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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Micro conto V - Fragmento de uma madrugada até o amanhecer


“Não importa o quanto eu tente, eu não consigo ir pra cama antes da meia noite. Toda manhã eu prometo a mim mesmo que vou dormir mais cedo, e toda noite eu quebro a promessa. Nunca por um motivo válido, ou me perco em uma leitura ou decido ver um filme ou tenho uma ideia para escrever qualquer coisa que não pode esperar o dia seguinte. Por que essas ideias não me atacam às seis da tarde? Agora são quinze pra uma e tenho que me levantar as sete. O que farei para aquele conto seguir em frente? Será que deveria desistir? Tem horas que começo com uma história que parece genial e tem todos os seus caminhos planejados, mas ao passa-la para o papel, simplesmente não é a mesma coisa. Ou pior, sei o começo e o fim, mas o meio não existe. Isso porque nunca escrevi uma história com mais de vinte páginas. Como posso sonhar em escrever um romance? Ler só me desencoraja. Ler meu próprio trabalho, então. Entendo porque Kafka queria queimar suas obras. Como é que Hemingway tinha tanta confiança? Só pode ser o horário mesmo, aqui estou me comparando a Kafka e Hemingway, é melhor dormir antes que amanheça. Acho que o chefe viaja amanhã, talvez, então, possa escrever alguma coisa no escritório. Talvez até sobre o escritório...”

Ele se vê em uma rua comercial de sua cidade. As lojas parecem todas iguais, na verdade nunca prestou atenção naquelas lojas, não saberia diferenciar uma da outra. Mas prestava atenção nas pessoas. Via aquele pobre mendigo, sentado no chão com sua caixa, onde guardava suas esmolas, gritando incoerências às mulheres que passavam em sua frente. Ele deveria ter alguma deficiência, nunca o viu de pé antes, seus pés eram tortos e sujos. Ninguém nunca o ajudava, não sabia como ele ainda estava vivo. Nunca antes tinha visto tantas pessoas naquela rua. Todos se esbarravam e andavam com pressa, via um ou dois rostos conhecidos na multidão, mas ninguém o via. Lá estava ela, estudaram juntos quando crianças. Ela que despertara seus desejos e sentimentos afetuosos, com seus olhos azuis e cabelos louros, que anos mais tarde foram tingidos de ruivo. Sempre muito bonitos, assim como ela era linda. Seria sua oportunidade de fazer o que não teve a chance em sua juventude e falar com ela. Não sabia que ela tinha se mudado para aquela cidade. Se ao menos ele pudesse se desprender da multidão que agora decidiu cerca-lo. Era inútil, ela não mais estava lá, e o relógio da rua, sinalizava que ele estava atrasado para o trabalho. Até que abriu os olhos assustado.

“Que horas são?” Ele olhava para seu pulso, não encontrando seu relógio. “Onde está a porra do relógio? Bom, pelo menos ainda está escuro lá fora, exceto pelas luzes da rua. Tenho que me lembrar de fechar as persianas e dormir de relógio.” Se retorcia na cama, tentando ver seu despertador, que ficava em um móvel na direção de seus pés. “Três da manhã. Ainda tenho tempo para descansar. Por que fui me lembrar da Beatriz? Ela ainda mora em Santos, se bem me lembro. Não teria porque vir pra cá. Tenho que recomeçar aquele conto sobre destino que eu abandonei semana passada. A ideia é boa, mas eu estou abordando da forma errada. Vou esquecer as profecias e seitas religiosas e simplesmente abraçar o conceito do absurdo.”

Ele acordou como todos os dias. Quinze para as sete da manhã. Com seu despertador que dizia:

Bom dia. Vá ao trabalho como sempre, seguindo o caminho de costume. Nada de novo vai acontecer nessa caminhada, não encontrará ninguém com quem deveria conversar ou iniciar qualquer interação. Encontrará no elevador do prédio em que trabalha, uma mulher muito atraente de acordo com seus gostos. Ela não é a mulher da sua vida e se tentar cortejá-la, não terá sucesso. Trabalhe no seu ritmo de costume, não haverá nenhuma emergência hoje. Sua jornada de trabalho será comum, sem chamadas do chefe ou hora extra. Nada acontecerá se você for ao bar ou ao cinema, então sugerimos que vá diretamente para casa, evitando, então um assalto as 22:00 no centro da cidade. Não há nenhuma outra informação sobre o seu dia que seja relevante.

Que merda de dia seria aquele. Mas era inevitável, algumas pessoas simplesmente não são destinadas a uma vida excitante.

“Esse é um bom começo, descreve bem a ideia. Posso desenvolver o personagem aos poucos, como em um diário ou coisa assim. A vida de um homem comum, se ele pudesse saber exatamente como seria o seu dia, antes de acontecer. Puta merda, agora são quatro da manhã, dormi só umas duas horas, e me faltam só três até amanhecer. Tinha ideia de acordar uma hora mais cedo para continuar a leitura que estava fazendo ontem, mas não vai ser possível. Se faço isso, amanhã estarei morto no trabalho. Tenho que me lembrar também de fazer uma poesia sobre a Beatriz, sobre os amores infantis e primários. Preciso de um bloco de notas perto da cama para anotar essas coisas. Não. Aí que eu não durmo mais, ficarei anotando cada pensamento da noite. Só vou me esforçar para não esquecer mesmo.”

Lembro dos seus olhos
da primeira vez que os vi
que sentimento novo
mágico
o que era aquilo que me acontecia?
por que ao fechar os olhos via sua face?
imaginava sua pele macia
seus cabelos
eram louros mas
ruivos ficaram mais bonitos
combinava com sua intensidade
que só percebi anos mais tarde
tudo que tenho de você são memórias
memórias do que não vivi


- Rafa. – ela chamava sua atenção, com os olhos cheios de lágrimas e um coração partido. – O que eu faço agora?
- Eu não sei se tenho algo a fazer. Você já achou que tinha sido traída antes Nuna.
- Eu sei, mas ele desmentiu, dizendo que era impossível.
- Bom, ele admitisse ter te traído assim tão fácil, aí eu me impressionava.
- Por que eu não termino com ele?
- Eu me pergunto isso todos os dias.

Ele a confortava, na sala de aula da faculdade, onde a conhecerá. Naquele mesmo lugar, revivendo pela terceira ou quarta vez aquele acontecimento. Com a mão em seu ombro, tentava de qualquer forma diminuir a dor de sua amiga e amada, enquanto via as lágrimas escorrerem por seu lindo rosto, seu olhos ficavam ainda mais lindos quando tristes. Ninguém na sala parecia se importar ou os ver. Isso era bom, não queriam chamar muita atenção. Sofria, pois mesmo sentindo que talvez agora fosse sua chance de amá-la, sabia que no dia seguinte eles teriam resolvido seus problemas e todo aquele momento se apagaria.

Ele acorda novamente, com o som desesperado e contínuo do seu despertador. Não pensava mais, só observava o lado vazio de sua cama em mais uma noite. Seu computador aberto em um texto inacabado e mais um dia sem sentido a sua frente. Pela janela via apenas a neblina. Não queria pensar, não queria escrever, não queria sair e não sabia mais chorar. Queria apenas que a noite fosse eterna e que seu sonho fosse vigília.

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