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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Em meus Sonhos com Ela - parte 5


Letras - é o que dizia a pulseira pendurada em uma vitrine em minha frente. Uma dessas pulseiras que universitários usam para exibir seu curso. Vendiam aos montes na loja da faculdade. Pensei em comprar uma para ela. Não era nada demais, mas com certeza a faria rir. Por anos esse foi um dos únicos objetivos de minha vida, vê-la sorrir, o cumpria religiosamente e passava horas pensando em novas formas de continuar a tarefa.
 
Fui somente uma vez a essa loja universitária. Nuna precisava de uma calculadora, então fomos juntos comprar. Ela encarou essas pulseiras por um instante, mas decidiu não comprar, talvez porque soubesse que não seguiria com o curso. Decidi comprar a pulseira de “Letras” para ela, mas não havia ninguém atendendo na loja. Não havia ninguém, nem nada além da prateleira. As luzes estavam apagadas, estava fechado. Mas como eu teria entrado? Verifiquei e vi que a porta estava destrancada. Saí e fingi que não tinha reparado em nada.
 
Continuei caminhando pelos corredores da faculdade. Sentia-me perdido mesmo depois de tantos anos tendo aquele lugar como minha segunda, ou terceira moradia. A segunda seria o escritório, se este não fosse a primeira. Os tijolos avermelhados pareciam mais fortes e brilhantes, e o número de salas parecia ter multiplicado.
 
Virei à direita em uma das muitas saídas e ouvi, à distância, o badalar de um sino. Era uma igreja. A última vez que entrei em uma igreja foi para a missa de sétimo dia de meu avô. Tinha quatro anos de idade, depois disso, nunca mais.
 
Entretanto fui atraído pelo som de um leve órgão, que ecoava pelo interior da igreja. Tocava alguma coisa de Bach que não reconhecia. O contraste entre o bizarro e o belo é fascinante nas igrejas. De um lado com imagens de tortura e sofrimento, buscando culpar o ser humano de algo que não aconteceu. Do outro a beleza estética das pinturas, da música e da arquitetura. Tudo somado ao peso moral da gigantesca construção, que busca diminuir a todo custo o ser humano.
 
 
Ela se encontrava ao centro da construção, vestida pronta para o casamento. Creio que ainda se organizavam. Os familiares se encontravam em concentrações espalhadas. Pequenos grupos sem rosto, exceto pelos dois. A noiva e o noivo. Nuna e seu namorado. Vi os dois e decidi sair de lá antes que alguém me visse, mas quando me virei senti sua mão em meu ombro.
 
 
- Você veio Rafa! – ela me abraço.
 
 
Estava linda naquele vestido. Minha sílfide branca, que não é nem nunca foi minha, parecia tão natural naquele ambiente. Ela nunca foi católica, mas algo nela exalava casamento. Até para mim, que não tinha grande respeito pela instituição. A partir de um momento em que se torna necessário assinar um contrato para unir duas pessoas, o amor verdadeiro pode ser declarado morto.
 
 
- Não, eu tenho que ir embora. – respondi, tentando me soltar de seus braços.
- Mas por quê? Nós somos amigos, eu te queria em meu casamento.
- Não posso. Desculpe-me, mas presenciar esse momento seria demais pra mim.
 
 
Soltei-me, virei às costas, mas fui surpreendido por dezenas de flashes dos fotógrafos do casamento. Estava atordoado pelas luzes, pela música, pelo seu choro, pela conversa. Tudo girava e nada era real. Acordei perturbado, cinco da manhã em minha cama.
 
 
Levantei-me e, não me importei com o horário, servi-me uma dose do uísque, que já estava no fim, e bebi em um gole. Servi outra e bebi aos poucos, pensando naquilo, pensando nela. Uma noite transávamos loucamente, na outra ela se casava, independentemente, era tudo um sonho. Seria o álcool que produzia essas imagens tão vívidas e significativas? Tinha que interpretar aquele sonho de uma forma ou de outra. Se o sonho é uma realização de um desejo, estava me esquecendo de algo.
 
 
Peguei um papel e anotei cada detalhe antes que partisse. A loja, a pulseira, o corredor, a igreja, a música, o vestido, o diálogo, os flashes.
 
 
O casamento dela não poderia ser um desejo meu - era na verdade um medo. Outro dia, quando ainda almoçávamos juntos com frequência e morar junto era apenas um plano de Nuna e seu namorado, estávamos em uma loja de eletrodomésticos. Ela olhava para as roupas de cama, os aparelhos, os computadores. Planejando como mobiliária o apartamento que já estava comprado e era só uma questão de tempo para ela poder chamá-lo de lar.
 
Ela olhou para um conjunto de chá, seu preço, os diferentes modelos, virou para mim e disse:
 

- Olha só o que você pode me dar de casamento.
- Então eu fui convidado? – perguntei.
- Claro!
- Quanta honra.
- Então, o que você diz. É um conjunto bonito, não?
- O que sou eu pra você? Amigo gay?
- Só me diz sua opinião.
- Por que a xícara é octogonal?
- Acho que é moda agora. Não sei. Só me diz o que você acha.
- Já disse, é estranho. Nunca vi xícara nesse formato. Mas não importa. Você sabe bem que eu não vou ao seu casamento.
- Por quê?
- Porque, nessas cerimônias, somente o noivo deveria estar apaixonado pela noiva, não o convidado.
- Ainda isso?
- Ainda...
- Você precisa arranjar alguém. – ela dizia com olhar de pena.
- Concordo plenamente. Convidei a Maíra para sair outro dia.
- Qual Maíra? – ela levantou uma sobrancelha.
- A que trabalha comigo.
- Ah. Ela. – ela respondeu pouco interessada – Estudamos juntas. Não sabia que você gostava das siliconadas. Sempre achei que você fosse o cara que buscasse personalidade e inteligência.
- E busco. Achei você. Como você não quis, a siliconada vai ter que servir. A propósito, o silicone dela é bem sutil, só percebi depois que ela me contou. De qualquer forma, pouco importa! Ela disse não, também. Disse estar ocupada todos os fins de semana. Não disse o que fazia, só disse que não podia. Desde então ela nem me olha mais no rosto, como se eu a tivesse ofendido de alguma maneira. – ela começou a rir da minha história – Continue rindo da minha desgraça e nada de xícara octogonal pra você! Nem mesmo xícara quadrada!
- Mas você não disse que não ia?
 
 
Nunca mais falamos sobre isso desde então, nem sei que fim levou Maíra. Só sei que o casamento ainda não aconteceu, pois me lembro de nosso encontro no restaurante e, em suas mãos, não havia aliança. Mas se não desejava o casamento, que desejo se cumpriu no sonho? Pensava enquanto o sol de domingo nascia. Tinha que resolver isso logo, já era meu terceiro dia de autoflagelo emocional, até a mais cruel das religiões já oferece um feriado aos seus seguidores a essa altura.
 
 
No sonho tinha vontade de fugir e dizia não querer presenciar àquele momento. Seria minha mente dizendo que a chave da minha liberdade morava no casamento dos dois, que ao ver os dois se unindo meu amor por ela morreria? Queria que meu amor morresse? E os flashes? E a música?
 
 
A música. Sempre associei Bach com igreja. Concordo com Cioran que dizia que Deus muito deve sua popularidade a Bach. Sem Bach não haveria igreja, não haveria Deus, não haveria cristão. Enchi um terceiro copo e a garrafa estava vazia finalmente. Sempre que vejo uma garrafa derramar suas últimas gotas, sinto uma saudade insuportável.
 
 
O pior era ter que aguentar mais um dia de mistério e ansiedade. Queria ligar para Nuna na segunda, resolver de uma vez meus problemas. Marcaríamos um almoço ou jantar, não importava. Conversaríamos, contaríamos as novidades. Talvez finalmente lhe contasse de minhas poesias, de meu chamado escrito por seu amor, por seu afeto. Já me dissera não ligar para poesia antes, mas por não gostar das rimas. Eu não rimava nunca, nem quando queria. Descobriria se ainda estava para casar. A ausência da aliança, para ela, não bastava. Nunca usara aliança, exceto por aquelas de namoro prateadas, mas essa ela jogou fora após uma briga com seu namorado e nunca mais a recuperou. Seu noivado era um acordo verbal. De acordo com ela, ele um dia disse querer casar-se. Ela acreditava tanto quanto no dia que ele disse que nunca a traíra, nem mesmo no dia em que ele trocava mensagens com uma mulher qualquer, logo em sua frente. Talvez ela fosse inocente, talvez eu fosse maldoso, o passado não significava nada. Descobriria se o noivado verbal ainda existia. Independente da resposta declarar-me-ia por uma última vez. Se ela não aceitasse, não a buscaria mais. Esquecer-lhe-ia logo ali.

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