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domingo, 28 de outubro de 2012

Casamento

Chega o dia da gloriosa união, dez anos santificados perante a sociedade
     o religioso vestido como um espectro recita Camões e depois suas bençãos, enquanto uma lágrima escorre pelo rosto de uma mulher
eles aceitam, se beijam e dizem umas palavras decoradas - aplausos se misturam a uma música alta
conversas, risos e gritos - uísque, uísque, uísque, sem ti me mataria
todos se enfileiram pela comida
conversas, risos, gritos e mais uísque

agora uma sala escura
músicos tocam músicas ruins
todos dançam 
rituais primitivos, mas nenhum sinal de chuva
álcool nunca é demais
assisto-a dançar
aquele vestido longo e dourado ao redor de seu corpo, move-se hipnoticamente
ela controla o meu olhar e agarra um homem
é casada, pensei que ele fosse seu pai
mais uísque
luzes piscam descontroladamente
uma voz me chama e me serve
sento-me em um sofá, cercado de pessoas frenéticas que aos poucos somem
meu sofá se transforma em uma cadeira e a sala não tem mais paredes
é banhada diretamente pela lua e enfeitada por água

assisto a todos se despirem e se atirarem na água
já não estou mais lá, somente meu corpo olha fixo para o nada
sombras tentam se comunicar
me chamam, me tocam, me cercam

minha cabeça dói

2 comentários:

  1. Nossa, o texto me prendeu mesmo!
    Tem uma pitada de suspense bem legal.
    Bjss

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  2. Interessante essa interpretação. A verdade é que essa foi só a maneira que eu passei a ver o casamento de um amigo da empresa depois de 9 doses de uísque.

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