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domingo, 6 de maio de 2012

E a família?


           Por que a fascinação atual com a família? “Devemos proteger a família”. “Valores familiares”. “Pais de família”. Que afeta o caráter de um ser reproduzir-se? Manter uma mesma parceira ou parceiro durante toda a vida? O que importa é a felicidade, o amor. Gostaria de encontrar uma mulher por quem me apaixonasse a ponto de não precisar assinar um documento provando isso ao mundo, o amor entre nós bastasse. Deve ser mais uma ilusão que com os anos desaparece, espero que não. Essa é uma ilusão que vale a pena. Entre todas as coisas, o amor passional é a única coisa que realmente vale a pena a ilusão.
            Nem citarei a questão homossexual, pois é tão simples que o debate se torna absurdo, talvez outra hora.
         Hoje casa-se pensando no divórcio, o que cada um leva depois que o ódio mútuo inevitável finalmente vier à tona.  Isso só deve ocorrer devido à pressão imposta pela sociedade nas pessoas após certa idade de que, para que ele se complete, ele deve casar e ter filhos.  Com isso, o homem casa com aquela namorada que ele vem enrolando há anos e ela aceita, pois se sente vitoriosa por conseguir casar, mesmo os dois não se amando. É óbvio que isso terminará em divórcio ou em um relacionamento completamente indiferente.
            Terminar um relacionamento é considerado frieza, falta de consideração e crueldade, quando na verdade, abandonando toda infantilidade e levando em consideração que a vida é longa de mais para se ficar uma pessoa sem amor e muito curta para se desperdiçar com ela nas mesmas circunstâncias, é exatamente o contrário que ocorre. Manter um relacionamento sem amor é que é cruel, terminar é um exercício de desapego. É se importar tanto com a pessoal, que quem termina se priva do sexo fácil, que é o relacionamento, em prol da felicidade de sua ex-companheira ou companheiro, pois esta nunca estará plenamente satisfeita com a atual relação.
            Obviamente o que se fala aqui não é o amor perfeito, sem brigas, em que tudo é uma eterna felicidade, até porque isso não só não existe como é extremamente chato. O amor do texto é aquele em que todas as brigas e desentendimentos se tornam irrelevantes, tudo que importa é estar com essa outra pessoa. E isso existe, o difícil é achar.

Liberdade e música


O que houve com os artistas atuais? Falta-lhes alma e vontade. Parece que hoje qualquer um com boa aparência e voz limpa e afinada pode ser cantor desde que exista um produtor disposto a transformá-lo em um produto.

Não é nem uma questão de gênero musical, embora a grande maioria das músicas sejam aberrações repetitivas, mas isso é uma questão de gosto e existiu em todas as gerações, ouve quem quiser. Com certeza, houve nos primórdios aquele compositor clássico que era odiado por todos os outros, pois compunha o que o rei queria ouvir em troca de financiamento, mas esse tipo de arte não é durável e ninguém nunca ouviu falar desse cara.

O que busco entender é a falta de paixão dos músicos atuais. Talvez sejam assim, porque os grandes artistas quebravam barreiras, e hoje não existe mais nada pra quebrar. Antigamente até um conjunto de notas que causavam uma dissonância específica era considerado “diabulus in musica” (coisa do capeta), hoje existe total liberdade para se falar de sexo, política, violência, drogas, mas o que reina ainda é o “ai se eu te pego” e as músicas de dor de corno. Porque é exatamente esse excesso de liberdade que impede o choque, e sem isso a arte perde motivação e abre espaço ao politicamente correto, quando queremos reformar as barreiras. Andamos para trás.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A modernidade e a arte


Quando foi que toda a beleza passou a ser motivo de ridículo? Não me lembro da última letra de música que me chamou à atenção, mas sei que o compositor está morto ou aposentado. Sinto falta da época, que não vivi, em que se era valorizado o conteúdo, a mensagem. Por mensagem não falo dessas frases positivas de música que mais parece palestra motivacional de “administradores de sucesso”. Isso é só masturbação para o ouvinte. Falo daquelas músicas profundas e poéticas que existiam, mas hoje parecem ter sumido. Amor virou vingança e dor de corno, não vi uma música atual que retratasse o amor de forma apropriada e é único tema abordado. Amor ou balada, onde jovens que não sabem beber destroem boas doses de uísque de qualidade o misturando com energético, enquanto ostentam o dinheiro que não tem, para mulheres (me dói à alma chama-las de mulheres, tanto que vou inventar um termo – pós-adolescentes - aqueles que cresceram, mas insistem em agir como se tivessem 15 anos, vale para homens também) facilmente impressionáveis que dão para o primeiro que tiver um Corsa ’99 rebaixado, com farol xênon, som mais caro que o carro em si para incomodar a vizinhança as quatro da manhã e uma garrafa de uísque red label ou vodka absolut. Sinceramente sou a favor da esterilização dessas pessoas, quero melhorar a sociedade evitando que reproduzam, mas não posso impedir, eles reproduzem e mais do que o resto de nós, gerando mais um grupo de admiradores da “arte” atual. Acabou-se a poesia, toda literatura na verdade (maldita seja a autoajuda), a música e, logo com essa história do “esqueça o roteiro e faça 3-D”, o cinema. Não morreram ainda, mas estão em coma, com seus poucos defensores, gosto de acreditar que ainda existem, marginalizados pela sociedade, esquecidos. Sei que toda a geração inferioriza a sua sucessora e defende as anteriores, mas creio que estes tinham razão em fazê-lo. Os anos passam e tudo piora.

Arrogância


Não sei quantas vezes em minha vida ouvi falar que o ateísmo é arrogância, antes mesmo de me declarar ateu, principalmente por ter vindo de família religiosa. No entanto, por mais que não me agrade ficar discutindo provas e os males da religião para o mundo, tenho que discordar dessa afirmação.

Quero deixar bem claro que não posso provar que deus não existe, não acredito nele e nem quero que ele exista, mas não tenho provas, assim como não tenho provas da não existência de Odin, Rá, Osíris, Dionísio, Júpiter e o Papai-Noel. No entanto tenho motivos para não acreditar. É claro que o fato da bíblia, fonte inicial para a discussão do deus cristão, não possuir um fato comprovado coopera para a descrença, já que se o primeiro e único “escrito oficial” declarando a existência de uma determinada entidade é falso, logo posso dizer que a entidade em questão também o é. Mas existem desculpas, que as histórias são metafóricas, mitos, uma infinidade de argumentos que não provam a existência como também impedem a prova da inexistência. Uma discussão infinita, nascida na Grécia, quando os primeiros ateus negaram Zeus e companhia que só acaba quando o deus muda. E podemos dizer que, lentamente o deus atual está mudando. Não se pensa mais com tanta certeza no deus humano, mas na energia criadora metafísica que tornou possível a criação, um argumento mais deísta do que cristão. O que me leva a crer que o deísmo será a próxima religião, quando o cristianismo em um futuro distante, inevitavelmente ser esquecido.

O que não me convence na religião é a ideia de que o universo foi feito para a vida, para existência. A religião nega o fator da aleatoriedade, afirmando que tudo acontece por um motivo e com o bem do ser humano em mente. Isso para mim é a definição de arrogância, a certeza de que o mundo foi feito para si, e os fatores conspiram para o seu bem, mesmo quando de imediato o que ocorre faz mal, no futuro a consequência será benéfica, porque é isso que o criador, supostamente, quer. Esse é o único ponto em que todas as religiões, desde os primórdios, estão de acordo, profetas, mandamentos, céu, inferno, transcendência, tudo muda de religião para religião, mas a teoria do criador todo poderoso, que manipula as causas e efeitos da existência para o bem do indivíduo é em geral aceita.

Isso porque ela traz consigo conforto, o fim de todas as angústias e dúvidas geradas pelo existencialismo. Se tudo acontece por um motivo, não há porque se preocupar. No entanto crer nisso, torna o livre arbítrio, teoria também geralmente aceita na religião, com limites e exceções, uma piada, uma grande mentira. Afinal se tudo já está pré-determinado, pouco importa minhas ações, deus vai muda-las para que se adapte a sua vontade. O que me leva a crer que isso é apenas efeito do medo, uma infantilização como já mencionado em outros textos. O ser humano teme ser jogado ao mundo sem um guia, teme ser culpado de suas próprias ações e pior tomar uma decisão errada sabendo que só se vive uma vez.

Concordo que o nada, que o fim é angustiante e nem todos tem obrigação de viver nele, contudo dizer que aceitar a possibilidade da ausência de significado da existência é arrogância é absurdo. Não quero influenciar ninguém a abandonar sua fé, apenas deixar claro que fé e crença religiosa não é humildade ou racional, e sim uma muleta compreensível que o ser humano utiliza para passar pela vida sem ter que pensar na essência e significado da existência.

Sobre religião


Não aprendemos a lição. Por milênios a religião e a crença foram a base da nossa sociedade, com ela descobrimos quem descriminar, quem agredir, quem estuprar, quem matar, quem escravizar. Não foi a única causa da crueldade humana, pois somos animais cruéis por natureza, mas foi o que guiou e comandou essa crueldade, nosso instinto apenas aceitou.

Hoje, com mais entendimento e uma constituição abrangente, seria possível banir essa fonte de mal, que além de perseguir seus contrários, castra seus membros, inibe sua humanidade, tira seu poder e dá-lo a um ser imaginário e seus representantes. Impede avanços, proíbe o questionamento. Mas não o fazemos, permitimos a existência dessa cruel instituição.

A razão disso é o medo da existência, que é ainda mais cruel que a religião e os seres humanos em si. É vazia, quando compreendida na medida do possível, sem sentido, portanto temos medo. Medo de que para sermos lembrados tenhamos que ser excepcionais, abandonar a confortável mediocridade. A mediocridade é a causa do medo da morte e não o fim em si. Tememos o esquecimento, portanto, em um ato de infantilização, criamos um pai, um mestre criador, bom por natureza, que além de te criar, te ama. Incondicionalmente, sem a necessidade de nada em troca, além da sua crença e submissão. Além disso, traz vida eterna a “seus filhos”, em um paraíso com todos os seus familiares, e garante que os submissos sofreram eternamente.

Assim é possível existir eternamente, ou passar a vida acreditando nisso pelo menos, afinal depois da morte não importa. É melhor viver como um covarde, medíocre, feliz e iludido do que pensando, se esforçando, buscando a real imortalidade. Não a imortalidade do corpo, da alma ou do ser, mas a das ideias. A única coisa capaz de te manter vivo após o inevitável fim.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Salvando o mundo


Cansei dessa história de salvar o mundo. Alguém realmente acredita nessa bobagem? Se fosse possível ou conveniente tornar a Terra um lugar melhor para se viver, não estariam jogando essa responsabilidade na mão do povo. O povo é como o estagiário nessa grande corporação chamada planeta Terra, o que ele fala é irrelevante, serve apenas para servir os gerentes e quando lhe é passado alguma responsabilidade ela é irrelevante, impraticável ou indesejada.

Falam que é necessário cada um fazer a sua parte, mas nenhuma revolução ou simples mudança foi conquistada dessa forma. Não se derruba um sistema corrupto não fazendo parte dele, assim só será possível isolar a corrupção para certo grupo e é isso que este grupo quer. O monopólio da bandidagem, por isso que eles próprios lançaram a ideia do faça sua parte.

Se realmente queremos salvar o mundo, primeiro é necessário derrubar aqueles que impedem o avanço, nossos líderes, nosso governo. Infelizmente a violência não é mais um meio. Foi usada na Revolução Francesa, e outros eventos de importância histórica, mas hoje não é mais eficiente. Para afetar alguém no mundo moderno é necessário tirar seu poder, roubar seu dinheiro. Como fazer isso? Não pagando impostos, ao invés de mandar seu dinheiro para o governo, fique com ele. Melhor, organize em seu município um cofre social, o dinheiro de tributos que iria para o governo, vai para esse cofre e só é usado quando necessário, construir escolas e hospitais por exemplo. Parece impossível, mas os trilhões do governo não são deles, são nossos. Demos a eles, mas podemos tirar. Resolver os problemas com as próprias mãos.

No entanto é uma questão de tempo até começarem a desviar desse cofre também, superfaturar obras e reformas. A fome de poder pode fazer com que certos grupos ganhem vantagens excluindo outros. Começando assim um novo governo problemático. O ser humano não é capaz de acertar, nem para seu próprio bem. Por isso aceita “fazer sua parte”. Reciclar, não furar fila, pagar em dia suas contas. Sente-se bem mantendo o sistema corrupto, não quer ser igual àquele de classe inferior, por isso a aversão ao socialismo.

Por isso não acredito no mundo melhor, nem no faça a sua parte. Porque não é o que queremos. Queremos sangue, violência, corrupção, poder. Essa é a nossa natureza.