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sábado, 10 de novembro de 2012

Gringo Idiota


Não tive muitos empregos nessa vida. Em vinte e um anos de idade, somente três. Porém todos geraram alguma memória específica a qual eu guardo com imensa nostalgia e respeito, meu primeiro principalmente. Trabalhei por dez meses como voluntário em uma empresa de comércio exterior pertencente à faculdade. Era um estágio como qualquer outro, todos os processos de importação ou exportação nos quais nos envolvíamos, assim como os clientes, eram reais. A única diferença era a falta de remuneração.

Foram tempos difíceis. Não passei fome, mas precisava depender de meus pais, o que me afligia e envergonhava. Não que eles fizessem qualquer exigência ou pressão, era uma questão moral, interna. Acho absurdo que qualquer um acima dos dezoito anos não traga dinheiro para sua casa. Sempre achei, e sempre desprezei essas pessoas, até tentar entrar no mercado de trabalho, descobrir que não era assim tão fácil, e acabar me tornando um dos desprezíveis. No entanto, sempre pensei que o sentimento de culpa me redimia um pouco. Odiava profundamente àqueles que, assim como eu, eram um peso à sociedade, mas pareciam se orgulhar disso por vir de família abastada. Não existe pessoa pior que o “filho de alguém”. Filho do juiz, filho do doutor, filho do advogado, filho do engenheiro, filho do empresário – todos uns filhos da puta.

O grupo de voluntários daquela empresa era realmente muito bom. Fiz algumas amizades por lá, embora tenha perdido contato com a maioria deles. Os únicos que não se misturavam também eram justamente os filhos de não sei quem. Um cidadão de vinte e oito anos, que após ter feito viagens para Nova Zelândia para aprender inglês, decidiu fazer um estágio para ter um pouco de experiência antes de passar a gerenciar a empresa que seu pai lhe prometera. Outro era mais jovem, mas era a definição de idiota. Passava horas se vangloriando das somas exorbitantes que ele rasgava em baladas e motéis, e como ele não conseguia passar mais de uma noite com apenas uma mulher, ou uma semana sem sexo. Não tenho nada contra a libertinagem, até acho o hedonismo interessante, contudo a vida me ensinou que, se você precisa falar, é porque faz muito pouco. No entanto me disperso, essa história não é sobre idiotas, mas sobre trabalho.

Quando já trabalhava há oito - ou seriam nove? - meses, nos meus momentos finais naquela empresa., fomos contratados pela equipe de uma feira internacional de calçados em São João Batista como intérpretes. Formaríamos um grupo com quatro pessoas. Dois intérpretes para inglês e dois para espanhol. De acordo com as instruções que me passaram, seria o intérprete de uma boliviana, importadora de calçados. Meu dever era acompanhá-la pelas várias lojas, traduzir a negociação para ambos os lados e fazer anotações sobre as vendas – quantidades, datas, qualquer coisa que pudesse servir mais tarde para a organização da feira divulgar como sucesso. Seria pago por dia um valor acima da média brasileira. Ao fim dos três dias, fiquei triste que aquele não era meu emprego definitivo, mas apenas um bico isolado.

Transporte seria por conta da faculdade. Uma Combi branca, com o logo da faculdade, espantosamente nova e limpa, mas sem ar condicionado e a porta fazia um barulho estranho. Era verão e aquele dia foi representativo da temporada, um sol forte batia na lataria, transformando o veículo em um forno. Isso no primeiro dia, nos outros dois chovia muito, ainda assim o calor continuava forte. Éramos quatro, três sentavam no banco de trás e outro ia isolado no banco da frente, o que não fazia diferença, já que os ruídos do carro somado ao barulho do vento causado pelas janelas escancaradas, tornava qualquer conversa inviável. Quando alguém sentia a necessidade de falar qualquer coisa se punha a gritar e o barulho só aumentava. Esse foi o maior problema no trajeto, o calor e o barulho, que não importava, levando em consideração que São João Batista não era tão distante de Itajaí. A verdade é que esse serviço foi realmente confortável e pagou bem, queria ter mais reclamações para tornar o texto interessante, mas não tenho muitas quanto a essa parte.

Chegando lá, a organizadora nos divide entre os estrangeiros, fui o último na fila. Ela me pergunta se eu serei o intérprete dos italianos.

- Italianos?
- Sim, eles dois vão trabalhar com os peruanos – ela fala apontando para os meus colegas de trabalho -, ela vai com o português e você com os italianos.
- Mas não foi isso que me disseram. Eu não ia acompanhar uma boliviana?
- Sim, mas ela não pôde vir.
- E eu não falo italiano.

Ela me disse que isso não importava, pois um deles falava português. Era um representante da Havaianas em uma determinada região da Itália. Casou-se com uma brasileira, se divorciou, mas manteve seu amor pelo país, passando períodos em São Paulo. Decidi encerrar a conversa nesse ponto. Poderia perguntar o porquê de um intérprete, se o italiano fala o idioma perfeitamente, mas percebi que também contrataram uma intérprete para um português, ou seja, não nos queriam para auxiliar os estrangeiros, queriam que nós preparássemos um relatório sobre as visitas desses estrangeiros, para que os organizadores não tivessem que fazê-lo ao final da feira. Ainda assim, o pagamento era justo e aceitei sem problemas. Além disso, o almoço também era grátis. Se não tivesse dinheiro, teria comida.

No primeiro dia a dupla de italianos não veio. Não justificaram o motivo, simplesmente passei o dia no nosso pequeno escritório, lendo um livro qualquer que decidi carregar comigo. Os outros que vieram comigo seguiram seus estrangeiros que muitas vezes rejeitavam seus intérpretes. A verdade é que os latinos se entendiam mesmo sem falar o idioma, traduções só atrapalhariam o andamento da negociação. O português pegou sua intérprete – uma moça linda, por sinal, tímida, só ouvi sua voz a partir do segundo dia de trabalho, mas com um corpo de modelo e olhos fascinantes, escuros e fortes – e seguiu pela cidade, visitando umas fábricas que ele conhecia fora da feira. Achávamos, eu e meus colegas, que ela tinha sido levada à Europa. Mais tarde descobrimos que o português era realmente um galanteador, mas preferia as louras, dizendo para outra de minhas colegas que ela seria o centro das atenções em uma praia do Marrocos. Passamos o caminho todo de volta para Itajaí discutindo se isso tinha ou não sido um convite bem discreto.

Trabalhei muito no dia seguinte. De início os italianos não me queriam por perto, principalmente o que era quase brasileiro, que tentava me provocar dizendo:

- Por que contratariam uma pessoa que não fala italiano? Você não fala nada? nem uma palavra?
- Uma ou duas, já que tenho descendência, mas acaba aqui.
- E como foi que te contrataram?
- Fui contratado para uma boliviana. Também não sei o que eu estou fazendo aqui.
- Inglês você fala?
- Falo. E espanhol e alemão e um pouco de francês. Só não falo italiano mesmo.

Então ele se punha a falar com seu sócio. Creio que entendi alguma coisa, mas nada que formasse uma frase completa. Corremos para tudo quanto é lado e em todas as lojas ele fazia questão de deixar claro que eu era um intérprete de italianos que não falava italiano. Descobri também que ele era uma figura importante naquela feira, conhecido por todos. Um grupo de jornalistas locais nos cercou por um momento e os levaram para dentro de uma sala, me trancando do lado de fora. Nesse momento acho que conquistei a confiança deles, pois eles insistiram em autorizar minha entrada. Ou isso, ou ele queria fazer a piada do idioma para os jornalistas também – provavelmente foi isso. Separamo-nos na hora do almoço e me encontrei com os outros intérpretes. Cada um tinha uma anedota sobre sua jornada com o estrangeiro, exceto a moça dos belos olhos que se manteve em silêncio quase o tempo todo, com um sorriso discreto e tímido nos lábios, rindo de uma bobagem ou outra que nós falávamos. Creio que sua timidez não era parte de sua personalidade, só quando ela estava próxima de desconhecidos. Já eu sou o contrário – não gosto de me comunicar com meus conhecidos, mas não vejo problema em trocar uma ideia com estranhos. Falamos sobre a feira, sobre os estrangeiros, sobre as traduções, os absurdos e nosso trabalho na empresa. Reclamações, exclamações e palavrões cercavam nossa mesa, enquanto nos serviam cerveja barata – não era permitido beber no trabalho, mas ninguém viu, logo não aconteceu -, com gosto de água – exceto para a bela silenciosa, que bebia suco, em retrospecto, devia ter-lhe acompanhado.

Uma coisa era comum em todas as nossas anedotas compartilhadas, a estupidez dos exportadores e vendedores brasileiros. Os peruanos conseguiam se comunicar perfeitamente bem em um portunhol fluente, compreendendo cada palavra dita em português, exceto aquelas que realmente não seriam compreensíveis, nem mesmo em contexto – nessa hora o intérprete exercia sua função. Contudo, os brasileiros simplesmente não pareciam ter essa mesma capacidade, ou, pelo menos, a mesma vontade de se esforçar para compreender. Palavras que soam muito similares entre o português e o espanhol, e tinham o mesmo significado, compreensíveis até para uma maior dos leigos, não era entendida pelo idiota exportador. Desnecessário dizer que estes perderam negócio. O mesmo aconteceu comigo e os italianos. Um completo cretino, daqueles que respiram pela boca, ficava me encarando a cada frase que o importador que me acompanhava dizia, mesmo que tudo estivesse sendo dito em um português muito superior ao dele. Estava distraído em minhas anotações e fui cutucado pelo imbecil que exigia de mim uma tradução. Não acreditei na situação, achei que era uma piada, mas a expressão de surpresa em seu rosto de idiota era tão clara, quando lhe informei que as palavras que ele estava ouvindo estavam sendo ditas em seu idioma, que toda a minha esperança morreu. Ninguém acreditou nessa minha história, nem mesmo eu acredito agora revivendo essas memórias.

Ficou pior após o almoço. Estava tudo tranquilo, estávamos (eles estavam, eu assistia) conversando com uns fornecedores deles, já conhecidos, quase amigos. De vez em quando o que falava português traduzia alguma coisa para o que não falava. Percebi agora enquanto escreveu, que não peguei o nome dos dois, ajudaria muito agora para que essa história não ficasse repetitiva. Chamarei o que falava português de Luigi e o que não falava de Mario. Mario era gordo e animado. Insistia em falar comigo, às vezes em inglês outras em italiano – mesmo sabendo que não o entendia. Sua voz era quase incompreensível em qualquer idoma, de qualquer forma. Uma mistura de Don Corleone com Super Mario (por isso dei-lhe esse nome), eu não entendia nenhuma de suas palavras, mas concordava com tudo. Uma hora, durante essa conversa, a silenciosa passou ao lado da loja em que estava, viu minha cara de tédio e começou a rir e me cumprimentou. Mario percebeu isso e disse:

- Bella ragazza! You go, go!

Essa foi a primeira frase dele que eu entendi. Não fui, pois ela já tinha passado. De novo, em retrospecto, talvez seria melhor que tivesse ido. Esse é o mal de escrever memórias, hora ou outra se esbarra em um arrependimento. Fazer o quê? A verdade é que arrependimento não mata, só decepciona. Falei com ela mais tarde e era tarde demais. Hoje, não importa.

Depois da conversa, voltamos a caminhada e eu, que pensava já ter visto toda a idiotice do mundo, vi que esta não tem limites. Entramos na loja de um cidadão que se dizia interessado em exportar, contudo, ele não tinha preços prontos para o exterior, somente venda interna. Luigi perguntou os preços e o dono da loja dobrou o valor de seu produto. Para aqueles que não sabem como funcionam as exportações e seus custos, o governo brasileiro isenta todas as exportações de seus tributos, frete , seguro e custos portuários, geralmente, ficam para o importador. Ou seja, não seria necessário para ele, dobrar os custos do seu produto. Isso só afastaria, como afastou, qualquer importador com um mínimo de conhecimento.

-Intérprete! – Luigi me chamou – Você não fala italiano, mas entende de exportação, certo?
- Sim – respondi.

Ele me perguntou sobre os tributos de exportação e eu confirmei a isenção que ele já suspeitava existir. Mesmo assim, o vendedor insistia, inventando motivos e custos incoerentes para dobrar o valor de seus sapatos. Isso tirou do sério Luigi, que disse alguns insultos para o vendedor esperto e saiu da loja, dizendo:

- Por isso o Brasil não funciona! Esse idiota só pode estar tirando uma com minha cara, porque eu sou um “gringo retardado” e não sei como as leis brasileiras funcionam. Esse filho da puta fica inventando coisas para aumentar seu próprio preço, achando que eu nasci ontem. Eu moro no Brasil já faz anos, sei bem como funcionam as coisas por aqui. Você concorda, não é intérprete? - concordava sempre, gesticulando com a cabeça – Perdeu um cliente, o otário.

Ele não foi o primeiro nem o único naquele dia. Os peruanos passaram pelo mesmo problema. A imagem que “o Brasil” - pois, sem querer cair no clichê, embora, às vezes, o clichê é a melhor forma de se expressar uma ideia, o Brasil são os brasileiros -, foi de um país despreparado para tratar estrangeiros. É verdade que as coisas melhoraram muito nos últimos vinte anos, mas ainda assim, não vejo no Brasil um povo preparado para eventos internacionais ou qualquer participação no mundo. Todos os dias tem alguma notícia sobre um turista estrangeiro que foi roubado, sequestrado ou qualquer outro crime, em alguma praia do Rio de Janeiro. Copa do mundo, Olimpíadas, tudo isso vai parecer perfeito nos jornais, televisionado por alguma rede de televisão aberta. A verdade é, que grande parte do povo brasileiro ainda vê o estrangeiro como um gringo idiota e inocente. Uma bolsa de dinheiro aberta, largada sem supervisão.

Não quero fazer discursos vazios, cheios de “isso tem que mudar!” e “basta”. Vai ser necessária uma reeducação por parte do povo desse país. Explicar a todos que o Brasil não é uma ilha isolada na Terra e agora será mais visitada pelo resto do mundo. Xenofobia sempre vai existir e, com limites, é necessária, do contrário o país é ocupado. No entanto, essa ilusão de que o brasileiro é receptivo e gentil, tem que morrer, se não ninguém aprende sobre o erro e o tenta corrigir. Não é só uma questão de educação, mas uma questão econômica. Exportações, turistas, tudo isso será perdido, se os idiotas continuarem abrindo suas bocas.

Um comentário:

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