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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Acidente


Um carro passa pela lombada
Morreu! – diz um grito de surpresa

A lombada era humana
seus pés balançam em desespero sob carroceria assassina
           as formigas da civilização interrompem seu serviço e correm angustiadas, imaginando detalhadamente a dor da vítima
           ao redor da máquina, eles empurram, o culpado empurra, o vizinho empurra, o padeiro empurra – salvem a lombada humana!
           Olhos reúnem-se nos vidros das prisões, protegidos pelas imensas torres de negócios, admirando e profetizando o destino da vítima, agora cercada de sombras
Será que morreu? Será que morreu? Voltem ao trabalho!

Soam as sirenes heroicas
as buzinas, as sirenes, os gritos, os soluços e as lágrimas, formam a sinfonia urbana
            remove-se o corpo em agonia debaixo do aço indiferente, agora completamente tombado pelas formigas afobadas
            morre ou não morre? - indaga o jogo da vida, os dados estão lançados e já, quase, mostram seu temível resultado
            as formigas assistem, em orgulho e medo, o resultado do seu árduo trabalho – já estão atrasados, que se foda o mundo e as torres as quais eles pertencem!
as sirenes diminuem e a orquestra aos poucos se retira
           as formigas - ou seriam cardumes, ou seriam rebanho – já não se recordam de seu trabalho e retornam a grande máquina para receber sua punição

O seguro cobre o tombamento, mas não cobre a indenização
reze para que os dados da vítima sejam positivos, jovem negligente
ou sua vida terminará com a dele

 


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