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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Minha vida onírica - 1


Aviso para o blog: Não sabia se devia postar esta série de textos no meu blog ou não. Não tem realmente, qualquer valor literário - não que qualquer outra coisa aqui tenha, mas pelo menos nos outros existe esforço -, é apenas um diário de sonhos. Diário em termos, já que nem todos os dias serei capaz de manter tanta memória, ou terei sonhos tão interessantes, mas mesmo assim, um bloco de notas... por assim dizer, de sonhos. São todos experiências reais, por enquanto sem cronologia, pois se tratam de sonhos passados, mas que ficaram na memória, logo terei a data nos textos futuros. Essas notas têm por objetivo, serem um exercício literário. Textos simples e rápidos, para que eu possa praticar a escrita e desenvolver novas ideias. Muitos desses sonhos já foram usados em contos e podem soar familiares para aqueles que acompanham o blog com frequência. Não se preocupe, logo chegarei nos sonhos inéditos. Por não se tratar de um conto, ou mesmo ficção, pensei em manter isso para mim mesmo, mas qual seria a graça? Meus sonhos serão uma nova série de posts aqui no Delirando e Escrevendo, quer gostem ou não. Mas chega de apresentações, segue o que escrevi até o momento:
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Escrevo esse documento com o objetivo de analisar meus próprios sonhos. Sou fascinado pelo assunto e pelos simbolismos da vida onírica, portanto usarei esse documento em word, como um caderno de anotações.
Esses textos não têm a menor pretensão de serem publicados, por esse motivo serão livres, livres como a fala. Não me importarei com qualidade literária.

Sim, fui inspirado pelo trecho em que Sumire, no livro “Minha Querida Sputnik”, do Murakami - o qual estou lendo no momento – faz anotações sobre um sonho, para analisa-lo com mais facilidade. Trecho esse que, muito provavelmente, foi inspirado no livro dos sonhos de Kerouac, escritor admirado pela personagem (Sumire). Não adianta tentar, os anos passaram e tanto já foi feito na arte, que é impossível ser original. Tudo já foi feito, de único só nos resta anos mesmos, e até isso é questionável. Já não era original quando foi feito por Kerouac, Freud já estudava anotações sobre seus sonhos, muito antes; e filósofos curiosos pela vida do sono, antes dele. A verdade é que o assunto é fascinante, e, ao mesmo tempo, um exercício literário e de autoconhecimento.
Desde que li “O Homem e seus Simbolos”, do Carl Jung. Tenho dado mais atenção aos meus sonhos, como o autor avisara que aconteceria. Minha memória ainda é curta, mas os sonhos parecem mais relevantes, mais nítidos, mas sólidos. É interessante, sugiro a todos a leitura desse livro – todos que se interessam por sonhos. Algumas dessas imagens noturnas eu transformei em contos, outras eu preparei notas mentais que foram apagadas pelo tempo – essa borracha incerta e aleatória, chamada tempo – e outras eu guardei. Não escrevi sobre, não analisei, somente atirei em uma gaveta mental para uso futuro. Tive medo de esquecer esse arquivo, então passarei todas as memórias de sonhos e sonhos futuros, aqui, nesse documento. Pra quê? Ora! Pra quê fazer qualquer coisa? Procurar sentido é o primeiro passo em direção ao suicídio. É hora de encarar, pouco nessa vida faz sentido ou é feito por um motivo. Toda a razão é inventada, logo, inventarei minha razão para esse bloco de anotações. Talvez o use para futuros textos, talvez o use para praticar a escrita. A verdade é – não tenho motivos, apenas quero anotar meus sonhos.

Tive essa ideia da noite para o dia, ironicamente, não por causa de um sonho. Então ainda não tenho datas. Os primeiros sonhos não tem ordem cronológica, apenas escreverei aqueles que estão em minha memória, como se uma livraria pegasse fogo e só restassem algumas obras, ou mesmo uns pedaços incoerentes e desconexos. É isso! No momento, a memória de meus sonhos é como uma livraria incendiada. Tampouco escreverei sobre todos eles, alguns sim, outros não. Aqueles que me causarem algum sentimento, com certeza. “Estava andando no deserto, tropecei em uma pedra, cai e acordei” – não, por mais que eu tenha tido um sonho assim, mais que algumas vezes.
 

Estava escuro. Não sabia onde estava, tinha acabado de acordar e minhas memórias estavam apagadas. Olhava em volta e estava deitado em uma cama grande de casal. Em pé ao lado da cama, via um par de olhos femininos, brilhando e me recebendo, como se aguardasse o meu despertar. Olhei ao meu redor, mas era tudo escuridão, salvo por aquele olhar fixo. Perguntei onde estava; quem era a dona do par de olhos, o que fizemos, mas suas respostas eram vagas e desconexas, como um ser místico, instigando meu raciocínio em um jogo de charadas.


Não me diga que você não se lembra, era o que ela repetia, sarcasticamente. Não reconhece sua própria casa. Ela abriu a janela. Ela estava em frente a uma janela o tempo todo. Vi que estava em um quarto pequeno, mas não era o meu, nem mesmo era a minha casa. Percebia que não se tratava da minha casa, então voltei a questionar a mulher, agora totalmente visível, embora ainda desconhecida. Ela era familiar, tinha cabelos longos e negros, a pele branca; era magra e não muito alta. Tinhas os olhos verdes, mas o rosto – o rosto - parecia com o de alguém que sempre cruza comigo no elevador da empresa em que trabalho. Não sei o nome dessa pessoa, nem o que ela faz. Não sei quem ela é, só sei que trabalhamos no mesmo prédio. É uma daquelas pessoas, com quem cruzamos diariamente, nessas cidades pequenas, mas nunca paramos para conhecer. Uma figurante constante da minha vida, e agora dos meus sonhos. Conheço várias pessoas assim, que simplesmente passam. Presto atenção nelas, seus rostos, sua expressão. Estão com pressa?, talvez tristes ou decepcionadas. Hoje estão felizes, noutro dia, só cansadas. Observo-as atentamente e as adiciono ao meu catálogo de figurantes. Ela não é a primeira a ganhar um papel em meus sonhos, nem será a última, mas não quero me adiantar. Um sonho de cada vez.

Ela falava em enigmas, dava a entender que tínhamos passado uma noite de sexo e álcool, naquele quarto, naquela cama, em meio à escuridão que consumia nossos corpos. Ela insistia que eu conhecia o lugar, mas não era minha casa. Levantei-me da cama, ficando em pé ao lado da moça misteriosa. Olhei a rua pela janela. Reconheci a rua. Logo a frente tinha os fundos de um posto de gasolina, normalmente usado como garagem, mas no momento, vazio. Ao longo da rua, vizinhos ao posto, tinha uma série de casas geminadas silenciosas e escuras. Ninguém na rua, nem mesmo um sonho, nem mesmo o vazio parecia estar presente. Atrás das casas, tinha uma série de prédios, muito familiares, foi quando eu me virei de volta em direção ao quarto, agora iluminado pela lua e as luzes da rua. Era o quarto de meus pais, estava no velho apartamento, em minha cidade natal. Fiquei surpreso em saber que eles se mudaram deixando a mobília exatamente como era. Um grande armário que cobria a metade do espaço, com um espelho em uma das várias portas. A cama na qual eu estava deitado, agora recebia forma, cheiro, sensação – todo o quarto agora fazia sentido, estava lá, sem sombra de dúvidas. Fui tomado por um arrebatador sentimento de nostalgia. Vivi naquela rua por tantos anos, mas já tinha dificuldades em reconhecê-lo.

A nostalgia logo passou, quando olhei novamente os olhos daquela bela mulher ao meu lado. Só tinha o rosto conhecido, o corpo era como de uma lenda medieval, daquelas que costumavam encantar os homens e retirar seu espírito. Era esse sentimento que tinha quando a olhava, de que ela não era humana, mas sim um demônio atraente, pronto para me tomar, ou mesmo já tivesse tomado. Já tínhamos dormido juntos, de acordo com ela. Minha angústia passou, cheguei à conclusão de que, fosse ela quem fosse - humana ou mitológica -, já tinha feito seu trabalho. Só me restava servi-la.

Virei-me em direção a rua novamente, para apreciar àquelas memórias de outros tempos. Tempos de simplicidade e inocência. Ao longe, em um dos vários apartamentos, vejo em uma varanda, duas crianças brincando. Pulam de um lado para o outro, se empurrando inconsequentemente. Um deles, o maior, parece se empolgar com a brincadeira e lança seu irmão – tinha a impressão de que eram irmãos – da varanda, derrubando-o do prédio. Assisto aquele minúsculo corpo em queda livre em direção ao concreto. Ouço um barulho forte e seco, seguido de gritos. Uma mãe desesperada pede por seu filho; o irmão arrependido se atira para o salvamento. Todos no prédio são como sombras, silhuetas de algo quase humano. Indistinguíveis, exceto por altura. Assisto, ao lado da mulher sem nome e sem rosto, à cena, horrorizado, pensado no destino das crianças. Os gritos se multiplicam. Não é mais somente uma mãe pedindo aos céus pelos seus filhos, é uma multidão de sombras heroicas, buscando salvar as pobres vítimas do descuido e da inocência.

Os corpos se atiram da janela, declarando poder salvar as duas almas infantis. Todas as janelas se abrem. As das casas geminadas, as dos meus vizinhos no prédio e as de todas as construções ao redor.  Ritmicamente, as luzes se acendem, a janela se abre e dela sai um corpo sombrio e sem forma, como de uma pintura de Picasso. Todos caem no concreto imutável, um-a-um em direção ao seu destino cruel. Eu assisto cada queda, cada morte, cada agonia. O demônio na mulher ao meu lado parece desistir, seus olhos já não tem o mesmo brilho, tornam-se humanos; e ela me pergunta com a voz desesperada:
- Você não vai fazer nada?
- Não. De que adianta. – eu respondo indiferente, embora me sinta profundamente angustiado com o episódio.

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