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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Em meus Sonhos com Ela - parte 3


Não cheguei a acreditar que o sonho tinha realmente acontecido, mas os toques, a sensação, a presença, tudo parecia real. Só serviu para me fazer relembrar aquele momento no restaurante. Analisei cada frase, formulei possibilidades em minha mente. Pensei em ligar pra ela naquele momento. Sábado à tarde, dizer que queria conversar, que estava pensando nela, mas não fiz. Queria acreditar que ela estava finalmente solteira, porém nada indicava que fosse verdade. Além disso, mal podia falar direito naquele momento.

 Decidi analisar o sonho. Li apenas dois livros sobre análise dos sonhos, e não sou psicólogo. Qualquer que fosse minha interpretação poderia estar totalmente errada, ou incompleta. Por isso existe um grupo de pessoas que estudam por toda uma vida essas coisas, porque não é algo tão simples, que qualquer leigo que saiba ler pode fazer um trabalho perfeito - o nome disso é advogado. Queria pagar um analista há anos, mas não tenho dinheiro e a empresa em que trabalho se recusa a oferecer plano de saúde. Deveria ter estudado psicologia.

Enchi um copo de água, me sentei no sofá e comecei a pensar. Nunca sonhei com ela de forma tão explícita. Sonhei com conversas, lágrimas, beijos, abraços, mentiras e brigas, mas nunca sexo. A vontade sempre esteve presente, mas nunca era realizada. Será que isso significava que meu amor por ela tinha morrido, ou nem mesmo tenha existido, e só me restava o desejo sexual? Seria uma premonição? Não acredito nessas coisas. O ser humano tem o costume de divagar sobre seu futuro. Vez ou outra acerta. Isso se chama coincidência, não profecia. Até mesmo as mais fantásticas fazem parte desse grande jogo de estatísticas chamado vida.

Até a mais ínfima das probabilidades pode vir a se tornar verdade, não por milagre, mas por acaso. Lembro-me de quando a conheci.

Nasci em uma cidade relativamente grande do litoral de São Paulo, ela no litoral de Santa Catarina. Quase ao mesmo tempo, ela dois meses antes. Durante a adolescência, não sai da minha cidade. Ela fez algumas mudanças devido ao divórcio dos pais, mas sempre no mesmo Estado, sempre distante de mim. Eu queria estudar filosofia em São Paulo. Ela letras, lá mesmo em Itajaí, sua cidade de criação. Por algum motivo, completamente indiferente, fomos conduzidos a estudar comércio exterior. Na mesma cidade, na mesma sala e, de todas as cadeiras disponíveis naquela sala, logo no primeiro dia, ela se senta em minha frente.

No momento do nosso nascimento, as chances de nos conhecermos eram nulas, mas conforme acontecia a vida, elas foram aumentando e aumentando. Até que nos conhecemos e eu me apaixonei. Ela não, porém não desisti. Pensei em desistir várias vezes, era tudo o que queria - libertar-me de uma vez de sua prisão emocional -, mas não podia. Por isso sabia que a amava. Por continuar a desejando, sem receber nada em troca, exceto por meia dúzia de sorrisos e seu olhar. Seu olhar, seu olhar, só ele me bastava para alegrar um dia. Desejava tirar uma foto de seus olhos e pendurá-la em minha parede.

Eram eles a causa do meu sofrimento e inspiração. Ela é linda por inteiro, mas seus olhos eram eternos.

Não fiz nada naquele dia, exceto revisar o conto. Tenho a tendência de odiar tudo que escrevo após a primeira releitura. Sinto-me um gênio a cada frase que escrevo, e o maior dos idiotas a cada frase minha que leio. Como pode uma coisa assim?

Seria meu desejo por liberdade o sentido do meu sonho? – interrompi a revisão. Era meu amor por ela que me prendia e não o sexo. Nunca chegamos nem perto de um beijo, que dirá uma transa. Meu sonho dizia que, o que antes era amor, se tornara simples desejo sexual, já não mais a amava. Mas porque o sexo significaria o fim do amor? Não fazia sentido. Intenso desejo sexual, não significa ausência de amor, afinal tudo é sexo. Todas as relações humanas se baseiam no sexo. Desde a ida ao bar com os companheiros de trabalho na noite anterior, até meu anseio por sucesso profissional. Tudo uma tentativa frustrada de atrair as fêmeas da espécie. Com ela não haveria de ser diferente.

Mergulhei em meus devaneios e, quando o sol se pôs, em meu uísque. O conto estava revisado, mas não tinha vontade de publicá-lo ainda. Então voltei ao livro que tentava ler na noite anterior. Na verdade revivi todo o cenário. A bebida, a música, o livro, a janela. Estava tudo igual à sexta à noite. Quem sabe surgiria um novo conto em minha mente, ou, ao menos, uma prosa em versos.

Lia, enquanto o piano e os trompetes me distraíam a mente. Por que levei três anos para sonhar que transava com ela? Se isso significa que meu amor por ela tinha acabado, esse sonho deveria ter acontecido quando a conheci e o amor não existia. Talvez ela estivesse mesmo solteira, afinal, seu namorado não aceitaria que ela estudasse letras, ainda mais agora, que ele tinha comprado um apartamento e estavam morando juntos. Nuna somente se preocupava em trabalhar para ajudar a mobiliar seu novo lar. Sempre me atualizava com sua última compra, sobre seu sofá novo, ou a geladeira que sua mãe lhe prometera de presente de casamento. Perguntava-me o que lhe daria quando se casassem. Minha ausência é o que lhe daria. Minha fuga total e completa.

Dessa vez consegui ler melhor. Distraí-me menos e não me perdi na música. Estava entretido, queria saber o que aconteceria naquela história e mais ainda, saber o que tornava aquele escritor tão bom. Com certeza ele não se odiava ao reler suas próprias frases.

Não pensei em nenhum conto. Ainda estava cansado e a bebida não ajudava. Não costumo beber por duas noites seguidas, mas a situação exigia. Voltei ao sofá, desejando retornar àquele sonho.

VEJA TAMBÉM:
Meu E-book: http://depositfiles.com/files/ci7bvilzu
Meu Vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=w9CyJkznXyM&feature=plcp

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