora a situação era outra, assim como os sonhos. Não a via há quase três meses. Ela desistira sem avisar da faculdade e abandonara o emprego. Nenhum conhecido a tinha visto recentemente – era um desaparecimento completo.

Tinha em minhas mãos a chance de esquecê-la. Ela não estava mais por perto, não precisaria voltar a vê-la se assim não desejasse. Essa era a fonte do meu amor, o fato de que eu tinha que me encontrar com ela todos os dias, ou quase todos. Quando ficava por mais de uma semana longe dela, vinham-me os desejos de libertação, de superação. Era como se ela soltasse as chaves da minha cela a um esticão de braço de distância e deixasse de me vigiar, entregando a liberdade ao seu prisioneiro ao custo de um esforço ínfimo. Tive essa oportunidade diversas vezes, mas a atirava pela janela com um telefonema ou e-mail. Dessa vez nem isso adiantava. Por mais que a chamasse, minha carcereira não voltava ao seu posto de vigília, como se estivesse decidida a deixar-me escapar, só não me abrindo as portas por falta de poder para tal. Sim, a prisão era dela, mas as chaves eram somente minhas. Eu, e apenas eu, poderia encaixá-la na sua fechadura, porém tinha medo da liberdade.

Esperei tanto, que ela voltou. Por acaso. Não atendeu minhas chamadas, simplesmente apareceu em minha frente de forma pouco cerimoniosa e, quando percebeu, voltara a sua posição. Estava em um restaurante self-service. A maldição do homem solteiro e solitário, que decidiu não aprender a cozinhar. Quase todos os dias, ia do trabalho àquele restaurante no meu horário de almoço. Ela também frequentava o mesmo lugar até se mudar para o apartamento do namorado, que ela orgulhosamente chamava de “nosso apartamento”, então passou a cozinhar para si e seu amado. Estava na fila para pesagem e ela na fila para servir-se. Trocamos um breve olhar, quando ela me percebeu e disse um surpreso e alegre “olá”. Era claro para qualquer um que nos visse, que não nos falávamos há muito tempo, três meses para ser exato. Então correspondi com a alegria e surpresa, embora pudesse ouvir o tilintar das chaves sendo retiradas do chão e do meu alcance.

- Que fim te levou, moça? – perguntei.
- Pois é, deixa eu me servir e depois a gente se fala.

Fiz isso. Sentei-me em uma mesa qualquer e quando a vi, com sua comida devidamente servida e pesada, lhe chamei.

- Então, onde você se escondeu que te procuro e não te acho?
- Esse semestre eu não fiz a matrícula na faculdade. – ela respondeu, parecendo um pouco triste.
- Isso eu percebi, devo ter perguntando por você para gente que nem te conhece e ninguém sabia seu paradeiro.
- Pois é. Acho que vou finalmente começar a estudar letras.
- Mesmo? Meus parabéns! – lhe disse, pondo a mão em um de seus ombros, o que lhe trouxe um sorriso.
- Era o que eu queria fazer desde início, você sabe...
- Antes tarde do que mais tarde, não?
- É. Vejamos se agora eu aprendo alguma coisa.
- E como eu posso manter contato com vossa senhoria? Não responde meus e-mails, não atende minhas ligações...
- A empresa mudou o sistema recentemente, além disso, eu recebo uns cem e-mails por dia, é fácil perder um, então acho que deve ter sido isso. Agora não sei qual é o problema do meu celular. Minha mãe diz o mesmo - que me liga, mas eu não atendo. O problema é que não aparece nenhuma ligação perdida. Passa o dia e é como se ninguém me ligasse.
- E agora? O que eu faço? Sinal de fumaça, código Morse, telegrama, pombo-correio...?
- Não sei. Tenta me mandar um e-mail a cada dez minutos, de repente eu vejo.
- A cada dez minutos? – ela confirmou com a cabeça – Tá ok, então nós nos falamos. Você não quer se sentar?
- Não, eu já vou almoçar com uma amiga. Vamos combinar de almoçar um dia.
- Se você responder meus chamados... – ela ri – De qualquer forma, nos falamos outra hora.
- Tá bom, até a próxima.
- Até, futura mulher das letras. – ela ri e segue seu caminho em direção à mesa na qual já se encontra sua amiga. – Espera um minuto! – eu a chamei de novo e ela retornou. – Você é estagiária, não é? Como você vai fazer para manter o emprego?
- Não vou. Perguntei para eles se existia algum interesse em me efetivar, mas eles responderam que no momento não. Devo sair essa semana.
- E agora, vai pra aonde?
- Pra rua. – vi um rápido momento de tristeza em seus olhos, porém muito breve – Quer saber? Foda-se essa gente!
- Isso mesmo! De qualquer forma, a gente se fala.
- Até...

O que a fez mudar de curso dessa maneira? Na última vez que conversamos sobre isso ela começou a chorar e dizer que se o fizesse o namorado terminaria com ela, pois não queria ter como esposa uma “professorinha”. Teriam eles terminado? Seria essa, finalmente, a minha chance? Procurei não criar mais expectativas. Nunca criava. Ainda na infância descobri que uma decepção é fruto direto da expectativa e, se essa é totalmente eliminada, por consequência também se extinguem as decepções. É verdade que é impossível não ter um mínimo de expectativa quanto a qualquer coisa, porém quanto mais contida, menor o sentimento de queda que a descoberta da verdade inoportuna traz. Já acontecera antes. Por algum motivo fui levado a imaginar que os dois tinham terminado, passei dias pensando nas possibilidades, até que ao nos encontrarmos novamente, vi que estava me iludindo e os dois ainda continuariam juntos. Tentei de todas as formas, conter a tristeza, com sucesso, pelo menos em sua presença, mas depois me senti devastado e mergulhei em um litro de uísque. De qualquer forma, tinha um feriado pela frente, mas logo no primeiro dia da semana seguinte, a convidaria para almoçar e sanaria minhas dúvidas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Black Crowes - Obra Completa (Parte 3)

 
 
Após o quebra-pau e o divórcio da banda após o Lions. Cada músico tentou uma carreira solo, que não realmente deu certo, embora o guitarrista Marc Ford tenha lançado um álbum excelente. Em 2006, após muita terapia, a banda se reuni e grava um CD/DVD ao vivo, com todos os grandes clássicos da banda, chamado Frek 'n' Roll... Into the Fog. Não vou perder tempo resenhando esse disco, pois é bem simples. A banda é foda, a setlist desse show foi foda e ao vivo os caras são ainda melhores que em estúdio.
 
O que realmente interessa nessa parte 3 da análise é que, após esse show, a banda continuou sem gravar nada. Até que do nada eles mudaram a formação, trocando o tecladista Eddie Harsch e o guitarrista Marc Ford (ambos favoritos dos fãs), por Adam MacDougall (não sei do currículo desse cara, mas ele é um bom tecladista) e Luther Dickinson, o guitarrista e vocalista da banda North Mississippi Allstars, que por sua vez, é foda pra caralho. Essa nova formação gravou em 2008 e 2009 dois álbuns em um estúdio em Woodstock.
 
Warpaint (2008)
 
 
 
Eu não sei se foi a mudança na formação que diminuiu as divergências criativas e permitiu que o lado "Deadhead" da banda ganhasse voz, mas esse álbum é muito bom e completamente diferente dos seus antecessores. Na verdade, eu não gosto de comparar este e seu sucessor, com os discos anteriores da banda. A Black Crowes sempre foi conhecida pelo seu saudosismo e amor pelos grandes clássicos do passado, fazendo uso de fitas e métodos arcáicos de gravação, ao invés do digital que tornou-se padrão na indústria musical atual. Todas essas influências e paixões são refletidas claramente em Warpaint. É notável as influências do folk e do country, que era comum nas bandas da era "flower power", como The Band, Grateful Dead (essa é, provavelmente, a minha banda de rock favorita) e até mesmo Rolling Stones no fim da década de 60 (essa última, a Black Crowes já foi acusada por vários críticos, de copiar descaradamente. Eu discordo. A influência existe e é óbvia, mas não é uma cópia exclusiva. Quando uma banda cópia cerca de 5 ou 6 outras bandas diferentes, essa pode ser chamada de original - quase como um filme do Tarantino). A psicodelia também está presente, as letras são poéticas e a improvisação tornou-se ainda mais presente. Pra mim esse é um dos melhores discos da banda e um dos melhores dos anos '00 (é assim que chamam a primeira década dos anos 2000?).
- Nota: 4,5/5,0
 
 
 
  Sem comentários cômicos dessa vez... Tá bom, eu não aguento, quando foi que o vocalista virou Jesus?
 

 
Before the Frost... Until the Freeze (2009)
 
 
 
Agora a banda botou pra foder. Esse álbum é perfeito. Before the Frost reune o rock psicodélico; o country; o folk; uma faixa meio disco, mas ainda assim muito boa; os improvisos de sempre, enfim, tudo que a banda tem de bom, está nesse álbum, e como se não bastasse, se você estiver em um clima mais relaxado e quiser um álbum mais acústico e quase puramente folk, aqueles que compraram o álbum original, receberam inteiramente "de grátis" o direito de baixar o ...Until the Freeze, que é justamente isso. Ou seja, é perfeito e capaz de agradar a qualquer um que tenha um mínimo de bom gosto. Se você não gosta desses discos, saia já deste blog! Esse território não é pra você, infiel!
 
Isso não é tudo. Pra completar, o álbum foi gravado inteiramente ao vivo no estúdio, com uma platéia de 300 sortudos. Você que lê isso, talvez não leve música tão a sério quanto eu e não consiga perceber o quanto isso é arriscado e difícil de se fazer, mas saiba que, nenhum, repito, nenhum músico hoje se arriscaria a fazer uma coisa dessas. Isso se chama profissionalismo e amor pela música. Eles estavam pouco se fodendo se a reação inicial fosse negativa, eles sabiam que o trabalho era bom e, se alguém pensasse o contrário, estaria errado. Mesmo assim não aconteceu, é possível perceber em meio aos aplausos que dividem as faixas, que todos estão adorando as músicas e se sentindo naquele clima hippie, quando os músicos eram humanos e amavam sua obra e aqueles que compartilhavam desse amor. Isso, meus caros, é música!
- Nota: 5,0/5,0
 
 
 
 
Sim, é exatamente isso que vocês estão pensando, existe uma música disco boa nesse universo!
 
 
 
Sem mais, se antes desse post, você não conhecia essa banda. De nada.
 
 
Tá bom, tá bom. Um cover do Velvet Underground pra encerrar.