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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Tal do Bullying


Visitei meus pais, que estão passando uma temporada na antiga casa de minha falecida avó, este fim de semana, em São Francisco do Sul. Fazia anos que não ia àquela casa, visitara minha avó algumas vezes antes de sua morte, mas passaram-se muitos anos desde a última vez que fiquei por mais do que algumas horas lá.

Visitar um lugar que, de uma forma ou de outra, marcou sua infância, torna coisas simples, como dormir em uma cama ou sentar em um sofá, uma experiência nostálgica fantástica. Todas as memórias invadem sua mente, o ranger do piso de madeira, o medo, que o tremor causado por seus passos na casa gera. Os pequenos enfeites - alguns quebrados pelos anos -, a foto perdida da infância, como um espelho surrealista. Os móveis antigos, como a cadeira de balanço na qual você costumava passar horas imaginando só uma criança sabe o que, o tão adorado relógio cuco, que agora, depois de mais de uma década, você revê e entende, a coleção de livros, que antes era um mistério, mas agora clássicos que você conhece muito bem. Cada detalhe, cada passo é uma memória, um convite para o passado.

Saindo de lá - não me considero um nostálgico, na verdade acho que a nostalgia e exagerada em minha geração e perdeu seu charme, mas - repensei minha infância. Quem eu era nesses anos de inocência e quem eu me tornei quando esta teve seu fim inevitável e desejado. Cada situação que me vinha em mente gerava apenas uma reação de minha parte: - “Como fui esquisito!”. Não digo esquisito como insulto, até me orgulho de minha esquisitice – que não posso dizer que me abandonou -, gosto dela e a mantenho como um animal de estimação. Mas na infância, o diferente é assustador e causa reações negativas e até mesmo violentas nos outros, que, por sua vez, também são diferentes, mas a diferença deles é mais presente na sociedade, formando, portanto, o normal. A criança forma seus relacionamentos por gosto. Uma música, um desenho, uma brincadeira é capaz de gerar amigos eternos – até o fim da infância, quando este é esquecido, levando consigo a música, o desenho e a brincadeira.
Meu despertar musical foi tardio. Passei a me interessar e buscar a música somente após os catorze anos. Antes disso, minhas únicas memórias musicais envolvem uma velha coleção de CDs que meus pais esqueceram em meu quarto e eu, com o instinto de caça apurado dos quatro anos de idade, encontrei e ouvi à exaustão. Como amei e amo até hoje aquela música. Beethoven, Mozart, Debussy, Bach, Vivaldi, eram tudo o que eu conhecia, outras músicas me irritavam profundamente. Não tinha a mesma beleza, sutileza e profundidade que as daqueles CDs, que guardo até hoje, embora duvide que ainda funcionem. Portanto as outras crianças me ridicularizavam, como se não escutar o “seja lá o que for” que eles escutavam fosse alguma heresia. Sentia-me de certo modo um pecador, talvez porque, em minha infância, também acreditasse em pecado. Eram aquelas velhas ofensas, “viado”, “bichinha”, que eu nunca consegui relacionar com a música. Não posso dizer que fui atingido por isso, tinha o orgulho infantil ferido, mas só. Não retrucava, pois a timidez em mim também era abundante, então me faltava a eloquência verbal. Só aceitava. Nunca passou disso, os insultos eram apenas verbais, havia a ameaça da violência física, mas essa promessa não foi cumprida.
Um dia, como tudo nessa vida e até a vida em si, acabou. Não faziam mais piadas sobre a música que tanto me agradava, uns até passaram a ouvi-la também. Tinha chegado à famigerada pré-adolescência e o gosto de poucos estava mais apurado, poucos, porém o bastante para não estar mais sozinho. Chegou a minha hora. Admito, pratiquei bullying. Com pessoas que considerava ter mau gosto, pessoas que considerava serem menos capazes intelectualmente, os diferentes, e estes, por sua vez, não pararam de me perseguir. Tornou-se uma perseguição mútua e igual, que, ao terminar a infância, tornaram-se apenas memórias agradáveis de uma infantilidade incoerente. Na juventude, o dito bullying – que não tinha nome no meu tempo -, ainda estava presente, mas era apenas em forma de piada. Tirávamos sarro um do outro, pois todos erámos defeituosos, somente pensando no humor que isso trazia. Tinha o gordo, o burro, o vesgo, o crente, o falador, o afeminado, cada um tinha um problema e estes eram explorados igualmente e sem piedade. Não havia limites, nada era sagrado – perdi também, nessa época, o medo do pecado e até cometi vários, cometo até hoje sem arrependimento – e nessa falta de respeito generalizada, morava o verdadeiro respeito.

Não estou sendo inocente aqui e insinuando que crianças não sabem o que falam. Sabem muito bem, humilham e ofendem intencionalmente, mas isso passa. Não vemos assassinos e psicopatas nos noticiários por causa do tal bullying e sim porque esses viveram na bolha da perfeição. Não lhes foi dito que tinham defeitos, mentiram para ele dizendo que ele era perfeito e poderia se tornar o que quiser nessa vida. Mais cruel que uma criança é a realidade, e essa não acaba. Com toda a propaganda anti-bullying, que estupra nossos ouvidos diariamente e serve apenas para reforçar a bolha, um dia teremos uma nação de egomaníacos psicopatas que, simplesmente, não saberão aceitar o fato de que não são perfeitos. Não tiveram que lidar com insultos e humilhações na infância, ou pior viram o que humilhava ser punido, então quando isso acontecer na idade adulta e o “bully” não sofrer consequência alguma, este poderá não suportar a pressão.

A sociedade perdeu o controle do que deve ou não acontecer com uma criança. Esqueceram que elas não aprenderam sobre a crueldade do mundo sozinhas, mas sim viram acontecer com elas ainda muito cedo. Esqueceram a importância dessa dor para a formação do caráter e - não contentes - decidiram privar todas as crianças dessa dor. Isso terá graves consequências e eu não quero estar presente para ver a bomba emocional explodir. Não digam que eu não avisei.

Um comentário:

  1. Raphael!
    que legal que apareceu lá no blog; sim, esses sulistas são uns eternos desconhecidos, me sinto um ET. kkkk
    o famosão mesmo, Faulkner, não me encanta... vou criar coragem e vender todos os livros que tenho dele pela Estante Virtual viu...

    inté mais!

    Enzo

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