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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Em meus Sonhos com Ela - parte 1


Três da manhã. Já era tarde demais para tentar dormir novamente e esperar acordar descansado. Cedo demais para despertar. A maldição “sartriana” das três horas não é exclusivamente vespertina. Esse era o quarto sonho que tinha com ela essa semana. Desde que li O Homem e seus Símbolos, de Carl Jung, venho me deixando impressionar com minha vida onírica, a ponto de sentir falta dos tempos em que um sonho era somente um sonho, uma representação surrealista e delirante da vida de vigília, sem simbolismo ou significado. Ainda não acreditava no significado, mas passei a tentar interpretá-los de forma amadora, nem que fosse limitado a descobrir qual desejo ele realizava - como acreditava Freud.

É verdade que, sempre que me afastava dela, seja por uns dias ou mesmo meses, passava a sonhar com ela. Mas sempre coisas simples, como ela me contando que tinha brigado com o namorado ou terminado, e caindo nos meus braços enquanto eu acordava sem nunca poder tocá-la. A interpretação era simples – quando voltasse a vê-la, gostaria que ela estivesse solteira. Deixava tudo ainda mais óbvio o fato de que o cenário desses sonhos era sempre uma sala de aula, único lugar em que nos encontrávamos. Era um sonho de reencontro, outro desejo que queria realizar e realmente o iria poucas semanas depois.

Isso aconteceu anos atrás. Agora a situação era outra, assim como os sonhos. Não a via há quase três meses. Ela desistira sem avisar da faculdade e abandonara o emprego. Nenhum conhecido a tinha visto recentemente – era um desaparecimento completo.

Tinha em minhas mãos a chance de esquecê-la. Ela não estava mais por perto, não precisaria voltar a vê-la se assim não desejasse. Essa era a fonte do meu amor, o fato de que eu tinha que me encontrar com ela todos os dias, ou quase todos. Quando ficava por mais de uma semana longe dela, vinham-me os desejos de libertação, de superação. Era como se ela soltasse as chaves da minha cela a um esticão de braço de distância e deixasse de me vigiar, entregando a liberdade ao seu prisioneiro ao custo de um esforço ínfimo. Tive essa oportunidade diversas vezes, mas a atirava pela janela com um telefonema ou e-mail. Dessa vez nem isso adiantava. Por mais que a chamasse, minha carcereira não voltava ao seu posto de vigília, como se estivesse decidida a deixar-me escapar, só não me abrindo as portas por falta de poder para tal. Sim, a prisão era dela, mas as chaves eram somente minhas. Eu, e apenas eu, poderia encaixá-la na sua fechadura, porém tinha medo da liberdade.

Esperei tanto, que ela voltou. Por acaso. Não atendeu minhas chamadas, simplesmente apareceu em minha frente de forma pouco cerimoniosa e, quando percebeu, voltara a sua posição. Estava em um restaurante self-service. A maldição do homem solteiro e solitário, que decidiu não aprender a cozinhar. Quase todos os dias, ia do trabalho àquele restaurante no meu horário de almoço. Ela também frequentava o mesmo lugar até se mudar para o apartamento do namorado, que ela orgulhosamente chamava de “nosso apartamento”, então passou a cozinhar para si e seu amado. Estava na fila para pesagem e ela na fila para servir-se. Trocamos um breve olhar, quando ela me percebeu e disse um surpreso e alegre “olá”. Era claro para qualquer um que nos visse, que não nos falávamos há muito tempo, três meses para ser exato. Então correspondi com a alegria e surpresa, embora pudesse ouvir o tilintar das chaves sendo retiradas do chão e do meu alcance.

- Que fim te levou, moça? – perguntei.
- Pois é, deixa eu me servir e depois a gente se fala.

Fiz isso. Sentei-me em uma mesa qualquer e quando a vi, com sua comida devidamente servida e pesada, lhe chamei.

- Então, onde você se escondeu que te procuro e não te acho?
- Esse semestre eu não fiz a matrícula na faculdade. – ela respondeu, parecendo um pouco triste.
- Isso eu percebi, devo ter perguntando por você para gente que nem te conhece e ninguém sabia seu paradeiro.
- Pois é. Acho que vou finalmente começar a estudar letras.
- Mesmo? Meus parabéns! – lhe disse, pondo a mão em um de seus ombros, o que lhe trouxe um sorriso.
- Era o que eu queria fazer desde início, você sabe...
- Antes tarde do que mais tarde, não?
- É. Vejamos se agora eu aprendo alguma coisa.
- E como eu posso manter contato com vossa senhoria? Não responde meus e-mails, não atende minhas ligações...
- A empresa mudou o sistema recentemente, além disso, eu recebo uns cem e-mails por dia, é fácil perder um, então acho que deve ter sido isso. Agora não sei qual é o problema do meu celular. Minha mãe diz o mesmo - que me liga, mas eu não atendo. O problema é que não aparece nenhuma ligação perdida. Passa o dia e é como se ninguém me ligasse.
- E agora? O que eu faço? Sinal de fumaça, código Morse, telegrama, pombo-correio...?
- Não sei. Tenta me mandar um e-mail a cada dez minutos, de repente eu vejo.
- A cada dez minutos? – ela confirmou com a cabeça – Tá ok, então nós nos falamos. Você não quer se sentar?
- Não, eu já vou almoçar com uma amiga. Vamos combinar de almoçar um dia.
- Se você responder meus chamados... – ela ri – De qualquer forma, nos falamos outra hora.
- Tá bom, até a próxima.
- Até, futura mulher das letras. – ela ri e segue seu caminho em direção à mesa na qual já se encontra sua amiga. – Espera um minuto! – eu a chamei de novo e ela retornou. – Você é estagiária, não é? Como você vai fazer para manter o emprego?
- Não vou. Perguntei para eles se existia algum interesse em me efetivar, mas eles responderam que no momento não. Devo sair essa semana.
- E agora, vai pra aonde?
- Pra rua. – vi um rápido momento de tristeza em seus olhos, porém muito breve – Quer saber? Foda-se essa gente!
- Isso mesmo! De qualquer forma, a gente se fala.
- Até...

O que a fez mudar de curso dessa maneira? Na última vez que conversamos sobre isso ela começou a chorar e dizer que se o fizesse o namorado terminaria com ela, pois não queria ter como esposa uma “professorinha”. Teriam eles terminado? Seria essa, finalmente, a minha chance? Procurei não criar mais expectativas. Nunca criava. Ainda na infância descobri que uma decepção é fruto direto da expectativa e, se essa é totalmente eliminada, por consequência também se extinguem as decepções. É verdade que é impossível não ter um mínimo de expectativa quanto a qualquer coisa, porém quanto mais contida, menor o sentimento de queda que a descoberta da verdade inoportuna traz. Já acontecera antes. Por algum motivo fui levado a imaginar que os dois tinham terminado, passei dias pensando nas possibilidades, até que ao nos encontrarmos novamente, vi que estava me iludindo e os dois ainda continuariam juntos. Tentei de todas as formas, conter a tristeza, com sucesso, pelo menos em sua presença, mas depois me senti devastado e mergulhei em um litro de uísque. De qualquer forma, tinha um feriado pela frente, mas logo no primeiro dia da semana seguinte, a convidaria para almoçar e sanaria minhas dúvidas.

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