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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Micro conto III - Perturbado


Eles caminhavam em direção a casa dela passando pelo beco escuro. Já era madrugada e a cidade dormia, estando lá apenas os dois e a luz da lua. Ele sentia-se triste e humilhado. Eram amigos, nada poderia acontecer entre eles, ela disse, bela desculpa. Mal se conheciam na verdade, vez ou outra ele lhe fazia favores e tentava agrada-la, mas deveria saber que ela não estaria interessada. Nunca demonstrou estar. Ainda assim o insistente decidiu convidá-la ao restaurante mais caro da cidade. Não podia pagar, mas queria dar uma boa impressão, portanto amarrou uma corda em seu próprio pescoço pelos próximos cinco ou seis meses. Tudo isso pra nada.

O ambiente também não ajudava os ânimos. Mal era possível enxergar qualquer coisa naquele beco, só se ouvia os ruídos e passos dos ratos que ali habitavam e muito se incomodavam com a invasão daqueles dois gigantes em seu território. Já era muito os gatos que os aterrorizavam madrugada adentro com sua fala aguda e indiferente. Como ele queria deixa-la para sua própria sorte, não lhe queria mesmo, por que viria a querer-lhe ali? Mas se sentiria culpado, imaginava os males que lhe poderiam ocorrer se ela fosse abandonada nas trevas daquele lugar sem companhia. Não que ele fosse proteção, mas era esforçado, embora tremesse por dentro ao imaginar que qualquer coisa terrível poderia ocorrer.

O pior de tudo era o silêncio, era possível sentir a tristeza de sua amiga. Ela queria poder corresponder, mas não sentia o mesmo por ele e não lhe queria enganar. Fez o melhor possível para anestesiar antes de fazer o corte. Contudo, pela expressão em seu rosto, viu que não foi o suficiente. A decepção e a tristeza lhe escorriam pelo rosto, quase engolido pela escuridão. Queria confortar seu amigo, mas temia por sua reação, então mantinha o silêncio desconfortável. Desconforto - era isso que ambos sentiam, naquela situação privada dos sentidos. Desconforto e medo. Era uma pena que aquele beco não fosse evitável. Ele não acreditava que ela passava por aquele lugar todas as noites sem nenhum problema, é verdade que nunca tão tarde, mas ainda assim era aterrador. Viviam em uma cidade e numa época violenta, era necessário tomar cuidado a todo instante, até durante a luz do dia.

Foi quando das sombras surgiu um homem encapuzado e armado, que lhes encostou à parede do prédio que dava formato a um dos lados do beco. Apontando a arma na direção do rapaz, gritou:

- Passa carteira, dinheiro, celular, tudo! Rápido!

- Eu não tenho nada senhor. Tenho aqui meu celular, – ele disse, retirando-o cuidadosamente do bolso – mas é só.

- E você vadia? Dinheiro, celular, rápido! – ele disse trocando de alvo.

- Também não tenho nada, por favor, só esse celular e essa bolsa, mas nenhum centavo. – ela disse contendo o choro e o nervosismo.

- Isso pode ser brincadeira! O casal não tem grana! Agora como eu que eu vou me divertir? Me diz? – ele falava, passando a mão na cintura da garota. – Te incomoda se eu foder tua namorada?

- Ela não é minha namorada. – ele respondeu, contendo a raiva.

- Não é? Não me diz que tu é viado? Só pode ser, pra andar com uma gostosa dessas e não fazer nada! Então eu vou fazer diferente. Vou te ensinar a ser homem. Tira a roupa dela! – ele volta a apontar a arma em direção ao rapaz.

- Como?

- Tira a roupa dela caralho!

- Não posso. – ele começa a gaguejar.

- Se tu não fizer eu atiro em você e a estupro na tua frente enquanto você morre. Que tal?

Então ele se aproximou dela e com as mãos trêmulas começou a despi-la. Ela chorava, mas lhe ajudava, não querendo ver seu amigo morto. Enquanto isso o ladrão gritava ameaças e ofensas, para que eles fossem mais rápidos. Terminando ele ordenou que ela deitasse no chão e que seu amigo a estuprasse, enquanto ele assistia. Sempre lhes apontando a arma e variando o alvo.

O garoto se ajoelhou em frente a sua amiga e amada. Abaixou as calças e começou devagar e cuidadosamente a penetrá-la com seu membro vergonhosamente rijo, enquanto lhe pedia perdão e implorava as lágrimas que ela entendesse a gravidade da situação. Ela simplesmente aceitava, como uma santa em direção ao martírio. Como se essa fosse uma punição por quaisquer pecados que ela tenha cometido. Ao sons dos gritos do ladrão, que diziam:

- Mete com vontade, viadinho do caralho! Se não for, meto eu! – encostando o cano de seu revólver na cabeça do garoto.

Então ele contemplou a situação. Não tinha saída. Com certeza terminado o estupro obrigatório ele os mataria de qualquer forma. Já não importava mais, mesmo que ele se desse por satisfeito ao fim daquela cena e não os matasse, a memória os mataria. Com esse pensamento, desencadeou toda uma inédita bravura de sua alma, agarrou o cano da arma, segurando-o firmemente em direção a sua própria cabeça e exclamando heroicamente:

- É isso que você quer? Atire!

- Enlouqueceu? Eu atiro mesmo moleque! – o ladrão furiosamente se defendia.

- Então atira! – ele gritou, ecoando pelo beco escuro, enquanto os ratos corriam em pavor.

O ladrão hesitou por um segundo, tempo suficiente para que o garoto, e seu recém-florescido instinto de sobrevivência o desarmasse desajeitadamente e o golpeasse a lateral da cabeça, derrubando-o. Então, raivosamente ele inseriu o revólver na boca do bandido como um falo da vingança e impetuosamente puxou o gatilho. Em um milésimo de segundo, ele viu o rosto apavorado do encapuzado e viu que era o seu próprio. Até que o ferro, o fogo e o ardor lhe trouxe o fim e espalhou pelo chão sua distorcida consciência.

A pobre garota sentava no beco, assistindo aquele espetáculo do horror, que terminou, quando a água da natureza começou a lavar as ruas, seu corpo e sua mente.

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