Páginas

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Micro conto IV - Fragmento de um momento da vida

Eu realmente preciso arranjar outro emprego, não tem condições. Todos os dias a mesma coisa. Não ligo pra rotina, nesse setor não tem escapatória, mas não ter exatamente nada pra fazer durante todo o expediente é insuportável. Nos primeiros meses até aparecia serviço. Tinha em torno de 60 embarques para preparar documentação – isso por dia, o que é muito. Era uma loucura, mas depois que o inverno atingiu a Rússia e os portos pararam de trabalhar, devido ao congelamento, não tem mais nada. Se pudesse usar o computador pra entretenimento já seria alguma coisa, mas é tudo bloqueado automaticamente pelo sistema. Sistema esse que mal pode se dizer que funciona. Ele só bloqueia qualquer coisa que não é normalmente usada, mas não sabe identificar se é pra uso profissional ou não. Ontem mesmo fiquei sem saber a situação de embarque de um dos navios pelos quais sou responsável, porque o sábio sistema bloqueou o site do armador. Pior ainda é o técnico de informática. Tenho certeza que o cretino faz questão de criar um problema novo, sempre que resolve outro, assim mantém seu emprego. Foi só ele consertar o site bloqueado, que meu e-mail parou de funcionar. É a única explicação.

Se bem que é melhor eu nem começar a listar problemas ou peço demissão agora. Não ter nada pra fazer não é nada comparado a ter que trabalhar no sábado. Lembrando que essa semana é minha vez, que inferno vai ser esse dia. É só meio período, mas parece mais longo do que o dia inteiro. O chefe está passando agora. Ele passa a cada meia hora para lançar um olhar intimidador aos seus subordinados. Acho que está implicando comigo, pois estou visivelmente desocupado, mas o que posso fazer? Já refiz o mesmo único documento do mês umas treze vezes. O que será de mim quando o navio carregar e eu não tiver mais essa singela pasta em minha mesa? Pelo menos ele não fala nada, só passa com aquele olhar satânico. Não entendeu o motivo de fazer algo assim, outro dia entrei na cozinha para pegar um copo d’água e lá estava ele sentado e encarando cada um que entrava lá. Só lhe faltava um cronômetro para poder descontar aqueles momentos de relaxamento do salário de cada um – como se esse salário de merda fosse um presente de deus. Até suporto o olhar bizarro e a loucura, o que realmente me irrita são os leves toques que ele dá no vidro do cubículo do departamento em que trabalho, como uma criança pentelha no aquário, e nós os peixes tementes à figura maior.

Nem me fale dos peixes. Normalmente pessoas bem agradáveis, porém tem dias que as duas têm um acesso ultra religioso e decidem que devem converter uma a religião da outra. Juliane e Diana eram os nomes das minhas companheiras de cela, respectivamente católica e evangélica. Ao descobrirem acidentalmente que eu sou ateu, tentaram me converter por em torno de uma hora, até que passaram a apontar defeitos uma da religião da outra, até que desistiram de mim e focaram-se nelas mesmas. Esse é um dos motivos pelos quais eu mantenho minha descrença. Normalmente, nos damos razoavelmente bem. Compartilhamos problemas, contamos histórias, piadas, pesquisamos outras oportunidades de emprego, coisas assim. Nem tudo é negativo nesse lugar, mas ainda assim preciso sair. Tenho até duas entrevistas de emprego agendadas para essa semana.

Tem uma coisa que gostaria de fazer antes de sair, no entanto. Posso ver pelo reflexo de um da porta de vidro na entrada da empresa que ela está indo a cozinha tomar um café. Já conversamos algumas vezes nessa situação. Ela é bem bonita, nada de espetacular ou apaixonante, mas eu sou muito menos. Vou até lá, beber um copo d’água, nunca gostei de café, não sinto desejo por mais energia, o mínimo que tenho já me basta. Trocaremos uma ideia e eu a convido para um filme, acho que tem um bom estreando essa semana. Só espero que não aconteça o mesmo que dá última vez, quando a esposa do chefe, que estranhamente compartilha o olhar abismal de seu marido, adentrou o ambiente e nos encarou até corrermos por nossas vidas. Fui até a cozinha, pelo menos dessa vez está vazia, exceto por ela. Enchi meu copo e perguntei:

- Muito ocupada hoje?
- Nem um pouco. Acho que preparei um conhecimento de embarque o dia todo.
-Preparou sim. Eu corrigi. Já te devolvo, estou enrolando um pouco para parecer ocupado por mais algumas horas.
- Sem problema, estava com ele desde ontem, mesmo. – ela respondeu dando leves risadas.
- Conseguiu ver alguma coisa sobre bolsas na faculdade?
- Não, ainda não. Na verdade estou terminando de pagar minha operação.
- Operação? Você tá bem? – perguntei.
- Estou. Foi estética, prótese.
- Ah, sim. – podia jurar que eram naturais, bom trabalho, pensei – Então, estava pensando, que tal sairmos este sábado para ver um filme ou coisa assim?
- Este sábado eu não posso. Na verdade, ando sempre muito ocupada durante os fins de semana. Desculpa.
- Sem problema. Se mudar de ideia é só avisar.
- Ok. – ela disse, terminando seu café e saindo.

Assim termina minha lista de afazeres nessa empresa. Posso sair com a consciência tranquila, não tenho mais nada pra fazer aqui.

Os dias passaram como um essa semana. Por algum motivo Natália não me olha mais no rosto ou me dirige palavras. Costumava pelo menos me agradecer quando lhe entregava a documentação devidamente corrigida. Talvez a tenha ofendido com meu convite, não sei bem como, mas pouco importa. Essa é minha última semana aqui mesmo. Talvez nem exista nenhum problema e eu só esteja ficando paranoico mesmo. É sábado de manhã, simplesmente não estou interessado em divagar sobre essa questão, a ressaca me impede. Não deveria ter bebido ontem a noite, mas queria assistir “2001: Uma Odisseia no Espaço”, e descobri que o uísque melhora muito a experiência, que já é puramente maravilhosa. Poderia ter bebido menos de qualquer forma, acho até que insultei o vizinho por fazer barulho demais com o cachorro a uma da manhã, ou melhor dizendo, a bebida insultou o vizinho, merecidamente. Aquilo lá era hora de brincar com o cachorro com um copo de plástico ainda por cima?
Diana e Juliane estão aqui hoje também. As avisei da minha saída e elas me parabenizaram bastante, me pedindo que as indicasse se ouvisse de alguma vaga na nova empresa. Então passamos as outras duas horas do expediente conversando, já que os chefes não apareceram, afinal, quem, por livre e espontânea vontade, trabalha aos sábados?

- Então, como vai a vida? – perguntou-me Diana.
- Agora que eu vou sair desse aquário, ótima. – respondi.
- Sorte a sua, nós continuaremos fodidas. – disse Juliane.
- Mas vocês não tem nenhuma fofoca, não? Me distraiam com alguma coisa! – perguntou novamente Diana, agoniada.
- Eu convidei a Natália pra sair essa semana.
- E não falou nada pra nós, vagabundo! – disse Diana em cômica indignação – Primeiro abandona a gente sem nem avisar, agora sai por aí pegando geral e não fala pra ninguém.
- Convidando, pegar é outra história. Ela disse que estava ocupada nos fins de semana, o que é uma forma polida de dizer que não quer.
- Ah. – ela disse decepcionada.
- Ela tem namorado, eu acho. É complicado, na verdade, ela sai com ele, e o chama de namorado, mas ele não a leva muito a sério. – completou Juliane.
- Luiz, tu só vai atrás das comprometidas, já reparou. Primeiro aquela tal de Nuna, que costuma almoçar com você, agora ela. Tem um padrão aqui. – observou Diana, como uma psicóloga.
- Tem razão. E elas não são as primeiras. – eu admiti – Não sei por quê. É inconsciente, nem sabia do namorado da Natália, ela poderia ter me dito, seria bem mais agradável do que “ocupada para o resto da vida”.
- Acontece. Agora você vai sair daqui, ganhar dinheiro e arranjar alguém. – disse Diana.
- Tá bom. – respondi.

E assim o dia terminou, sendo logo seguido pela semana. Nunca mais voltei naquele lugar, nem sinto falta.

_____________________________
Esses últimos micro contos não tem nenhuma pretensão de ser mais do que um exercício. Queria praticar fluxo de consciência, porque li James Joyce e tô bem louco.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

caixa do afeto e da hostilidade