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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Em meus sonhos com ela - parte 2


Esmeralda sempre mantinha um tom de sarcasmo e desconfiança ao falar de Nuna. Como se, por ser mulher, ela soubesse da minha situação de prisioneiro emocional, pois já mantivera alguns homens nesse estado, por isso, sentia que ela a desprezava e, ao mesmo tempo, tinha pena de mim. No entanto, não sei ao certo. Esmeralda era também muito inocente em alguns momentos, pois foi muito protegida durante a adolescência. Costumava se impressionar com as coisas mais casuais e rir das piadas mais antigas. Tinha também um vocabulário limitado, em se tratando de sacanagem. Não fazia muito tempo, aprendera comigo e os outros homens do escritório, o outro significado da palavra rola, que ela conhecia somente como a espécie de passário, assim como outras expressões populares.

Acontece que Esmeralda já tinha me visto fazer favores para Nuna. Favores difíceis e trabalhosos, como por exemplo, copiar os resultados de uma prova em uma folha de caderno e passar, discretamente, para ela, de modo que ela obtivesse as respostas. E raramente a via retribuindo esses favores, no entanto, era eu que não aceitava suas tentativas de retribuição. Era isso que minha companheira de trabalho não sabia e, por isso, ela era hostil perante minha amiga. Buscava explicar a situação, mas ela não parecia acreditar, e tampouco me importava o suficiente para insistir. Queria encerrar o assunto logo, pois os outros funcionários estavam chegando e eles poderiam ser intrusivos, dependendo da situação. Com certeza perguntariam de quem estávamos falando, qual era minha relação com ela, por que só amizade; entre outras questões comuns, mas que eu não gostaria de responder.

Naquela empresa, qualquer assunto, por mais superficial que fosse, se tornava uma discussão política e filosófica.  Vânia, uma mulher de trinta anos, solteira e feminista, com frequência teria seus ideais questionados e algumas hipocrisias apontadas. Apolinário, o diretor da empresa, machista declarado e orgulhoso. Tirava quinze minutos do seu dia para questionar os ideais de Vânia e, ao mesmo tempo, provocar a jovem Esmeralda, que faria um discurso de resposta, apaixonado, mas pouco coerente ou realista.

Discutiam com frequência sobre o casamento de Marco, outro funcionário. Divertido, fora de forma e com uma cabeça quase que perfeitamente redonda. Os erros que a instituição do casamento representa, os riscos de divórcio, os problemas da vida de casado. Problemas esses que Marco aceitava com algum humor, respondendo com frases como, “não se preocupem, até advogado para o divórcio ano que vem nós já arranjamos”, que costumavam irritar as duas moças. Eu costumava assistir e, vez ou outra, fazer comentários favoráveis para ambos os lados. Fazia isso, pois o casamento não é uma questão generalizável. Um casamento baseado no amor puro e simples, não vai se divorciar, não pela perfeição do relacionamento ou ausência de brigas, mas pelo vício que um sente pelo outro. A maior parte dos casais não sente isso e, portanto, se divorciam. Amor é exatamente isso, um vício que precisa ser sustentado como qualquer outro, do contrário leva à loucura.

Sempre senti que essas discussões invadiam a vida pessoal dos funcionários, entretanto nem todos concordavam e estas continuavam a ocorrer ritualisticamente. Costumava verificar meu relógio todas as vezes que as portas de vidro do escritório de Apolinário se abriam. Era um homem alto, então era possível ver de qualquer ponto da sala, seu sorriso irônico, de quem está prestes dizer alguma coisa que gerará grande discórdia e discussão. Geralmente contava uma piada machista ou simplesmente perguntava por que Vânia ainda não tinha lavado a louça, ou Esmeralda feito o café. Se tão pouco tinha a capacidade criativa para discussões tão intensas, a minha situação com Nuna não seria diferente. Estou nessa situação de amor não correspondido há três anos, mas não estou preparado para ouvir opiniões e intromissões. Não no trabalho.

Aquela quinta era véspera de feriado. Combinamos de ir a um bar após o expediente. Não queria realmente sair de casa, mas não era fácil lhes dizer não. Trabalhava lá há quase um ano e meio e todas as minhas desculpas já eram muito conhecidas. Iriam tomar umas cervejas, talvez uma dose de uísque, e o quanto antes fugiria de lá. Preferia ler um livro, ou mesmo trabalhar em um conto ou poesia que eu estava escrevendo. Tinha bebida o suficiente em casa para me inspirar, então o bar não era necessário.

Não passava das nove da noite, consegui convencê-los de que tinha um compromisso e devia ir embora. Disse-lhes que visitaria meus pais no feriado e tinha que acordar cedo no dia seguinte para pegar o ônibus.

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