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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Graças a Deus


Sempre vi minha descrença em deus como a mais insignificante das minhas qualidades. Não me importo com religiões e com a crença alheia. Se esta não me for imposta, não me incomodo com aqueles que a praticam, o problema é do crente, ou talvez seja meu. Descobriremos após a morte, ou, se eu estiver certo, chegará o fim e não descobriremos nada, o que não irá importar, pois não terei consciência nem mesmo disso.

Infelizmente, ou felizmente, não vivi cercado de pessoas que concordassem com esse modo de vida. Ateísmo, como todos sabem, é uma grande minoria no Brasil, portanto estes têm que aprender desde cedo a conviver com certa intolerância, ou simplesmente não manifestar suas ideias. No meu antigo emprego, repartia uma sala duas mulheres. Ambas jovens, com algo em torno de vinte e cinco anos. Uma delas casada e a outra pensando em se casar. Em geral, elas eram pessoas de fácil convivência, mesmo sendo uma delas católica e a outra evangélica - ambas praticantes de suas crenças. Respeitavam-se entre si, na verdade, nas poucas vezes que as ouvi falando sobre religião, a discussão se dava sempre de forma neutra, como se suas crenças fossem iguais. Ignoravam o fato de que, de acordo com seus líderes religiosos, dependendo de qual delas estivesse certa, uma veria a outra sofrer eternamente no fogo do inferno.

Como já disse, meu ateísmo é discreto, não por vergonha ou medo, mas por falta de motivo para exibi-lo. Quando surge a necessidade ele aparece, e foi o que aconteceu quando elas decidiram discutir sobre a evolução das espécies - não sei como isso se tornou o assunto em uma firma de despacho aduaneiro, mas aconteceu. A frase que liberou o ateu dentro de mim foi:

- Dá pra acreditar que tem gente que diz que o ser humano veio do macaco?

De imediato parei o que estava fazendo e lhes perguntei quem dizia que o homem veio do macaco. Para isso, a resposta foi - “a ciência”.

Poderia ter simplesmente ignorado aquilo, mas senti que, esclarecer-lhes do engano técnico era uma obrigação moral. Não lhes diria que deus não existe, pois nem sei se isso é verdade, mas tentaria lhes explicar porque afirmar algo assim era um engano, mesmo sendo um leigo completo. Queria tentar compartilhar o mínimo de conhecimento que eu tinha sobre o assunto, tentando, da forma mais tolerante possível, explicar porque a ciência não dizia que o homem veio do macaco. Elas poderiam acreditar em mim, ou não, pouco importava, independentemente, aquele mal-entendido teria de ser resolvido.

Expliquei sobre como não era um que tinha vindo do outro e sim, que ambos tinham um ancestral comum e evoluíram de formas separadas. Nada muito profundo ou técnico, só o mínimo para fazer meu discurso claro, compreensível e correto. “Elas eram tolerantes e inteligentes, iam entender” – pensava.

Obviamente, a resposta que recebi não foi positiva, do contrário essa crônica não existiria. Recebi em reação a minha explicação, uma enxurrada de passagens bíblicas, indo de Adão e Eva a Arca de Noé.  Já tinha escutado sobre tanto fundamentalismo, mas era a primeira vez que o presenciava ao vivo. Era cético quanto a sua existência entre pessoas com um mínimo de estudo em uma sociedade moderna, mas estava errado. Todas as minhas tentativas de manter uma discussão racional terminaram após o comentário:

- E como a ciência explica a arca de Noé?
- Ela não explica – respondi -, pois, historicamente, esse evento nunca aconteceu. É só um mito antigo, como vários outros. Você trabalha com exportação, entende bem de logística, certo? – ela confirmou – Então sabe como é difícil organizar tantos contêineres em um navio moderno? – ela continuava a afirmar – Então como você espera que todas as espécies de animais tenham sido acondicionadas (decidi usar um termo aduaneiro na conversar, para reforçar a comparação), em pares, em uma embarcação de madeira feita por um senhor, embriagado, de quinhentos anos de idade?
- Esse é o poder de Deus, ora! – ela exclamou indignada – Você acredita em Deus, não?

Pensei nas consequências da verdade ao ouvir essa pergunta. Não afetaria meu emprego de forma alguma, pois elas não possuíam a autoridade para tanto, mas afetaria de algum modo a convivência naquela sala e quem já trabalhou nessa situação, sabe que, se for brigar em um escritório pequeno, que seja com alguém de outro departamento. Contudo, não poderia ser desonesto e respondi que não, adicionando a minha resposta uma nova pergunta.

- Mas e o coala? Como ele foi da Austrália até o Oriente Médio para chegar à arca.
- Já disse. Um milagre de Deus. Você pode não acreditar, mas se Deus quiser, ele enche essa sala toda de coalas.

Depois disso, todas as portas do inferno se abriram. Com comentários de decepção, tentativas de conversão e toda uma série de coisas, que eu não esperava das duas. Culminando com a pergunta:

- Mas eu já te ouvi dizer “graças a Deus”, não?
- Provavelmente. – respondi, esperando a conclusão do raciocínio que, pelo que pude perceber pela expressão satírica em seu rosto, como um gato encurralando sua presa, seria algo surpreendente e profundo.
- Então você acredita!

Isso me perturbou um pouco. A essa altura na discussão, esperar coerência seria absurdo da minha parte, mas a pouca esperança que ainda me restava foi destruída após a brilhante observação.

“Graças a deus”, é apenas uma expressão, sem real significado, além de um agradecimento ao acaso. Não é, necessariamente, indicado a divindade, pois isso nem seria apropriado ao crente. Afinal, para tudo se é usado o “graças a deus”, de viagens bem-sucedidas, até um funcionamento intestinal adequado. Situações que não interessariam a um deus, criador, onipotente, onisciente e onipresente, mesmo que este existisse. Poderia até dizer que, esse exagero de gratidão, poderia até tornar-se ofensivo a sua poderosa e temperamental figura.

Por um milênio ou mais, o cristianismo dominou a cultura Ocidental. Talvez, em seus primórdios, a expressão “graças a deus”, fosse literal, como a expressão “deus é grande” é na cultura islâmica – frase gritada antes de todo o ataque suicida. Hoje, a expressão perdeu seu caráter sagrado e tornou-se popular.  O deus do agradecimento, não é nada além de um alvo para um agradecimento sem destino definido. Quando não se sabe a quem agradecer, agradece-se a deus. A divindade alvo pode até ser trocada de quando-em-quando, para evitar o tédio, formando assim as expressões “graças a Shiva”, “graças a Zeus”, “graças a Odin”, “graças ao meu primo Osmundo” e assim por diante. Além do mais, citar um nome, ainda mais um tão vago quanto “Deus”, não é indicação de existência ou crença. Afinal quem nunca proferiu o nome de Noel (o papai), entre outras criaturas míticas de nossa fértil imaginação e vasta história.

Finalizando, quem tinha entre seus mandamentos “não falar o nome de deus em vão” eram elas e, portanto, quem eram as verdadeiras pecadoras por dizerem o tal “graças a deus”, eram elas. Eu estava apenas cumprindo minha obrigação, como anticristo, de proferir uma heresia diária. Foi isso que disse a elas e foi isso que fez que elas chamassem reforços. Entrou na sala outra crente, dessa vez de outro departamento e denominação desconhecida. Que me deu o golpe de misericórdia ao dizer:

- Quero ver continuar ateu em um avião caindo. A primeira coisa que ia fazer era gritar: “Ai meu Deus!”.
- Pode ser que grite, embora um “Agora fodeu!” seja mais apropriado para minha personalidade. O problema é que mesmo gritando, deus não iria impedir a queda. – respondi, mas não recebi resposta quanto a essa específica observação.

A discussão se prolongou um pouco, tendo mudado de assunto por completo e passado para as injustiças e danos causados pela igreja. Os roubos da igreja evangélica foram os primeiros a serem atacados, no entanto, não tardou para que a evangélica atacasse o Papa, o Vaticano e todo o ouro que lá se encontra. Isso gerou uma longa e intensão discussão entre as duas, enquanto eu desisti, pois tinha trabalho a fazer.

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