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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

E se for tudo uma ilusão?


Sempre vi como o motivo para a descrença de um religioso fundamentalista na teoria da evolução, não a estupidez ou a fé cega, mas a relutância em se ver como um animal. Realizar que o ser humano não é especial, talhado cuidadosamente por um pai amável, em seu atelier divino, mas sim o resultado de bilhões de anos de puro acaso. E sempre vi tudo isso como uma grande demonstração de covardia intelectual.

Até que li uma notícia, mencionando a teoria que diz que o universo não é real, mas uma simulação gerada em computador por uma civilização altamente avançada. Ao terminar de ler, ri sarcasticamente e pensei que tudo aquilo era um grande absurdo, desperdício de inteligência, investimento e pesquisa. Então senti-me religioso. Eu, um programa de computador? Que absurdo! Quem esses cientistas pensam que são?

Percebi que, em nenhum momento, perguntei o porquê. Por que desenvolveram essa teoria? Então busquei a resposta para essa pergunta, e, por um instante, pensei como alguém que nela acredita. Não há nenhum absurdo, nenhuma falácia e, até onde meus conhecimentos de leigo permitem identificar, nenhum erro científico.

Convenhamos que, é possível julgar que os criadores desse mundo tenham nos criado a sua, se não imagem, semelhança. Ou seja, temos os mesmos hábitos e visão de vida, porém em um ambiente tecnologicamente atrasado. Vivemos inventando fugas artificiais para nossa vida, desde a descoberta do entretenimento. Hoje existem os videogames e computadores, que agora penso que podem ser primitivos criadores de universos. Antes deles, tínhamos o ópio, o haxixe, a cocaína, a maconha, o LSD, o álcool, muitos deles ainda nos acompanham, mesmo depois de séculos da descoberta de seu efeito recreativo. Nada impediria nossos criadores de estarem na mesma situação. De, depois de atingirem o tédio máximo em sua própria existência, terem criado esse simulador extremo, que não só cria uma vida, mas todo um universo.

Ainda assim, que grande vazio essa descoberta traria. Somos fugitivos, fugindo de nossa fuga. A realidade virtual se tornou tão tediosa quanto à realidade que desconhecemos. Mas por que a desconhecemos? Por que teriam os criadores de nossa simulação – que somos nós mesmos – decidido apagar a memória do “jogador”? Qual a diferença do universo simulado, para o universo divino? Não se enganem, não estou me convertendo, e sim comparando a teoria de deus, com a teoria do universo artificial. Porém não acho que posso continuar essa análise de forma imparcial, pois – e sinto uma dor imensa ao escrever isso, mas é a verdade – sou um religioso do humanismo – esse texto acaba de se tornar uma confissão. A ideia de que a humanidade é um jogo de alguma civilização avançada me revolta profundamente, mesmo sabendo que faço parte dessa civilização e sou, portanto, um jogador – revolto-me contra mim mesmo!

Nada foi provado com relação a essa teoria, contudo, admito meu medo. A ideia do “nada”, do esquecimento, me apavorava a infância. Por isso me rendi a deus nesses anos. Se não o tivesse feito, talvez não tivesse sobrevivido. Hoje entendo o suficiente para não temer o vazio absoluto, não o compreendo ou sequer gosto dele, mas o aceito.  Agora não acho que conseguirei aceitar que sou criatura de um fugitivo entediado, que entediado com sua fuga, tenta fugir de novo. Além do mais, o que criou os jogadores? Será que morrem conosco, ou mesmo morrem? Seriam eles, filhos do nada, como nós pensamos ser? Será que eles – o “nós” real - já descobriram todos os mistérios do universo verdadeiro – se é que este é verdadeiro e não somente outra de camadas infinitas de simulação – e por isso desenvolveram esse jogo? Quando morremos, o jogo acaba, ou o jogador morre? E o tempo? E a idade do jogador? E a vida real? Por que não posso parar, se é isso que mais desejo agora? Seria a morte a saída, mas, já que nos esquecemos, temos medo de testar? Que grande maldição nós inventamos!

As dúvidas são muitas, e as respostas ainda mais aterradoras, contudo prefiro saber a verdade. Aceito as descobertas da ciência, até porque aceitar ou não, não muda os fatos. Só me impressiono ao pensar em como sabemos pouco, e, quanto mais descobrimos, mais dúvidas aparecem.

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