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terça-feira, 31 de julho de 2012

Confissões de um ex-espírita


Nasci e fui criado em uma família espírita. Desde os dois anos já frequentava centros e ouvia sobre a religião. Essa foi a religião que me foi imposta quando era criança, não era necessariamente forçado a acreditar no espiritismo, mas sim em deus. Durante a minha infância e começo da adolescência, realmente acreditei naquilo tudo. Que deus existia, Jesus era um cara legal e o espiritismo a grande verdade absoluta que preenchia todas as lacunas da ciência. Quem poderia me culpar? Era uma criança e não tive acesso a nada que dissesse o contrário, quando tive, deixei de acreditar.

Não quero desrespeitar crentes de nenhuma espécie ou afirmar que esse singelo texto prova a não existência de deus ou a farsa do espiritismo. Aqui estou apenas reunindo um conjunto de ideias que me fizeram deixar de acreditar e podem auxiliar leitores que estejam em dúvida a tomarem uma decisão. Na verdade, algo indetectável, não pode ser provado como falso, mas tampouco como verdadeiro. É tudo uma questão de fé. Eu não acredito pela falta de evidências a favor da existência de espíritos, vida após a morte, Jesus, deus etc. Se amanhã um grupo de espíritos se mostrarem visíveis, o que de acordo com o próprio espiritismo é possível graças à materialização, e disserem que eu estou errado e que realmente tudo que Allan Kardec escreveu sobre é verdade, mudarei, naturalmente, de opinião. Até lá, sou ateu e continuarei sendo.

Por que o espiritismo está errado? É com essa pergunta que quero partir com as ideias do texto. Por causa de certas afirmações que ele faz que, são incoerentes, erradas ou simplesmente demonstram um alto nível de covardia intelectual e pseudociência.

Comecei a duvidar da veracidade do espiritismo quando os “espíritos”, que Kardec entrevista, começam a falar sobre os sonhos, no livro dos espíritos. Você, caro leitor, pode acreditar em mim ou não, não citarei aqui páginas de livro, capítulos ou coisa do gênero. Faça você sua própria pesquisa e depois diga que eu estou mentindo. De acordo com o espiritismo, os sonhos são encontros reais que o espírito, quando se desliga do corpo durante o sono (o que acontece com todos, não só os espíritas), tem com outros espíritos em outros mundos e assim por diante. De acordo com Freud, o sonho não é nada além de uma representação fictícia, simbólica e, por vezes, surreal, da realização de um desejo. Jung acrescenta a essa ideia, a possibilidade de fatores do cotidiano e do inconsciente, também fazerem parte de um sonho. Sempre de forma incoerente e simbólica. O que, quando paramos para reparar em nossos sonhos, faz mais sentido do que um encontro com outros espíritos. Exceto que o mundo espiritual seja uma obra de Salvador Dali e os espíritos tenham se esquecido de acrescentar esse detalhe em seu livro. Eu sei que isso serve apenas como experiência pessoal, pois retiro essa base dos meus próprios sonhos, mas creio que a maior parte das pessoas concorde quanto a esse fator. Outro detalhe é que, de acordo com o espiritismo, quando encontramos um conhecido, morto ou vivo, durante um sonho, realmente estamos nos encontrando com ele, em espírito, mas com ele. Hoje já não me acontece tanto, mas houve um tempo em que meus horários de sono eram muito irregulares e dormia em uma hora que a maior parte de meus conhecidos estavam acordados, logo, com seus respectivos espíritos contidos em seu devido lugar e não vagando por aí. Mesmo assim ainda sonhava com amigos e companheiros de trabalho, sempre em situações absurdas e cenários retirados de memórias do passado, que conhecia e faziam parte do mundo real, embora não fossem coerentes. Enfim, quase um filme do Buñuel. Com tudo isso, quando o espiritismo fala de sonhos, minhas experiências pessoais concluem que está errado.

Pensei nisso ainda tinha uns catorze anos de idade e foi partindo desse momento que comecei a me tornar mais cético quanto ao espiritismo e quanto mais falhas descobria, mais me aproximava da total descrença.

Em segundo lugar está o fato de que, ao longo das obras básicas, Kardec repete exaustivamente, como se com isso esperasse tornar a afirmação verdade, que a categorização do espiritismo como revelação divina se dava devido à uniformidade com a qual as manifestações espíritas ocorriam pelo mundo, contudo não se pode dizer que isso é verdade. As manifestações ocorreram e ainda ocorrem baseadas na crença pessoal e cultura de cada região. Muitas manifestações de “espíritos” ocorrem, por exemplo, entre as religiões africanas. Em essência é a mesma coisa, mas com ideologias morais diferentes e até mesmo deuses. O mesmo vale para a reencarnação Hindu, que será mencionada logo. Algumas manifestações acontecem de forma similar nas igrejas evangélicas, mas são consideradas obras do demônio. Então não há uniformidade de fenômenos. Há uma semelhança na forma que eles acontecem, então pode se dizer que é porque são uma manifestação natural, psicológica do ser humano, sua interpretação (que é o que importa) varia de acordo com a crença. De acordo com a afirmação de Kardec, a interpretação deveria, obviamente, ser que o espiritismo é verdadeiro, mas não é o que ocorre na realidade.

Quanto a psicografias e outros fenômenos mais individuais, podem ser facilmente forjados. Tanto que existe um site somente dedicado para essas farsas. A pergunta que normalmente se faz é – qual o motivo para tais farsas? Ora, não é necessário um motivo, a crença em si, já é razão o suficiente. Todas as religiões já falsificaram provas com objetivo de atrair crentes, mesmo quando não existe lucro, simplesmente para estar certo. Além disso, alguns “fenômenos” se dão, pois, o médium sofre de problemas psicológicos ignorados que tendem a sumir após medicação, logo ele realmente acredita que é um espírito que está escrevendo ou ditando ou, seja lá o que for. Estando no meio por muitos anos, já ouvi falar de psicografias realmente espetaculares, como uma mulher que escreveu um texto em inglês, mesmo sendo ela uma semianalfabeta, contudo nunca vi o texto para saber se realmente existe ou se está escrito corretamente. Não acho que ele foi corrigido ou sequer lido, pois embora todos soubessem que estava escrito em inglês, seu conteúdo é, por mim e todos que falavam sobre ele, desconhecido. Além de outras obras curiosas, para não dizer coisa pior, como os livros “pós-morte” de Tolstói e Victor Hugo (sim, realmente existe, podem procurar. Alguém foi cara-de-pau o bastante para utilizar o nome de dois dos maiores escritos da literatura mundial, como espírito autor de uma obra psicografada). Nunca os li, embora tenha curiosidade, não por achar que seja idôneo, mas pelas risadas que pode me gerar. Mesmo sendo parecido em estilo com os escritores falecidos, estilo é fácil de ser imitado por alguém com conhecimento suficiente e um mínimo de habilidade. Não prova nada. Isso sem falar de livros e psicografias que buscam justificar moralismos e preconceitos do autor, em nome dos espíritos, como por exemplo o livro “Memórias de um Roqueiro” (o título pode estar errado, mas é quase isso), que foi escrito por um espírito “não identificado”, mas na capa é óbvia a caricatura do Raul Seixas, então é um tanto sugestível. Que busca dizer que a vida de sexo, drogas e rock ‘n roll é errada e o próprio espírito autor do livro se arrependia profundamente de ter influenciado tantos jovens a levarem uma vida de pecado. O mesmo aconteceu com uma suposta psicografia de autoria do Fred Mercury, em um centro espírita que minha mãe frequentou, na cidade de Santos, escrita totalmente em português, por incrível que pareça, que fazia basicamente as mesmas repreensões aos hábitos do mundo do rock que o livro supracitado, com um extra mencionando a imoralidade do homossexualismo, mesmo considerando que, diferentemente do resto do cristianismo, em sua essência o espiritismo não é contra homossexuais, contudo isso não reprimi sentimentos homofóbicos dos “médiuns” que, ao receberem uma mensagem de Fred, inconscientemente inserem sua intolerância pessoal na carta.

Se isso não é o suficiente para levantar dúvidas quanto à verdade do espiritismo, direi agora o motivo principal pelo qual abandonei o espiritismo. O fato de que, mesmo com toda a crueldade, contradições e absurdos, o espiritismo ainda segue o cristianismo cegamente. Utilizando de todo um arsenal de distorções, invenções, “metáforas” e “cherry picking” (odeio americanismos desnecessários, mas não consigo pensar em uma expressão que sirva no momento. Basicamente significa escolher as passagens mais bonitas e ignorar as cruéis, igual a um fazendeiro colhendo frutas). Então pode se concluir, levando em considerar a necessidade do ser humano em encontrar conforto para sua própria existência, que o espiritismo é só uma tentativa falha de explicar os ensinamentos cristãos e mesclá-lo de alguma forma com ciência. Kardec era mais um cristão, que era racional o bastante para entender que a bíblia era um mito cruel e imoral (ele menciona isso em várias passagens de seus livros), mas covarde para encarar o vazio e a insignificância da vida. Com isso, lutou por anos para inventar possíveis leis “científicas” para embasar suas ideias e assim sentir-se menos culpado, encontrando as duas jovens católicas e, possivelmente, esquizofrênicas, que lhe disseram aquilo que ele tanto queria ouvir. Em suma, os fenômenos espíritas são exatamente isso, truques que nosso cérebro prega nos sentidos do crente (não o evangélico, mas simplesmente aquele que crê), para que embasem suas crenças e vontades. Uma justificativa forjada da fé.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Momento Histórico

Senhoras e senhores leitores,

Foda-se o mundo, alguém comentou nesse blog. Decreto portanto que, dia 30/07, é um feriado pessoal, para mim e todos os meus fiéis leitores.

Tamanha alegria só irá se repetir quando surgir o segundo seguidor. Sim, segundo, pois o primeiro sou eu mesmo.

Aplausos!

Pensamentos de um antiquado ou Moça da Lavanderia


“Preciso comprar uma máquina de lavar. É caro, mas ainda mais alto é o preço da lavanderia. Se bem que eu não levo jeito nenhum para essas tarefas domésticas, acabaria por destruir todas as minhas roupas, que já não estão em boa situação, em poucas semanas. Além disso, lá vejo F., a filha dos donos da lavanderia. Que garota espetacular. Na verdade estou sendo superficial, não sei nada sobre ela, além de sua beleza. Não acho que um dia conversamos por mais de um minuto, tentei fazê-la rir algumas vezes com algum sucesso, contudo não fluiu o assunto. Talvez devesse convidá-la para sair um dia, ver um filme talvez. Não. Quem, hoje em dia, faz esse tipo de convite? Talvez eu devesse seguir o conselho do pessoal do escritório e simplesmente ir a uma dessas baladas com eles. Provavelmente não conhecerei ninguém especial, mas é verdade que faz tempo desde minha última companhia feminina. Tanto tempo que comecei a assistir filmes mudos. Mas eu sei que não vou conhecer ninguém interessante lá. Gostosas aos montes, mas interessantes - nenhuma. O que importa? Até onde eu sei, nada indica que essa F. seja interessante mesmo. É melhor eu esquecer, é necessário ter dinheiro para esses lugares. Uma cerveja, nessas baladas, custa 14 reais, e nem é cerveja boa, é sempre dessas baratas que se encontra por 99 centavos em qualquer mercado. E um carro. O famigerado carro. Não tenho nem um, nem outro. Além do mais, como faria o convite?
- Bom dia, como vai? Então, estava pensando, você gostaria de ir ao cinema comigo um dia desses ou qualquer outra coisa? Espere antes de responder, eu sei que eu não sou grande coisa, quanto a aparência, não me exercito ou sequer faço a barba com frequência, mas eu sou companheiro. Não gosto de futebol nem nada disso, estou a disposição quando necessário. Gosto de conversar e, até onde sei, sou um bom ouvinte. Eu sei que você é linda e deve estar cansada de babacas, como eu, que não conseguem diferenciar um bom serviço, de interesse sexual, e por isso eu te peço perdão. Mas pense, alguém tem que ter iniciativa, do contrário nossa espécie não teria se tornado o que é hoje. Eu sei que sou pobre, não tenho como te dar o que você quer, ou um carro para nos levar ao cinema ao qual eu te convido, mas eu estou interessado o bastante para vir aqui e fazer esse papel de palhaço para o seu entretenimento, que tal?

Nossa, já posso ouvir seu - "nem fodendo." - e nem mesmo cheguei na lavanderia. Sei que isso não é nada, e eu tenho que, pelo menos tentar, mas e depois? Não conheço nenhuma outra lavanderia, vou ter que voltar aqui toda a semana e encarar seu olhar de desprezo. Eu quero comprar uma lava-roupas, mas não dá. Ou pior, e se ela aceitar, mas não der certo? Aí que eu perderei a lavanderia de vez! Quer saber? Não importa, haverão outras!"

- Bom dia, como vai?
- Bem, e você? - ela responde.
- Bem. Aqui estão aos roupas. - eu digo, acomodando um saco plástico no balcão.
- Por quilo, como sempre?
- Isso mesmo.
Ela leva o saco a balança e, após pesar, diz:
- São 20 reais, vai pagar agora ou na volta?
- Quanto?
- 20 reais.
- Na volta.
- Ok, fica pra essa quinta, tudo bem?
- Sem problema, obrigado.
- De nada, tchau.
- Tchau.

E sigo de volta pra casa, como sempre. 

sábado, 28 de julho de 2012

Momento Cultural 3.1 - Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge



Como todos vocês sabem, existe um filme por aí, meio desconhecido, cult, chamado Dark Knight Rises (Batman - Cavaleiro das Trevas Ressurge), que eu acabo de ver, na verdade cheguei há algumas horas do cinema e decidi postar meu parecer (sem spoiler por enquanto, talvez faça uma versão com daqui há uns dias), fazendo, então, dois momentos culturas em uma semana. Não se acostumem leitores imaginários.

Inicialmente quero deixar claro que gostei muito da trilogia. Batman Begins foi ok, Cavaleiro das Trevas foi excelente e Ressurge, na minha opinião, meia boca. Melhor que o Begins, mas com potencial de ser muito melhor do que realmente foi.

Gostaria de começar falando da Anne Hatthaway. Não me lembro de um dia ter visto um filme bom dela, não tanto por sua capacidade de atuação, mas por culpa do roteiro e direção dos filmes que, em geral, já são péssimos. Quando ouvi que ela seria a Mulher-Gato pensei, "fodeu", mas estava errado. Ela roubou a cena, se tornando, talvez, a melhor Mulher-Gato entre os filmes do Batman. É verdade que ela não é um ser humano com poderes de gato, e sim, só uma ladra muito habilidosa e inteligente, com jeito felino, o que, como a trilogia do Nolan foca no realismo, é muito bom. Nenhuma reclamação quanto ao papel dela, surpreendente.

Os outros personagens mantém seu padrão. Nem vale muito a pena gastar texto com eles, pois todo mundo sabe que são ótimos, então vou direto ao Bane. Também excelente, quase tão bom quanto o Coringa do Ledger, muito carismático como todo o vilão deve ser. Pelo menos foi isso que eu pensei até os momentos finais do filme, quando a merda acontece.

Não quero dar nenhum spoiler, e não o farei, mas a palavra que me vinha em mente durante todas as reviravoltas das cenas finais era - desnecessário. Problemas que provavelmente foram causados por falta de atenção do roteirista em meio aquela trilogia grandiosa. O principal problema, pra mim, foi o clichê "enrolar para que tudo se resolva no último segundo". Talvez antigamente, isso trouxesse mais emoção, mas hoje, filmes desse tipo, não vão mais surpreender. Com toda a destruição e derrota, é claro que no fim tudo vai dar certo, pra que esperar o último segundo?! E esse truque não acontece uma só vez. Acontece inúmeras! Decepcionei-me ao ver um filme, relativamente, inovado, em se tratando de filme de super herói, utilizando um artifício tão barato.

Se eu pudesse dar spoilers, teria um texto maior e mais elaborado, mas por enquanto é só. O filme é excelente, poderia ser melhor que seu antecessor, se não escorregasse logo no final, que é tão importante para o filme.

Momento Cultural 3 - Tom Waits


Tom Waits, um dos melhores músicos vivos, e um dos meus favoritos. Começou em meados da década de 70, indo na direção contrária do seu tempo, tocando músicas que misturavam jazz, blues e gêneros pré-rock, tudo isso com muita teatralidade em um estilo meio vaudeville, meio beat.

Com o passar dos anos, foi mudando seu estilo, ficando mais elétrico e teatral ainda, na década de 80 (mesmo assim diferente da época, nada de sintetizadores e mullets para esse cara!), e partindo de 90, flertando em excesso com o industrial. Música industrial e eletrônica, na verdade qualquer coisa que use mais computadores que pessoas para ser feito, não me agrada muito, mas ele ainda mantém seu estilo mesmo assim.

Na minha opinião ele é um dos grandes originais, com sua voz que mais parece ter saído de um gargarejo com vidro, óleo diesel, uísque e sal, em outras palavras, simplesmente fantástica. Não fiquem com a minha palavra, seguem alguns vídeos. Dessa vez só links, pois o blogger decidiu me foder hoje, quase que essa porra de post não saiu. Viram como eu me dedico! Outro dia coloco os vídeos direito (sou um jegue na informática) como de costume, agora não vai ser possível. Se eu continuar mexendo nisso, tenho um derrame. Até semana que vem com os momentos culturais e diariamente com as outras bobagens.

Videos:

Oh how we danced... Desculpem, eu não sei cantar nem dançar, mas essa música é demais.






Escutem bebendo um bom uísque ou vinho ou qualquer coisa barata, desde que embriagado.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Microconto II - Tragédia à luz da lua


- Que noite estranha foi essa. Que horas são?

- Uma da manhã.

- Quem é você?

- Não se lembra? – ela era uma bela morena, estava escuro demais para reconhecer seu rosto, mas me parecia familiar. Seus olhos eram tão lindos e profundos que podia ver seu azul mesmo no quarto sem luz. – Então você acaba de se esquecer da melhor noite de sua vida.

- Eu realmente me sinto muito bem.

- Só isso?! Depois do que fizemos ontem era para você estar completamente entorpecido.

- Qual o seu nome mesmo?

- Pra que formalidades agora. Não nos veremos mais, foi nossa primeira e última noite.

- Mas espere! Você disse que era uma da manhã, mas eu tenho a impressão que dormi por uma noite.

- E dormiu. Dormiu por uma noite e um dia. É uma da manhã, do dia seguinte.

- Mas o que foi que aconteceu?

- Bom, além do sexo, nós bebemos bastante. Talvez tenha sido isso.

- E por que você ainda se lembra, se bebeu tanto quanto eu?

- Ora, eu sou diferente.

Não entendia nada do que estava acontecendo, então me levantei da cama e abri a janela. Olhei bem a rua, os prédios, os carros e não reconhecia nada.

- Onde estou?

- No seu apartamento.

- Esse não é meu apartamento.

- Olhe bem.

Olhei novamente e reconheci que aquela era a rua onde morava com meus pais em Santos. Reconheci o posto de gasolina, a casa logo em frente, a igreja ao lado, a loja de baterias e acessórios para carro da esquina, o boteco. Lembrava-me de todos os detalhes da rua. Afastei-me da janela e passei meus olhos pelo quarto, agora levemente iluminado pela lua e as luzes da rua. Realmente era o quarto em que meus pais costumavam dormir quando ainda moravam lá. Tudo estava exatamente igual, do papel de parede a mobília. Achava que tudo havia sido retirado após a mudança, mas pelo jeito estava enganado. Olhei para a mulher misteriosa, tentando reconhece-la, mas não tive sucesso. Ela não me era estranha, mas não conseguia me lembrar. Só sabia que me sentia bem perto dela, que realmente queria estar ali naquela situação. Até fiquei triste em saber que não a veria de novo, mesmo sem saber seu nome ou de onde nos conhecíamos ou se nos conhecíamos.

- Agora reconheço – disse impressionado – mas, o que estamos fazendo aqui? Eu me mudei faz mais de três anos.

- Eu não sei.

- Mas você sabia onde estávamos e que um dia eu já morei aqui, não é?

- Sim.

- Como?

- Você pergunta demais. Deveria somente aproveitar o momento um pouco mais, enquanto ainda dura.

Parei para observar a rua novamente e à distância vi duas crianças brincando em uma varanda. Elas pulavam e se empurravam, até que uma delas, descuidadamente, empurrou a outra com mais força, a lançando para fora da varanda, derrubando-a do prédio. Fiquei nervoso ao ver a situação.

- Aquela criança caiu da varanda! – gritei, sem saber o que fazer e me sentindo perdido, enquanto a mulher que me acompanhava ria.

Então aquela que empurrou, pulou em desespero para tentar salvar seu amigo. Fiquei ainda mais angustiado com a situação, pois considerando a altura do prédio em que estava aquela varanda, era lógico que elas tinham morrido pela queda.

Comecei a ouvir gritos de desespero pela rua, tantos que não conseguia identificar a sua origem. Eram berros de todas as espécies: - “Meu filho!” – “Aquelas crianças pularam!” – “Alguém vai ver o que houve!” – “Socorro!” – “Meus filhos morreram!”. Todos extremamente altos e desesperados. Gritos que se esperaria ouvir vindos do inferno.

Essas vozes prosseguiram por mais alguns minutos, até que um homem disse: - “Vou salvá-los!” – e pulou de sua janela. Logo foi acompanhado por toda a vizinhança que aos poucos pulavam de suas janelas em direção ao concreto impassível. Alguns, que moravam em prédios mais altos, morriam imediatamente esmagados pelo seu próprio peso, enquanto outros quebravam alguns ossos, mas prosseguiam a se arrastar em direção ao local onde deveriam estar os corpos ensanguentados daquelas pobres crianças.

- Você não vai fazer nada? – perguntou-me minha acompanhante misteriosa.

- Para quê? – respondi, enquanto ela encostava-se a mim e eu punha meu braço ao redor de seu corpo – Estarão mortos de qualquer forma.

Os corpos continuavam a se atirar e gritar e se espalhar em sangue pelas ruas, enquanto nós ríamos e nos beijávamos à luz da lua avermelhada.

domingo, 22 de julho de 2012

Momento Cultural 2 - Charles Bukowski



Minha sugestão da semana é a obra de Charles Bukowski. Os romances, os contos, as poesias, o que você encontrar. Se for Bukowski, leia.
Não vou incluir nesse post, e nem em nenhum outro momento cultural, a biografia do sugerido, pois pode ser encontrado em qualquer lugar da internet. Use o Google, não seja preguiçoso.

Por que estou sugerindo Bukowski entre tantos escritores, muitos até melhores que ele?
Excelente pergunta! Sugiro esse escritor como meu primeiro momento cultural literário, pois foi dele o primeiro livro que li do começo ao fim, por vontade própria - Misto Quente. O segundo também, foi Cartas na Rua. Ambos excelentes e uma boa introdução para a obra do autor.
Simplesmente sou um dos muitos traumatizados com literatura por culpa dos anos de escola, quando Iracema é considerado obra obrigatória e depois de ler um parágrafo, dormir e acordar uma semana depois na fronteira da Argentina com um testículo a menos, desisti dos clássicos e dos livros. Fiquei com os filmes e músicas, que nunca me maltrataram. Até que aos dezenove anos, li um livro dele e toda a minha vida mudou, sou um leitor razoavelmente assíduo, embora iniciante, e consigo ler clássicos sem nenhum problema. Além de me arriscar a escrever uns contos, poesias e artigos de vez em quando.


Algumas palavras de sabedoria do homem.

O poema "isso então" (O amor é um cão dos diabos - p.131)

é o mesmo que antes
ou que da outra vez
ou da vez anterior a essa.
eis um pau
e eis uma boceta
e eis problema.

a cada vez
você pensa
bem eu aprendi desta vez:
vou dizer a ela que faça isso
e eu farei isto,
já não quero a coisa toda,
só um pouco de conforto
e um pouco de sexo
e apenas um mínimo de
amor.

agora novamente espero
e os anos vão escasseando.
tenho meu rádio
e as paredes da cozinha
são amarelas.
sigo esvaziando as garrafas
à espera
dos passos.

espero que a morte reserve
menos do que isto.

Com isso encerro o momento cultural dessa semana. Espero que gostem e leiam as obras de Bukowski.
Semana que vem tem mais.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Neste Domingo Animei um Lanche


Existem várias coisas nesse mundo que eu não entendo. Com isso não estou falando dos mistérios do universo, origem e sentido da vida ou qualquer coisa filosófica, mas sim os mais simples hábitos humanos. Noutro dia estava saindo de casa para ir ao mercado e cumprir com certos afazeres domésticos, quando uma moça vestida de sanduíche me chama a atenção pulando e dançando, enquanto passava em frente ao restaurante que a empregava. Não sei dizer qual era a sua idade ou aparência, pois a fantasia a cobria totalmente, tanto que só identifiquei que se tratava de uma mulher por causa de sua voz. Estava levemente desligado por se tratar de um Domingo (para mim Domingo é sinônimo de tédio, sonolência e, de vez em quando, ressaca), então ao ver aquela figura saltitante em frente aquela lanchonete fast food que fica colada ao prédio onde moro, não resisti ao impulso e perguntei: -“Por que fizeram isso com você?” e, sem esperar por muito tempo uma resposta, simplesmente segui meu caminho. Quando eu estava uns passos mais afrente a ouvi gritar: -“Você deixou um lanche muito triste!”.

Quero que fique bem claro que, em nenhum momento foi minha intensão ofender ou humilhar aquela moça, pelo contrário. Com meu questionamento, quis expressar simpatia por ela e toda uma classe esquecida de trabalhadores honestos que são obrigados diariamente a se vestir com as mais esdrúxulas roupas com o simples intuito de recepcionar e atrair consumidores. Não é só ela, mas também palhaços mal maquiados em portas de loja em promoção, outros em lojas de itens infantis fantasiados de personagens da Turma da Mônica (uma das fantasias mais utilizadas, independentemente do contexto, chega a ser um abuso aos direitos de imagem), homens estátua e até, mais recentemente e de maneira sazonal, os caixas do supermercado o qual estava me dirigindo, que se vestiam em homenagem as festas juninas (com roupa xadrez, tranças, chapéu de palha e toda a aparelhagem). Vendo todas essas fantasias, só me vinha em mente uma pergunta – para quê?

Para que um dono ou gerente de um determinado estabelecimento iria exigir tal vestimenta de seus funcionários? Atrair clientes não é, pois eu não conheço um ser humano adulto inteligente que escolha as lojas que frequenta com base na qualidade do palhaço dançante que o atraiu. Crianças? Não sei as outras, mas lembro que durante minha infância tive medo deles, talvez esse fato até explique essa minha crítica hoje. Não consigo pensar em um grupo de pessoas que prefira lojas com atendentes fantasiados, acho até que o lógico seria preferir as que não se utilizam dessa estratégia já que, comprar já é uma tarefa dolorosa, comprar enquanto uma pessoa fantasiada pula ao seu redor é absurdo!

A única conclusão lógica é que o patrão sente prazer em humilhar seu funcionário, fazendo-o se vestir de maneira ridícula enquanto este exerce sua função. Uma expressão quase surreal de abuso de poder, não só de vestimenta, mas de identidade. Sim! Pois lhes digo que a fantasia é mais que somente uma vestimenta para os que fazem parte dessa linha de trabalho. Aquela pobre moça da lanchonete não era mais a Maria, a Vera, a Ana ou qualquer que fosse seu nome, ela era o Lanche, em suas próprias palavras. Assim como o João se torna o Palhaço Marmelada quando veste sua peruca e nariz vermelho, a Fernanda se torna a Magali e, nos shoppings em Dezembro, o seu Antunes é o Papai Noel.

Sou contra esse tipo de atitude. Não trabalho nesse meio, mas não é como se a minha função fosse superior ou eu tivesse um papel mais relevante na sociedade. Também faço parte da massa de operários dessa grande indústria chamada sociedade e sei que meu trabalho seria ainda pior se me obrigassem a me vestir de Cachorro-Quente. Por isso ao voltar do mercado e ver que ela ainda estava lá, talvez até mais saltitante que antes, fui até ela e pedi desculpas pelo meu comentário e me expliquei como estou fazendo agora por meio deste texto, recebendo de imediato a resposta: -“Agora você fez um lanche muito feliz!”.

sábado, 14 de julho de 2012

Momento Cultural 1 - Siena Root

Olá a todos os meus leitores assíduos. Quero, partindo deste post, dar início a uma série de posts, possivelmente semanal (mas como eu não tenho nenhum leitor fiel, ninguém vai verificar, então foda-se), que busca dar sugstões de músicas, livros e filmes, que me agradam e podem agradar a você também, meu caro desorientado.

A sugestão da semana e a primeira de várias é a banda sueca Siena Root. É uma banda de rock relativamente nova, de 2004 se não estou enganado. No total eles já gravaram 5 álbuns, dos quais nenhum deles estará disponível para download aqui, mas que podem ser facilmente encontrados na loja do Paulo Coelho, no 4shared e outros sites dessa categoria. Não sugiro a compra, pois, se você for brasileiro (de acordo com as estatísticas do blog provavelmente não é, talvez seja Americano ou Russo, se for, estou pouco me fodendo - você nem me entende) não irá encontrar estes cds em lugar algum.

Para facilitar os álbuns são:
- A New Day Dawning - 2004
- Kaleidoscope - 2006 (Sugiro que comecem por este, um dos melhores)
- Far from the Sun - 2008
- Different Realities - 2009
- Root Jam - 2011 - Este é meio que uma coletânea ao vivo, muito bom mesmo assim, talvez até melhor. Se trata de uma daquelas raras bandas que faz um trabalho ao vivo tão bom, se não melhor, que em estúdio, sabe?

A banda é um misto de rock verão do amor de '67, música Indiana e ritmos do Oriente Médio (tanto que foi essa banda que me fez conhecer, quando tinha 16-17 anos, Ravi Shankar e outros grandes músicos orientais, talvez fale disso nos próximos posts).

Aqui alguns vídeos, para que o leitor não tenha que contar somente com a minha desvalorizada palavra:


Essa cantora é simplesmente excelente, uma pena que tenha saído da banda em 2007, embora ache que ela tenha voltado agora. Um problema nessa banda, os vocalistas são instáveis, nenhum deles dura por mais de um álbum.


Olha a música indiana aí, não falei?


Chamada para o álbum Root Jam.

É isso, espero que tenham gostado da sugestão. Quero mesmo tornar isso semanal, mas me falta tempo. É um projeto, talvez atraia leitores. Comentem, me sugiram alguma coisa, talvez eu não conheça. Me sugiram coisas para o blog em geral, não só essa série, ouviu bem russo que me encontrou depois de 20 doses de Stolychnaya ou Russian Delight?!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A passividade do brasileiro

Somos uma terra de gente orgulhosa e supostamente guerreira. Falamos o que bem entendemos de nosso país e seus defeitos, mas ai do estrangeiro que se arriscar a fazer o mesmo. Somos como aquela esposa insatisfeita que insulta o marido em todo e qualquer encontro que tem com suas amigas. Que reclama de seus hábitos, de seus gostos, de sua fala, de seus atos. Mas pula no pescoço daquela que disser: - “Sabe, não tinha percebido, mas você tem razão.”

Acontece que essa revolta que existe contra o estrangeiro ousado, simplesmente morre quando deve ser direcionada ao verdadeiro responsável por todos os nossos problemas. O brasileiro é simplesmente o povo mais passivo da história de nossa humanidade ensanguentada. É claro que essa passividade não é admitida. É maquiada com a falsa ideia de que o nosso povo é bom e civilizado, não se rende a barbáries que "nada resolvem".

Quero conhecer outro povo que tenha sido tão oprimido quanto o brasileiro e não tenha em nenhum momento se armado e assassinado seu opressor. Anos como colônia; depois se tornou monarquia, sendo os reis os antigos colonizadores; seguido por décadas de falsa democracia; duas ditaduras, uma delas militar; e finalmente nossa situação atual, que não deixa de ser altamente opressora. Agora peço ao leitor que me indique em todo esse período, um responsável que tenha sofrido uma punição compatível aos seus crimes. Nenhum, o mais próximo foi Getúlio Vargas que cometeu suicídio, mas se não o tivesse teria passado o resto de seus dias com uma farta aposentadoria. Ou até mesmo seria senador ou deputado, depois de alguns anos. Alguém duvida?

Os militares oprimiram, mataram e “desapareceram” com pessoas que até hoje não se sabe o paradeiro. Nada aconteceu com nenhum dos criminosos. Todos mantiveram seus cargos, só abandonaram a política. O que até é uma vantagem para eles já que, as últimas grandes atuações do exército brasileiro foram durante o mini genocídio, também conhecido nos livros de história como Guerra do Paraguai, e uma participação mediana na Segunda Guerra Mundial, ambos antes da ditadura, o que me leva a crer que o golpe de estado foi motivado por tédio. Vez ou outra auxilia nas ocupações de favelas para justificar sua existência, mas isso é função da polícia. Bastaria transferir os soldados para a polícia e teríamos grande economia de verbas públicas. O suficiente para oferecer salários decentes para os policiais que, mesmo com todos os seus defeitos, realmente trabalham e ainda merecem respeito.

Nenhuma punição aos ditadores, alguns até querem transferir a culpa a certos grupos que lutaram contra o regime. Chamando-os de ladrões, sequestradores ou assassinos. Se os alvos desses ataques foram civis inocentes, então eles merecem esse título. Se foram militares, são heróis. Incriminá-los é o mesmo que prender alguém que tenha tentado matar Pinochet ou Hitler. Ou até mesmo punir os homens que conduziram a Revolução Francesa e assassinaram sua nobreza.

Falando em nobreza, vamos voltar à ao tempo dos reis e nos perguntar que fim os levou. Provavelmente os herdeiros da família real, embora não tenham tido o mesmo destino que os franceses. Devem estar esquecidos em algum apartamento de classe média, após terem perdido todas as suas riquezas. Vivendo como uma pessoa normal, que um dia foi alguém, mas hoje é um Zé da Silva, como você e eu. Assim seria em um país onde a passividade não reinasse mais do que a realeza. Nossos ex-nobres, vivem exatamente na mesma nobreza que sempre viveram, só que agora sem sua função. Quase como os nossos militares, mas sem nenhuma justificativa. Faz-me pensar que os mantemos ao alcance, caso um dia surja um arrependimento e, em surto de desespero, os devolvemos a coroa. E quem paga por esse luxo? Nós, o povo otário, que embora não seja súdito na teoria, vive como tal por gosto ou vício.

Somos viciados em submissão. Mesmo hoje que temos uma verdadeira democracia, mantemos por gosto nosso regime corrupto. Contamos umas piadas sem graça aqui e ali, que tem um tom meio ácido, mas na realidade são tão afiadas como uma colher de madeira. Piadas que a ninguém atinge, mas mesmo assim, ora ou outra tentam censurar. Nada acontece, se alguém for pego roubando hoje, terá o direito de roubar amanhã. Ninguém irá puni-lo, ninguém saíra às ruas em sinal de protesto ou até mesmo invadirá armado o congresso trazendo o desfecho merecido à vida da maior parte daqueles homens. Gostamos da nossa situação. Essa é a verdadeira natureza do brasileiro, um povo amistoso, receptivo, festeiro e otário.

sábado, 7 de julho de 2012

O Fim da Paixão


É um fato, a paixão esta morta entre os artistas. O arquétipo do artista incompreendido e faminto está extinto, enterrado em algum lugar do passado. Vamos, por instante, lembrar porque essa imagem do escritor, pintor, músico ou o que seja pobre e louco, surgiu em primeiro lugar. Temos essa ideia devido a teimosia destes em simplesmente aceitar a vontade de seu público e patrocinadores e, por dinheiro, estuprar sua obra. Amavam o que faziam e a mensagem por traz do seu trabalho, por isso, independentemente da oferta, recusavam-se a adulterá-lo, e com razão em fazê-lo. Em troca dessa teimosia, tornava-se visível a paixão, a fúria, a intensidade, o amor em suas obras. Um sacrifício justo em minha opinião, embora infeliz.

Simplesmente não vejo mais isso atualmente. Não na grande mídia. Todos são robôs e isso me desespera. Não existe mais aquela identidade entre o artista e sua arte, é tudo um grande negócio. Alguém compõe alguma coisa rentável, para algum músico que tenha boa aparência e um mínimo de carisma e pronto! Temos o mais novo hit milionário! Mas de que vale tudo isso? O que será de nossa próxima geração, que não terá nenhum Stravinsky para falar sobre? Só espero que nosso passado não seja completamente apagado, pois, sem ele, desligamos os aparelhos que mantém viva a nossa arte vegetativa.

No shopping ninguém pode te ouvir gritar.


Não existe lugar onde as pessoas são mais indiferentes do que em um shopping. Shopping, supermercado, qualquer centro comercial. Qualquer lugar que tenha por finalidade o consumo. Que o leitor não me entenda errado pensando que eu sou um desses que acha que a razão de toda a decadência da sociedade moderna se encontra nos hábitos de consumo atuais. Na verdade nem acho o consumo algo totalmente prejudicial, mas não sei o que acontece nesse tipo de ambiente que torna pessoas normais em completos zumbis, completamente inconscientes de que naquele mesmo lugar existem outras pessoas com os mesmos objetivos que eles. Abandonando carrinhos, andando lado-a-lado em grandes grupos interditando corredores, acampando em frente a vitrines e simplesmente ignorando tudo e todos à sua volta.

Acho que essa indiferença geral é o principal motivo pelo qual pais tem medo de deixar seus filhos a sós nesse tipo de lugar. Porque é muito provável que um dia uma criança de cinco anos seja arrastada pelos corredores de um shopping por um pedofilo qualquer para ser estuprada no banheiro e ninguém tentará impedir ou sequer reagir quanto à situação.

Isso pode ser um exagero da minha parte, afinal vivemos em uma geração hiperbólica. Anedotas medíocres são consideradas hilárias, acontecimentos sem importância são épicas, históricas ou fantásticas. Imagino que isso deixe as situações realmente relevantes sem adjetivos sobrando, fazendo com que estas percam sua magia. Mas, voltando ao assunto antes que me disperse completamente, mesmo que tenha exagerado em algum momento, minhas hipérboles tem, quase sempre, características proféticas. Aguardem, poderei estar certo um dia.

Não entendo o motivo disso. Não entendo o porquê de nossas emoções entrarem em coma em ambientes comerciais. As únicas pessoas que conseguem manter-se humanas nesses lugares geralmente são os funcionários, principalmente os mais novos, os antigos já estão completamente cínicos quanto sua própria existência, contudo as emoções que lhe restam geralmente são de ódio e desprezo, e estes, com o tempo, inevitavelmente transformam-se em indiferença.

Talvez seja esse o motivo. Anos atrás tínhamos ódio de ambientes comerciais. Hoje, toda essa raiva é parte do passado, pois entendemos que esses lugares são parte essencial de nossa sociedade, por pior que isso seja. Nosso ódio, assim como o dos funcionários, cumpriu seu papel e, como uma borboleta saindo do casulo, virou indiferença.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sobre o Homossexualismo


Os homossexuais em um intervalo de um ano foram de um grupo esquecido, isolado da sociedade, para a maior ameaça a espécie humana desde a bomba atômica. Isso sem nenhum motivo aparente.



Por alguma razão misteriosa, líderes conservadores e religiosos estão tentando de qualquer forma proibir o casamento gay. Não importa a crise econômica mundial, a Grécia vendendo até o povo, o meio ambiente e a popularização da música sertaneja, tudo isso vai acabar quando os homossexuais desistirem do casamento.



Eu entendo que seja uma questão de democracia, mas como homem heterossexual, não vejo qual pode ser o meu papel nessa decisão. Pouco me importa se gays ou lésbicas se casam, desde que não seja comigo, sou a favor da liberdade. Embora não me importaria nem um pouco em ajudar um casal de lésbicas com tendências bissexuais a fazer seu trabalho.



A questão aqui é que, pais (ou mães) homossexuais podem vir a ser más influências aos filhos adotivos, mas também poderia aquela senhora que espancou o Yorkshire sem nenhum motivo aparente ou aquele casal hétero que atirou a filha da janela. Que fim levou esses dois, por sinal? Nesse caso ninguém se manifesta, é normal. Pais tanto hétero quanto homossexuais podem ser um problema, isso não é exclusividade de certo grupo de pessoas. Além disso, dizer que a criança adotada pode virar homossexual, também é absurdo, sendo assim não existem gays, pois todos os pais biológicos são héteros, logo “nunca houve” má influência.



O que os religiosos não querem aceitar, mas já foi provado, é que ser gay é genético, acontece, “deus” fez assim, logo é natural. Portanto não existe motivo para impedir seu casamento. No entanto, quanto ao casamento religioso, concordo que a igreja deve ter total liberdade para realizar ou não a cerimônia, afinal o livro deles deixa bem claro a intolerância ao dizer que gays são “abominações”. Seria bom que o sacerdócio tivesse a decência de mudar seus dogmas, quando estes excluem e julgam os outros, mas isso é utópico. Eles têm direito a intolerância. Agora proibir qualquer forma de casamento entre homossexuais é ridículo, obra de quem queria ser igual, mas não pode devido à pressão da sociedade, então decidem proibir a todos de fazê-lo. Por isso eu digo, homofóbicos saiam de seus armários, se entreguem aos seus instintos. Sejam livres e permitam a liberdade dos seus iguais.



terça-feira, 3 de julho de 2012

Opiniões


Opiniões viraram times de futebol, se você é contra alguma coisa, logo dever ser contra aqueles que são a favor. O raciocínio lógico, prós e contras, não são mais considerados. Formam-se grupos e se você quiser fazer parte, adapte-se a ele. Lute com todas as suas armas, sem pensar nos desastres que essa convicção exagerada pode trazer. Se você acredita em deus, deve ser conservador, de direita, contra a legalização do aborto, drogas, secretamente ser a favor da censura, criacionista e absolutamente contra o casamento gay. Já ateus devem ser de esquerda, a favor da legalização do aborto e drogas, liberal, contra a censura, mas respeitando o politicamente correto, principalmente em se tratando dos seus direitos de não ser ofendido (o mesmo vale para o outro time), a favor do casamento gay (a que ele se refere como união homo afetiva, vide o pc) e evolucionista mesmo sem nunca ter tocado em um livro sobre o assunto, no máximo decorando umas máximas convenientes.

Ambos os lados errados. Cegos, uns creem que deus salvará a humanidade e o outro acredita em si e nos seres humanos. Tanto direita quanto esquerda estão errados, tentaram e falharam. Deus é uma ilusão, boa pra quem quer uma solução, mas não quer resolver. E acreditar no ser humano é patético. Pior ainda em si mesmo! Quanto às outras opiniões, bastaria respeitar a liberdade individual, façam o que quiserem, só não formem times, a causa é uma só.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Primitivo


Ele não tinha muito, ferido, esperava a morte. Vivia isolado em um acampamento improvisado, feito com galhos, pedras e folhas. Foi expulso de sua família por um acidente, não tinha visto a raiz da árvore e tropeçou, chamando a atenção dos animais. Na fuga, dois primos seus foram pegos e um tio morreu também tentando salvá-los. No dia seguinte após o fiasco, foi expulso do grupo a paus e ossos que lhe eram atirados. Um dos pedaços lhe atingiu a boca, danificando alguns de seus dentes e causando cortes internos, e outro o atingiu cortando o braço. Ele correu para fugir dos projéteis, adentrando uma floresta ainda desconhecida para ele.

Tinha doze anos, metade da vida dos da sua espécie, era um caçador iniciante em seu grupo, no entanto não mostrava muito talento, o que, além de causar sua expulsão, sempre lhe foi motivo de zombarias entre os outros caçadores mais privilegiados. Nunca tinha se aventurado fora do acampamento sozinho. Fora alertado quando criança para não fazê-lo, lhe contaram histórias sobre os ferozes animais que viviam nas matas. Predadores hábeis, que não discriminavam quando em busca de comida. Correu desesperadamente para escapar da vingança de seus familiares, correu enquanto suas pernas lhe permitiram, até perceber que partia a grande esfera iluminada de fogo, que lhe trazia a luz e boa fortuna.

Decidiu, então, fazer um acampamento improvisado, com as técnicas que lhe ensinaram ao longo da juventude. Reuniu algumas folhas e galhos de diferentes tamanhos. Com isso, não estava protegido, mas não seria facilmente visto, pelos predadores que buscavam justamente um abandonado igual a ele.

Não sabia o que fazer, milhares de coisas se passavam por sua mente confusa. Talvez o estivessem procurando ainda, talvez já o estivessem estudando, predadores ou outro grupo rival de sua espécie. Batalhas entre grupos de sua espécie eram muito comuns, seja por território, comida ou parceiras fêmeas, ele sozinho seria um alvo fácil, então quase não dormiu. Ficava ouvindo os passos, os sons que algumas presas, com menos sorte que ele, emitiam quando eram pegas, as árvores, o vento. Nem todos os sons existiam, mas o medo lhe confundia. Fechava os olhos por alguns minutos, por exaustão, mas logo acordava em desespero, crendo ter sido encontrado por alguma coisa. Horas e horas de angústia e insônia, mas ele viu o sol nascer novamente, afastando o frio e a escuridão da noite, mas não o perigo das matas.

Tinha fome. Não comia faz quase um dia, na verdade por sua culpa. Se ele não tivesse atrapalhado a caça de seus companheiros, talvez não tivesse sido expulso e agora tivesse uma refeição. Lembrou-se por um momento de sua família e se entristeceu. Não sabia se um dia voltaria a vê-los, e, se os visse, seria recebido, provavelmente não. Procurou esquecer, levantou-se, enxugou os olhos, pegou sua lança de madeira e pedra, que levou consigo durante toda a fuga, e procurou uma presa a sua altura, tomando cuidado para não atrair seus superiores.

Seu coração pulsava com força e velocidade, enquanto caminhava vagarosamente. Seus olhos não paravam um instante, até que viu um lago. Aproximou-se cuidadosamente, como um cão, buscando por ruídos e cheiros que lhe parecessem perigosos. O lugar parecia estar vazio, logo, matou sua sede e limpou a ferida em seu braço que, embora o medo lhe ajudasse a ignorar, o incomodava muito, assim como sua boca, que tinha vários cortes, dentes perdidos e outros apenas danificados. Reidratado, percebeu não muito distante, um pequeno roedor. Não sabia dizer que espécie era, mas tinha um tamanho inofensivo e parecia frágil, não seria um grande lutador. Então, buscou uma posição vantajosa silenciosamente, e quando o animal parecia distraído, lhe atirou certeiramente a lança, matando o bicho e lhe garantindo comida para o dia.

Correu em direção a carcaça e, sem muitos escrúpulos, com a ponta da lança, rasgou sua pele e comeu a carne e entranhas da presa. Pegando um pedaço de músculo, sentiu uma dor terrível ao morder, fazendo com que urrasse e gemesse, pulando, mas não poderia fazer nada para resolver esse problema. Continuou comendo e evitando mastigar com determinados dentes, para não piorar a situação.

Pensava em morar ali. Tinha água, pequenos animais apareciam vez ou outra e, na falta deles, tinha folhas e frutos que o manteriam nutrido. Começou a reunir materiais para preparar algumas armas e utensílios, até que uma pedra lhe atingiu com força a cabeça. Sangrava e sentia-se desorientado, mas o medo lhe fez ignorar a dor, agarrar sua lança e procurar a origem da pedra. Viu outra voando em sua direção, mas dessa vez teve tempo de desviar. Quando desviou, ouviu um urro não muito distante. Seja quem for que lhe atirou a pedra, era de sua espécie. Logo viu que estava cercado. Era um grupo rival, de seis caçadores. Tinham sido, aparentemente, bem sucedidos na caça e agora queriam um lugar com água para reunir o grupo, com isso ele viu que teria que partir ou morrer. Até que um dos caçadores lhe lançou uma pedra enquanto gritava que lhe atingiu o joelho.

A dor era muito forte. Ele se arrastava no chão, enquanto o outro grupo corria em direção ao lago para matar a sede, o ignorando completamente. Pela terra e pela grama ele aos poucos se afasta. Também não podia usar os dois braços para se arrastar, por causa do corte do outro dia. Pensava que iria morrer, mas os caçadores não pareciam se importar o bastante para matá-lo.

No meio da tarde, ele gemia de dor e sede, mas não conseguia se levantar. Irritado, dois membros do outro grupo o levantaram e o carregaram para outro lugar não muito distante, para que, assim, deixasse de incomodar.

O dia chegava ao fim, alguns insetos já mordiam seu corpo, que com muito esforço e dor, ele conseguiu recostar a uma árvore próxima. Ao sentir as mordidas, ele tentava agarrar o inseto e comê-lo. Isso serviu de jantar, embora não tenha satisfeito seu apetite de jovem.

Não conseguia dormir. A dor de seus ossos quebrados, cortes e infecções desconhecidas era forte demais. Alucinava, devido a febre e a pedrada na cabeça, via seres e sombras. Uns não eram reais, outros eram pequenos animais que eram atraídos pelo cheiro de seu sangue e se alimentavam dele, com pequenas mordidas, lhe arrancando dedos e pequenos pedaços.

Ele chorava e pedia aos deuses da natureza que lhe salvassem. Pedia sem sucesso que a agonia, que ele nem ao menos compreendia, acabasse. Tremia, no solo frio e sujo, daquela terra primitiva.