Páginas

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

The Good, the Bad and the Ugly (Três homens em conflito)



Quem acompanha esse blog com assiduidade - eu -, sabe que há algum tempo eu fiz uma referência a esse filme em um post, mas exatamente na minha resenha de Cavaleiro das Trevas Retorna, com a frase "If you ought to shoot, shoot! Don't talk!", pra resumir um determinado problema que eu tive com aquele filme. Essa frase me fez querer rever a obra-prima do Western que é "O Bom, o Mau e o Feio" - sim, traduzirei o título literalmente, pois a tradução, como de costume, é uma merda.

O que dizer da terceira e melhor parte da trilogia dos dólares de Sergio Leone? Que ele quebrou o estigma do western, de ser um filme de americanos para americanos, excessivamente inocente e próxima de ser racista? Que deu fama ao brucutu mestre, Clint Eastwood? Que quebrou até a maldição do terceiro filme, tornando-o melhor que seus antecessores (embora não sejam continuações diretas ou sequer use um mesmo personagem, ainda é uma "sequência"), mesmo estes sendo muito bons por sua vez? Tudo isso. Esse filme fez todas essas coisas e é por isso que se tornou um clássico.

Se você está lendo isso e pensando: - "Que filme é esse?" -, normalmente eu pediria que você saísse da minha casa (esse site) e nunca mais voltasse. No entanto, hoje eu estou me sentindo um tanto tolerante, então eu te darei uma chance de minimizar esta página, ir correndo até a locadora mais próxima, assistir às maravilhosas três horas que constituem esse filme, voltar e me dizer se eu estou errado. Se mesmo depois de tudo isso, você ainda achar que eu estou errado, vá pra puta que te pariu!

O filme é sobre esses três caras. Um deles é bom, o outro é mau e o outro é feio (nem bom, nem mau, só canalha mesmo). Simples, nada confuso ou extraordinário, mas ainda assim consegue ser surpreendente, violento, engraçado e até politicamente crítico (sobre a guerra civil americana). Três homens, um tentando foder com o outro em busca de uma fortuna. Todos os três se tornam uma peça do quebra-cabeças que esconde essa fortuna, portanto, essenciais. Além disso, eles são fodas de mais para poderem se matar. Isso mesmo, esses três caras são fodas. Sabe aquele filme que todo mundo fala sobre? Mercenários, que juntou todos os grandes Action Heroes em uma porrada só. Todos eles, chorariam diante da pauduressência do bom, do mau e do feio, principalmente do Clint Eastwood, que é o mentor, o pai de todos eles.

O Bom, o Mau e o Feio, é um filme divertido e rápido, mesmo tendo três horas de duração. Quando você perceber, já estará na cena do grande conflito final, quando os três se encontram no cemitério, local onde se esconde a fortuna. Não sentir arrepio nessa cena, é como não chorar em filme de cachorro - teste para psicopatia. A atmosfera dessa cena é espetacular. Graças a direção do Sergio Leone, misturada com aquela trilha sonora do gênio, Ennio Morricone, um dos melhores compositores do cinema. Todo esse filme, bom do jeito que é, sem a trilha sonora, não seria nada. Se você viu o filme e não reparou na música, qual o seu problema?! Não importa, procure o CD e escute. Absolverei seus pecados depois disso. Você que não viu o filme, preste atenção nos detalhes, na música, no diálogo, nos ângulos de filmagem, faça isso em todo o filme que você assistir, na verdade, mas nesse principalmente, e sinta a genialidade.

É claro que o filme tem seus problemas, entretanto o filme não é bom quando ele é isento de problemas, mas quando ele é bom o bastante para te distrair dessas falhas e é exatamente isso que ele faz. Eu disse agora que o filme pode ter problemas no roteiro, ou coisa assim, no entanto, sinceramente, eu não faço a menor ideia.

Assistam esse filme. Não é melhor da história, mas é excelente e está no meu top 50, mesmo que eu nunca tenha reunido coragem o suficiente para listar meus filmes favoritos.

Nota: 5,0/5,0

Agora corra ao redor de um cemitério!

Rush - Clockwork Angels (2012)


Pois é, alguém mais não fazia a menor ideia de que o Rush estava pra lançar um álbum? Tinha me esquecido completamente da existência dessa banda, mesmo tendo gostado deles por tantos anos. Hoje pode-se dizer que vivo uma relação de amor e completa indiferença com essa banda. Não acho que, após o Moving Pictures, eles tenham feito algo que mereça algum destaque. Depois de 1981, eles sofreram com o que eu chamo de maldição da década de 80, e foram de uma banda original, técnicamente proficiente e extremamente divertida, para massa de construção. Essa metamorfose aconteceu com a maior parte das bandas da década de 70, em um período de tempo assustadoramente curto. Genesis, depois de anos de obras-primas do rock progressivo, gravou Invisible Touch e mais uma série de outras músicas pop. Yes gravou Owner of a Lonely Heart, música que até hoje me causa uma dormência no rosto toda a vez que escuto, só estou vivo ainda, pois nunca escuto essa música. Não quero comentar o que aconteceu com o Deep Purple e o Rainbow nessa década maldita. Ainda não me recuperei da depressão que foi ouvir o House of Blue Light (sem falar dos shows da época...), e quanto ao Rainbow... eu te odeio Joe Lynn Turner. O mundo inteiro te odeia.
Mas chega de falar do quanto eu odeio a década de 80 e vamos ao Rush. Sempre vi tudo que foi feito após o Moving Pictures, como uma grande massa homogênea de mediocridade. Uma música boa aparece de vez em quando, mas a grande maioria não causa nenhuma impressão - nem positiva, nem negativa. Isso é um resumo, não só da carreira recente do Rush, como também desse álbum.

O instrumental, como sempre, é impecável. Não tem como questionar a qualidade técnica desses caras. Esse é sempre o destaque em qualquer música do Rush, no entanto, a qualidade instrumental é tão comum para eles, que ninguém realmente espera o contrário. É como se isso nem adicionasse para o conteúdo do álbum, pois o contrário seria impossível. O estilo segue o que foi feito no Snakes and Arrows (2007), uma mistura do melhor das eras do Rush. Tem os sintetizadores, o rock complexo e as letras interessantes, mas mesmo assim, fica a impressão de que tem algo faltando, de que esse não é o Rush que nós conhecemos e aprendemos a amar. A impressão que ficou é de que Clockwork Angels é um álbum frio, embora bem-intencionado. Diria que falta aquele ânimo comum nas músicas deles, o senso de humor bizarro e quase imperceptível. Não senti isso nesse álbum, ou talvez não tenha dado a atenção merecida a letra.

Não sei quais faixas destacar, pois todas me deram a mesma impressão. Agora mesmo, enquanto escrevo e escuto o álbum para garantir que não vou deixar nada passar, mal posso perceber qualquer diferença entre as faixas. Todas seguem um padrão, com algumas passagens mais cadenciadas e cheias de eco, com momentos técnicos e rápidos, comparável com um Dream Theater da década de 90, só que menos pesado. Não é um álbum ruim, mas está longe de qualquer uma das obras boas do Rush, sugiro que escutem e formem uma opinião própria. Pra mim, essa foi minha segunda e última audição, pelo menos por enquanto.

- Nota: 3,0/5,0

Tá, essa faixa é legal pra caralho, mas o resto... é tudo muito igual pro meu gosto.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Palestra.


Como ele odiava aqueles dias. Trabalhava das oito da manhã às seis da tarde e ainda tinha que ir à faculdade. Pelo menos aquele era seu último semestre, precisava apenas entregar a monografia em outubro e estava terminado, sendo aceita - pouco lhe importava o resto. Apresentações nunca lhe foram uma dificuldade, conhecia seu tema e não tinha dificuldade em falar em público. O problema seria entregar a tempo. Mal podia esperar pelos dias em que finalmente teria as noites livres para trabalhar em sua escrita.

Essa noite, especificamente, era de palestra, e uma palestra especial em comemoração aos dezoito anos de uma empresa pertencente à faculdade, que tinha por objetivo auxiliar os alunos com experiência profissional. Foi lá que começara. Dez meses de trabalho voluntário. Era simples, mas a falta do dinheiro era angustiante, pior ainda era a quantidade de rejeições que recebera em entrevistas de emprego naquela época. Mantinha registro, mas depois do quinto mês de insucesso, perdera a conta. Tinha por aquela empresa um sentimento de nostalgia, coberto por memórias desagradáveis que ele buscava ignorar, pois não levavam a nada. Sentia que aquele tempo em que trabalhara para eles fora uma perda de tempo. Poderia facilmente ter buscado uma dessas empresas que pagam mal, mas contratam qualquer um. Passado um tempo de experiência, poderia procurar uma empresa melhor. Seu destino seria o mesmo, mas teria sido pago durante todo o percurso. O problema não era só o trabalho voluntário, lembrava ao chegar ao teatro da faculdade, todos aqueles estagiários vestidos formalmente, os homens de terno e gravata, as mulheres de camisa social e saia, maquiadas como se estivessem em um evento de gala; lembrou-se do dia em que estava naquela situação e sentia, mais do que nunca, que tudo havia piorado naquela empresa. Se antes já lhe existia a impressão de que, talvez, o objetivo daquele lugar não fosse auxiliar os alunos, mas sim massagear o ego da reitoria, naquela noite se tornara óbvio.

Viu, entre os ternos e as saias, um rosto conhecido. Não era exatamente um amigo, mas conversaram algumas vezes nesses últimos três anos de estudo. Não fazia ideia de que ele trabalhasse lá. Parecia mais inteligente que isso. Seu conhecido, cujo nome, por mais que ele se esforçasse, não conseguia se lembrar – começava com “J”, talvez. João com certeza não era, era um pouco mais longo. -, ao vê-lo entrando no teatro, o recebeu e entregou um panfleto sobre a empresa.

- E aí, Rafael, como vai a vida?

“Merda! Ele lembra meu nome, agora vai pegar mal se eu perguntar. Vou fingir que sei e simplesmente dar um jeito de seguir com essa conversa sem falar nenhum nome.” - ele pensou.

- Vão bem, na medida do possível. Tá trabalhando aqui agora?
- Pois é cara. Pra ver se eu aprendo alguma coisa sobre comércio exterior.
- Eu sei, já passei por isso.
- Ah, então é por isso que eu vi seu nome na lista de homenagens aos antigos colaboradores. – interrompeu lembrando Rafael de que ele sabia seu nome, enquanto ele esquecera o dele.
- Pois é.
- Já fez a inscrição para a palestra?
- Já, pela internet.
- Tá certo, então. Pode entrar.
- Ok, boa sorte.

Seu conhecido agradeceu rindo, e Rafael adentrou o teatro. Reparou nas pessoas da recepção. Novos funcionários, nenhum colega de trabalho se mantivera por lá, alguns já haviam até se formado. Era toda uma nova geração de estudantes cometendo os mesmos erros, fazendo as mesmas coisas. O retrato mental que fizera daquela recepção era como uma volta ao passado, mas com pessoas totalmente novas e desconhecidas. Imaginava que cada um deles teria uma personalidade representante a um integrante do passado, fazendo, deste modo, a história se repetir de forma exata. Tinha curiosidade por conhecer aquelas pessoas, pensou até em fazer uma visita à empresa, rever os professores, sua orientadora trabalhava lá, então tinha uma justificativa. Queria apenas ver aquele velho ambiente cheio de pessoas novas. Contudo descartou rapidamente a ideia, era apenas o passado se romantizando em sua mente. Na realidade, aquilo não fazia sentido algum, seria apenas uma perda de tempo. Então perdeu por completo a vontade de conhecer aquelas pessoas, não poderia lhes sugerir que saíssem de lá na frente dos professores de qualquer forma. Seria triste, como assistir uma série de homens condenados injustamente serem levados às suas celas e, mesmo sabendo de sua inocência e com as chaves na mão, não poder abrir as portas. Viu também, próxima a porta, uma moça muito bonita, embora tivesse exagerado na maquiagem, no entanto tinha que entrar logo e sentar-se, não podia perder tempo ou fechariam a porta – hábito de chegar no último minuto sempre.

Era começo de semestre, a faculdade estava cheia e movimentada como um formigueiro desorganizado no verão. Todos se esbarravam andando em direções opostas, sempre com muita pressa. No teatro não era diferente. Ainda ia levar uns cinco minutos para a palestra começar, mas o ambiente já estava cheio. Procurou uma fileira mais vazia e sentou-se junto ao corredor. Sempre se sentava em locais de saída fácil, sempre fora paranoico quanto a emergências ou acidentes. Se houvesse um incêndio naquela hora, não seria ele que morreria carbonizado entre os escombros. Já sabia, também, onde estava a saída de incêndio e tentou de algum modo conciliar as distâncias, mas sempre com fácil acesso ao corredor. Levara consigo um livro, depois de tantos anos de palestras, já sabia com exatidão o que iria acontecer. Os funcionários da empresa fariam uma leve abertura, o coordenador do curso faria um discurso meia-boca, o reitor faria outro discurso meia-boca e ainda por cima falso e depois, para cumprir o tempo mínimo necessário, haveria uma “homenagem” aos colaboradores da empresa. Alguns vídeos com os produtos importados e exportados, outros serviços prestados e uma lista com o nome de cada um dos funcionários. Por último viria o palestrante, um homem com mais títulos do que nomes, que faria um discurso improvisado - pois se fosse previamente ensaiado, seria péssimo – de mais ou menos uma hora, sobre liderança, força de vontade e toda essa bobagem que amaldiçoa a atual geração e forma uma população de “egoístas conscientes”. Pessoas que são tão ruins quanto todas as outras, mas foram levadas a acreditar que seu egoísmo e ambição é algo positivo e, de alguma forma, ajuda o mundo. O livro que levara era “O Velho e o Mar”, sempre admirou Ernest Hemingway, poder-se-ia dizer que queria ser tão bom quanto ele um dia, era uma espécie de herói da vida adulta, o ídolo que, na infância ele nunca teve. Já havia lido alguns de seus contos e “O Sol Também se Levanta”, agora queria dedicar-se a ler sua obra completa, mas lhe faltava tempo com todo o trabalho, monografia, faculdade, escritos próprios e outras coisas necessárias para o ser humano. Usava essas palestras e até mesmo algumas aulas, para avançar suas leituras. Nesse dia, lera sessenta páginas.

Começava a palestra, justamente como havia previsto. Uma funcionária costumava se voluntariar para o discurso inicial. Não podia ver bem seu rosto daquela distância, mas já a conhecia de algumas aulas, nunca haviam se falado antes. Estava, claramente, muito nervosa, pois gaguejava com alguma frequência, que aumentava a cada novo tropeço da fala. Ao fim de seu discurso, já era possível ver que tremia. Chamou então, o magnífico, senhor, doutor, coordenador do curso de comércio exterior e diretor do centro de ciências sociais e gestão da universidade, Carlos Ferreira. Que fez o mesmo discurso do ano passado, embora ele não pudesse garantir, pois tinha realmente se prendido a leitura nesse momento. Depois dele veio o magnífico, senhor, doutor, reitor... Já não ouvia ou sequer se interessava pelo que estava sendo dito.

 A ansiosa jovem, que devia estar arrependida de ter se voluntariado para aquela tarefa e, durante os discursos dos magníficos, bebia água como se estivesse no deserto, sentada em uma cadeira de plástico na parte de trás do palco, quase invisível. Voltou e chamou seus companheiros de trabalho para receber uma premiação e tirar a foto oficial do evento. Isso era uma novidade, antes não existia premiação alguma e a foto era tirada após o termino da palestra, quando todos já tinham voltado a suas salas. Eles vieram ritmados, ao som de uma música horrível, que mais parecia ter vindo de um desfile de moda ou de uma construção futurística, como é típico da música eletrônica. Até mesmo os alunos, que em sua maioria, são adeptos desse gênero musical, começaram a reclamar do barulho. Isso não incomodava, contudo, sua leitura. Estava, pela primeira vez em sua vida, interessado em uma pescaria. Era isso que Hemingway fazia com as pessoas, não importa o quanto o leitor fosse contrário a esse estilo de vida, ao lê-lo, tornava-se instantaneamente favorável ao boxe, a pescaria, a caça e até mesmo a touradas. Sua concentração foi interrompida, contudo, pelo som de sapatos de salto alto, batendo contra o piso do teatro. O som era quase inaudível em meio a todo o barulho, mas lhe chamou a atenção. Quando viu o vulto de uma curta saia passar ao seu lado, tudo era silêncio. Fechou seu livro e assistiu passar aquela belíssima figura. Que belas pernas! Era tudo que podia ver, pois ela já havia passado rapidamente. Fitou cada um de seus passos até sua chegada ao palco, pensava que até mesmo o velho Santiago largaria a linha que prendia o espadarte só para ter em seu campo de visão aquele corpo. Quando ela se virou para tirar a foto, era a mesma da porta do teatro. Que bela mulher, nem tinha reparado que já a estava encarando por alguns minutos e quando reparou, continuou a encarar. Não era um desses homens que se virava na rua toda a vez que passava uma mulher, era discreto, lançava leves olhares que já eram o suficiente. Mas ela merecia um retrato pendurado nas paredes de um museu. Quando a foto já havia sido tirada e ela voltava a seu lugar, ele continuou a observá-la atentamente, queria ver seus olhos por um instante, mas não conseguiu um bom momento. Os viu e pareciam bonitos, mas não pode vê-los profundamente, como os olhos merecem ser vistos. Tampouco conseguiu ver ser nome em seu crachá e já sabia que não a veria novamente. Talvez pudesse perguntar sobre ela ao seu amigo que o recebera na entrada do teatro, poderia não levar a lugar algum, mas a força de vontade do velho pescador o inspirará. Aquelas pernas eram seu espadarte e ele não as deixaria escapar. Até porque, fazia mais de 84 dias que não estava próximo de nada nem ao menos parecido.

Tentou esquecer aquilo, pelo menos naquele momento, já que ela não lhe era mais visível, e voltar a sua leitura. O palestrante fez uns agradecimentos e começou a falar. Justamente como ele previra - força de vontade, dedicação e falta de humanidade disfarçada, as chaves para um profissional de sucesso. Irritou-se ao ouvir o magnífico, senhor, doutor, diretor da empresa..., expressar seu orgulho por conduzir entrevistas de emprego aos domingos pela manhã. Somente com o objetivo de testar a dedicação do funcionário à empresa. Ele queria que estes, estivessem prontos para abdicar fins de semana, para deixar o dono da empresa contratante ainda mais rico. Achava importantíssimo que se usasse a tecnologia apenas para o que é útil – nada de facebook ou coisas do gênero, somente o e-mail da empresa, de modo que o escravo estivesse sempre à disposição. Tudo isso disfarçado por discursos falsos de inteligência emocional, e como o funcionário não pode ser apenas racional, pois a empresa pode necessitar de suas emoções também. Já estava acostumado com esse tipo de bobagem, então o ignorou, já tinha motivação o suficiente com o mestre Hemingway, que não fazia uso de títulos oficiais e acadêmicos, levava consigo apenas seu nome, que lhe bastava. O que fez seu sangue ferver foi os erros de português do magnífico doutor. Isso ele não podia ignorar, a cada erro de concordância, Rafael sentia-se mais próximo de um derrame. Era o único momento em que ele se distraia de sua história, quando o magnífico errava.

Tudo passou rápido. Ele encerrou seu discurso e disse que ia dedicar os últimos quinze minutos a responder perguntas. O tempo passou e ninguém disse nada, então se abriram as portas do teatro, e devagar, os desinteressados em sua despedida saíram, assim como Rafael. Na saída, não voltou a ver aquelas pernas sem nome, talvez tivessem voltado a sua sala de aula ou estivessem ainda no teatro. Não importava, só queria voltar para casa e terminar aquele livro.

sábado, 25 de agosto de 2012

Black Crowes - Obra Completa (Parte 1)



Caros leitores, declaro agora o fim dos momentos culturais. Que fique claro, isso não representa o fim das resenhas ou o fim das sugestões, essas ainda vão acontecer, talvez até com mais frequência. A questão é exatamente essa, a palavra momento me indica algo especial e, se eu decidir fazer resenhas com mais frequência, deixará de ser especial e, portanto, um momento. De agora em diante, falarei esporadicamente sobre um determinado artista que eu admiro, álbuns que ouvi, filmes que vi e livros que li. Não necessariamente clássicos ou bons, pode ser que eu passe por algumas coisas bem ruins e, é claro, lhes darei o castigo necessário. Está decidido, é assim de agora em diante e acabou. Aqui é pau na mesa vagabundo!

Para estrear esse novo formato antigo, falarei de uma banda que marcou minha juventude, a Black Crowes. O surgimento dessa banda foi em 1989, lançando o primeiro álbum em '90 - um ano antes do meu nascimento. Como já disse em uma crônica passada, meu despertar musical foi tardio, então, só realmente parei para me importar com música aos catorze anos, antes disso só ouvia música clássica e um pouco de heavy metal. Depois disso me apaixonei pelos clássicos do rock e, após me aprofundar, fui buscando bandas novas que fizessem um bom trabalho. Nessa busca, encontrei essa banda em 2005 ou 2006. Nessa época, a banda estava retornando de uma pausa (que será abordada logo), com um grande show de retorno e foi por meio desse disco ao vivo que eu conheci a banda e busquei o resto da discografia, que analisarei passo-a-passo, a seguir. Vale a pena analisar essa banda, pois será visível que ela mudou muito com o passar dos anos, amadureceu e mudou de estilo, até tornar-se o que resultou no último álbum de 2010 e o aparente fim da banda.

Tudo começou em 1990 com o CD "Shake Your Money Maker". É um álbum simples, típico do rock clássico, mas diferente dos seus contemporâneos, Nirvana e Guns 'n Roses, que por suas vez nunca me agradaram. As músicas tem uma levada simples, flertando em alguns momentos com o Soul (visível no cover "Hard to Handle", de Otis Redding). A crítica da época disse que a banda era um Rolling Stones + The Faces, embora um grande avanço para a música da época. Bom, mas nada original. O que é a mais pura verdade, em 1990 isso era ótimo, mas em 1970 eles teriam sumido após um disco. As faixas destaque, para mim, são Twice as Hard, She Talks to Angels e Struttin Blues, embora nenhuma das faixas seja ruim, já que álbum não se arrisca em nenhum momento, tornando, contudo, todas as faixas distantes do excepcional. Nota: 3,5/5,0 (sim, tô dando nota agora, motherfucker!)

Mais anos 90 impossível.

Em 1992 veio o clássico "Southern Harmony and Musical Companion". Não tem muito o que se dizer sobre esse disco. É o favorito da maior parte dos fãs e o que colocou a banda no mapa. Não é o meu favorito, embora seja excelente, talvez o segundo colocado. É agressivo e pesado, mas valorizando sempre o ritmo. É um rock com toques fortes de soul, uma mistura não muito original, mas na época - genial. Passaram a valorizar mais os teclados e os back vocals, e passaram a arriscar mais, demonstrando certa maturidade. Em resumo, o disco é foda, quase não tem defeitos perceptíveis em uma primeira audição e, sinceramente, eu não consigo pensar em nenhum agora. Gosto de todas as faixas, mas sugeriria para o ouvinte novato os clássicos, Sting Me e Remedy. Minhas faixas favoritas, no entanto, são Sometimes Salvation, No Speak No Slave e Morning Song, eu acho. Na verdade é tudo tão bom que fica difícil decidir. Nota: 4,5/5,0 (porque eu sou exigente pra caralho).

Dá pra acreditar que esse esqueleto de Mick Jagger (ou seria Júpiter Maçã jovem?) afeminado comeu a Kate Hudson?


Chegamos em 1994, e a banda lançou o grande Amorica. Chocando conservadores com sua capa, que eu sinceramente não vejo o problema, talvez a falta de depilação da época. Pelo menos uma coisa mudou pra melhor de lá pra cá. O CD é parecido com seu antecessor, e talvez esse seja o seu maior problema. Ele não é ruim, na verdade é excelente, mas passou a soar como mais do mesmo pra mim, tem o hit, a balada, a pesada, a rápida, todos os fatores do seu antecessor se repetem em músicas diferentes. É melhor que o primeiro, mas inferior ao segundo, embora bem pouco inferior. É até difícil julgar esse disco sem ser injusto. Dizer que ele não muda nada em relação ao seu antecessor, não é necessariamente algo ruim, até porque as músicas são diferentes, só tem uma estrutura e uma levada similar. Talvez eu ache inferior, pois conheço toda a discografia deles e sei até que ponto eles podem chegar de criatividade, principalmente ao ouvir o álbum que sucedeu este e que será analisado na parte 2... Nota: 4,0/5,0 (CONTINUA...)

Tentei escolher vídeos da época, para dar essa noção temporal para a análise, então perdoem-me se a qualidade não é a melhor.

Essa música é tão boa que eu quase dei 4,5 para o álbum, na verdade nem sei o porquê do 4,0

Eu disse que os caras são uns dos maiores apoiadores do movimento pró-legalização da maconha nos EUA? Pois é.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Tal do Bullying


Visitei meus pais, que estão passando uma temporada na antiga casa de minha falecida avó, este fim de semana, em São Francisco do Sul. Fazia anos que não ia àquela casa, visitara minha avó algumas vezes antes de sua morte, mas passaram-se muitos anos desde a última vez que fiquei por mais do que algumas horas lá.

Visitar um lugar que, de uma forma ou de outra, marcou sua infância, torna coisas simples, como dormir em uma cama ou sentar em um sofá, uma experiência nostálgica fantástica. Todas as memórias invadem sua mente, o ranger do piso de madeira, o medo, que o tremor causado por seus passos na casa gera. Os pequenos enfeites - alguns quebrados pelos anos -, a foto perdida da infância, como um espelho surrealista. Os móveis antigos, como a cadeira de balanço na qual você costumava passar horas imaginando só uma criança sabe o que, o tão adorado relógio cuco, que agora, depois de mais de uma década, você revê e entende, a coleção de livros, que antes era um mistério, mas agora clássicos que você conhece muito bem. Cada detalhe, cada passo é uma memória, um convite para o passado.

Saindo de lá - não me considero um nostálgico, na verdade acho que a nostalgia e exagerada em minha geração e perdeu seu charme, mas - repensei minha infância. Quem eu era nesses anos de inocência e quem eu me tornei quando esta teve seu fim inevitável e desejado. Cada situação que me vinha em mente gerava apenas uma reação de minha parte: - “Como fui esquisito!”. Não digo esquisito como insulto, até me orgulho de minha esquisitice – que não posso dizer que me abandonou -, gosto dela e a mantenho como um animal de estimação. Mas na infância, o diferente é assustador e causa reações negativas e até mesmo violentas nos outros, que, por sua vez, também são diferentes, mas a diferença deles é mais presente na sociedade, formando, portanto, o normal. A criança forma seus relacionamentos por gosto. Uma música, um desenho, uma brincadeira é capaz de gerar amigos eternos – até o fim da infância, quando este é esquecido, levando consigo a música, o desenho e a brincadeira.
Meu despertar musical foi tardio. Passei a me interessar e buscar a música somente após os catorze anos. Antes disso, minhas únicas memórias musicais envolvem uma velha coleção de CDs que meus pais esqueceram em meu quarto e eu, com o instinto de caça apurado dos quatro anos de idade, encontrei e ouvi à exaustão. Como amei e amo até hoje aquela música. Beethoven, Mozart, Debussy, Bach, Vivaldi, eram tudo o que eu conhecia, outras músicas me irritavam profundamente. Não tinha a mesma beleza, sutileza e profundidade que as daqueles CDs, que guardo até hoje, embora duvide que ainda funcionem. Portanto as outras crianças me ridicularizavam, como se não escutar o “seja lá o que for” que eles escutavam fosse alguma heresia. Sentia-me de certo modo um pecador, talvez porque, em minha infância, também acreditasse em pecado. Eram aquelas velhas ofensas, “viado”, “bichinha”, que eu nunca consegui relacionar com a música. Não posso dizer que fui atingido por isso, tinha o orgulho infantil ferido, mas só. Não retrucava, pois a timidez em mim também era abundante, então me faltava a eloquência verbal. Só aceitava. Nunca passou disso, os insultos eram apenas verbais, havia a ameaça da violência física, mas essa promessa não foi cumprida.
Um dia, como tudo nessa vida e até a vida em si, acabou. Não faziam mais piadas sobre a música que tanto me agradava, uns até passaram a ouvi-la também. Tinha chegado à famigerada pré-adolescência e o gosto de poucos estava mais apurado, poucos, porém o bastante para não estar mais sozinho. Chegou a minha hora. Admito, pratiquei bullying. Com pessoas que considerava ter mau gosto, pessoas que considerava serem menos capazes intelectualmente, os diferentes, e estes, por sua vez, não pararam de me perseguir. Tornou-se uma perseguição mútua e igual, que, ao terminar a infância, tornaram-se apenas memórias agradáveis de uma infantilidade incoerente. Na juventude, o dito bullying – que não tinha nome no meu tempo -, ainda estava presente, mas era apenas em forma de piada. Tirávamos sarro um do outro, pois todos erámos defeituosos, somente pensando no humor que isso trazia. Tinha o gordo, o burro, o vesgo, o crente, o falador, o afeminado, cada um tinha um problema e estes eram explorados igualmente e sem piedade. Não havia limites, nada era sagrado – perdi também, nessa época, o medo do pecado e até cometi vários, cometo até hoje sem arrependimento – e nessa falta de respeito generalizada, morava o verdadeiro respeito.

Não estou sendo inocente aqui e insinuando que crianças não sabem o que falam. Sabem muito bem, humilham e ofendem intencionalmente, mas isso passa. Não vemos assassinos e psicopatas nos noticiários por causa do tal bullying e sim porque esses viveram na bolha da perfeição. Não lhes foi dito que tinham defeitos, mentiram para ele dizendo que ele era perfeito e poderia se tornar o que quiser nessa vida. Mais cruel que uma criança é a realidade, e essa não acaba. Com toda a propaganda anti-bullying, que estupra nossos ouvidos diariamente e serve apenas para reforçar a bolha, um dia teremos uma nação de egomaníacos psicopatas que, simplesmente, não saberão aceitar o fato de que não são perfeitos. Não tiveram que lidar com insultos e humilhações na infância, ou pior viram o que humilhava ser punido, então quando isso acontecer na idade adulta e o “bully” não sofrer consequência alguma, este poderá não suportar a pressão.

A sociedade perdeu o controle do que deve ou não acontecer com uma criança. Esqueceram que elas não aprenderam sobre a crueldade do mundo sozinhas, mas sim viram acontecer com elas ainda muito cedo. Esqueceram a importância dessa dor para a formação do caráter e - não contentes - decidiram privar todas as crianças dessa dor. Isso terá graves consequências e eu não quero estar presente para ver a bomba emocional explodir. Não digam que eu não avisei.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Três anos sem Michael Jackson ou Uma análise da hipérbole de caráter post mortem


 Lembro-me perfeitamente do momento de sua morte, não da noite em que ele partiu exatamente – estava ocupado e cansado demais naquela noite para me preocupar com isso -, mas da manhã seguinte, quando todos já estavam descansados e tiveram tempo de processar a notícia. Os jornais berravam - até mesmo os escritos - “Morre o rei do pop, Michael Jackson”, não só no dia seguinte, durante toda a semana, durante todo o mês e com alguns retornos esporádicos com o passar dos anos. Todos queriam expressar o quanto o amavam. Como nunca acreditaram que ele era, de verdade, um pedófilo – ele amava as crianças, mas o amor era platônico -, como ele queria mudar o mundo por meio de sua música e imensa criatividade, enfim todo o tipo de hipérbole de caráter post-mortem, tão comum para as celebridades.

Lembro, também, de parecer ser o único que não se comoveu nem um pouco com todos os escândalos dos fãs, que choravam mesmo não tendo ouvido uma música do cidadão desde 1992, ou até ouviram, mas não gostaram tanto assim. Pelo menos não gostaram até a sua morte, depois disso toda a sua obra tornou-se perfeita, isenta de erros, capaz de ensinar música a Bach. Vendeu álbuns e mais álbuns, pagou seus milhões de dólares em dívidas em poucas semanas. Mas o dinheiro e as vendas não são nada. O moleque, que até então, jurava ter sido estuprado pelo artista, veio a público e admitiu sua mentira, isentando-o não só os defeitos de sua música, mas até mesmo de crimes, antes considerados imperdoáveis. Chamem o Papa, temos aqui o grande milagre do terceiro milênio, presenciamos a transformação da imagem pública de um homem, indo de completo canalha a santo, em menos de quarenta e oito horas.

Que não me entendam mal os senhores, pensando que eu estou a fazer acusações infundadas e dizer que ele não foi merecedor de toda essa pompa. Não faria tal coisa, nem mesmo após tantos anos de atraso. Diria que ele é superestimado, na melhor das hipóteses, musicalmente falando. É verdade que ele e sua música foram uma revolução na música pop, mas não acho que isso foi bom. Sua dita revolução deu espaço e influência para músicos atuais, de Madonna a Lady Gaga – alguém, que leve música a sério, realmente acha que isso foi algo bom? Suas composições são simples e sua voz nada especial. Mesmo nos anos de Soul e do Jackson 5, era engraçadinho, pois se tratava de uma criança, mas os anos passaram e mal pode-se dizer que houve algum amadurecimento da parte dele, contudo sinto que estou escrevendo apenas para cuspir no túmulo do pobre homem e esse não é meu objetivo aqui, na verdade esse nem é um texto sobre Michael Jackson, nem eu ousaria dedicar todo um texto a uma crítica de sua obra – já tenho inimigos o suficiente.

O caso do Michael Jackson não é único. O ponto alto da carreira de todo e qualquer artista, assim como o momento de absolvição de todos os seus pecados, é após a morte. Nenhum outro ser humano tem tal privilégio, é uma das vantagens de se tornar um artista. Algo similar aconteceu com Elvis. Ao morrer, Elvis tornou-se de verdade o rei do rock, antes ele já tinha o título, mas era tão válido quanto o do Roberto Carlos (outro que quando morrer causara escândalo). Hoje existem grupos de pessoas que acham que Elvis era o ser humano perfeito, não acreditam que ele morreu, não acreditam que ele usava drogas, não acreditam em nada que comprometa a imagem santa do cidadão. O fato de que sua carreira é baseada em imitações “clean” caucasianas de blues e rock negros, foi completamente varrido para debaixo do tapete (só os mais honestos admitem que, ele não foi nada além de um aproveitador) e alguns filmes “American way” de qualidade duvidosa. É uma heresia dizer coisas assim, alienação, ser manipulado pela mídia, quando, na verdade, é justamente o contrário. Aquele que cai na historinha do ídolo santo é o verdadeiro manipulado, é ele que, mesmo depois de décadas ignorando um artista, pede perdão após a morte deste e compra tudo que seu orçamento permite, ou muito mais, cds, camisetas, livros, vídeos, além da audiência dada aos programas jornalísticos dedicados a morte desses que antes eram medíocres, mas seu potencial para canonização os levou a grandeza.

São inúmeros os casos, não só MJ e Elvis, mas não quero tornar isso uma série de ataques aleatórios e gratuitos a nomes famosos, apenas tentar, aos poucos, abrir os olhos daqueles que ainda acreditam nesse tipo de coisa. Mostrar que ninguém é perfeito e nem se torna após a morte – melhor nem mencionar Jesus, que é o exemplo clássico do assunto dessa crônica, “hipérbole de caráter post mortem” (é um bom nome para esse fenômeno, com um toque de latim para tornar científico e sociológico) -. Sem que isso não vai acabar, as pessoas precisam de ídolos, e essas palavras são apenas reclamações vazias. Resta-me apenas aguardar o dia que as drogas de Keith Richards serão justificadas como medicinais, as putas de Mick Jagger serão um mal-entendido e tocar no túmulo de Roberto Carlos curará câncer.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Momento Cultural 6 - Dr. John - Locked Down (2012)



Foi eu falar no momento cultural sobre Chris Robinson Brotherhood, que aquele era o único álbum de 2012 que eu ouvi, mas provavelmente o melhor, que o universo decidiu provar que eu estou errado.

Estava fazendo minha busca semanal na loja do Paulo Coelho, procurando bandas novas, ou antigas, mas que por algum motivo eu não tenha ouvido todos os discos. Procurei por Dr. John, grande pianista da década de 60, famoso por misturas, funk, jazz, soul, rock psicodélico e mardi gras em uma banda só, pois conheço bem as músicas dele, mas só as principais. Não tinha a discografia completa dele, nem posso dizer que conheço com profundidade sua obra, mas o que eu conheço, gosto.

Com isso, eu me deparo com um disco de 2012. O doutor lançou um álbum novo. Baixei por curiosidade, gosto de saber como alguns artistas envelheceram ou mudaram de estilo com o passar do tempo. Às vezes é uma agradável surpresa, como o Clapton do ano passado, outras me levaram as lágrimas de desgosto (por que Joe Cocker?! Por quê?! Você cantou em Woodstock, você gravou Mad Dogs & Englishmen, por que cantar música pop com batidinha eletrônica?!). Dr. John é uma agradável surpresa.

Sim, caros leitores, não farei meu texto improvisado e sem sentido, como de costume, dessa vez farei uma crítica regular. Na verdade, está decidido. Daqui em diante, os momentos culturais serão críticas, não necessariamente sérias ou parciais, mas críticas, sobre discos, filmes, livros, o que for que eu tenha entrado em contato e tenha vontade de escrever sobre. Principalmente, pois, pelo que pude perceber, 2012 será um ano de agradáveis surpresas (e provavelmente o do Juízo Final também), com um disco novo do Rush (ainda não ouvi), do Bob Dylan (ainda não lançou), entre outros, incluindo artistas novos que parecem interessantes.

O estilo de Locked Down é diferente do que estava acostumado. Conheço o Dr. John da psicodelia, do jazz, do soul e da música de bruxaria, mas este som parte Tom Waits, parte "rock retro" (descobri mais tarde que Dan Auerbach, da Black Keys, que eu só conheço de nome, fez parte da produção e auxiliou muito na criação de todo este novo estilo), parte blues. Sempre com um ritmo muito interessante e um tom moderno, que não é desagradável, como pode ser percebido nos vídeos abaixo.

De todas as características do cd, o que mais me agradou foi a parte instrumental. A banda é excelente, com destaque ao baterista e ao baixista, que, devido a importância do ritmo para esse gênero, ganham espaço e fazem um bom trabalho. Todos os músicos fazem sua parte, sem nenhum instrumento abafar o outro, são todos parte de um grande conjunto.

Em resumo, o cd é excelente, vale a pena ouvir, até mesmo aqueles que só ouviram falar do músico agora. Estou ansioso para ouvir essa banda e essas músicas ao vivo, afinal, outra característica de Dr. John é a sua qualidade no palco. Como sempre, seguem alguns vídeos para os desconfiados, espero que gostem. Se quiserem sugerir alguma coisa, sintam-se a vontade para comentar, talvez eu até faça uma crítica sobre o artista sugerido (bom ou ruim).




Essa última é um clássico, para aqueles que conhecem, mas tiveram dificuldade de unir o nome a pessoa.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cavalheirismo de Elevador


Gosto de me ver como um cavalheiro. Não por falta de humildade, mas porque me esforço. Vejo classe nos antigos homens que se levantavam quando mulher entrava em um ambiente, abriam e seguravam portas, beijavam as mãos de suas amadas (quero que fique claro que todos esses exemplos de cavalheirismo que eu digo manifestar valem apenas com relação a mulheres). Por mais que digam que o cavalheirismo morreu, eu acho que na verdade ele está em coma, pois hábitos não morrem, são esquecidos, mas ora ou outra retornam levemente atualizados.

No entanto, recentemente, tenho reparado este hábito de segurar portas voltando nos elevadores da cidade, pelo menos onde moro. Trabalhando em prédios comerciais e morando em apartamento, passo horas da minha semana em elevadores, então tenho alguma experiência no assunto. Homens tendem, quando no elevador, a segurar a porta e aguardar que as mulheres saiam primeiro, o que me deixa feliz e infeliz ao mesmo tempo, pois, como as mulheres simplesmente não estão acostumadas com esse tipo de tratamento, elas não acreditam no que veem e hesitam na hora de sair do elevador. Tive esse problema essa manhã, quando estava chegando ao escritório. Quando cheguei, indiquei para uma moça que trabalhava no mesmo andar, para que fosse em minha frente. Ela me olhou por uns instantes, como se não tivesse entendido, então tive que correr para que a porta não fechasse. Esperei, segurando a porta para que ela saísse. Saindo, ela se desculpou e eu fiz uma piadinha breve sobre como “alguém sempre tem que ser o primeiro a sair e como isso sempre dá problema”. O que me fez pensar pelo resto do dia em como é problemática essa questão. Realmente, praticamente todos os dias eu tenho um problema desse tipo. Nunca sei quando sair - se devo sair - e o resto do elevador tampouco. Então ficamos nessa situação “buñuelesca”, como os ricos na festa de O Anjo Exterminador.

Por mais que admire esse tipo de atitude, entendo a grande inconveniência, mas fico feliz que isso ainda aconteça, pelo menos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Amor ao próximo


Não amo você. Sinceramente, do fundo do meu coração, caro leitor. Provavelmente, não sinto nenhuma forma de amor por você e nem você por mim. A razão disso, você pergunta? Ora, não te conheço, não sei quem você é, e simplesmente não pretendo me esforçar para fingir que me importo, só para parecer bem perante a sociedade.

A ideia de amar a todos é impossível, absurda e autoritária. Eu tenho critérios para distribuir meu amor. Até mesmo o platônico. Não é qualquer um que o recebe. Na verdade, são poucos que o merecem. Qualquer um que diga amar a todos, pode até querer que isso fosse realmente verdade, mas não o é.

A ideia de que todos precisam se amar é simplesmente hipocrisia (que fique claro que isso não é uma critica. A hipocrisia é necessária para que o mundo gire, evitando o caos completo, eu mesmo sou um completo hipócrita), se você simplesmente se admite incapaz de amar a um desconhecido, você se demonstrar inferior ao seu vizinho, que por sua vez não é tão ético, e mente descaradamente e frequentemente sobre o quanto ele ama a todos os seres vivos dessa terrinha maravilhosa criada com todo o carinho por deus todo poderoso.

E não me venha com historinha de doações e trabalhos voluntários. Isso não é amor, isso é alimento para o ego. Ajuda, e é melhor fazer do que não, mas repito, não é amor.

Entre todas as falsas virtudes que o ser humano no curso de sua existência inventou, o amor geral e compulsivo é, provavelmente, o mais respeitado e anunciado pelo grande público. Mesmo sendo completamente falso e desnecessário. O ser humano não precisa ser amado ou amar a todos. Chega dessa carente infantilização!

sábado, 11 de agosto de 2012

Momento Cultural 5 - Graveyard


Mais uma banda da Suécia no momento cultural do Delirando e Escrevendo. Estou pensando seriamente em me mudar pra lá, o governo funciona, a música é boa e a igreja não se manifesta - isso sem falar das mulheres de lá (ache o careca) - minhas passagens estariam compradas se minhas finanças cooperassem.

Voltando a banda. Quando a ouvi pela primeira vez em minhas andanças musicais pelo youtube e vi no vídeo apenas uma foto em preto e branco dos caboclos, jurava que era mais uma dessas bandas da década de 60, que eram boas pra caralho, mas se perderam por causa do mercado saturado (Tomorrow, Moving Sidewalks, Morgen, por exemplo - um dia farei um momento cultural com elas). Ao ouvir a música percebi que, pela gravação, não poderia ser, era uma banda atual. Ainda existe esperança nesse mundo, o rock não morreu, só está em coma, mas as máquinas que o mantém vivo ainda funcionam!

Não é nada criativo, na verdade existe todo um "movimento revival" do rock verão do amor na Europa, Siena Root e Graveyard são só uma dessas bandas e, na minha opinião, as melhores. Contudo, considerando que, hoje, nada nesse estilo é lançado, a falta de criatividade se torna um alívio. Talvez na década de 70 eles não viessem a ser ninguém, mas hoje eles são o papel higiênico da diarreia musical.

Como sempre, seguem uns vídeos abaixo com a música, isso se você conseguiu se desligar da foto das suecas, eu sei o quanto eu demorei para seguir com esse post.



Sim, ao vivo também é foda.


Chega por hoje. Se quiserem mais procurem por aí sobre a banda, não é muito difícil encontrar e só tem dois cds até o momento. Semana que vem tem mais (o momento cultural do Batman foi uma revisão, então não conta).

Obs.: Essa postagem gerou mais novas visitas do que eu imaginava. Várias pessoas pesquisando sobre suecas gostosas ou sexo com suecas, no google imagens vieram parar aqui por acidente. Porra, pelo menos deixa um comentário!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Momento Cultural 3.2 - Dark Knight Rises + Spoilers

Abrirei essa semana, novamente, uma exceção aos momentos culturais, porque eu quis e mais nada. Ainda não tenho leitores o suficiente para me importar com padrões e outras frescuras. Isso e acho que já passou tempo o suficiente desde a estréia de DKR para que eu possa fazer a versão com spoilers do momento cultural 3.1. Se você ainda não viu, desligue a porra do computador e saia da sua caverna, a luz do sol pode machucar, então vá a noite. Feito isso, volte, leia essa merda e me diga se estou errado. Para os russos que me leem - use o google translate.

Voltando a primeira resenha. O filme dá uma ótima primeira impressão. Tudo é quase perfeito e até da a ideia de que pode vir a ser melhor que seu aclamado antecessor. Enquanto no DK o coringa tinha uma espécie de monopólio do carisma (os outros atores eram ótimos, mas foram ofuscados), aqui todos mantém o mesmo nível, que é bem alto. É impossível não gostar do Bane do começo do filme, aquele anarquista, fodão, que só quer mesmo ver o circo pegar fogo - só. A Mulher Gato, misteriosa, sexy, ladra, mas que seria boa se o mundo não fosse uma merda, pensei em uma série de atrizes que poderiam fazer esse papel e, como já disse na outra análise, quando ouvi o nome de Anne Hathaway, achei que o filme iria seguir com a maldição do terceiro filme (é sempre uma bosta). Algumas pessoas que gostaram da interpretação do Burton discordam, mas foda-se essa gente, se tem uma coisa que eu gostei na versão do Nolan é o toque realista, então não ver a Selina revivendo, se lambendo (tá essa eu até gostaria de ver...) e cercada de gatos, pra mim é um alívio. Todos os personagens estão tão bons quanto sempre, com destaque para o Michael Caine e o Gary Oldman, que me chamaram mais a atenção dessa vez. Os dois tem cenas muito boas e parecem ter ganho mais relevância para o filme.

Mas vamos ao que interessa, os problemas. Primeiro de tudo, a Marion Cotillard, boa atriz (gostei de A Origem e Meia Noite em Paris, por exemplo), linda, mas completamente desnecessária nesse filme. Na verdade toda a segunda parte - prisão, origem do Bane, origem da Marion (me esqueci do nome da personagem, devido ao trauma), momento Shyamalan, tudo isso fodeu com o filme.

Por partes (qualquer um que fizer a piada do Jack Estripador merece a cadeira elétrica). O Bane só era o fodão porque, supostamente, tinha sido expulso daquela liga de "ninjas" e nascido e fugido do poço. É isso que eles te dizem durante o filme inteiro para explicar o porque dele ser quem é. Isso é bom, aceitável. Enquanto o Batman se recupera da coluna quebrada (chegarei nessa parte em um instante), ele tem um sonho em que seu mestre revela que, na verdade, Bane é seu filho. Estranho, mas ainda assim contribui para o desenvolvimento do personagem - essa cena pode ter sido só uma ilusão ou parte do plano maligno dele, mas isso não é explicado, o que, vocês verão, se tornará um problema. Mais tarde, Marion se revela uma pilantra e diz que quem é filha do vilão do primeiro filme, nasceu e fugiu do poço foi ela, e Bane nem ao menos recebeu o treinamento ninja, só foi retirado do poço por pena, mas o pai dela não o queria por perto, pois lhe fazia lembrar de sua esposa. Agora alguém me responde, se Bane não fez nada do que a sua lenda dizia que ele tinha feito, por que ele era tão foda? "Fuck you, that's why!" Nenhum motivo aparente, ele era tão poderoso a ponto de quebrar o Batman, por causa de um furo no roteiro. Tanto que, quando tudo isso é revelado, Bane fica relativamente mais fraco e morre por um tiro. Sim, General Grievous (o robô semi-jedi daquele filme horrível), toda uma luta, toda uma atmosfera construída, destruída por um mísero tiro, que quem dá é a mulher gato!

Agora que sabemos que Bane não era pra ser quem ele foi no começo do filme, vamos ao fator de cura do Batman. O bicho é imortal, sobrevive de fraturas expostas na coluna até bombas nucleares. Ele não precisava ter sido jogado no poço, o poço nem precisava existir, só serviu para dificultar a história. Nolan queria deixar o filme complexo e fodeu com todo mundo. Agora, pelo menos eu sei que para me recuperar de uma coluna quebrada eu só preciso colocá-la no lugar com um soco e me pendurar em uma corda por 3 dias, sem fator de cura nem nada, chupa Wolverine! Ele também se recupera de um problema ósseo (tá certo que um filme cria um aparelho para resolver isso, mas ele não o estava usando no poço. E agora José?) e uma facada no pulmão em questão de segundos. Além do final, é claro, que eu voltarei a falar sobre daqui a pouco.

Gostaria de falar agora sobre uma das estratégias mais baixas e irritantes do cinema, para dar emoção ao filme. O vilão fica ameaçando causar uma catastrofe ao invés de realmente o fazer. If you're gonna shoot, shoot! Don't talk. E principalmente, não fique passando o dedo no detonador só pra criar espectativa, nós todos sabíamos antes do filme começar que aquela porra daquela bomba ia ser roubada, mas não iria explodir na cidade. Isso é óbvio! Não cria emoção nenhuma, só me deixa puto! O que, por sinal, eu já estava, depois da revelação do verdadeiro vilão. Era tão simples, a Marion fazia seu discurso e, depois que o Gordon neutralizou a bomba, ela mostra o detonador e aperta. Nada acontece da mesma forma, mas você elimina o clichê.

Falta apenas dissecar o final. A bomba está para explodir, então Batman pega sua bat-nave, e corre como um filho da puta por Gotham para afastar a bomba. Ele salva a cidade, mas morre na explosão, é o que todos pensam. Até que Alfred, vai à Itália, como ele faz anualmente, vai a um restaurante e encontra o Bruce Wayne e a Selina Kyle, felizes jantando. Foda-se a lógica. Aquela nave deveria ser feita do mesmo material da geladeira do Indiana Jones, essa é a explicação, problema resolvido. Enquanto isso, no funeral do Batman, Robin faz a genial observação:
- Mas ninguém saberá quem foi o herói!
Sério? A população de Gotham é tão imbecil a ponto de não perceber que a morte do Batman e a do Bruce Wayne foram no mesmo dia, na mesma bat-hora e no mesmo bat-canal? Por isso que aquela cidade tá na merda. Puta povo cretino!

Eu sei, tudo isso foi uma quantidade excessiva de detalhismo desnecessário. Mas o filme poderia ter fluido perfeitamente sem o poço, sem a Marion, com o Robin fazendo alguma coisa, enfim, o filme poderia ter sido muito melhor se não fosse a ambição. Os dois antecessores foram bem mais enxutos, sem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, e conseguiram um resultado com bem menos erros. Agora nos resta esperar pra ver o que farão com o Batman. A trilogia Nolan acabou, mas sempre vai ter alguém achando que pode fazer melhor, então, vamos aguardar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pátria Amada Brasil


Brasil, país da corrupção e da bunda
a felicidade é lei nessa terra abençoada
podem nos roubar, o futebol é semanal
criminosos são vítimas, o culpado é o policial
deputado é inocente até que provem o contrário
cadeira elétrica para o vagabundo que não pode alimentar sua família
não importa que ele só roubou um pão e o outro, trinta milhões
o pão não compra a justiça

aqui tem copa e olimpíada, carnaval e putaria
monte um barraco no morro se quiser abrigar suas crias
se a chuva vier e mandar tudo pro inferno
se fodeu, parasita da sociedade
seu sofrimento é invisível em nossas praias e coberturas
a favela é paisagem para os milionários entediados
por isso construíram Brasília
nossos nobres deputados não podem ficar sujeitos
a tal visão chocante
imagina se um dia houver revolta
contra isso temos a ignorância que os silencia
professor merece a vida que tem
deve se diminuir em sua humildade
agora tente manter uma mansão e uma Mercedez
só com vinte mil reais por mês
político não pode ser simples
o que é que os outros vão pensar?
não é barato vender imagem de desenvolvido para europeu

Brasil, ainda procuro a ordem e progresso
alma de vira-lata é pouco
choramos na derrota e desprezamos a vitória
mas mordemos com fúria o gringo filho da puta que concordar
só um brasileiro pode odiar sua terra
o povo é guerreiro e cristão
nunca luta, mas reza para que alguém o faça
pois Deus é brasileiro
realmente fez um trabalho bem malfeito
e descansou no sétimo dia – o primeiro de muitos feriados
respeito a todos e não tenho preconceitos
desde que você siga meus padrões de vida e concorde sempre
já falei que o futebol é semanal

maconha é pra retardados, loucos, doentes
cerveja me deixa atraente para as gostosas vazias
pelo menos foi o que a Globo me disse
ou seria o seu Macedo ou o profeta Santiago
que vão todos se foder

Brasil, já não respeito sua bandeira e seu hino
nunca respeitei seus líderes e seu povo
Brasil, não é culpado pelos filhos de sua história
Brasil sou eu, Brasil são os brasileiros
somos os ladrões, somos cretinos, somos os responsáveis

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Micro conto V - Fragmento de uma madrugada até o amanhecer


“Não importa o quanto eu tente, eu não consigo ir pra cama antes da meia noite. Toda manhã eu prometo a mim mesmo que vou dormir mais cedo, e toda noite eu quebro a promessa. Nunca por um motivo válido, ou me perco em uma leitura ou decido ver um filme ou tenho uma ideia para escrever qualquer coisa que não pode esperar o dia seguinte. Por que essas ideias não me atacam às seis da tarde? Agora são quinze pra uma e tenho que me levantar as sete. O que farei para aquele conto seguir em frente? Será que deveria desistir? Tem horas que começo com uma história que parece genial e tem todos os seus caminhos planejados, mas ao passa-la para o papel, simplesmente não é a mesma coisa. Ou pior, sei o começo e o fim, mas o meio não existe. Isso porque nunca escrevi uma história com mais de vinte páginas. Como posso sonhar em escrever um romance? Ler só me desencoraja. Ler meu próprio trabalho, então. Entendo porque Kafka queria queimar suas obras. Como é que Hemingway tinha tanta confiança? Só pode ser o horário mesmo, aqui estou me comparando a Kafka e Hemingway, é melhor dormir antes que amanheça. Acho que o chefe viaja amanhã, talvez, então, possa escrever alguma coisa no escritório. Talvez até sobre o escritório...”

Ele se vê em uma rua comercial de sua cidade. As lojas parecem todas iguais, na verdade nunca prestou atenção naquelas lojas, não saberia diferenciar uma da outra. Mas prestava atenção nas pessoas. Via aquele pobre mendigo, sentado no chão com sua caixa, onde guardava suas esmolas, gritando incoerências às mulheres que passavam em sua frente. Ele deveria ter alguma deficiência, nunca o viu de pé antes, seus pés eram tortos e sujos. Ninguém nunca o ajudava, não sabia como ele ainda estava vivo. Nunca antes tinha visto tantas pessoas naquela rua. Todos se esbarravam e andavam com pressa, via um ou dois rostos conhecidos na multidão, mas ninguém o via. Lá estava ela, estudaram juntos quando crianças. Ela que despertara seus desejos e sentimentos afetuosos, com seus olhos azuis e cabelos louros, que anos mais tarde foram tingidos de ruivo. Sempre muito bonitos, assim como ela era linda. Seria sua oportunidade de fazer o que não teve a chance em sua juventude e falar com ela. Não sabia que ela tinha se mudado para aquela cidade. Se ao menos ele pudesse se desprender da multidão que agora decidiu cerca-lo. Era inútil, ela não mais estava lá, e o relógio da rua, sinalizava que ele estava atrasado para o trabalho. Até que abriu os olhos assustado.

“Que horas são?” Ele olhava para seu pulso, não encontrando seu relógio. “Onde está a porra do relógio? Bom, pelo menos ainda está escuro lá fora, exceto pelas luzes da rua. Tenho que me lembrar de fechar as persianas e dormir de relógio.” Se retorcia na cama, tentando ver seu despertador, que ficava em um móvel na direção de seus pés. “Três da manhã. Ainda tenho tempo para descansar. Por que fui me lembrar da Beatriz? Ela ainda mora em Santos, se bem me lembro. Não teria porque vir pra cá. Tenho que recomeçar aquele conto sobre destino que eu abandonei semana passada. A ideia é boa, mas eu estou abordando da forma errada. Vou esquecer as profecias e seitas religiosas e simplesmente abraçar o conceito do absurdo.”

Ele acordou como todos os dias. Quinze para as sete da manhã. Com seu despertador que dizia:

Bom dia. Vá ao trabalho como sempre, seguindo o caminho de costume. Nada de novo vai acontecer nessa caminhada, não encontrará ninguém com quem deveria conversar ou iniciar qualquer interação. Encontrará no elevador do prédio em que trabalha, uma mulher muito atraente de acordo com seus gostos. Ela não é a mulher da sua vida e se tentar cortejá-la, não terá sucesso. Trabalhe no seu ritmo de costume, não haverá nenhuma emergência hoje. Sua jornada de trabalho será comum, sem chamadas do chefe ou hora extra. Nada acontecerá se você for ao bar ou ao cinema, então sugerimos que vá diretamente para casa, evitando, então um assalto as 22:00 no centro da cidade. Não há nenhuma outra informação sobre o seu dia que seja relevante.

Que merda de dia seria aquele. Mas era inevitável, algumas pessoas simplesmente não são destinadas a uma vida excitante.

“Esse é um bom começo, descreve bem a ideia. Posso desenvolver o personagem aos poucos, como em um diário ou coisa assim. A vida de um homem comum, se ele pudesse saber exatamente como seria o seu dia, antes de acontecer. Puta merda, agora são quatro da manhã, dormi só umas duas horas, e me faltam só três até amanhecer. Tinha ideia de acordar uma hora mais cedo para continuar a leitura que estava fazendo ontem, mas não vai ser possível. Se faço isso, amanhã estarei morto no trabalho. Tenho que me lembrar também de fazer uma poesia sobre a Beatriz, sobre os amores infantis e primários. Preciso de um bloco de notas perto da cama para anotar essas coisas. Não. Aí que eu não durmo mais, ficarei anotando cada pensamento da noite. Só vou me esforçar para não esquecer mesmo.”

Lembro dos seus olhos
da primeira vez que os vi
que sentimento novo
mágico
o que era aquilo que me acontecia?
por que ao fechar os olhos via sua face?
imaginava sua pele macia
seus cabelos
eram louros mas
ruivos ficaram mais bonitos
combinava com sua intensidade
que só percebi anos mais tarde
tudo que tenho de você são memórias
memórias do que não vivi


- Rafa. – ela chamava sua atenção, com os olhos cheios de lágrimas e um coração partido. – O que eu faço agora?
- Eu não sei se tenho algo a fazer. Você já achou que tinha sido traída antes Nuna.
- Eu sei, mas ele desmentiu, dizendo que era impossível.
- Bom, ele admitisse ter te traído assim tão fácil, aí eu me impressionava.
- Por que eu não termino com ele?
- Eu me pergunto isso todos os dias.

Ele a confortava, na sala de aula da faculdade, onde a conhecerá. Naquele mesmo lugar, revivendo pela terceira ou quarta vez aquele acontecimento. Com a mão em seu ombro, tentava de qualquer forma diminuir a dor de sua amiga e amada, enquanto via as lágrimas escorrerem por seu lindo rosto, seu olhos ficavam ainda mais lindos quando tristes. Ninguém na sala parecia se importar ou os ver. Isso era bom, não queriam chamar muita atenção. Sofria, pois mesmo sentindo que talvez agora fosse sua chance de amá-la, sabia que no dia seguinte eles teriam resolvido seus problemas e todo aquele momento se apagaria.

Ele acorda novamente, com o som desesperado e contínuo do seu despertador. Não pensava mais, só observava o lado vazio de sua cama em mais uma noite. Seu computador aberto em um texto inacabado e mais um dia sem sentido a sua frente. Pela janela via apenas a neblina. Não queria pensar, não queria escrever, não queria sair e não sabia mais chorar. Queria apenas que a noite fosse eterna e que seu sonho fosse vigília.

domingo, 5 de agosto de 2012

Momento Cultural 4 - Chris Robinson Brotherhood


Na semana número quatro do Momento Cultural deste subestimado blog, a sugestão é a nova banda de, ele mesmo, Jesus Cristo! ...O quê? Não é Jesus? - Não. É Chris Robinson da banda Black Crowes, famosa em 1990 por reviver o que rock que, há muitos anos, sofria ataques de bandas de bonecas infláveis da década de 80, pop rock e grunge. Ele, seu irmão e os outros músicos, trouxeram de volta ao rock o improviso, os solos, a psicodelia e o LSD. Todos itens essenciais para uma boa banda de rock de verdade.

Em 2010 a Black Crowes decidiu encerrar suas atividades temporariamente, para que os músicos, hoje já no auge dos 40 anos de vida, passassem um tempo com a família e projetos solo. Chris Robinson Brotherhood é um deles.

Quem acompanhou a história do Black Crowes tanto quanto eu sabe que o Chris Robinson é o porra louca do Black Crowes. É dele que vinham os experimentalismos, as brigas e a influência pesada de Grateful Dead (que por sinal é uma das minhas bandas favoritas). E tudo isso aparece no projeto solo, cheio de improvisos, sintetizadores à Lucky Man (sabe? Emerson, Lake & Palmer? Não? Para o Google!), e viagens astrais. Agora em 2012 foi lançado o primeiro álbum da banda, o Black Moon Ritual - o primeiro álbum de 2012 que eu escuto também, mas que com certeza, pra mim, será o disco do ano.

Não é um cd de rock comum. Quer dizer, seria em 67, hoje é tão diferente que chega a assustar. O que pra mim é ótimo. Nenhuma faixa tem menos de 7 minutos e a mais longa tem 12. Agora pode ser culpa do uísque, mas na primeira vez que eu ouvi esse disco do começo ao fim, passou tão rápido que eu nem percebi.

Enfim, essa é sugestão da semana. Procurem este disco por aí, seja por meios lícitos ou ilícitos (preferencialmente lícitos, mas se não acharem, fazer o quê?). Como sempre, seguem alguns vídeos, já que a minha palavra não vale de porra nenhuma.




Não fiz a homenagem sobre Black Crowes, pois pra mim é um clássico, e eu não quero incluir muitos clássicos nesses momentos culturais. Só o Tom Waits mesmo, porque ele é muito subestimado. Mas de qualquer forma, CRB é foda ou não é?