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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Palestra.


Como ele odiava aqueles dias. Trabalhava das oito da manhã às seis da tarde e ainda tinha que ir à faculdade. Pelo menos aquele era seu último semestre, precisava apenas entregar a monografia em outubro e estava terminado, sendo aceita - pouco lhe importava o resto. Apresentações nunca lhe foram uma dificuldade, conhecia seu tema e não tinha dificuldade em falar em público. O problema seria entregar a tempo. Mal podia esperar pelos dias em que finalmente teria as noites livres para trabalhar em sua escrita.

Essa noite, especificamente, era de palestra, e uma palestra especial em comemoração aos dezoito anos de uma empresa pertencente à faculdade, que tinha por objetivo auxiliar os alunos com experiência profissional. Foi lá que começara. Dez meses de trabalho voluntário. Era simples, mas a falta do dinheiro era angustiante, pior ainda era a quantidade de rejeições que recebera em entrevistas de emprego naquela época. Mantinha registro, mas depois do quinto mês de insucesso, perdera a conta. Tinha por aquela empresa um sentimento de nostalgia, coberto por memórias desagradáveis que ele buscava ignorar, pois não levavam a nada. Sentia que aquele tempo em que trabalhara para eles fora uma perda de tempo. Poderia facilmente ter buscado uma dessas empresas que pagam mal, mas contratam qualquer um. Passado um tempo de experiência, poderia procurar uma empresa melhor. Seu destino seria o mesmo, mas teria sido pago durante todo o percurso. O problema não era só o trabalho voluntário, lembrava ao chegar ao teatro da faculdade, todos aqueles estagiários vestidos formalmente, os homens de terno e gravata, as mulheres de camisa social e saia, maquiadas como se estivessem em um evento de gala; lembrou-se do dia em que estava naquela situação e sentia, mais do que nunca, que tudo havia piorado naquela empresa. Se antes já lhe existia a impressão de que, talvez, o objetivo daquele lugar não fosse auxiliar os alunos, mas sim massagear o ego da reitoria, naquela noite se tornara óbvio.

Viu, entre os ternos e as saias, um rosto conhecido. Não era exatamente um amigo, mas conversaram algumas vezes nesses últimos três anos de estudo. Não fazia ideia de que ele trabalhasse lá. Parecia mais inteligente que isso. Seu conhecido, cujo nome, por mais que ele se esforçasse, não conseguia se lembrar – começava com “J”, talvez. João com certeza não era, era um pouco mais longo. -, ao vê-lo entrando no teatro, o recebeu e entregou um panfleto sobre a empresa.

- E aí, Rafael, como vai a vida?

“Merda! Ele lembra meu nome, agora vai pegar mal se eu perguntar. Vou fingir que sei e simplesmente dar um jeito de seguir com essa conversa sem falar nenhum nome.” - ele pensou.

- Vão bem, na medida do possível. Tá trabalhando aqui agora?
- Pois é cara. Pra ver se eu aprendo alguma coisa sobre comércio exterior.
- Eu sei, já passei por isso.
- Ah, então é por isso que eu vi seu nome na lista de homenagens aos antigos colaboradores. – interrompeu lembrando Rafael de que ele sabia seu nome, enquanto ele esquecera o dele.
- Pois é.
- Já fez a inscrição para a palestra?
- Já, pela internet.
- Tá certo, então. Pode entrar.
- Ok, boa sorte.

Seu conhecido agradeceu rindo, e Rafael adentrou o teatro. Reparou nas pessoas da recepção. Novos funcionários, nenhum colega de trabalho se mantivera por lá, alguns já haviam até se formado. Era toda uma nova geração de estudantes cometendo os mesmos erros, fazendo as mesmas coisas. O retrato mental que fizera daquela recepção era como uma volta ao passado, mas com pessoas totalmente novas e desconhecidas. Imaginava que cada um deles teria uma personalidade representante a um integrante do passado, fazendo, deste modo, a história se repetir de forma exata. Tinha curiosidade por conhecer aquelas pessoas, pensou até em fazer uma visita à empresa, rever os professores, sua orientadora trabalhava lá, então tinha uma justificativa. Queria apenas ver aquele velho ambiente cheio de pessoas novas. Contudo descartou rapidamente a ideia, era apenas o passado se romantizando em sua mente. Na realidade, aquilo não fazia sentido algum, seria apenas uma perda de tempo. Então perdeu por completo a vontade de conhecer aquelas pessoas, não poderia lhes sugerir que saíssem de lá na frente dos professores de qualquer forma. Seria triste, como assistir uma série de homens condenados injustamente serem levados às suas celas e, mesmo sabendo de sua inocência e com as chaves na mão, não poder abrir as portas. Viu também, próxima a porta, uma moça muito bonita, embora tivesse exagerado na maquiagem, no entanto tinha que entrar logo e sentar-se, não podia perder tempo ou fechariam a porta – hábito de chegar no último minuto sempre.

Era começo de semestre, a faculdade estava cheia e movimentada como um formigueiro desorganizado no verão. Todos se esbarravam andando em direções opostas, sempre com muita pressa. No teatro não era diferente. Ainda ia levar uns cinco minutos para a palestra começar, mas o ambiente já estava cheio. Procurou uma fileira mais vazia e sentou-se junto ao corredor. Sempre se sentava em locais de saída fácil, sempre fora paranoico quanto a emergências ou acidentes. Se houvesse um incêndio naquela hora, não seria ele que morreria carbonizado entre os escombros. Já sabia, também, onde estava a saída de incêndio e tentou de algum modo conciliar as distâncias, mas sempre com fácil acesso ao corredor. Levara consigo um livro, depois de tantos anos de palestras, já sabia com exatidão o que iria acontecer. Os funcionários da empresa fariam uma leve abertura, o coordenador do curso faria um discurso meia-boca, o reitor faria outro discurso meia-boca e ainda por cima falso e depois, para cumprir o tempo mínimo necessário, haveria uma “homenagem” aos colaboradores da empresa. Alguns vídeos com os produtos importados e exportados, outros serviços prestados e uma lista com o nome de cada um dos funcionários. Por último viria o palestrante, um homem com mais títulos do que nomes, que faria um discurso improvisado - pois se fosse previamente ensaiado, seria péssimo – de mais ou menos uma hora, sobre liderança, força de vontade e toda essa bobagem que amaldiçoa a atual geração e forma uma população de “egoístas conscientes”. Pessoas que são tão ruins quanto todas as outras, mas foram levadas a acreditar que seu egoísmo e ambição é algo positivo e, de alguma forma, ajuda o mundo. O livro que levara era “O Velho e o Mar”, sempre admirou Ernest Hemingway, poder-se-ia dizer que queria ser tão bom quanto ele um dia, era uma espécie de herói da vida adulta, o ídolo que, na infância ele nunca teve. Já havia lido alguns de seus contos e “O Sol Também se Levanta”, agora queria dedicar-se a ler sua obra completa, mas lhe faltava tempo com todo o trabalho, monografia, faculdade, escritos próprios e outras coisas necessárias para o ser humano. Usava essas palestras e até mesmo algumas aulas, para avançar suas leituras. Nesse dia, lera sessenta páginas.

Começava a palestra, justamente como havia previsto. Uma funcionária costumava se voluntariar para o discurso inicial. Não podia ver bem seu rosto daquela distância, mas já a conhecia de algumas aulas, nunca haviam se falado antes. Estava, claramente, muito nervosa, pois gaguejava com alguma frequência, que aumentava a cada novo tropeço da fala. Ao fim de seu discurso, já era possível ver que tremia. Chamou então, o magnífico, senhor, doutor, coordenador do curso de comércio exterior e diretor do centro de ciências sociais e gestão da universidade, Carlos Ferreira. Que fez o mesmo discurso do ano passado, embora ele não pudesse garantir, pois tinha realmente se prendido a leitura nesse momento. Depois dele veio o magnífico, senhor, doutor, reitor... Já não ouvia ou sequer se interessava pelo que estava sendo dito.

 A ansiosa jovem, que devia estar arrependida de ter se voluntariado para aquela tarefa e, durante os discursos dos magníficos, bebia água como se estivesse no deserto, sentada em uma cadeira de plástico na parte de trás do palco, quase invisível. Voltou e chamou seus companheiros de trabalho para receber uma premiação e tirar a foto oficial do evento. Isso era uma novidade, antes não existia premiação alguma e a foto era tirada após o termino da palestra, quando todos já tinham voltado a suas salas. Eles vieram ritmados, ao som de uma música horrível, que mais parecia ter vindo de um desfile de moda ou de uma construção futurística, como é típico da música eletrônica. Até mesmo os alunos, que em sua maioria, são adeptos desse gênero musical, começaram a reclamar do barulho. Isso não incomodava, contudo, sua leitura. Estava, pela primeira vez em sua vida, interessado em uma pescaria. Era isso que Hemingway fazia com as pessoas, não importa o quanto o leitor fosse contrário a esse estilo de vida, ao lê-lo, tornava-se instantaneamente favorável ao boxe, a pescaria, a caça e até mesmo a touradas. Sua concentração foi interrompida, contudo, pelo som de sapatos de salto alto, batendo contra o piso do teatro. O som era quase inaudível em meio a todo o barulho, mas lhe chamou a atenção. Quando viu o vulto de uma curta saia passar ao seu lado, tudo era silêncio. Fechou seu livro e assistiu passar aquela belíssima figura. Que belas pernas! Era tudo que podia ver, pois ela já havia passado rapidamente. Fitou cada um de seus passos até sua chegada ao palco, pensava que até mesmo o velho Santiago largaria a linha que prendia o espadarte só para ter em seu campo de visão aquele corpo. Quando ela se virou para tirar a foto, era a mesma da porta do teatro. Que bela mulher, nem tinha reparado que já a estava encarando por alguns minutos e quando reparou, continuou a encarar. Não era um desses homens que se virava na rua toda a vez que passava uma mulher, era discreto, lançava leves olhares que já eram o suficiente. Mas ela merecia um retrato pendurado nas paredes de um museu. Quando a foto já havia sido tirada e ela voltava a seu lugar, ele continuou a observá-la atentamente, queria ver seus olhos por um instante, mas não conseguiu um bom momento. Os viu e pareciam bonitos, mas não pode vê-los profundamente, como os olhos merecem ser vistos. Tampouco conseguiu ver ser nome em seu crachá e já sabia que não a veria novamente. Talvez pudesse perguntar sobre ela ao seu amigo que o recebera na entrada do teatro, poderia não levar a lugar algum, mas a força de vontade do velho pescador o inspirará. Aquelas pernas eram seu espadarte e ele não as deixaria escapar. Até porque, fazia mais de 84 dias que não estava próximo de nada nem ao menos parecido.

Tentou esquecer aquilo, pelo menos naquele momento, já que ela não lhe era mais visível, e voltar a sua leitura. O palestrante fez uns agradecimentos e começou a falar. Justamente como ele previra - força de vontade, dedicação e falta de humanidade disfarçada, as chaves para um profissional de sucesso. Irritou-se ao ouvir o magnífico, senhor, doutor, diretor da empresa..., expressar seu orgulho por conduzir entrevistas de emprego aos domingos pela manhã. Somente com o objetivo de testar a dedicação do funcionário à empresa. Ele queria que estes, estivessem prontos para abdicar fins de semana, para deixar o dono da empresa contratante ainda mais rico. Achava importantíssimo que se usasse a tecnologia apenas para o que é útil – nada de facebook ou coisas do gênero, somente o e-mail da empresa, de modo que o escravo estivesse sempre à disposição. Tudo isso disfarçado por discursos falsos de inteligência emocional, e como o funcionário não pode ser apenas racional, pois a empresa pode necessitar de suas emoções também. Já estava acostumado com esse tipo de bobagem, então o ignorou, já tinha motivação o suficiente com o mestre Hemingway, que não fazia uso de títulos oficiais e acadêmicos, levava consigo apenas seu nome, que lhe bastava. O que fez seu sangue ferver foi os erros de português do magnífico doutor. Isso ele não podia ignorar, a cada erro de concordância, Rafael sentia-se mais próximo de um derrame. Era o único momento em que ele se distraia de sua história, quando o magnífico errava.

Tudo passou rápido. Ele encerrou seu discurso e disse que ia dedicar os últimos quinze minutos a responder perguntas. O tempo passou e ninguém disse nada, então se abriram as portas do teatro, e devagar, os desinteressados em sua despedida saíram, assim como Rafael. Na saída, não voltou a ver aquelas pernas sem nome, talvez tivessem voltado a sua sala de aula ou estivessem ainda no teatro. Não importava, só queria voltar para casa e terminar aquele livro.

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