Páginas

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma história Medieval - Parte 1 (Exercício Literário)

Nunca me entendi com o gênero literário - Fantasia. Não passei a gostar ainda, mas tive uma ideia que se encaixava no gênero e decidir pôr em prática.
 
A história que vem a seguir não é necessariamente um conto, ainda não tem começo, meio e fim. É um exercício literário, sem pretensões, mas ou menos como a minha ideia de escrever sobre meus sonhos (não desisti dessa ideia, logo posto aqui um segundo sonho). Desenvolvi esse personagem e vou inventar uma vida para ele. Casos, acontecimentos, acidentes, o que vier na cabeça. Tudo ambientado em um mundo fictício - que também será desenvolvido conforme avança a história -, com um temática medieval.
 
Apresentação do personagem:
O tal personagem que protagonizará a maior parte dessas histórias é - Alvah. Um bardo viajante em busca de reconhecimento e iluminação. Vive de modo nômade, passando de vila em vila, de reino em reino, sempre com um nome diferente, mas o mesmo ideal. A diferença de Alvah, para os outros bardos, é sua visão sobre a poesia que está um pouco afrente do seu tempo. Alvah é como um poeta beat, usa versos livres e um linguajar "falado" para suas composições, o que o torna infame entre os outros de sua classe.
 
Parte 1
 
Fogo e pedaços de madeira. Foi isso que restou de minha vila após a pilhagem, além dos corpos carbonizados e do cheiro de sangue – com estes já estou tão acostumado que, ao respirar ar puro, sinto falta da violência. Rasguei um pedaço de pano das roupas de um dos cadáveres que me cercam - um que não tenha sido cremado -, para cobrir meu ferimento. Só um corte no braço, um pouco profundo, mas nada que não tenha sofrido antes. Ele estava em seu cavalo e passava o fio de sua espada em suas vítimas como um explorador na densa mata, entediado e indiferente.  Não via rostos, não via seres humanos, somente vegetação e mais vegetação, de vez em quando um espinho, esse é abatido com mais vigor.
            Cai para trás ao sentir o frio da lâmina, deixando-me levar pelo medo e fingindo que aquele fora um golpe morta. Pulei em direção a um monte de palha, gritando em desespero, e lá me mantive silencioso e atento, como no útero materno, até o cair da noite e o retorno do sol. Chama-me de covarde, não me interessa. Nunca antes segurei o cabo da espada, ou tirei a vida de outro homem, não me envergonho. Nesse mundo de praga, fome, guerra e dor, isso é patético, mas vivo pela palavra e pela pena, admito que essa não vença a espada – pelo menos não a minha -, portanto vivo como um vagabundo. De vila em vila, até que esta seja atacada e meu lar destruído. A quem engano? Nunca tive um lar. Tive teto, mas nunca um lar. O mais próximo que chego de um clima familiar é na taverna, essa é eterna. Lá sou gente, lá tenho força. Passo horas embriagado, lendo, cantando e rindo com meus verdadeiros irmãos. Vez ou outra me aparece uma mulher e, então, sinto-me completo, pronto para a morte. Essa sensação dura algumas horas, depois a ressaca torna-me um covarde novamente.
            Caminhava sem rumo pela estrada, procurando por uma placa indicando meu próximo destino. O sol ainda estava em suas primeiras horas e o clima ainda era frio, embora agradável. O cheiro de sangue e fumaça ainda estava impregnado em minhas narinas, mesmo que a paisagem agora fosse outra. Só me restava andar, pois logo teria fome e não carregava nada comigo, só minhas poesias em memória e outras anotações no bolso da calça. O triste é que nem como bardo, me respeitam. Desprezo as rimas e a métrica perfeita - quero algo diferente, algo meu, mas confundem minha originalidade com falta de habilidade. Como se não soubesse rimar.
            Aproximava-se o meio dia, vejo uma placa indicando que, não muito longe a minha direita, fica a vila de Fernstar. Segui nessa direção, desviando apenas para me dirigir a um lago para me refrescar. O dia já esquentava com o sol direto em minha cabeça, protegido apenas pela sombra de algumas árvores no caminho, tinha sede e fome, infelizmente a fome não havia meios de matar antes de chegar à cidade, mesmo chegando, teria ainda que arrumar um serviço ou uma esmola. Sentia-me sortudo, pois em todo o caminho não encontrei sequer um bandido ou animal feroz. Carregava comigo sempre uma faca para proteção, mas esta serviria apenas para animais pequenos, além do mais, já disse não ser um grande lutador. Hidratei-me no lago e sentei por um instante em uma pedra, contemplando a passagem. De onde estava já era possível ver os portões do que talvez fosse Fernstar, nunca passei por lá antes, ou sequer ouvi sobre o lugar. Parte do reino de Catarat, com certeza.
            Descansei por breves minutos, usei o lago para lavar também minhas feridas. Quatro horas de caminhada não causava grandes estragos em meus pés de vagabundo, mas sempre me cortava em uma pedra ou outra. Precisava urgentemente de botas de viajante, como são boas essas! Tive um par, mas foi roubado em uma de minhas viagens, depois disso, nunca mais tive tanto dinheiro para comprar outro. O corte em meu braço também já não doía mais e agora estava limpo.
            Segui meu caminho, não estava muito distante, cheguei à vila em dez minutos.  Os portões eram grandes e de madeira. Não protegeriam de um exército, mas resistiria a um grupo razoável de bandidos. Não teria que enfrentar outra pilhagem tão cedo, não teria que sair em viagem novamente. Ficaria bons meses por lá, se não acabasse expulso por qualquer motivo antes.
            Via dois guardas em vigília, em duas torres, uma de cada lado do portão, e uma vasta parede de pedra e madeira, cercando os limites da vila. Outro guarda mantinha-se em frente à porta e já me havia avistado. Observava-me cuidadosamente, dividindo sua atenção entre mim e sua lâmina. Deveria saber que eu não representava perigo, mas nesses tempos, cautela nunca era excessiva. Fui a sua direção, sempre com minhas mãos a vista, e o cumprimentei.
            - O que você quer, viajante? – ele perguntou, calmamente.
            - Queria me hospedar em Fernstar por um tempo, caro senhor. Não tenho casa e creio que essa vila me seria bastante aconchegante.
            - Qual seu nome, de onde você vem e o que faz?
            - Meu nome é William, senhor. Não veio de lugar nenhum e de todos os lugares, viajo desde minhas primeiras memórias. Sou apenas um bardo.
            - Como assim não vem de lugar nenhum? Todos nasceram em algum lugar.
            - Isso com certeza! – respondi – Mas não são todos que formam um lar. Posso ter nascido aqui ou em qualquer outra vila, de qualquer outro reino, ou até outro país, mas não sou de lá, sou de onde estou.
            - Muito bonito, mas o senhor sabe que estamos em tempos de guerra. Como saberia que você não se trata de um espião do reino de Sirius?
            Acontece que, naquele momento, Sirius e Catarat – os dois únicos reinos do país, Venitia – estavam em uma sangrenta guerra. Antes o fluxo de viajantes era livre, mas agora, todos os vagabundos, eu incluso, poderiam ser vistos como espiões.
            - Como disse – respondi mantendo a calma -, sou nada além de um simples bardo vagabundo. Dir-lhe-ia que nasci nessas terras, mas como poderia provar-lhe? Peço apenas que me dê uma chance. Deixe-me entrar em sua vila, ao primeiro sinal de distúrbio, expulse-me sem piedade.
             - Vejamos, você se diz bardo, é? Cante-me um de seus versos, então.
             - Ora com prazer.
            E lhe recitei uma de minhas obras mais queridas de memória:
            
Cinza é o céu, naquele dia de inferno
o fogo consome os seres agora sem vida
a lâmina e fria e indiferente, como seu usuário
as crianças choram, por seus pais carbonizados
vingança, vingança
e mais um se torna soldado...
 
             - Que monte de bobagem! – ele me interrompe - Onde está a rima, o verso. – ele diz, controlando o riso.
            - Senhor, a verdade é que não rimo. Não me prendo aos limites da rima e da métrica, creio que há muito mais na poesia que apenas isso. Sentimentos e liberdade.
            - Claro, claro! Grande bardo é o senhor! Ó nobre William! – ironizou – Venha, vou levá-lo ao mago local. Ele vai examiná-lo para garantir que você não possui a peste.
            Ele levou-me ao tal mago, que trabalhava logo ao lado da entrada. Era uma casa simples, mas por dentro era cercada de livros. Vários ingredientes e ervas se encontravam também nas estantes e mesas. Ao entrarmos, ouvimos um grito. Um momento, ele dizia.
            - É aqui. Sente-se em qualquer lugar e aguarde. O mago logo virá vê-lo. – e voltou à guarda.
            Sentei-me em uma velha cadeira de madeira, logo ao lado da porta, desse modo se algo estranho viesse a acontecer, tinha fácil acesso à saída. O silêncio era incomparável, nada se podia ouvir, nem mesmo os ruídos externos da vila. O cheiro das ervas se misturava ao do mofo, formando um aroma desagradável. Um espirro parecia vir, mas segurei-o, se desconcentrasse o mago em quaisquer fossem seus afazeres, poderia causar uma tragédia. Então a madeira começou a ranger, conforme os passos do mago que abria a porta. Saia então, da escuridão da sala ao lado, um homem com uma longa barba negra e longa, tal qual a minha, contudo, lisa, alcançava sua barriga e, com certeza, flutuaria ao vento. Tinha sinais de calvície, só lhe restando cabelo atrás da cabeça e entre as orelhas, não muito curto, mas não tão longo quanto sua barba. Seus olhos eram mortos, cansados e sem brilho, e sua expressão era de tédio. Vestia uma longa túnica e tinha anéis em todos os seus dedos. Olhou-me de alto a baixo e ordenou que me despisse.
            - Nem mesmo vai me levar para um jantar antes? – perguntei.
            - Ora, se o senhor não é cheio de piadas. Ande logo, não tenho o dia todo, não pense que isso me agradável também.
            Segui as ordens e ele me examinou, procurando por manchas, ferimentos e inchações.
            - Está tudo bem com você. Seria muito difícil viajar se estivesse infectado, mas nunca é demais prevenir – ele disse e eu me vesti novamente.
             - Quem diria que ratos seriam capazes de trazer tanta desgraça – observei.
             - Ratos são o meio, mas a causa é a fúria de Deus, a fúria do grande Hroff.
             - Mas o que causaria sua fúria?
               - Toda a bebedeira e promiscuidade a qual o povo desse país se entregou, é claro. Estou em busca de uma cura. Noites em claro estudando, mas não obtive sucesso algum.
              - Se a vontade de Hroff é que a praga nos ataque, logo, a cura seria inalcançável. Do contrário, não teria sido Ele o causador da doença.
               - Seria você um herege?
              - Não, claro que não! Pelo contrário, digo que seria heresia curar a praga, se esta ocorre por vontade divina.
               - Entendo. Mas penso que a cura deve ser buscada de qualquer forma. Se for de Sua vontade que nos livremos desse mal, a cura será encontrada, se não, morreremos em meio aos ratos. Qual o seu nome mesmo, meu caro?
                - William.
               -  Sou Ollaf. Se estiver sentindo qualquer sintoma de doença, venha até mim. Talvez possa lhe ajudar. Essa foi uma boa conversa. E aqui. – ele me entrega um papel – É um documento, certificando que você foi examinado e está livre da peste, apto para viver na vila de Fernstar.
                - Sou muito grato.
                Despedimo-nos e saí de sua casa. Um homem muito sábio, com certeza. Sentia-me mal por ter mentido logo em sua cara, mas não poderia arriscar ser acusado de heresia novamente. Essas terras não são tolerantes com os descrentes e crentes em outras divindades. Fugi uma vez, mas não teria novamente a mesma sorte. A verdade é que me recusava a acreditar que um criador exigiria sofrimento de suas criaturas, seja pela peste, ou por punir bebedeiras e promiscuidades. Minha fé é outra, mas não vem ao caso. Já vi muitos homens serem torturados e levados à forca, mulheres queimadas como bruxas, por uma simples expressão de descrença em Hroff, ou mesmo uma crença heterodoxa, considerada herética. Eu mesmo já senti a corda ao redor do meu pescoço.
             As coisas que o vinho pode fazer um homem falar! Estava em uma taverna, em uma das vilas as quais fui levado por minhas andanças. Morava por lá já fazia três meses e tinha uma reputação. Era desrespeitado pela maioria como bardo, mas alguns poucos me admiravam e seguiam. Estava reunido com esses poucos para uma leitura de minha obra. Erámos todos bardos, nunca consegui agradar alguém que não o fosse, salvo por umas donzelas, quando sou romântico. Recitávamos, cantávamos e bebíamos até as mais altas horas da madrugada, quando o veneno do álcool fez-me esquecer de minhas auto-restrições e recitar uns versos proibidos. Palavras heréticas sobre ilusão, dinheiro e pecado, que foram ouvidas pelo dono do ambiente. Ovelha fervorosa que era, correu para me denunciar. O mesmo veneno que mata a inibição, também mata a inteligência. Assumi a culpa das acusações com orgulho, que viesse a forca! Não tinha medo.
             Não me recordo de mais nada, somente do sol do meio dia em meu corpo arrastado pelos guardas. Estava tudo preparado, até que a bela filha do governador, após muita insistência, consegue meu perdão. Seria minha vida em troca de minha liberdade, com ela teria que me casar na noite daquele mesmo dia. Estava salvo!
             Bela e inocente Jezebel! Seus olhos eram como duas pérolas de verdade e beleza, espelhos de curiosidade capazes de descobrir qualquer segredo e realizar qualquer desejo; seus cabelos ruivos e cacheados. Posso senti-los por todo meu rosto até hoje e sentirei para sempre. Para sempre sua pele, suas curvas, sua voz. Ela era a mais bela arte, prova única da criação divina. Fiz-lhe a corte por três dias, três noites e três garrafas de vinho, até que cedeu. Dormi com ela uma vez - sua primeira -, duas vezes, três; estava viciado naquele corpo! Ela também se viciou e viu na minha sentença de morte a perfeita oportunidade, a chave para minha gaiola. Era esperta aquela jovem, filha de político.
              A cerimônia foi a maior já vista por aquela vila. Nada espetacular, mas todas as seis famílias que lá moravam estavam presentes, assim como alguns de meus amigos bardos – aqueles que não haviam partido para seu próximo destino. Aceitei a punição por meu crime com muito gosto. Quanto a heresia, bastou que eu emitisse uma nota, pedindo desculpas pela minha colocação, que era eu também temente ao grande Hroff e tudo que foi dito era apenas um engano alcóolatra. O quê daria errado - uma esposa como ela era capaz de vencer o tédio da repetição. Fomos felizes naquele casamento, pelo menos por alguns dias. O tédio sempre vence nessa vida.
                Passou-se um mês e a união já não era suportável. Desejava todas as noites por trocar a aliança em meu dedo, por outra corda em meu pescoço. Já não suportava sua voz. Amava seus olhos e seu corpo e seus cabelos, mas não a sua voz. Isso era o menor dos problemas – seus pais, aquela casa, toda a política de ser genro do governador, um inferno.
                Disse a ela, uma noite, pouco antes de nos deitarmos, que não me sentia bem e iria dar uma volta rápida para respirar. Ela estranhou, mas viu que eu suava muito e parecia incomodado, então aceitou, preocupada.
                Caminhei em direção à saída daquela vila, devagar, apreciando a lua, como se estivesse distraído. Um guarda perguntou onde estava indo, respondi que queria caminhar um pouco. Tinha autoridade. Não fui questionado. Continuei andando pela estrada que ficava à beira do rio, sentindo a brisa, assistindo aos reflexos da noite na água.
                Cheguei a uma distância satisfatória e tirei minhas roupas. Estava usando minhas roupas maltrapilhas e eternas por baixo daquele conjunto sofisticado que minha esposa e seus pais me deram. Rasguei toda aquela roupa e a passei na terra. Um coelho passava desatento ao meu lado, com a minha fiel faca, usei seu sangue para manchar os pedaços de minhas roupas. Joguei parte no rio e espalhei o resto pela estrada em direção à densa floresta que cobria toda a paisagem. Desde o casamento, carregava uma quantidade satisfatória de ouro comigo, sempre que saía, então estava seguro por umas semanas, até encontrar uma nova casa. Deixei junto ao fino conjunto, que virara um trapo ensanguentado, uma nota dizendo:
 
Bela Jezebel,
 
Sei que nessas últimas semanas estive distante, desatento, até, aparentemente, arrependido. Só quero que saiba que a razão disso é que nunca esperei um dia me casar com tão esplendorosa criatura, divina, como você. Não saber expressar esse amor me angustia profundamente, me sinto doente e febril. Por isso saí essa noite. Saí em busca de inspiração, em busca de palavras dignas de sua beleza e de sua companhia. Saiba minha querida, que te amo e assim será pelo resto de minha existência. Amei-te em nossa primeira noite e a cada dia que passa esse sentimento apenas se torna mais forte.
Isso tudo parece incoerente, considerando que já nos casamos, mas eu queria tirar de nosso caminho aquele senso de “obrigação” que nosso casamento pode ter gerado. Por favor, responda-me, posso passar uma eternidade em seus olhos?
 
Com amor,
 
Maximiliano
 
                Rasguei levemente o papel e derramei nele gotas de água e sangue. A dúvida faria o resto de meu trabalho. Só teria que garantir nunca mais voltar àquele lugar, seguindo viagem, constante como um cavalo de viseiras.

Um comentário:

  1. Achei muito interessante!!! Parabéns e continue escrevendo Contos Medievais, com certeza terá um leitor... ;)

    ResponderExcluir

caixa do afeto e da hostilidade